A delegacia estava cheia naquela manhã. Pietro pensara em conter a multidão, mas era medroso demais para fazer isso. Uma enorme – e elegante – moça se sobressaía entre todas as outras pessoas pelo simples fato de ser enorme. Ela tinha um cartaz na mão escrito “Justiça por Abella” e gritava a frase com todas as suas forças. Ninguém ficava aparentemente incomodado, afinal, eles estavam lá para incomodar.

No momento Pietro não podia fazer nada. Paulo não havia chegado e pelo visto, as coisas na academia só andavam com Paulo no comando. Cansado de esperar, Pietro sentou na cadeira do chefe e colocou a mão na testa.

“Eu nunca vou conseguir falar em público desse jeito”, pensou.

Ele só foi capaz de levantar a cabeça quando viu Paulo na porta da delegacia, com uma cara de quem não estava nada satisfeito. Ele entrou, saiu empurrando a multidão na sua frente e chegou em frente a sua sala, que era toda revestida em vidro.

Do lado de fora, ele grita:

– Posso saber – ele apontou para a multidão –, o que é isso?

Pietro levantou cuidadosamente da cadeira. Foi até a porta, abriu, e deu um sorriso amarelo. Paulo retribuiu, ironicamente.

– Eles querem saber do caso da cantora. – disse Pietro.

Paulo bufou.

– Ah, querem saber? Pois bem – ele virou para a multidão, e gritou: – Vocês não vão conseguir qualquer informação! Nós não temos autorização para...

Antes de Paulo conseguir terminar a frase, a mulher alta disparou:

– Isso é manipulação!

E foi seguida por “sins” e cabeças balançando positivamente. Paulo colocou a mão no seu rosto e saiu arrastando.

– Agradeço a preocupação – ele gritou para a multidão. – Mas vocês não conseguiram informação de mim. Perguntem para detetives, fofoqueiros, tabloides, família, menos para nós!

Finalmente a multidão se calou por alguns segundos. A mulher alta voltou a gritar algo novamente, mas Paulo e Pietro não foram capazes de ouvir: voltaram para dentro dos registros policiais. Eles queriam calma.

O caso da cantora havia sido transferido para aquela delegacia, mas caso eles falassem algo – até se havia sido transferido – eles teriam seus empregos jogados no meio da mesma rua na qual vieram. Os noticiários conseguiram saber que o caso estava sendo trabalhado lá, e todos sabiam também. Mas a estúpida Polícia Federal não havia deixado ocorrer nenhuma singela confirmação por parte de qualquer policial.

Paulo havia sentindo uma pontada de medo de Pietro se render e contar alguma coisa para quem sabe, seu irmão, sua namorada fodida, ou quem quer que fosse. Era um perigo. Ele era jovem, estava ativo, precisava fazer algo, contar algo, se gabar de algo. Mas depois que ele viu sua reação a um rapaz com uma câmera amadora na mão, Paulo chegou a conclusão de que nem que pagassem Pietro seria capaz de algo. Além do mais ele não iria gastar seu emprego se preocupando com as fofocas de Pietro. Ele que sofreria as consequências, não Paulo.

Na salinha onde eles estavam, tinha uma máquina de café, presente da mãe de Pietro, que segundo ela, viu na TV que policiais adoravam tomar café enquanto discutiam casos, o que não deixa de ser verdade. Paulo pegou um copinho de café e observou Pietro com o canto do olho.

– Você não falou nada sobre o caso para alguém, falou? – Paulo perguntou, ainda virado de costas, vendo tudo com o canto do olho.

– Não – respondeu. – E mesmo que quisesse, não teria tempo. A última vez que vi alguém da minha família nada disso havia acontecido.

– Tudo bem, então – Paulo tomou um gole do café.

Um silêncio se instalou por alguns segundos.

– Você acha que... A outra... Alguma coisa Falcão... Matou ela? – Pietro perguntou com uma unha na boca.

– Me desculpe?

– Eu queria saber se... você acha que uma matou a outra – ele repetiu. – Como estão dizendo por aí.

Paulo tomou mais um gole.

– Como estão dizendo por aí, puf... – outro gole. – Acho que meu achismo não deve ser baseado em línguas desesperadas por atenção.

Pietro levantou as sobrancelhas. Paulo sabia que Pietro era muito de achar as coisas. Ele opinava muito, debatia muito, mas apenas com quem ele realmente conhecido. Para outras coisas ele era muito tímido.

– Acho... que ainda tem muito a se ver, sabe? – ele levantou a sobrancelha novamente. – Todo mundo tem segredos. Eu tenho segredos. Você tem segredos. Ambas deviam ter também. Mas acusar uma determinada pessoa assim... É louco. Tudo bem que elas eram inimigas, mas... É necessário? Pode ser que a gente descubra um segredo tão forte de uma, que incrimina a outra... Mesmo que seja a morta ou não... Tem tantas possibilidades que... Segurar um cartaz pedindo “justiça” não parece a melhor coisa a se fazer.

Paulo encarou Pietro por alguns segundos. Por dentro daqueles olhos curiosos, mente aquecida, e um rosto bonitinho, ele sabia que Pietro seria um bom policial. Pelo menos tentava acreditar nisso.

– Você se interessou muito pelo caso – disse Paulo.

– Eu tinha que me interessar – respondeu Pietro. – Sou um policial agora. Minha função é se interessar, ou pelo menos tentar, pela vida dos outros.

Paulo pela primeira vez riu naquele dia.

– Bom ponto.