Asas Negras

2 Dois dias antes: Parte I


Notas iniciais
O seguinte capítulo se passa dois dias antes do ocorrido na delegacia.

Uma moça alta, trajando um vestido vermelho forte, estava parada em pé em frente a uma mesa de escritório. Seus dedos batucavam na madeira harmonicamente, expressando sua impaciência; ela estava completamente acabada por dentro de si. Seu pai colocara ela em comando da organização de outro evento que ela considerava, no mínimo, fútil.

Havia anos atrás um museu de arte com peças vivas sendo construído em um terreno perto de sua casa. A família era muito rica, afinal eram sustentados pela atriz mais bem paga do Brasil. Então o pai simplesmente cansado de ver aquilo que mais parecia um recanto de macumba, decidiu comprar o museu para si e tomou as rédeas do projeto. Deixou a família puta, é claro.

Um nome mais original possível veio: Museu de Arte Com Peças Vivas. Ele não tinha muitas opções. O pai dela então passou a levar isso muito a sério e resolveu enfiar a família no meio também. O que deixou todo mundo mais puto ainda.

Agora estava ela lá. Stella Falcão. Pronta para comandar pessoas para dentro de um carro como se fosse uma instrutora de viagens escolares. Por fora ela estava puta. E por dentro também. Ela carregava um anel, de ouro é claro, que havia ganhado um tempo atrás. Ninguém sabia quem realmente havia dado esse anel para ela, e por causa disso, um rumor passou a correr na casa deles. Quem está comendo Stella Falcão?. Graças a empregada, o rumor se espalhou. A mulher não podia sair de casa sem um flash perguntando quem era seu namorado. E de vez em quando aparecia alguém afirmando ser o namorado secreto da irmã da Falcão. Mais mentiras.

Stella não planejava contar para ninguém quem era o verdadeiro namorado, mas sabia que isso exigiria muita disciplina de seu lado – abstinência sexual – e ela tentaria se esforçar o suficiente. E enquanto ela não possuía o namorado perfeito, que se apresentava para a família, nem um pai perfeito que se importava com a família, a única coisa que ela podia fazer era esperar. Em ambas as situações.

Ela parou de batucar a mesa com os dedos apenas quando a porta se abriu. Um homem levemente gordo, bigode cheio e cara redonda entrou no escritório.

– Stella – ele falou, balançando a cabeça como um cumprimento.

– Marco – ela respondeu com o mesmo gesto. – Você não está... um pouco atrasado?

Ela sorriu. Logo em seguida, ele sorriu também. Mas foi um sorriso quase irônico, maníaco. Ela fechou o rosto.

– Não estou nem um pouco atrasado considerando o relógio de seu pai.

– Então o que você está esperando.

– Obviamente, a senhora – ele continuou com o sorriso. O que talvez tenha preocupado Stella.

Ambos saíram do escritório. Quando chegaram na limusine, alguém estava obviamente preocupado. Uma mulher mais alta que Stella, usando um vestido curto e saltos enormes. Aos olhos de Stella, uma mulher sem classe. Ela estava andando em minúsculos círculos, e seus olhos grandes como uma tampa de garrafa não conseguiam se controlar em seus próprios eixos.

– Stella Falcão – a mulher dos olhos grandes disse. Pousou o braço no ombro de Stella e pressionou. – Você sabe quem eu sou, não sabe?

Stella no fundo, sabia. Só era esnobe demais para agir como uma bajuladora e dizer “claro que lembro de você, fofinha!”. Ela era Paola Germano. Irmã de Abella, uma antiga assídua frequentadora da família Falcão, mas que se distanciou quando sua amizade com Gal foi, finalmente, rompida.

Stella pouco falara com ela. Nas vezes que a vira, com um risco de olhar, definia a mulher como quem define que comida parece saborosa ou não sem ao menos provar. É claro que, sempre manteve a educação, mas não tinha culpa de pensamentos tão maldosos. Ou talvez tivesse.

– Acho que me lembro... – Stella mentiu. – Paula? Paola, né?

– Paola. Paola Germano. Fui convidada por seu pai, semana passada – ela disse. – Mas tem um problema. Eu não consigo achar minha irmã. De modo algum.

– Tem algo que eu possa fazer? – Stella só queria rir da cara de Paola.

– Você podia ligar – o olho de Paola encheu de lágrimas. – Ligar para alguém... Seu pai, sua irmã...

Stella não se conteve. Sua risada saiu tão descontrolada, que Paola olhou torto. Todos ao redor pararam para olhar, a risada de uma assassina. De uma psicopata, que mais parecia ter saído de uma série de TV sobre um serial killer. Por fim, ela enxugou gotículas de lágrimas que haviam sido frutos da sua risada.

– Por favor, me dê um tempo – um rastro de riso ainda passava pelo rosto. – Você está cansada de saber que minha irmã odeia a sua irmã.

Paola fechou o rosto. O que antes pareciam lágrimas, agora pareciam simplesmente gotas de água feitas para segurar sua raiva.

– É isso que eu quero saber. – Sua voz engrossou. Seu cabelo até parecia mais ajeitado. – O que a sua irmã fez com a minha irmã?

– Me desculpe? – Stella retrucou.

– É isso mesmo, cadelinha – ela estava com os olhos em fogo. – O que a sua irmã fez? O que a vagabunda da sua irmã fez?

A frase acabou saindo muito alta. Todos os convidados pareciam ter olhos apenas para as duas. Um murmúrio começou. Barulhinhos, cochichos, e os olhos pousados apenas nas duas. Que permaneciam em silêncio. Stella permanecia em silêncio.

– Eu não sei o que aconteceu com a sua irmã – disse Stella. – E o que acontece com a sua irmã, não é problema meu. Não é. Então se você quer ter uma chance de agradar minha família, pagar de boazinha para o meu pai, querer impressioná-lo ou coisa do gênero, entre na porra do carro e cale a porra de sua boca. Ninguém é obrigado a ouvir suas acusações vazias. Ninguém. Faça um favor e entre na droga deste carro. E todos vocês também!

Poderia ter continuado. A discussão poderia ter continuado. Mas não continuou. Não ainda. O fervor nos olhos de Paola diziam apenas que teria volta, que não ficaria por isso mesmo; e os olhos de Stella diziam apenas uma coisa: estou preparada.

Antes que alguém notasse, Marco entrou no carro e digitou rapidamente um número no celular. Colocou ele rapidamente no ouvido e disse:

– Aconteceu.

Poderia ter continuado também. Mas ele desligou o telefone tão rápido quanto ele ligou, e se fez de inocente mais uma vez. Mesmo com aquele sorriso assassino, com aquela sede de sangue que qualquer pessoa que desse um fim em outra gostaria de ver. Um sorriso de alguém que está vendo duas pessoas brigarem por algo que não fizeram. Os sorrisos, desejos e ações assassinas ali por perto não pareciam ter exatamente um fim.

Cada um carregava seu assassino dentro de si. Alguns ainda estavam se descobrindo, outros já tinham achado o seu, mas não tinham coragem de mostrar pro mundo o que realmente estava sendo cultivado ali. No entanto, existia uma faixa de pessoas que sabiam exatamente como era a sensação de matar uma pessoa; segurar pelo pescoço e dar fim naquilo. De uma vez. É apenas questão de tempo até que seu lado assassino apareça. Você só tem que fazer uma escolha: deseja usá-lo ou não?

Quando o carro finalmente começou a andar, o burburinho voltou. Stella não havia entrado no carro, ela tinha apenas o trabalho de levar a pessoa ao carro, checar o nome e dar um fim naquilo, por isso todos resolveram comentar. Finalmente. Fingiram que Paola não estava ali no canto, pensando no próximo passo e simplesmente deixaram aquele pensamento sujo e fofoqueiro alimentar o assassino dentro de cada um deles.

Paola não conseguiu se segurar, ela pegou o telefone que estava na sua bolsa e discou o número de sua mãe. Ela tentou ao máximo não chorar. Não podia chorar. Não na frente daquelas pessoas.

– Mãe... Ela ainda está desparecida. Não consigo achar ela de forma alguma. Eu quero que ela esteja na festa, por favor reze por isso... – Uma lágrima caiu. O murmúrio parou e finalmente, olharam para ela novamente. Uma garota completamente desolada que sofre com a falta de sua irmã. Ou uma assassina que está fingindo tudo isso apenas porque está em um carro cheio de testemunhas? Certamente esse pensamento passeia pela cabeça de diversos deles. Mas não ousam em abrir a boca. Não naquele momento. – Eu sei que ela está bem, eu tenho fé. Não posso me deixar abalada por isso, não posso! Estou sendo forte. Muito forte, você nem imagina como, mãe. Obrigado, tchau.

Ela levantou o rosto e viu todas aquelas caras sonsas encarando seu rosto molhado de lágrimas. Não acreditara. Ela limpou as lágrimas rapidamente. Fungou o nariz e abaixou a cabeça novamente.

Não encare, não encare, não encare, ela pensou.

Um rapaz magrinho, usando um terno firme e um cabelo loiro bem penteado se aproximou dela. Ela tentou se afastar, mas já estava na ponta do carro, quase sendo esmagada pela parede.

– Me desculpe – o rapaz disse. – Eu vi tudo que aconteceu lá fora...

– Como não ver... – Paola respondeu.

– Pois bem, eu acredito em você – ela levantou a cabeça e encarou ele pela primeira vez. Ele era até bonitinho. – Acredito no que você diz sobre ela e tudo que você quiser que eu faça para lhe ajudar... Eu faço. Por favor, eu faço. E eu acho que eu sei o que aconteceu.

– Sabe? – ela perguntou, curiosa.

– Eu não sei. Eu acho. Tenho uma teoria – ele se aproximou mais um pouco. – Acho que não me apresentei, certo?

– Não que eu lembre.

– Pois bem. Prazer – ele estendeu as mãos para Paola. – Meu nome é Pietro. Pietro Gotielle.

E de repente, um mágico sorriso apareceu no rosto de cada um deles. A dúvida que resta, é a credibilidade de cada um desses sorrisos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.