Asas Da Memoria

11 O Quarto Sem Janelas


Notas iniciais
-Nós nascemos para morrer.-Ele disse sorrindo.
-Nós nascemos para morrer, juntos.-Respondi, o ar voltando, as lagrimas saindo de meus olhos e ele desaparecendo.

Sophie parecia...bom, parecia estupefata.E eu também, já que eu não tinha notado que Diego havia me deitado em sua cama.Me levantei da cama e encarei a Sophie, o rosto dela me acordou e eu notei que o que eu estava fazendo com ela não era certo.

–Me desculpe, Sophie.-Escapou da minha boca.

–Desculpa, Danielle?Desculpa nada!-Respondeu em um tom mais alto.

–Soph, isso não é lugar.-Disse Diego, se sentando.

–O lugar dela não é aqui!-Rebateu Sophie.-Só porque a maldita perdeu a "família" agora é a pobre coitada!-Ela fez aspas no ar em família e riu.

–Não vá falar nada do que vai se arrepender depois, Sophie.-Disse.

–O que?Pelo menos, eu estou tentando te dizer a maldita verdade.-Cuspiu.

–Que verdade?-Cruzei os braços embaixo do peito.

–Sua “mãe” usava lentes de contato desde que você apareceu naquela casa, as fotos do casamento e do nascimento do Aundrey foram escondida, e você não tem o sobrenome deles.Acorda, ne Hollin?!-Disse ela.

–Sai.-Gritou Diego para ela, Sophie não se mexeu.Na hora que ele foi tira-lá do quarto, eu impedi.

–O que você quer dizer?-Perguntei, segurando Diego pelo braço.

–Vou te contar uma historia.Era uma vez, uma menininha muito estranha que apareceu num condomínio, ninguém sabe como ela entrou, ninguém sabe de onde ela veio.Essa menininha que estava gravemente ferida na cabeça bateu na porta certa e uma família acolheu ela, destino?Não, pura sorte, eu diria.Mas essa menininha perdeu a memória e a única coisa que ela disse antes de perder a memoriazinha foi a idade e o nome, inteligência?Eu diria que sim.A família adotou ela, lógico, o que o dinheiro não consegue?Coisa que eles tinham muito.Se ligou agora?-Eu parei, congelei, as palavras dela se marcaram em minha mente.-Mas é claro, se você não acredita, podemos perguntar aos seus padrinhos ou ate mesmo o próprio Diego, que foi quem me contou.-Ela sorriu, um sorriso maldoso e malicioso.

–Danielle?-Sussurrou Diego, minha mão apertava o braço dele e minhas unhas entraram em sua pele.-Mãe, pai.-Chamou Diego, tentando soltar minha mão de seu braço.

–Meu Deus!Será que eu acabei com a vidinha perfeita e fantasiosa dela?-Falou sarcástica.

–Não, você só me ajudou a escrever uma bibliografia.E nela,...-Ri.-Nela, eu vou contar como seu namorado veio ate a minha cama logo depois de você ter saído daqui.-O rosto dela ficou vermelho.-E agora quem acabou com quem, vadia?!-Meus padrinhos chegaram.

–Órfã, aposto que seus pais colocaram fogo na própria casa só para não ter que agüentar você.Você está sozinha, órfãzinha.-Cerrei meus pulsos.

–Pelo menos eu era aceita pela minha família, pelo menos nenhum dos meus namorados ficou comigo para esquecer outra, pelo menos eu não precisei trapacear para conseguir nenhum dos meus amores.-Rebati.

–Ao menos eu tenho pais e ninguém nunca mentiu sobre algo tão importante, porque será?Deixa eu vê, porque eu não sou adotada.-Dei as costas a ela e peguei minha roupa, me troquei de roupa na frente deles mesmo.Coloquei o único par de calçados que eu tinha, minhas sandálias e sai.E foi quando eu sumi.


[Matheus]

O mesmo solo de piano de séculos atrás continuava tocando no som, olhei para o tanque de água, o corpo nu que se encontrava lá estava do mesmo jeito a anos.Sem mudanças, Danielle não envelhecera, não emagrecera, não respirava e não abria os olhos, o que mais me preocupava porque era a primeira vez que a alma dela deixava o corpo por tanto tempo.As vezes, quando eu estava assim, vigiando ela, eu ficava me perguntando porque ela criou uma nova vida e continuava ali, parada dentro de um tanque cilíndrico com água sem mover um dedo.Talvez fosse por causa de Vladmir e do passado deles ou estava cansada de ser caçada.

Não que a Danielle da vida que ela criou fosse diferente do que ela é, porque elas são iguais, a única diferença são as memórias.Suspirei, queria tanto que ela voltasse, mas ao mesmo tempo não.Se as memórias dela voltasse, seria que nem um trilhão de sinalizadores acesos.Fechei os olhos, logo ouvi os passos de Ollie descendo as escadas.

–Chegou cedo.-Falei sem abri os olhos.

–Senti saudades dela e vim vê-la.-Respondeu.-Por que ela está demorando tanto?-Perguntou com agonia na voz.

–Deixe ela, ela vai voltar assim que também sentir nossa falta.-O que estava demorando ate que demais.Abri os olhos, minha alma vibrava, era como se ela estivesse entrando e saindo do meu corpo.

A terra tremeu embaixo de nos, e a água do tanque se mantinha parada.Algo tinha mudado, peguei meu celular e liguei no celular da Danielle, chamou e chamou.

–Alô?-Respondeu a voz de Diego preocupada.

–Posso falar com a Danielle, por favor?-Pedi, ouvi lá trás um pequeno choro, então o som do outro lado foi abafado.

–Ela não esta lá.-Disse Diego, desliguei.

Então esperamos mais de 5 horas ate o primeiro vislumbre da volta dela, ela puxou o ar, mas acabou puxando água.Colocamos o tubo de ar tampando sua boca e nariz, depois de mais umas sete horas, ela abriu os olhos.Oliver abriu o tanque, os olhos dele brilhando em expectativa, a água escorreu no chão, enchendo o lugar ate chegar a minha canela.Danielle se manteve em pé no centro do tanque, olhando para nós.

–Oi meninos.-Disse sorrindo.Corri ate um dos pequenos armário e peguei uma toalha branca, e entreguei a ela.Ollie parecia um cachorrinho, se ajoelhou perante a ela, fiz a mesma coisa ao seu lado.-Podem levantar.-Desceu do tanque, seu andado tinha mudado.

Danielle subiu na mesa e se sentou com as penas cruzadas, olhando para a gente, seu olhar também tinha mudado.Ela riu, uma risada sonora, pura e linda.

–O que foi?-Perguntou Ollie sorrindo.

–Vocês me olham como se eu fosse um fantasma, eu to bem.Veja, sou de carne e osso.-Disse, colocando as mãos em nossos rostos.-Desculpe por não voltar mais cedo, mas vocês sabem como é o mundo dos sonhos.-Seu olhar estava enevoado e distante agora.-Ele nos prende, nos amara com ilusões que queremos que seja verdade, e com a ajuda do subconsciente, o mundo dos sonhos te pega de um jeito que é quase impossível resistir.

–Era tão bom assim estar lá?-Perguntou Oliver como uma criança falando sobre a Disney.

–Sim, é tão bom quanto parece.E eu pude ter mais do horas de ilusionismo e fantasias pelo visto.-Olhou ao redor.

–Seu quarto esta pronto lá encima.Pode ir para lá agora, se quiser.-Disse.

–Claro, eu estou muito curiosa sobre a atual moda.-Disse se levantando e subindo as escadas.

–Ela não se lembra!-Falei, mas Oliver não parecia ligar para isso.-Não!A gente tem que contar para ela, para os humanos era real!Eles vão procura-lá.

–Forjamos uma morte e pronto.Não espere que eu a deixe voltar para lá, ela acabou de voltar!-Olhei para meu irmão, mas ele sempre agia assim sobre ela.A maioria de nos agíamos assim, eu era diferente.Subimos atrás dela, ela tinha escolhido usar um vestido verde escuro de alças com um laço atrás, colocou uma sandália preta alta e amarrou o cabelo vinho.-O que foi?-Chegou perto dela.

–Queria sair um pouco.Comprar uns livros e revistas.-Ela olhou para ele, o olhar carinhoso.-Mas sozinha.

–Mas, mas, você não sabe andar na cidade.

–Você não pode sair.-Falei.-Enquanto hibernava, você criou uma vida.-Ela arregalou os olhos.-E pelo visto, você “fugiu” de casa.Não sei o que aconteceu ao certo.-Ollie fechou as mãos em punhos.

–Se acalme, Oliver.-E ele instantaneamente se acalmou.-Entendo.Ficarei ate o fim da semana por aqui e tentarei me lembrar o que aconteceu, depois voltarei e terei uma vida.

–De novo isso?-Disse Oliver.-Você tem a gente, só precisa da gente e a gente te dará uma vida.-Ela o olhou irritada.

–Eu quero uma vida de verdade, humana.Achar Vladmir e poder morrer com ele dessa vez.-Seus olhos cinzas agora se mostravam enevoados novamente.-Mas o passado já se foi e agora estou acordada, pronta para o futuro.-A palavra saiu tão doce de sua boca, que ate eu queria experimentar ter um futuro.

–Esta com fome?-Perguntei.E Ollie foi buscar sua “comida”.

Flashback on

Andei envolta do castelo, observando como era grande e cinza, mas parecia ser um lugar feliz, envolvo por uma bolha de alegria.Passei pelo enorme jardim e entrei pelas grandes portas cinza com prateado.As portas daquele castelo viviam abertas, sem cavaleiros ou algo para vigia-lás ou protege-lás.Logo no meio do cumprido corredor, eu ouvi uma risada melodiosa assim como uma canção de ninar.

–Para, Enoch.-A risada melodiosa junto com a de um homem.

–Deméter, venha aqui.-Disse a voz masculina, meia rouca.Ouvisse então um baque surdo e risadinhas.Quando cheguei mais perto, uma mulher de cabelo ruivos ondulados estava deitada no chão, vestida com um vestido preto e por cima dela um homem, cabelos cumpridos ate abaixo do ombro pretos e ele a olhava com um sorriso nos lábios.

–Não diga isso.-Ela riu e olhou para mim, ainda sorrindo.-Olá Matheus, estávamos te esperando.

Flashback off

Foi assim que conheci Vladmir e Danielle, eles eram inseparáveis naquela época, quase não conversavam mas constantemente estavam rindo juntos.Danielle era muito feliz naquela época, porem a morte de Enoch(Vladmir) a matou de tal jeito que tivemos que guarda-lá no castelo por anos.

Dany passou os dedos nos cantos da boca, limpando a sujeira que não existia.Então bocejou, piscando os olhos.Se levantou indo para o quarto, segurei Ollie pelo braço ate a hora que a ouvi fechando a porta do quarto e ligando o som.

–Pare de agir desse jeito.-Falei para ele.-As decisões são dela.

–Mas ela deve escolher um de nós.-Respondeu entre dentes.

–Danielle pode mudar as regras, e se você não se lembra, foi ela que criou tanto as regras quanto a nós.

[Danielle]

Deitei na cama, bloqueando qualquer outro som ou imagem.Eu estava ali de novo, fazendo o mesmo jogo de sempre, olhei para o teto branco.Uma semana e voltaria para a casa dos “meus” padrinhos, era tudo tão estranho.Minha memória tinha lacunas, fazendo com que eu esquecesse daquilo que sou, de tudo que posso fazer e de minhas memórias.

Olhei para as paredes sem janelas, eu não lembrava, por exemplo, porque eu gostava do meu quarto sem janelas.Me levantei, acendi a luz que era fosca e fui explorar meu quarto.

Olhei as estantes penduradas na parede, uma ao lado da outra.A primeira tinha bichinhos de pelúcias, a segunda tinha livros e a terceira tinha cadernos de diversos tamanhos e cores com um porta caneta do lado.Fui ate o armário de madeira de carvalho, abri as duas e olhei os vestidos que tinha ali, vestidos, vestidos, mais vestidos.Em baixo deles, os sapatos, sandálias, botas e ankle boots.

Suspirei e sentei no canto do quarto, encostando a cabeça na parede e esticando as pernas.Minha cabeça estava livre de pensamentos, meu coração livre de sentimentos, e meu corpo livre de dores.Virei meu braço, fazendo com que meu pulso ficasse para cima e olhei a marca que tinha ali.Podia ouvir o grito de dor dele em meus ouvidos.Era a nossa marca, uma estrela com uma borboleta no centro.

Vê a marca, me fez lembrar do amor, me lembrar do amor me fez sufocar.O ar não entrava ou saia, mas eu não entrei em pânico, nem agonizei.Só esperei, e então vi sua imagem na minha frente.A primeira imagem.

Seus cabelos pretos, a pele parda clara, os olhos castanhos escuros como o tronco de um pinheiro, as roupas de um príncipe de época, a blusa esvoaçante preta por debaixo do colete verde com uma estampa estilo sementes crescendo, as calças coladas pretas e as botas também pretas ate o joelho.

–Nós nascemos para morrer.-Ele disse sorrindo.

–Nós nascemos para morrer, juntos.-Respondi, o ar voltando, as lagrimas saindo de meus olhos e ele desaparecendo.

Sequei as lagrimas e olhei para a porta.Seria uma longa semana.

Notas finais
Revisado (19/12)