As Águas de Veneza
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Lovino andava de um lado para o outro em seu pequeno apartamento, havia chegado do trabalho á pouco e ainda não tomara banho. Em vez disso o italiano passou os últimos 20 minutos se perguntando se ligava ou não ligava para seu irmão em Veneza.
A ocasião era: Lovino teria um encontro com o maledetto spagnolo na tarde seguinte e estava extremamente nervoso. Isso de fato não era um costume seu, foram poucas as vezes que ficara nervoso daquele jeito, ainda mais quando ia á um encontro, isso geralmente era coisa das damas com quem saia.
Aquilo o estranhava e o irritava ao mesmo tempo, na verdade, ultimamente tudo o que estava ligado ao espanhol dos tomates o irritava de uma forma exorbitante, só ouvir o nome de Antônio lhe causava uma inexplicável reviravolta no estomago.
Definitivamente não podia ficar desse jeito, porem, a única pessoa com quem ele podia falar sobre o assunto era seu irmão Feliciano, o principal causador de seus problemas segundo Lovino, pois se não fosse por ele, o italiano nunca teria ligado.
Lovino deu mais uma volta no seu pequeno quarto/sala de estar/projeto de cozinha, então cansado de ficar andando em círculos, se sentou na cama e massageou as têmporas com as pontas dos dedos. Se seu orgulho não fosse tão grande já teria ligado para seu irmão, contudo a situação não era bem assim, reunindo o pouco de coragem e a paciência que ainda lhe restava, Lovino se sentou na banquetinha do telefone e discou o numero de Veneza.
XXX
Triiiiiiim
O barulho estridente de um telefone ecoou pelas paredes de uma casa vazia em Veneza
Triiiiiim
Seu dono havia saído á muito tempo e não tinha previsão para voltar
Triiiiiim
Com certeza estava se divertindo
Triiiiiim
Mas ainda sim, haviam pessoas que queriam falar com ele
Triiiiiiim
E infelizmente não conseguiriam isso tão cedo.
XXX
Lovino bufou pesadamente antes de colocar o telefone de volta no gancho com a delicadeza de um rinoceronte.
“Cazzo”
Como ele odiava isso.
O italiano se deitou na cama e ficou observando o teto, as manhas de bolor nunca foram tão interessantes.
“O bastardo deve ter saído”
Lovino se perguntou se ainda tinha o celular de seu irmão
“posso ligar para ele”
Por um minuto Lovino quase se levantou para buscar sua agenda de telefones, mas então parou raciocinou um pouco
“Se ele saiu, ele muito provavelmente está acompanhado” – E olhou de relance para o relógio “Sim, é muito tarde para ir ao mercado”
Um frio na espinha se apoderou do italiano, apesar de ser egoísta boa parte do tempo, Lovino tinha bom censo o suficiente para saber que não deveria interromper o encontro dos outros para falar dos seus problemas, e outra, ele não queria debate-los com uma terceira pessoa como ouvinte.
Por fim, decidiu que ligaria mais algumas vezes para ver se seu irmão já tinha voltado.
XXX
“ A noite está muito bonita hoje”
Ludwig admirava as estrelas que surgiam uma á uma no céu, á sua frente Feliciano ainda terminava de limpar o potinho de macarrão misturando-o com o que sobrara da maionese, sua segunda taça de vinho ainda estava cheia pela metade.
–Está uma bonita noite, não?
–Hum-hum – Feliciano concordou chupando um fio de massa que lhe escapava pela boca – Essa é a terceira vez que diz isso.
Ludwig corou desviando o olhar, internamente torceu para que Feliciano não tivesse percebido nada, este por sua vez, terminou com o spaguetti e encarou o loiro.
–Você realmente gosta das estrelas, né?
Ludwig sorriu saudoso.
–Desde criança eu sempre gostei delas, até hoje não sei por que me fascinam tanto...
–Oh! Essa é a segunda vez que escuto algo assim, sabe. – Feliciano olhava para o céu escuro, seu rosto era um misto de felicidade e tristeza
–Segunda?
–É... é uma história muito longa... – Tratou longo de desconversar, abandando a mão na frente do rosto
–Eu sou um bom ouvinte.
Ludwig serviu mais uma taça de vinho para si e completou a de Feliciano que agradeceu e umedeceu os lábios. Diante daqueles olhos azuis inquisidores e interessados, Feliciano se sentiu na obrigação de contar, afinal, ele mesmo tinha começado o assunto.
–Quando eu era criança, — Começou ele, o olhar focalizado em algum lugar da piazza de San Marcos ás costas do alemão — eu morava com meu avô e meu irmão em Roma, eramos muito felizes, tínhamos uma casa grande com muito verde...Mas um dia ele faleceu,- Feliciano engoliu ceco e bebericou a taça — de AVC, — As sobrancelhas de Ludwig se levantaram, mas ele na disse –No fundo, eu e meu irmão sabíamos que isso iria acontecer um dia ou outro, ele não tinha uma alimentação muito saudável, bebia muito vinho, estava bastante velho...
Feliciano desviou seus olhos para baixo e deu uma leve coçadinha no queixo, depois bebeu mais um pouco de vinho e continuou.
– Quando ele se foi, eu era muito pequeno, mas talvez por causa do meu talento com a pintura ou por causa do dinheiro da família fui mandado pra um orfanato de elite na Áustria, na verdade era quase um colégio interno, mas... Meu irmão por outro lado, foi mandado para uma fazenda na Espanha, ele era um pouco mais velho e apesar de tudo, era bastante apegado ao meu avô, foi um choque para ele...
Feliciano bebericou mais um vez, Ludwig se ajeitou melhor na cadeira e colocou a mão apoiando o queixo.
– Enfim, eu gostava do orfanato Eldstein, tinha muitos amigos e todos eram muito bons comigo, eu fazia aulas de pintura, musica, teatro... – E foi contando as aulas nos dedos com um olhar sonhador – Fiz um pouco de futebol, natação... Enfim, muita coisa. – Abanou a mão novamente — Mas nas aulas de pintura conheci um menininho, ele era menor do que eu, uma coisa bem rara, porque eu sempre fui pequeno pra minha idade.
Feliciano sorriu nostálgico e Ludwig pôde perceber o carinho na sua voz.
–Ele não sabia desenhar absolutamente nada... Bom, era por isso que a maioria das crianças fazia as aulas, então a professora me pediu para ajuda-lo, ele era bem tímido.
Feliciano apoiou a mão no queixo e bebeu mais um pouco.
–Depois das aulas de pintura ele sempre sumia, ninguém no orfanato conseguia encontra-lo, mas um dia, eu acordei com frio e fui buscar um cobertor no armário de roupas, era longe do quarto, estava escuro... mas fui assim mesmo – Seu olhinhos brilharam como se estivesse revivendo o momento – só que ao passar pela porta da cozinha, eu comecei a escutar barulhos no forro...
Feliciano deu um risinho e começou a brincar com o vinho restante da taça antes de beber mais um gole, seus olhos estava perdidos em algum ponto do vidro.
–Estava bastante escuro e eu achei que fosse um fantasma, entrei em baixo da mesa e comecei a chorar...
Ludwig que até agora estava sério e imparcial, levantou uma sobrancelha e não conseguiu esconder um sorriso, Feliciano corou.
–Eu era sensível, tá? E pequeno. E não choro mais por fantasmas! – Feliciano fez bico e cruzou os braços em uma pose infantil, Ludwig o achou adorável.
– Acredito em você...
O tom de Ludwig sugeria que ele não acreditava muito não, mas mesmo assim, se acomodou na cadeira e apoiou o queixo na mão esquerda, Feliciano prosseguiu.
–Naquele momento o menininho apareceu e me deu um pirulito para que eu parasse de chorar, depois ele perguntou o que eu estava fazendo sozinho ali, eu disse que fui buscar um cobertor quando ouvi um fantasma no forro. Ele deu um risinho e me puxou de debaixo da mesa, subimos uma escadinha do lado de fora da casa e percebi que estávamos em um pequeno cômodo em cima do orfanato.
–Então ele era o “fantasma”? – Interrompeu Ludwig
–Sim, era. Ele me disse que gostava de ficar lá em cima para ler e para observar as estrelas, ele fazia isso todos os dias... Me lembra muito você nesse ponto.
Ludwig deu um sorriso de compreensão e bebericou sua taça.
–Mas, o que aconteceu com ele?
Feliciano olhou para baixo e seu lábio inferior tremeu levemente, ele tentou disfarçar bebendo o resto do vinho de sua taça. Recomposto, ele encarou os olhos azuis de Ludwig com toda a franqueza que conseguiu arrumar.
–Ele saiu do orfanato 3 dias antes de mim, ao que parece tinha encontrado algum parente no exterior, mas o carro no qual ele viajava bateu em um caminhão e ele... morreu... no...acidente.
Feliciano começou a encarar a toalha, já não havia mais vinho para que ele pudesse disfarçar, Ludwig ficou desconcertado, encheu novamente o copo do italiano, estava claro que aquele assunto ainda era doloroso. Dessa vez o outro não agradeceu, mas continuou olhando a toalha antes de virar toda a taça de vinho em um gole e se recompor.
–Meus pêsames – Começou Ludwig – Eu não sabia que era um assunto delicado...
–Não não, não fez mal – Feliciano acalmou o outro com um aceno de mão e um sorriso fraco- Vamos falar de outra coisa, então...
–Já! Eu vou lhe contar sobre a minha infância na Alemanha! – Se animou Ludwig.
–Estou todo ouvidos! – Concordou o italiano voltando ao humor habitual.
Feliciano voltou a sorrir à medida que Ludwig contava do sitio de sua avô na Alemanha e das peripécias do seu irmão.
–... daí ele disse: “Segura isso firme West, eu puxo!” e me deu o balde de ração, quando ele puxou a porteirinha... – E fez o gesto de puxar com as mãos — em três segundos lá íamos nós dois barranco abaixo correndo das galinhas esfomeadas.
Feliciano ria gostoso como uma criança, ao mesmo tempo batia palmas e balançava o corpo. Demoraram doisminutos para que ele pudesse se recompor, não conseguia imaginar o homem forte á sua frente usando shortinho, e correndo de galinhas com um balde de milho.
–E depois você quem ri com meu medo de fantasma – Disse Feliciano secando uma lágrima com o indicador.
–Mas eu te digo – Respondeu Ludwig se justificando – Aquelas galinhas realmente faziam de tudo pelo milho, dava muito medo! Por isso o vovô era o único que dava conta delas!
–Nunca brinque com galinhas alemãs – Completou Feli
–Já! Elas são terríveis!
E começaram a rir de novo.
XXX
Com forme ia entardecendo, Ludwig e Feliciano viam a necessidade de voltar para casa, era aproximadamente meia noite quando de despediram. Ludwig levou a sacolinha com o lixo para sua casa (descartaria na manhã seguinte ou então no primeiro lixo que encontrasse na rua) e Feliciano seguiu para sua pequena moradia.
Ao chegar a sua casa Feli tirou os sapatos e a camisa se jogando no sofá em seguida, suspirou profundamente.
“A noite foi maravilhosa”
Ele se divertira muito na companhia do alemão, no fundo Feliciano sempre soube, apesar de todo o jeito duro e intimidador, que ele era uma boa pessoa que conseguia contar boas histórias quando queria.
Entre um devaneio e outro, o italiano notou algo importante em sua sala, o telefone na parede piscava, isso significava que alguém ligara para sua casa.
Feliciano se levantou calmamente de seu sofá laranja e macio para se sentar na banquetinha ao lado do telefone, olhou no visor:
17 chamadas perdidas
Lovino
Era o fim do mundo.
Engolindo em seco, Feliciano apertou o botãozinho verde e retornou a chamada torcendo para que ninguém atendesse, mas para sua infelicidade, um Lovino irritadíssimo e com a voz embargada de sono respondeu do outro lado da linha.
–O QUE ESTAVA FAZENDO DE TÃO IMPORTANTE PARA NÃO RETORNAR AS MINHAS LIGAÇÕES?
XXX
Lovino estava no mínimo irritado.
Sabia que seu irmão não estava em casa e que não tinha a obrigação de ficar o tempo todo, mas aquilo era no mínimo falta de educação! Era tempo de mais fora! E Lovino Vargas nunca foi um homem de esperar.
Na quinta ligação não atendida Lovino simplesmente cansara de ligar para seu irmão, mas ao mesmo tempo não tinha coragem de ligar para o celular deste, não suportaria compartilhar suas angustias com outras pessoas ouvindo. Nesse momento o italiano caiu em uma duvida terrível, ou a paciência ou o orgulho.
E Lovino sem orgulho não era Lovino.
Ele se jogou na cama, fazendo-a ranger estrondosamente. Se continuasse assim ela com certeza quebraria, mas sinceramente, essa era a ultima coisa que passava pela cabeça de Lovino no momento.
Ele se sentia cada vez mais aflito, nunca ficara tão nervoso, nem mesmo no seu primeiro encontro (com uma menina baixinha de cabelos cacheados no colegial), agora parecia que seu coração explodiria, como ele odiava tudo isso. Será que não podia simplesmente dar o bolo e ficar em casa? Não. Do jeito que aquele espanhol era podia ser bem capaz de localizar Lovino na casa de seu irmão ou em Roma.
Isso seria pior.
Era melhor ir, mas antes precisava de conselhos, e não havia pessoa melhor do que Feliciano para dar conselhos amorosos, não que ele tivesse outra pessoa para pedir...
O Italiano já havia perdido as esperanças, depois da 17ª ligação não atendida...
Lovino estava praticamente torcendo para ser sugado pelos cobertores, aquilo era sufocante e triste ao mesmo tempo, considerou pedir conselhos ao pessoal do seu trabalho, mas não sabia se era íntimo o suficiente para fazer isso, afinal, nunca conversara sobre sentimentos com nenhum deles.
As lágrimas lutavam relutavam em cair de seus olhos, mas o que importa, ele estava sempre sozinho mesmo...
Sozinho desde morte de seu avô...
Triiiiiiiiiim
Lovino não se mexeu, achou que fosse algum tipo de alucinação ou que estivesse sonhando...
Triiiiiiiiiim
Não, era definitivamente real! Com dois pulos agarrou o telefone e deixou toda a raiva, tristeza, frustração saírem em um berro.
– O QUE ESTAVA FAZENDO DE TÃO IMPORTANTE PARA NÃO RETORNAR AS MINHAS LIGAÇÕES?
Só depois disso é que olhou no identificador de chamadas.
Feliciano
Ufa! Ainda bem!
–RESPONDE BASTARDO! EU LIGUEI DEZESSETE VEZES! NÃO É POSSIVEL QUE VOCÊ TENHA FICADO FORA ESSE TEMPO TODO! VAI, DIZ NA CARA! DIZ QUE VOCÊ NÃO LIGA PRA MIM...
–Lovino, calma! – O tom de Feliciano foi tão sério e seguro que Lovino precisou olhar no identificador de chamadas novamente pra confirmar que era seu irmão mesmo.
–Você está estressado e frustrado, eu sei...-Agora sua voz voltou ao normal, era mesmo seu irmãozinho – Mas me diz, o que aconteceu frattelo?
Silêncio
Lovino passara tanto tempo imaginando seu encontro com Antônio que nem se quer pensara em como contar ao seu irmão.
Respirou fundo uma
Duas
Três vezes.
–Olha... lembra do A-A-Antônio?
– O dos tomates? – Lovino ouviu um barulho de alguma coisa sendo arrastada do outro lado da linha, provavelmente era alguma cadeira.
–Sim, ele mesmo...Então... eu...
–Você ligou??? – Feliciano perguntou animado interrompendo o outro.
–S-s-sim – O outro falou e concordou bobamente com a cabeça como se seu irmão estivesse na sua frente
–E aí? O que aconteceu? Marcaram um encontro?
–S-s-sim
Lovino escutou seu irmão dizer alguma coisa do outro lado da linha, mas foi tão baixo que nem ouviu direito .
–O que?
–Nada não – Respondeu Feliciano jovial. –Mas a aí, quando vai ser o encontro?
–Amanhã...
–Em Roma?
–Não. Aí.
–Jura? Em Veneza?? – Não preciso dizer que Feliciano estava muito contente – Onde?
–No...Café...C-central... – A voz de Lovino foi murchando conforme ele terminava a frase, mas ficou a pronuncia ficou clara o suficiente para Feliciano, que se acostumara com as tsuderisses do irmão.
Do outro lado da linha, Lovino ouvia o outro dar um gritinho de alegria e depois deu um muxoxo
–-Mas Fratello, eu não trabalho esse fim de semana...
Lovino parou, não havia pensado nisso.
–DÁ UM JEITO! Eu PRECISO de você ouviu? –Lovino estava exaltado, Feliciano afastou um pouco o telefone do ouvido.
–Sim... Vou ver o que eu consigo... Talvez eu possa trocar com...
E Feliciano foi fazendo as contas nos dedos, um olho fechado o outro mirando um ponto aleatório da parede.
–Sim! Eu posso fazer isso! Tem um colega meu que queria muito sair para ver o casamento da irmã, agora ele pode ir e eu fico no lugar dele.
–Ótimo!
–Só vou precisar de falar com o gerente... ah! Eu dou um jeito! Mas agora me conta, como foi? – Feliciano se endireitou na cadeira, parecia uma velha fofoqueira.
Lovino engoliu em seco...
–Como foi o que?
–Como foi que você marcou o encontro?
Lovino emudeceu. Droga!
–B-b-b-bom...
E assim foi, enquanto Lovino falava do Espanhol e de suas dúvidas, Feliciano esperava pacientemente eu irmão terminar as frases e respondia com animação á todas as perguntas.Mesmo estando se falando por telefone, Feliciano ainda balançava a cabeça positivamente enquanto conversava e Lovino apertava o canto da mesa toda vez que Feliciano fazia uma pergunta muito comprometedora, porém de forma alguma ele deixaria de responde-la.
Eles eram irmãos, e apesar da distancia, seus corações ainda permaneciam conectados.
Fale com o autor