As vicissitudes da vida
11 Halloween
Halloween! Época de muitas pessoas ficarem felizes! Doces a vontade, pegadinhas, diversão, etc. Tudo às mil maravilhas... Bom, exceto para Noah. Ele estava se sentindo ridículo com a fantasia que seus irmãos o obrigaram a usar: Professor X dos X-men. Eles o vestiram com um terno, puseram uma peruca de careca em sua cabeça e colaram um X feito de papelão em cada roda de sua cadeira.
Seus dois irmãos eram dois bebezões, mesmo um deles tendo vinte anos e o outro quinze. Ambos sempre estavam aprontando, não especificamente juntos. O mais velho, Drake, era viciado em musculação. Ele montou uma mini academia em seu quarto e só sai de lá para comer, fazer suas necessidades e implicar com os outros. O mais novo, Mark, tinha um gosto mais voltado para o Oriente. Seus cantores favoritos eram de bandas de K-Pop e o garoto vivia assistindo desenhos japoneses no Notebook.
De tarde, Peggy apareceu na casa de Noah. Ela estava fantasiada também, vestindo roupas de fada —Um vestido purpurinado, uma asa purpurinada, uma bota purpurinada, uma peruca purpurinada... e neon. Sua maquiagem, como toda sua vestimenta, era purpurinada.
A menina estava lá para chama-lo para uma festa de dia das bruxas que ocorreria na casa de algum garoto que ela nem conhecia direito, mas, como em todas as festas de estudantes do terceiro ano, não precisava necessariamente conhecer o anfitrião para sentir-se convidado. Noah, obviamente, não aceitou. Dizia estar ridículo com aquela fantasia e blábláblá, mas, no fim, teve que concordar quando soube que sua namorada também iria.
Marcy chegou pouco depois de Peggy, estava, inusitadamente, vestida de Jean Grey, também dos X-men, o que combinou com a fantasia de Noah.
—Acho que nos combinar é coisa do destino.— Falou o menino se endireitando na cadeira quando a viu entrar pela porta. Marcy riu e aproximou-se dele, beijando sua bochecha.
—Pois é.
Com a permissão de seus pais, Noah foi para a festa. Greg, seu melhor amigo, apareceu com o carro e levou Noah, a namorada e a melhor amiga —Ele estava vestido de jogador de basquete. No som do carro, apenas tocava músicas nigga. Greg valorizava muito a cultura negra. Tinha orgulho de ser negro, de ser excelente no basquete, de ser um garanhão e de se gabar do tamanho de seu órgão sexual, o qual, garantia, era do tamanho de seu antebraço.
Ao chegar na festa, Greg ajudou Noah a passar do carro para a cadeira, mas sem fazer muito esforço. Noah não gostava de ser ajudado, preferia fazer tudo sozinho, e até que estava se saindo muito bem. Não era difícil identificar o local da festa. Me diga, qual casa tem um som extremamente alto, pessoas bebendo na entrada e decoração macabra se não for o local de uma festa de Halloween?!
Os quatro adentraram a casa e, de cara, encontraram uma cortina de fumaça branca cobrindo todo o imóvel. Luzes coloridas brilhavam, sendo refletidas na nebline e dando um ar de boate. No meio da fumaça, pessoas e mais pessoas dançavam no espaço que parecia ser a sala de estar. A música era ensurdecedora ali dentro, nem que se falasse pertinho do ouvido um do outro dava para identificar direito o que era dito.
O grupinho juntou-se aos outros adolescentes, não demorando muito para se dispersarem. Greg encontrou seu grupo do time de futebol americano, Marcy se juntou a suas amigas do grupo de líderes de torcida e Peggy bebeu um copo de Vodka — Ou seja: Ficou no banheiro vomitando até desmaiar ali mesmo. No fim, Noah estava sozinho no meio daquela loucura toda.
O menino rolou sua cadeira, pedindo espaço para passar —Mas não sendo ouvido—, e direcionou-se para algum lugar mais vazio na festa. Depois de ser amaçado por diversas bundas —masculinas e femininas—, ser empurrado e ter a perna encharcada por um copo de energético, ele finalmente conseguiu chegar até o corredor da casa. Seguiu rolando por ali e, mais à frente, achou uma porta de vidro aberta, a qual dava para um amplo quintal na parte de trás da residência. Ali tinha uma piscina, churrasqueira, luzes coloridas e, o mais importante, aparentava estar vazio.
Noah passou pela porta de vidro e rolou a cadeira até um pouco mais a frente, onde pôde respirar fundo e encher seus pulmões com um ar que não era 70% fumaça de festa. Fechou seus olhos e se perguntou do porquê de estar ali. Ele sempre gostou de festas, mas suas condições físicas o fizeram mudar de opinião. Queria agarrar Peggy pelo pescoço e chacoalha-la, gritando que ela era uma babaca por tê-lo chamado para ir. Queria brigar com seus pais por ter deixado que eles o levassem... ele queria fazer muita coisa.
—Cansado da festa? —Uma voz vinda da esquerda do menino chamou sua atenção.
Noah virou seu rosto para o lado e notou que não estava sozinho. Sentada em um banco, uma menina de cabelos curtos, pele escura e altura abaixo da média o olhava enquanto mexia seu copo. Ela aproximou o recipiente de sua boca e puxou o conteúdo do copo por um canudinho.
—Ahn... Sim. — O garoto respondeu. A menina também estava fantasiada, trajando uma fantasia de bruxa. — Você também?
Ela assentiu e passou a língua nos lábios antes de responder.
—Uhum. Não curto muito festas. Estou aqui porque meus amigos me arrastaram... pelo menos eles têm milk-shake, o que não tornou o evento uma completa tortura.
Noah sorriu para a menina e fez com que sua cadeira aproximasse da menina.
—Sou Noah.
—Eu sei. — Ela falou. — Somos da mesma sala de Matemática avançada.
—Somos?... Espera, está no último ano? — O menino pareceu incrédulo. A menina não parecia ter dezessete anos ou alguma idade assim, tampouco estar na mesma série que ele. Era muito baixinha e, além disso, seu rosto era bastante jovial.
—Ahn... Sim. Não parece, eu sei, mas estou. Na verdade, estou na mesma sala de matemática avançada que você desde o primeiro ano... Me sento bem no fundo, pouco apareço.
Noah percebeu. Três anos e nunca vira a menina na vida —Ou ao menos não se lembrava.
—Sou Paula. —Ela disse, por fim, e estendeu sua mão para que o menino apertasse, assim fazendo.
—Muito prazer. — O menino respondeu e virou seu rosto para analisar o ambiente.— Aqui fora está bem mais... habitável do que lá dentro.
—Concordo. Não gosto muito de agitação e, além do mais, o espaço lá dentro é muito pequeno para o tanto de gente que está enfurnada lá.
Noah preparou-se para responder, mas, de repente, gritos vieram da porta de vidro e cinco garotos conhecidos de Noah saíram por ali. Arthur, Paul, Rock, Erik e Jordan. Todos estavam bêbados e eufóricos, batendo uns nos outros e cantando alto. Eles pulavam de um lado para o outro, até que adentraram a piscina, onde fizeram algazarra e jogaram água para tudo o que é lado.
Paula se encolheu no canto e cruzou as pernas sobre o banco, de onde ficou observando os meninos e bebeu um pouco mais de seu milk-shake.
—Trogloditas...—Ela sussurrou e preferiu prestar atenção em sua bebida.
Em meio aos sons da agitação na água dentro da piscina, um grito sobressaiu.
“Ih, olhem lá se não é o Noah Cadeirante”
—Olá, pessoal. — Ele respondeu com um aceno e um sorriso pequeno.
Os garotos pararam de fazer barulho e voltaram sua atenção para Noah. Todos o observavam com sorrisos no rosto, o tipo de sorriso traiçoeiro e insano que dá medo. Um sorriso que normalmente só adolescentes bêbados e temporariamente irracionais possuem.
—E aí, Noah! — Gritou Jordan, que riu alto.
—Como vai a gostosa da sua namorada? — Um outro berrou, Arthur.
— Ah, Marcy... aquela bundinha dela... queria ter a sorte de poder apertá-la.
—E os peitos?! Eu poderia fodê-la todos os dias— Arthur completou e explodiu em risadas, levando a mão às calças e apertando seu pênis.
—E o otário iludido aí nem sabe o que está perdendo. Fica com o papinho de respeitar as leis da bíblia. Moleque idiota! Sebe o que tu é, Noah? Um covarde! Um covarde aleijado!
Noah ouvia tudo e permaneceu calado. Ele abaixou a cabeça e apertou seus punhos com força. Queria poder fazer alguma coisa, mas os caras eram gigantes e, o principal, tinham suas pernas funcionando.
O engraçado daquilo tudo era que todos aqueles meninos, dias antes, falavam com Noah normalmente, como faziam antes de ele sofrer o acidente. O tratavam como se fossem melhores amigos, dando tapinhas nas costas do garoto e o desejando força para que superasse os problemas. Pelo visto, toda a solidariedade era apenas uma máscara para encobrir as coisas que eles falavam por trás e pensavam. No entanto, a máscara não consegue resistir ao álcool. É quando a verdade escapa da boca das pessoas sem elas nem sentirem.
Entre as risadas e humilhações, uma ideia surgiu saída da boca de Arthur.
—Está um pouco calor, não acha, Noah? Não quer nadar um pouco?
Noah levantou cabeça rapidamente e arregalou seus olhos. Ele olhou para Paula, que tinha a mesma expressão do menino, e virou-se para o grupo de garotos.
—Não, não! Eu estou bem. Eu estou bem assim. — O menino agarrou nas rodas de sua cadeira e as empurrou para a porta. —Greg e Marcy devem estar me procurando, eu vou nessa.
—Ah, por que a pressa? —Disse Arthur ao subir da piscina, o qual foi seguido por todos os outros. Ele parecia estar sendo o líder da trupe, já que foi ele quem deu a ideia.
—Só um pulinho! — Incrementou Paul.
—Não, galera. Estou bem. Bem mesmo...— Noah empurrou sua roda com mais força para que entrasse na casa, mas foi em vão. Os garotos correram até ele e seguraram nos guidões da cadeira, a puxando de volta.
—Vai ser divertido! — Falou um dos garotos rindo. — Segurem os braços dele.
—Não! Não! Por favor! —Gritou Noah e, novamente, não foi ouvido.
Paul o agarrou pelos braços e o arrancou da cadeira, arrastando suas pernas pelo chão. Um dos outros meninos, Rock, logo segurou os tornozelos de Noah, o suspendendo no ar.
—Parem com isso! —Gritou Paula, que levantou-se e correu até eles. Ela tentou chegar até Noah, mas foi parada por Erik, que segurou seu braço e ficou assistindo. —Me largue, idiota! —Enfurecida, a menina atirou seu como de Milk-shake na cabeça do grandalhão, o qual ficou todo sujo e, irritado, a jogou no chão.
—Joguem logo! —Gritou Arthur, impaciente.
—Vão afoga-lo! — Berrou Paula.
—Que nada! Merda não afunda!
E então, Noah foi atirado pelo ar, caindo na piscina em um estrondo e afundando.
O menino, a princípio, ficou atordoado com a pancada que levou, caindo de costas. Seus ouvidos encheram d’água enquanto ele afundava. Antes de cair na água, Noah havia fechado os olhos e prendido a respiração, o que não o permitiu se afogar à princípio. Ao abrir seus olhos, ele pôde ver a espuma se acalmando e a água agitada tornando as luzes das lâmpadas coloridas abstratas. Ele quis permanecer ali e se afogar, morrer logo para ver se a dor, tanto interior quanto exterior, passava. Mas não conseguiu, seus instintos de sobrevivência o obrigaram a lutar por sua vida.
Os braços de Noah debateram-se para voltar à superfície, mas só isso não eram o suficiente para mover seu corpo. O esforço de Noah não estava sendo recompensado e o tempo passava. Vinte, trinta, quarenta segundos e o garoto ainda estava ali, debatendo-se para voltar à superfície.
Noah não conseguiu mais prender o ar e começou a engolir água. Sua consciência estava o deixando, quando algo rompeu a água da piscina, nado até ele, o agarrou e o arrastou até a borda, onde o puxou para cima.
Quando foi posto deitado no chão, o menino não conseguiu fazer mais do que cuspir água. A visão de Noah estava turva e sua respiração difícil. De início, não conseguiu identificar seu salvador, mas, quando fechou os olhos e os abriu novamente, encontrou Greg parado próximo a ele e todo molhado.
—Noah! — O menino negro o segurou pela nuca e o forço sentar. Segurou nos dois lados de seu rosto e chacoalhou para que ele respondesse. — Responde alguma coisa!
Noah estava atordoado demais para que respondesse, mas, ainda assim, conseguiu juntar forças para emitir um “Valeu” para seu amigo.
—NOAH! —Marcy berrou e ajoelhou-se ao lado do namorado, o qual abraçou sem se importar com o fato de ele estar encharcado. —Graças a deus!
A visão do menino começou a ampliar e ele pôde perceber que havia mais gente ali. Todos os convidados da festa. Eles estavam parados olhando para o menino. Alguns riam, outros não tinham expressão. Dentre a multidão, os garotos que o atiraram na piscina eram os que mais riam, berrando coisas que o perturbavam mais ainda.
Greg virou para os meninos e os encarou com ódio, mas isso deu em nada. Eles continuaram berrando o quanto Noah era trouxa e como deveria ser ótimo um boquete feito por sua namorada.
Os olhos de Noah encheram-se d’água e ele engoliu em seco. Estava tremendo e apavorado, além de com raiva.
—Noah...— Marcy falou, mas parou quando notou que o menino estava chorando. O que era quase imperceptível, pois as lágrimas misturavam-se com a água e seu nariz e olhos vermelhos podiam ser consequência de ter se afogado.
—Me tira daqui.— pediu o menino e pressionou seus lábios, o que fez seu queixo ficar cheio de furinhos, ele fechou seus olhos com força e levou a mão ao rosto, esfregando os olhos. —Por favor, me tira daqui.
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