As vicissitudes da vida
12 Arrependimentos
Existe algum dia pior do que um em que você é atirado numa piscina e, por não conseguir mexer as pernas, se afoga, tem que ser socorrido pelo melhor amigo, levado para a boda e ser encarado por dezenas de pessoas? Sim, existe. Sabe qual é? O dia seguinte, no qual precisa encarar todas aquelas pessoas na escola.
Noah não contou aos seus pais o que havia ocorrido, não queria que eles ficassem estressados e piorassem tudo. Do jeito que eles são, sua mãe ligaria para os parentes de todos naquela festa e explodiria em uma mensagem de raiva e diplomacia, enquanto que seu pai, que é mais de agir do que falar, caçaria cada garoto que fizera aquilo com seu filho e os mostraria como é ser um cadeirante.
Na volta para casa, dentro do carro, Noah não queria falar com ninguém. Ele ainda tremia sentado no banco da frente. Greg estava ao seu lado, dirigindo e, no banco traseiro, Marcy tentava acalmar seu namorado enquanto que Peggy estava desmaiada, vítima de um copo de Vodka.
Greg não foi direto para a casa de Noah, deu algumas voltas no bairro e decidiu parar em uma loja do Mc Donalds e pedir algo no Drive Thru. Ele queria tentar ajudar Noah a se acalmar, pois do jeito que conhecia o amigo, sabia que ele não iria gostar de ir para casa e encarar seus pais do jeito em que se encontrava.
Sem demora, os pedidos chegaram. Os sacos de papel pardo com desenhos de ofertas e coisas escritas que as pessoas só prestam atenção quando realmente estão entediadas exalavam um cheiro quente e delicioso de hambúrguer, molho especial e batatas fritas. O aroma era tão gostoso e poderoso que conseguira até mesmo acordar Peggy, que, quando viu o estado de Noah e soube o que acontecera, queria voltar lá na festa e esmurrar os imbecis que fizeram aquilo com ele.
Todos comeram BigMcs e tomaram coca-cola com o carro parado no estacionamento do posto de gasolina. Quando terminaram de comer, Noah estava mais calmo e não tremia mais. Marcy secara o garoto com uma blusa que encontrara no carro de Greg, mas suas roupas permaneciam úmidas. O menino mal tinha engolido o último pedaço do hambúrguer, quando falou:
—Vamos dizer aos meus pais que a festa foi na piscina.
E assim aconteceu. Eles chegaram na casa de Noah e estacionaram na garagem. Greg tirou a cadeira do carro e ajudou o menino a sentar-se nela. Então, ambos seguiram na direção da porta, deixando Peggy e Marcy dentro do carro. Greg também estava molhado, o que fortaleceria a ideia de festa na piscina.
—Boa noite, Senhora Martins —Disse Greg. A mulher pareceu se assustar ao ver as roupas dos meninos molhadas, mas nem teve tempo de perguntar o que tinha acontecido.
—Festa na piscina. —Noah Prontificou-se dizer.
***
Na manhã seguinte, o garoto estava gripado. Mirian chegou em seu quarto para acorda-lo, como fazia todas as manhãs, e o encontrou espirrando, sentado na cama. Como não contara a verdade a sua mãe, Noah não pôde faltar a escola. Mirian era super protetora, mas não admitia que um resfriado fosse motivo de faltar ao colégio —ainda mais no meio do ano letivo.
A mãe dera ao menino uma colherada de xarope sabor framboesa e então o ajudou a vestir-se para o colégio. George chegou poucos minutos depois, a cara amaçada e as roupas amarrotadas, como se ele tivesse acordado, mas acabado dormindo de novo.
—E aí, garotão! Pronto para mais um dia de aula?
—Você não faz ideia...
Seu pai o levou de carro até o colégio e, como de costume, ele seguiu pelo caminho de cimento que cortava o jardim da escola.
Noah se sentiu como no primeiro dia de aula pós acidente. Todos revezavam entre olhar para ele e cochichar —alguns até riam descaradamente. E por isso, mais uma vez, o menino estava com a intensa vontade de sumir.
Quando rolou as rodas de sua cadeira para chegar ao topo da rampa, Noah deparou-se com um dos garotos que o atirara na piscina no dia anterior, Rock. Ele não parecia nada com o bêbado delinquente e insano no dia anterior. Ao ver o cadeirante começar a entrar pela porta da frente, o garoto virou-se para a fileira de armários e abriu uma das portas de metal, enfiando sua cara ali dentro.
Com os olhos fixos em Rock, Noah prosseguiu pelo caminho e virou o corredor mais próximo, direcionando-se para seu armário. Sua cabeça estava levemente arriada e seu rosto virava para o lado toda vez que notava estar sendo encarado —Ou seja, a todo o momento.
Como se fosse um presente de Deus, o sinal tocou e os alunos seguiram para suas aulas, deixando Noah sozinho no corredor. Ele estava em frente ao seu armário, quando ouviu passos apressados batendo no piso do chão do corredor. Quando virou-se para o lado com os livros na mão, quase os deixou cair quando viu quem era. Outro dos meninos, Arthur, o que, particularmente, pareceu ser o mais agressivo naquela noite. Noah quis se atirar dentro de seu armário.
Arthur virou o rosto na curva do corredor, encontrando Noah, e ambos se encararam com olhares surpresos e assustados. O garoto sabia o que fizera no dia anterior e sabia o que dissera.
—Noah...— Arthur começou a falar quando deu alguns passos na direção do garoto.
Noah não sabia o que responder, então ficou quieto. Apenas deixou os livros sobre seu colo, afastou a cadeira do armário e o fechou. Manobrou sua cadeira para que seguisse na direção oposta à do menino e rolou as rodas com pressa.
—Calma! Espera! —Pediu Arthur e apressou o passo para alcançar o menino. Com uma corridinha, ele conseguiu chegar até Noah e segurou no Guidom de sua cadeira, o fazendo parar. —Eu só quero pedir desculpas.
—Pelo o quê? A humilhação ou quase ter me afogado?
—Os dois... olhe, eu estava sob efeito do álcool, o que eu disse não era verdade...
— O álcool não coloca palavras na sua boca. Só o faz cuspir o que realmente quer dizer. — Noah tentou fazer sua cadeira sair do lugar, mas foi inútil. O Arthur era bem mais forte do que ele.
— Eu... quer dizer... — Arthur abaixou a cabeça e, então, balançou, como se concordasse com algo que está pensando. — Olha, eu realmente estou arrependido do que fiz, mas o que eu disse sobre Marcy... você precisa saber que...
—O que está acontecendo aqui? —A voz de Greg ecoou no corredor e o garoto caminhou até os dois em passos pesados. —Não basta atirar meu amigo na piscina, agora está o perturbando no corredor da escola? —Ele exclamou.
Arthur deu um passo para trás largando o guidom da cadeira de Noah. Greg parecia exercer uma forte influência sobre todos naquela escola —ao menos enquanto estavam sóbrios. Não era difícil vê-lo falando um pouco mais alto para conseguir as coisas que queria. Ele era tipo o soberano naquela escola e isso era por conta de seu histórico de brigas e vitórias invictas.
—Eu... eu... só estava me desculpando.
—Ele está te perturbando, Noah? —Disse Greg ao passar pelo garoto e ficar frente a frente com Arthur, agarrar sua blusa pela gola e erguer o braço. Cerrou seus punhos e esperou um “Sim” para poder amaçar a cara do garoto com um soco.
Noah não respondeu. Apenas seguiu empurrando as rodas de sua cadeira corredor adentro e sumindo em uma curva próxima.
Greg virou o rosto para ver seu amigo e, ao não receber respostas, empurrou Arthur para trás, que lutou para manter o equilíbrio, e apontou para ele.
—Chegue perto dele de novo e arranco todos os seus dentes da boca.
***
—Que merda, hein?
—Pois é.
—E engoliu muita água?
—Um pouco. Mas meu melhor amigo me salvou.
Noah estava na fisioterapia. Matheus, em frente a maca onde o menino deitava-se, movimentava as pernas dele para cima e para baixo em exercícios que ele estava pra lá de cansado de fazer.
Por algum motivo, não teve problemas em falar sobre o incidente com Matheus. Os dois tinham um bom entrosamento e, por isso, conversar com ele era algo bastante fácil.
—Sorte sua ter um amigo para te resgatar. E os garotos?
—O que tem eles?
—Os viu hoje?
—Sim. Vi dois deles. Não pareciam nada com ontem, pareciam arrependidos.
—Esse é o poder do álcool, meu amigo.
Noah levou as duas mãos atrás da cabeça e as usou como travesseiro, enquanto observava Matheus fazer-lhe os exercícios.
—Já ficou bêbado? —Perguntou Noah.
Matheus fez que sim.
—É difícil ficar sóbrio e fazer faculdade ao mesmo tempo. Se não são as festas que te atraem é o estresse e a frustração que te obrigam.
—E como vai o...
—Antony? Muito bem, obrigado. Deve estar na faculdade agora, ele tem prova.
—Entendi...
Matheus largou as pernas do menino sobre a maca.
—É só isso? —Perguntou Noah.
—Hoje sim. Vou ter que sair mais cedo também, tenho algumas coisas para resolver. Vou chamar o seu pai.
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