As vicissitudes da vida

16 As vicissitudes de outrem: Vitor Pillman


Era dia primeiro de dezembro, uma terça feira, e Noah acordava para ir à escola. Seu dia seria como a maioria dos outros. Depois da escola, iria para a fisioterapia. Da fisioterapia para a casa e, depois, ficaria de bobeira conversando com os amigos pelo notebook. Por esse motivo, desta vez, focarei em uma outra pessoa. Vitor Pillman. O pequeno jovem que fora flechado pelo cupido e está completamente apaixonado por Peggy, nossa doce —e às vezes estranha — garota oriental.

A primeira coisa que se deve saber sobre Vitor é que ele não vivia só nesse mundinho de querer pegar Peggy (isso soou engraçado). Quando chegava em casa, a coisa era bem diferente. Uma outra realidade. Seus pais se divorciaram quando o garoto era mais novo e isso desmoronou por completo a relação que aquela família tinha. Talvez tivesse sido a melhor coisa a fazer, pois as brigas chegavam a ser perturbadoras e, algumas, acabavam com a polícia batendo na porta da casa.

A mãe de Vitor se chamava Vanessa Pillman. Uma mulher inteligente, bela e esforçada. Depois de romper seu casamento, foi morara com sua mãe, a avó de Vitor, e ficou lá por alguns meses até conseguir alguma casa para se mudar. Ela conseguiu a guarda das crianças depois de um turbulento processo judiciário. Vanessa sempre tentou ser a melhor mãe possível, mas, sozinha e tendo de sustentar dois filhos sem pensão, pois o ex-marido se recusava a pagar, ela entrou em depressão. Precisou de acompanhamento médico e até mesmo de tomar remédios, até que se estabilizou novamente. No entanto, não por muito tempo. A sanidade da mulher tinha seus altos e baixos.

O pai do menino atendia pelo nome de Stuart Pillman. Ele vinha de uma linhagem de militares e sua profissão não podia ser diferente do que soldado. Pillman serviu muitos anos no exército dos estados unidos e teve muitos momentos de glória ali. Mas, quando chegava em casa, não possuía a mesma honra que no campo de batalha. Era um homem machista, preconceituoso e homofóbico. Tenho certeza que aquele cara só não era racista porque era negro. Stuart gostava de mostrar quem era que mandava na casa. Não permitia que esposa e filha usassem vestimentas acima dos joelhos e muito menos admitiria que seu filho fosse gay. Um dia, quando Vitor tinha menos de oito anos, seu pai olhou no fundo dos olhos dele e disse que, caso ele crescesse e virasse homossexual, ele o mataria. A aparência, os gostos e a voz aguda do menino não ajudavam muito a esquivar da paranoia do pai.

Vitor também tinha uma irmã. Laryssa Pillman. O garoto costumava a chamar por outros nomes, como demônio ou capeta, e isso era porque a garota vivia para atormenta-lo. Ela tinha a mesma idade de Noah e cursava a mesma série, no entanto, em um colégio diferente. A mãe deles achou que seria melhor assim, já que, por onde se esbarrassem, havia discussão. Mas nem sempre fora assim. Houve uma época em que os dois se davam muito bem. Como deve estar pensando, isso foi antes do rompimento dos pais.

Naquele dia, ao chegar na escola, Vitor caminhou pelos corredores de cabeça baixa. Ainda estava um pouco chateado com seu fim de semana. Ele fora visitar seu pai junto de sua irmã e, como sempre, não foi nada bom. Seu pai o pediu o telefone e o vasculhou em busca de indícios de "gayzicea". Por sorte, o menino apagara todas as imagens que poderiam o fazer levar uma surra. Já acontecera uma vez e ele não queria apanhar de novo. Sua irmã não ajudou no fim de semana também. Sempre que possível, aproveitava algo que o pai falava para atingir o garoto.

Ao chegar em seu armário, ele errou a senha duas vezes. Era normal de acontecer. Quando acertou, tirou seu livro de biologia e atirou ali dentro sua mochila. O interior do armário do menino era bem enfeitado. Fotos de alguns amigos, principalmente de Yasmim, de alguns cantores, como Katy Perry, e alguns desenhos mal feitos de roupas. O garoto tinha um grande afeto pelo mundo dos famosos, das roupas, das músicas e de outras coisas que rodeassem o mundo pop. Vitor enfiou o livro debaixo do braço e fechou a porta do armário, encontrando, de repente, Yasmim parada ao lado dele com um sorriso gigantesco e mãos juntas frente ao corpo.

—Bom dia! — Ela exclamou, radiante.

—Bom dia. —Respondeu Vitor, não tão radiante.

—Não parece ser um bom dia. — A menina torceu o nariz. Ela sabia dos problemas de Vitor. Considerava-se a psicóloga do rapaz. —Ainda encucado com o fim de semana? Olha, não fica assim, é só esquecer.

—Não é só esquecer, Yasmim. É mais complicado do que isso... — Vitor respirou fundo. — Como se já não bastasse os idiotas do fundo da sala todos os dias, tenho que passar os únicos dois dias sem eles com outras duas ainda piores! Eu já falei que minha mãe que não queria voltar a ver o papai... mas ela nem me ouve.

Yasmim deu um passo para frente e abraçou o garoto, dando dois tapinhas nas costas dele e o chacoalhando de um lado para o outro.

—Pronto, pronto... passou...— Ela se afastou e segurou seus ombros. — Vai dar tudo certo. Se quiser, posso fingir ser sua namorada e você me leva pra conhecer seu pai. Aí, ele vê que você não é gay e te deixa em paz. É uma ótima ideia.

Vitor conseguiu abrir um sorriso.

—Valeu, Mym, mas tenho planos de levar outra pessoa para que ele conheça.— Vitor seguiu pela direita da menina, indo para a sala de aula. Indignada, Yasmim o seguiu a passos pesados.

—Como assim outra pessoa?! Quem poderia ser uma melhor namorada de mentira que a melhor amiga?! Eu beijo bem! Sério! Nunca reclamaram!

—Talvez porque nunca tenham te beijado?!

—Quem disse?! Já me beijaram sim! — Yasmim ergueu as sobrancelhas e cruzou os braços.

—Ah, é? Quem?!

—Ahn... o... o cara do acampamento.

—Yasmim... eu fui em todos os acampamentos que você foi e fiquei colado com você a todo o momento em todos... até pra ir no banheiro!

—Oh! Oh! Oh! Em minha defesa, eu tinha medo que ursos tentassem me atacar enquanto fazia xixi! Por isso te pedia pra ficar na porta.

—E eu nunca vi você beijando nenhum "cara" — Vitor prosseguiu.

—Tá legaaaaaaal, tá legaaaaal! — Yasmim puxou vitor e o fez parar. — Pode até não haver relatos de que eu beijo bem, mas também não tem boatos de que eu beijo mal. Ah, qual é! Deixa eu ser sua namorada de mentirinha! Seu pai vai adorar! Até te chamo de "Mô" e "Vida" na frente dele.

—Yasmim!— Vitor ergueu as mãos e segurou nos ombros da menina, olhando bem nos olhos dela. — Eu não quero que você seja minha namorada de mentira porque eu vou levar uma namorada de verdade. Peggy! Lembra? A japonesa? Ainda vou conquista-la!... E, talvez, eu até aceitaria sua proposta SE você não faltasse tanto. — O garoto virou-se e seguiu andando.

—Não é culpa minha se o despertador tem vida própria e me acorda quando quer! Hei! Vitor! Volta aqui!

***

Mais tarde no mesmo dia, os dois foram para o intervalo. Yasmim estava cheia de fome e, Vitor, cheio de bad.

—Não acredito que você ainda não melhorou. — Falou Yasmim enquanto desfrutava de seu delicioso pudim. Eles estavam sentados em um canto no pátio do colégio. Para a sorte deles, o horário de intervalo voltara ao normal e os recreios eram divididos. — Quer um pedaço do meu pudim?

— Não é fácil assim se recuperar dessas coisas. — Vitor abocanhou seu sanduiche e seguiu falando de boca cheia. — Você tem sorte. Seus pais não são separados e ainda te deixam dormir caso o despertador não te acorde. Eu invejo isso.

A menina não respondeu, estava enfiando uma colherada farta de pudim em sua boca.

—Minha vida não é perfeita! — Ela disse de alguns segundos.

—Mas é muito melhor que a minha... — Suspirou Vitor, mordendo seu sanduíche sem muita vontade.

Vendo a baixa autoestima do menino, Yasmim deixou seu pudim sobre a mesa e arrastou-se até ficar do lado do menino, para que pudesse o abraçar de lado. Ela só fez isso. Envolveu o garoto com os braços e apoiou sua cabeça na dele, fechando os olhos. Antes que pudesse falar algo, alguém disse.

—Não é que o vitinho é machinho mesmo? Está até de namoradinha.

Vitor levantou os olhos e encontrou, em sua frente, um grupo de garotos. Eles eram os "caras do fundo" de sua sala. Se achavam o máximo por terem quinze anos e corpo de dezoito. Infelizmente, seus cérebros não eram tão desenvolvidos.

—Ou será que é só fachada?! —Exclamou um outro antes de uma risada eclodir em seu rosto.

—Nos deixem em paz, seus idiotas! — Berrou vitor e balançou suas mãos como se espantasse cachorros de rua.

—Ai, ai... isso é tão clichezinho. Garotos grandes de mentes pequenas querendo mostrar seus corpos e músculos. Tentem ser menos seriado da Disney, por favor?!— Yasmim revirou os olhos.

—Cale a boca, maritaca! Fica defendendo seu namoradinho de mentira! Todos sabemos que ele gosta de queimar rosca.

—Não gosto, não! — Vitor estressou-se. O menino tinha um temperamento muito forte e facilmente era ofendido por insultos. Isso o tornava o alvo preferido de chacota daqueles covardes.

—"Não gosto, não" — Um dos garotos afinou sua voz para imitar a de Vitor, o que o deixou mais irritado ainda.

—Não ligue para eles, Vitor. Só são uns macacos exibindo a bunda para a plateia. Vamos sair daqui. — Yasmim falou e levantou-se, puxando o amigo junto a si.

—Isso mesmo. Vai com a amiguinha. Tenho certeza que vão para trás da escola fazer a unha e o cabelo para ir a um encontro com dois machos. Use camisinha, vitinho!

"Chega!" Pensou Vitor.

O garoto soltou-se das mãos de Yasmim e pegou seu sanduíche sobre a mesa, o atirando direto no rosto do garoto que dissera a última chacota. Ele, então, usou o banco como degrau e subiu na mesa, logo voando em sobre o mesmo e o empurrando para trás, até que caísse de costas no chão.

—Vitor! —Yasmim gritou, mas era tarde demais.

Como pombos que esperam por migalhas, os outros alunos levantaram-se para olhar melhor o que acontecia. Vitor ainda estava em cima do garoto, lhe desferindo socos pelo rosto. Quando finalmente recuperou-se da queda, o grandalhão deu um giro, fazendo Vitor cair no chão e o ponto sobre o mesmo.

Yasmim correu para ajudar o menino, mas não conseguiu chegar até ele. Um outro garoto a afastou para que não interferisse.

—Então quer brigar, Pillman? Tudo bem! — Falou o garoto enquanto Vitor resmungava da dor nas costas. Aquele menino não parecia assustado ou irritado pelos socos que levou. Seu olhar era de excitação, como se sentisse prazer naquilo. Como se já esperasse que Vitor perderia o controle e iria para cima dele.

Eu não chamaria o que aconteceu ali de briga. Chamaria de massacre. Vitor mal teve a chance de defender-se de tantos socos. Todos direcionados ao seu rosto. A briga teve fim dois minutos depois do começo, quando alguns professores e o diretor chegaram. Foi um curto período de tempo, mas foi o suficiente para fazer estrago. O garoto tinha marcas por todo o rosto. Uma mancha roxa em um dos olhos, que não conseguia abrir direito, sangue escorrendo de uma de suas narinas e um lábio cortado. Quando tudo terminou, o garoto estava apagado. Teve que ser levado para a enfermaria às pressas.

Ao acordar, foi abrindo seus olhos lentamente, sentindo uma dor enorme em um deles. O menino tentou levantar-se, mas a voz de Yasmim o repreendeu.

—Sossega o facho aí! Não pode se levantar. — Ela foi até ele e o deitou ali de novo.

—O que aconteceu? —Perguntou Vitor. Ele também notou que seus lábios ardiam quando se mexiam. Assim como suas bochechas e até mesmo sobrancelhas.

—Você... — Yasmim pensou em responder, mas não conseguiu completar.

Vitor olhou ao redor, encarando as paredes cheias de pôsteres de partes do corpo humano, frases como "escove bem os dentes" e prateleiras com palitos de picolé.

—Eu virei saco de pancada...— Falou o próprio menino.

—É...

A mão do menino seguiu até o rosto, onde tocou.

—Ai... —O garoto reclamou pela dor. — Está muito feio?

Yasmim olhou para o rosto de Vitor e abriu um sorriso de lado, fazendo que não.

—Até que não... — Ela mentiu. Estava feio sim. Com o passar do tempo, o rosto do menino arroxeou e inchou bastante.

—Você mente muito mal. — Vitor até tentou sorrir, mas nem se deu o esforço. Sabia que iria doer. — E o que está acontecendo agora?

—Ahn... Bom, o idiota foi levado à sala do diretor. Acho que foi expulso, mas não tenho certeza... sabe como essa escola é. — Yasmim respirou fundo e revirou os olhos. — E sua mãe chegou há alguns minutos.

—Minha mãe?! — Vitor sobressaltou-se, sentando-se na cama.

—Oh! Vai com calma!

—Minha mãe está aqui? Não, não pode!—O garoto respirou fundo. —... Eu estou ferrado.

—É... nisso eu não posso mentir.

Yasmim foi à enfermeira e avisou que Vitor tinha levantado. A mulher bondosa de sorriso solitário chegou à sala e fez algumas perguntas ao menino, no fim, passando-lhe alguns medicamentos que poderia usar para melhorar aquilo e dando-lhe dicas, como: "Não procure brigas... Mas, se realmente quiser arranjar briga, procure com alguém que não tenha o dobro do seu tamanho".

Juntos, os dois adolescentes saíram da enfermaria e caminharam pelo corredor vazio da escola. Vitor olhou no relógio de uma parede e percebeu que o horário de aula já tinha acabado. Eles chegaram à porta da sala do diretor e ouviram a voz da mãe de Vitor. Yasmim estava prestes a bater na porta, mas Vitor segurou sua mão. Quando ela olhou para ele, o garoto colocou o dedo indicador em frente aos lábios, pedindo silêncio.

—Mas ele não é assim... Ele é calmo... você pode ver isso só olhando para ele. — Aquela era a voz da mãe dele. Estava um pouco estranha, talvez por causa de choro.

—Eu sei, senhora. Nunca tive problemas com seu filho. —Agora era o diretor. — E ele me parece ser um ótimo rapaz... Mas... talvez, alguma coisa esteja o afortunando para que ele pudesse agir da forma que agiu. Está tudo bem em sua casa? Temos um bom psicólogo na escola.

—Sim. Está tudo bem, sim. — Ouviu-se uma fungada e uma cadeira arrastar. — Obrigado e desculpa, mas eu tenho que ir.

Vanessa era orgulhosa, algo que Vitor puxou. Ela não aceitaria esse tipo de ajuda e não gostava de contar seus problemas para qualquer um. Se sentia desconfortável até mesmo com sua própria psicóloga.

A mulher andou até a porta e Vitor afastou-se rapidamente, mas não conseguiu evitar de ser pego. Quando Vanessa viu o estado de seu filho, deu para perceber a dor nos olhos. Um soluço a fez arquear as costas e ela o puxou para um abraço apertado, não se importando se o machucaria ou não. Para a sorte dele, não dou.

—Você é doido ou o quê? Arrumar brigas?! — A voz da mulher estava escandalosa e algumas lágrimas escorriam pelas bochechas dela. Yasmim, quando viu a mulher, afastou-se em alguns passos. — Eu te daria uma surra se você não estivesse tão... ai, meu deus, o que aquele garoto fez com você? — Ela, agora, soluçava tanto que suas palavras não saíam claras

Vitor permaneceu em silêncio, chorando. Quando a mulher finalmente conseguiu segurar-se, secou as lágrimas e deixou rastros de sua maquiagem estragada. Ela esticou a mão e passou o dedo de leve no canto dos olhos do filho.

—Vamos para casa... Agora.

E como se ignorasse yasmim, a mulher partiu arrastando seu filho junto a si. Vitor até tentou despedir-se, mas ficou difícil. Yasmim ficou sozinha, logo depois indo embora de bicicleta.

Dentro do carro, mãe e filho ficaram em silêncio por todo o caminho de volta para casa. Vanessa estacionou o carro na garagem e duas portas se abriram, fechando juntas. A mulher entrou em casa e deixou a porta aberta, pela qual vitor entrou e fechou, subindo as escadas. Ao passar pelo corredor, ouviu uma voz.

—Bela maquiagem. — Era Laryssa.

Dessa vez, Vitor não ligou. Ele simplesmente ignorou e seguiu no caminho do banheiro, onde tomou um banho demorado e dolorido. Saindo, foi ao seu quarto e vestiu roupas largas para que, quando sua cabeça passasse na gola, não tocasse em seu rosto.

O menino desceu as escadas novamente e caminhou até a cozinha. Sua casa não era a que mais enchia os olhos, mas ele gostava de lá. Era toda em madeira. Móveis e paredes. A fachada tinha a coloração branca, mas descascava pelo tempo sem pintar.

Chegando, o garoto seguiu até a geladeira e tirou uma garrafa de leite, levando até a mesa. Tirou um copo do armário e colocou ao lado, sentando-se em uma cadeira. Ele encheu o copo de leite e o encheu até próximo da margem, o entornando na boca de uma só vez.

Passos aproximaram-se por trás do menino e ele sentiu uma mão tocar seu ombro. Logo depois, sua mãe sentou-se em uma cadeira ao seu lado e ficou encarando o garoto por alguns minutos. Era possível ver a angústia atormentando-a só pelo modo que ela o olhava. Toda mãe sente a dor de seu filho em dobro.

—Mãe... — Vitor tentou falar, mas não sabia muito bem o que dizer. — Desculpa...

A mulher deslizou sua mão até o rosto do garoto e tocou sua bochecha, o que fez Vitor chiar por conta da dor. Ela, então, engoliu o que parecia ser o início de um choro e abriu um sorriso de lado. Era tão forçado que dava para ver todas as linhas de expressão de seu corpo, como se lutasse contra a mentira estampada na cara dela.

—Está tudo bem, querido... está tudo bem... Você vai ficar melhor. Vai sarar. — Ela balançava a cabeça enquanto dizia. Sua voz era rouca. — Mas... por que fez aquilo? — Saiu quase como um sussurro. — Por quê?

Vitor abaixou seu olhar e fitou o chão. Ele não queria falar, mas sua mãe sempre sabia quando ele mentia. Era inútil tentar.

—Estavam falando que eu era gay... e que Yasmim era minha namorada de fachada... — O beiço do garoto tremeu e seu nariz avermelhou-se. Ele também segurava o choro.

—Querido... Sei que pode ser duro para você, mas não vai ser assim que vai conseguir resolver as coisas... Poderia contar para mim e eu iria na escola resolver.

—Não iria nada... — O menino comprimiu os lábios, sentindo a ardência. Ele segurava um nó em sua garganta que, se subisse, o faria desabar. — Eu te falo sempre do papai... que não quero mais ir vê-lo... mas você nunca me escuta. Por que escutaria que um monte de meninos fica zombando de mim?

—Por que eu sou sua mãe e ele é o seu pai. Seu pai precisa ver seus filhos.

—Mas ele é mal. E nem ajuda nem nada. Não devemos nada a ele, mãe. Nada. — O nó em sua garganta estava cada vez maior. Aquilo o sufocava, deixava sua respiração mais difícil. Vitor tinha experiência em segurar choros, mas, particularmente, daquela vez, estava sendo mais difícil. E não parecia ser só para ele.

—Filho...

—Eu sei que a senhora trabalha muito. — Ele prosseguiu. — sei que faz tudo para nos sustentar... Sustentar essa casa... pagar contas... Tem seus problemas. Você ainda toma os remédios de depressão e não quero que volte a ficar mal. Mas, mãe, eu também tenho meus problemas. E um deles é o papai. Por favor, não me faz mais ver ele. Por favor.

Vitor levantou seu rosto. O nó tinha subido e o as lágrimas do menino não paravam de eclodir. Seu rosto estava desfigurado pela expressão do choro e dos machucados. Em sua última frase, Vitor não tenha mais voz para falar direito. Saiu de um modo arrastado e sofrido.

A mulher não soube o que dizer, só chorou. Ela o puxou para mais perto e o abraçou. Seu corpo balançava sendo conduzido pelos soluços do choro.

—Vitor... Desculpa. —Ela respirou fundo, fungando, e acariciou seus cabelos. — Você não vai mais vê-lo. Eu não vou deixar que ele chegue perto de você nunca mais, eu prometo.

O garoto a apertou. Tentou dizer-lhe um obrigado, mas não saiu. Só saíra lágrimas. —Eu prometo.