As vicissitudes da vida

17 As vicissitudes de outrem: Yasmim Vandergeld


Uma coisa que eu, como narrador da história que estão lendo, aprendi com as pessoas que envolvem essa trama foi que não existe pessoa perfeita. Todos possuímos defeitos, todos temos problemas. Não importa o nível ou o gênero. Não importa onde nem quando. Algumas são abertas e têm a coragem de falar com alguém sobre eles, como Vitor. Outras não são bem assim. Sentem vergonha de suas vicissitudes e escolhem o caminho das máscaras, escondendo seus problemas em sorrisos e em uma personalidade alegre. A história que vão ler agora é a de uma pessoa que escolheu acolher o segundo caminho para si e aguentar a dor calada. Essa é a história de Yasmim Vandergeld.

O primeiro problema a destacar de Yasmim é sua saúde. A menina nasceu prematura de sete meses e meio e sofreu muito nas primeiras semanas de vida. Respirava por máquinas e não podiam tirar o olho dela por nada. Precisou de cirurgias no coração e no pulmão para que conseguisse alcançar expectativas de que sobreviveria. E ela conseguiu, sobreviveu. Mas teve sequelas de tantas cirurgias e problemas quando bebê. Sua mãe falava que ela estar viva era um milagre.

Listarei todos os problemas relevantes que Yasmim tem em sua saúde:

Insuficiência respiratória;

Insuficiência cardíaca;

Imunidade baixa;

Asma;

Bronquite;

Problemas de atenção;

O segundo problema a destacar tem ligação com o primeiro. Yasmim tem dificuldade em aprender. Ela possui dois pais professores, Lanna e Robert Vandergeld. Ambos dão aulas em escolas muito bem avaliadas e, para eles, sua única decepção, como mestres, foi não conseguir fazer de sua própria filha um gênio, como seu irmão mais velho. Yasmim tentava de verdade entender as matérias, mas elas simplesmente não entravam em sua cabeça. Obviamente, senhor e senhora Vandergeld sabiam do problema da menina, mas eles, principalmente Lanna, não aceitavam ter uma filha burra. Eles continuavam e continuavam empurrando lições dentro da cabeça da menina, o que a deixava bastante deprimida e, muitas vezes, a fazia chorar.

—Mas, mamãe, eu não estou entendendo. — Esse episódio acontecera no quinto ano do fundamental. Yasmim era a única aluna de sua turma que não conseguia fazer contas de dividir e de multiplicar. Ela usava todos os seus dedinhos para contar, mas isso não ajudava muito.

—Como não?! É fácil e eu já te expliquei mais de mil vezes! Vamos! Quanto é três vezes sete? — Sua mãe, Lanna, estava com as mãos apoiadas sobre a mesa e olhava furiosa para sua filha. Ela queria resultados. Queria que a menina aprendesse. Mas ela tinha um processo lento e isso Lanna não queria. —Anda!

—É... É... — Yasmim olhou para seus dedos, procurando a resposta, mas, ao ver que ela não estava ali, seus olhos começaram a encher d'água e logo ela já não conseguia enxergar nada. As lágrimas desciam pelas bochechas, caindo de seu rosto sobre seu vestidinho lilás. —Eu não sei, mamãe. Desculpa. Por favor, não fica zangada.

—EU CANSEI! ROBERT, É SUA VEZ! — A mulher seguiu para a cozinha com as mãos na testa e, lá, explodiu com o marido, que tentava acalma-la.

—Acalme-se, querida. Ela vai pegar. Com o tempo, ela aprende.

—Ela está no quinto ano e quase não sabe multiplicar! Robert! Isso é inaceitável! Eu não quero uma filha burra!

—Lanna! Acame-se! Ela vai aprender. Não se preocupe, está bem? Eu vou lá, falar com ela. Talvez consiga fazê-la aprender, você coloca muita pressão sobre a menina.

Robert passou pela porta da cozinha, mas, ao chegar no cômodo de estudos, não encontrou a filha. Aquela foi a primeira vez que Yasmim fugiu. Mesmo com pouca idade, ela já sofria bastante com a reprovação de Lanna. Não queria que sua mãe tivesse uma filha burra tanto quanto a própria. Então, a menina simplesmente correu para a porta da frente, a abriu e saiu correndo pela rua enquanto chorava.

—Yasmim? — Robert chamou, mas não houve resposta. Ele subiu as escadas e procurou no andar de cima. Perguntou ao seu filho mais velho se tinha a visto, mas a resposta foi não. Quando desceu, encontrou Lanna, bebendo um copo de água na cozinha. — Yasmim sumiu, deve ter ouvido nossa conversa.

Foram cinco horas procurando a menina por todos os quarteirões da vizinhança, até que, enfim, foi achada. Ela estava encolhida em baixo de uma árvore no parque do bairro. Seus pés e vestido estavam sujos de lama. Seu rosto, vermelho de tanto chorar.

Quando viu o estado da filha, Lanna sentiu-se tão culpada que prometeu nunca mais gritar com ela e a abraçou com força. Certamente, não era a intenção da mulher mentir, mas o que ela prometeu não foi cumprido.

O terceiro problema de Yasmim são seus vícios. Ela tem um gosto muito forte pela cultura japonesa. A menina vive e respira pop coreano, desenhos japoneses e outras coisas desse universo Otaku. Seus pais deram a liberdade de ela poder interagir sem restrições com essas coisas, pois a deixavam mais calma. Porém, essa liberdade acabou se tornando um malefício. Tanto para o problema 1 quanto para o problema 2.

Os problemas de saúde da menina têm muita ligação com seus sentimentos. A primeira vez que fugiu de casa trouxe muitas outras primeiras vezes, como a primeira vez internada, a primeira vez que faltou tantos dias na escola, a primeira vez que quase morreu. Então, quando se emocionava muito interagindo com seu mundinho de fantasia, seu corpo era afetado. Sua imunidade baixa também não ajudava muito, pois a menina se trancava no quarto e só saía depois de horas. Mal comia ou estudava. Depois de passar anos tentando entender matérias escolares, Yasmim concluiu que tentar aprender era mais difícil do que simplesmente não tentar. Por isso, tornou isso uma Doutrina. Ela desistiu de aprender.

O quarto e penúltimo problema a ser citado é seu irmão. Mackenzie Vandergeld. Quer dizer, ele não era exatamente um problema. Era um ótimo garoto, um menino genial e tratava sua irmã muito bem. O único problema é a parte do "genial".

Você sabe o que é viver nas sombras de alguém? Não importa o que faça, a outra pessoa consegue e vai fazer melhor. Não importa, por exemplo, se Yasmim conseguiu decorar a tabuada inteira no sexto ano se, com dezessete, Mackenzie passou em medicina em uma ótima universidade dos Estados Unidos.

E, finalmente, o último problema de Yasmim...

O dia primeiro de dezembro foi bastante turbulento. Não só para Vitor, mas também para Yasmim. Assistir o melhor amigo sendo espancado bem em sua frente e não conseguir fazer algo a fez sentir-se inútil e muito infeliz. Quando tudo havia acabado, Yasmim seguir correndo os professores que levaram Vitor para a enfermaria e ficou com ele por todo o tempo, sentada em um banquinho.

Ela olhava fixamente para o rosto machucado do garoto e suspirava, cada vez com mais dificuldade. Antes que pudesse perceber, ela já estava sentindo falta de ar.

A menina deitou suas costas na parede e fechou os olhos, tentando regular sua respiração. Seu coração acelerou e ela pôde sentir as palpitações, o que a deixavam mais nervosa ainda. Yasmim olhou para o lado, em busca de socorro, mas a enfermeira não estava ali no momento.

A visão da garota começou a ficar turva e sua cabeça a latejar.

"Se acalme, Yasmim... Se acalme..." Ela falou para si mesma e fechou os olhos. Puxou o ar pelo nariz, enchendo os pulmões, e o liberou pela boca bem devagarinho. Assim como o mal-estar veio, ele foi embora. Sorrateiramente. Quando ela abriu os olhos, já estava tudo bem novamente e, para sua alegria, notou que Vitor havia acordado e tentava se levantar.

Quando fora deixada para trás pela mãe de Vitor, Yasmim os observou ir embora por algum tempo. O diretor saiu de sua sala logo depois e colocou a mão no ombro da menina. Os pais de yasmim e ele eram bons e velhos amigos.

—Quer que eu te leve para casa? — Ele perguntou, gentilmente.

—Não, senhor Hudson. Muito obrigado, mas estou com minha bicicleta. —Essa foi a resposta da menina.

—Tem certeza? Foi bem intensa a situação no refeitório, acho que seria...

—Senhor Hudson, eu estou bem — A menina abriu um sorriso de lado e caminhou para trás enquanto ainda falava com o homem. —Eu estou maravilhosamente bem, certo? Não aconteceu nada e não vai acontecer, confia em mim.

Yasmim, então, virou-se para trás e caminhou no sentido da porta de saída da escola. Ela olhou ao redor e encontrou sua bicicleta trancada com uma corrente e um cadeado em uma das grades da escola. Descendo as escadas, a menina caminhou até seu veículo de transporte e o destrancou, logo subindo nele e dando impulso com os pés para que, finalmente, pedalasse pela rua.

Enquanto seus pés desciam e subiam junto aos pedais, a menina ficava olhando para a frente e balançando a cabeça de um lado para o outro enquanto cantarolava uma música qualquer em japonês. Com o passar do tempo, sua cabeça balançava de um jeito mais devagar, até parar, assim como a música. Ela havia mentido para Senhor Hudson. Ela não estava bem. E mentiu também quando pediu que confiasse que não aconteceria nada.

Vitor era uma das pessoas mais importantes para a menina, ela o conhecia desde o quarto ano e, desde lá, eles não se largavam por nada. Era horrível para ela mentir sobre seus problemas e escondê-los dele, mas preferia que ele não soubesse que era ela uma bomba relógio. Oras estava muito bem e oras mal para caramba.

As pedaladas tornaram-se nostálgicas, a mantendo em transe. Yasmim olhava para a frente, mas não enxergava o que via e sim o que acontecera no refeitório. As cenas iam mudando rapidamente, o que começou a sufoca-la e a deixar zonza novamente. Ver a senhora Pillman do jeito em que se encontrava ao sair da sala do diretor era algo deprimente. Aquela mulher era tão boa, por que precisava sofrer tanto? Vitor era tão bom, por que precisava sofrer tanto? .... Yasmim era tão doce, por que precisava sofrer tanto?

A menina perdeu o controle da bicicleta, adentrando a calçada e parando na grama de alguma casa. Por sorte, ela conseguiu evitar uma queda. Colocou os pés no chão e saiu de cima da bicicleta. Zonza, tentou equilibrar-se, mas, com alguns passos tortos para o lado, caiu na grama sentada. Sua respiração ficava cada vez mais difícil, como se duas mãos invisíveis a estrangulassem cada vez mais forte. Ela começou a guinchar, chiando a cada vez que o ar saía e entrava.

Tentou usar a tática da enfermaria, mas não dava certo. Quando esvaziava seu pulmão para se acalmar, ela sentia uma necessidade desesperadora de enchê-lo novamente.

Sua voz soou um pedido de socorro rouco e baixo. Yasmim olhou ao seu redor e só viu vultos. Nada que parecesse com pessoas.

Ela caiu de costas no chão e ficou encarando o céu nublado que escurecia pouco a pouco, até que finalmente sumisse.

—Hei! Você! — De repente, uma voz soou distante. Um rosto colocou-se em frente ao céu e a encarou. Mesmo em vultos, a menina conseguiu notar a pele clara, os cabelos castanhos e a expressão assustada de um menino perdido. —O que houve, você caiu?

As guinchadas ficavam mais altas e Yasmim não conseguia responder. Sua mão desesperada se enfiou em seu bolso e tirou dali um celular. O garoto notou e o pegou imediatamente, discando para a ambulância. Ele olhava ao redor para ver se alguém vinha, mas sempre voltando até a garota para verificar se ela estava bem. Ele não parecia saber o que estava acontecendo, só sabia que ela estava bem mal.

—Alô? Ambulância? Por favor, tem uma menina aqui deitada no chão. Ela parece estar sufocada, com dificuldades de respirar, eu não sei. Preciso de uma ambulância urgente. O endereço é... — O garoto olhou mais uma vez ao redor, procurando alguma placa ou algo assim. — Rua Ernesto Weekend, cruzamento com a Paul Everywhere... Eu não sei, só a encontrei deitada no... hei! Menina! Acorda! Droga, ela desmaiou! Por favor, sejam rápidos!

***

Os olhos de Yasmim abriram-se lentamente e ela encontrou um teto e paredes brancas. Mexendo seu rosto, virou para o lado e notou que um tubo transparente interligava a junta de seu braço com uma bolsa de soro pendurada em um pedestal. Seu dedo indicador tinha aqueles pregadores azuis de plástico e ela vestia uma camisola azul bebê.

Com a força que conseguiu juntar, Yasmim levantou sua cabeça em busca de alguém e só encontrou um menino sentado num sofá da mesma cor de sua camisola. Ele estava atrás de uma porta de vidro, no corredor, e aparentemente dormia.

—Filha! — A voz de Lanna entrou junto com a mulher que, em passos rápidos e desesperados, chegou até Yasmim e a abraçou. — O que aconteceu, meu amor? Recebemos uma ligação do Hospital há algumas horas e eu e seu pai saímos correndo do trabalho.

—Desculpa, mãe... foi só um susto... Estava andando de bicicleta indo para casa e acabei meio que perdendo o controle e a consciência...

—Foi um ataque de pânico? — A mulher perguntou, alarmada. Yasmim teve problemas com a síndrome do pânico quando era mais nova. Nos últimos dois anos, ela parou de tê-las e aquilo foi um alívio para seus pais.

—Não sei, acho que sim... — A menina passou a língua dos lábios secos e virou o rosto para olhar o menino sentado no sofá do lado de fora da sala. —Quem é ele?

Sua mãe virou para trás e não soube responder.

—Ele me salvou... Foi ele que me encontrou e ligou para a ambulância.

Como se sentisse que falavam dele, o menino mexeu-se no sofá e abriu seus olhos, acordando. Ele notou que a porta de vidro estava aberta e levantou-se para olhar dentro da sala, encontrando uma mulher junto à menina que salvara.

Lanna abriu um sorriso para o menino e o chamou com um movimento das mãos. O garoto, meio envergonhado, caminhou até as duas moças e parou em frente, olhando mais para a garota do que para sua mãe.

—Obrigado por ter feito aquilo... se não tivesse achado minha filha e ligado para a ambulância, não sei o que poderia ter acontecido.

—Ahn... Não foi nada... até porque não é muito normal ver uma menina deitada no chão e passar direto sem ver o que está acontecendo... — O garoto notou que aquilo não foi a coisa mais delicada de se dizer, mas ele não era muito com esse tipo de coisa. Ele voltou-se para Yasmim e abriu um sorriso de lado. — Que bom que está bem agora.

—Sim, graças a você...

—Meu nome é Drake Martins. — O menino esticou a mão para apertar a dela. Com certa dificuldade, ela o cumprimentou.

—Yasmim Vandergeld... —A menina voltou-se para a mãe. — Mãe, pode pegar um copo de água para mim? Estou com muita sede...

A mulher fez que sim e caminhou até o corredor. Quando Mym voltou-se para o menino e começou a falar, o celular dele tocou.

—Alô? — Falou ele, depois de atender. A resposta fora tão alta que Yasmim conseguia entender. — Ah... Oi, mãe... eu... Não, quer dizer... Mãe, me escuta! Tinha uma menina e... O quê? Não! Uma menina estava passando mal e eu vim com ela no hospital... Eu sei que já passou das dez, mas... Tá bom, tá bom! Eu vou voltar para casa! Sabe, você é muito confusa! Se eu fico no meu quarto trancado, você reclama. Se eu saio, você reclama. Não entendo o que você quer, mulher! — Ele desligou o telefone.

—Sua mãe? — Yasmim perguntou enquanto sorria.

—É... Eu tenho que ir agora... foi mal. — O menino deu alguns passos para trás, indo em direção à porta. — Foi um prazer... quer dizer, não exatamente, já que você estava desmaiada e tudo o mais e... é, tchau.

—Tchau. — Yasmim sorriu o observando deixar a sala.

Logo em seguida, Lanna entrou com o copo de água e caminhou até a filha, o entregando a ela.

—O menino parecia bem legal, não?

—E é bonitinho. — Yasmim sorriu e a mãe enfiou a mão debaixo do cobertor, acariciando sua perna.

—Seu pai não vai gostar nada, nada de te ver achando garotos reais bonitinhos. Acho que ele prefere que você se apaixone por um Naruto ou sei lá.

Yasmim riu, mais pelo fato de sua mãe saber o nome de um personagem de desenho japonês, mas logo entristeceu. Ela comprimiu os lábios e batucou o copo com os dedos.

—Mãe... desculpa por dar tanto trabalho...

A mulher encarou a filha e estendeu sua mão para acariciar seu rosto.

—Está tudo bem, meu amor... Nós não escolhemos os problemas que temos, não é culpa sua. Só precisamos saber como conviver come eles.

—Então você vai me perdoar se eu tirar zero no teste de matemática da escola? — Yasmim aproveitou o momento emocionante para ver se conseguia alguma folga.

—Não. — Lanna respondeu, um tanto fria, mas com um sorriso no rosto. — ESSE tipo de problema tem solução. E ela se chama estudar.

***

Os dois dias seguintes de Yasmim foram em casa, com licença médica. Ela ficou deitada em sua cama, assistindo desenhos e séries. Quando finalmente foi dia Quatro de Dezembro, a garota aprontou-se e foi levada por seus pais.

Andando no corredor da escola, ela encontrou Vitor. Ele ainda tinha marcas dos machucados, mas estavam bem melhores. Ao longe, Yasmim respirou fundo e caminhou na direção dele.

—Olá, cara amassada! — A menina sorriu a parou na frente dele, com as mãos na cintura.

—Olá, sumida. Vem cá, você não tem pena de mim? Faltou os últimos dois dias.

Yasmim não tirou o sorriso do rosto, só respondeu.

—Ah, você sabe. O despertador não tocou.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.