As vicissitudes da vida
15 Almoço especial
Noah estava animado para ir para a escola no dia seguinte. Pelo computador, avisou para seus amigos e publicou em sua página em uma rede social que havia conseguido sentir seu pé. A primeira a responder fora Peggy, a rata da internet. Tanto na publicação quanto nos comentários. " MEU DEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEUS!!!!!!!!!!!!!!! ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥"
Sua namorada e alguns outros amigos também responderam. Todos estavam muito felizes, mandando mensagens o parabenizando e dizendo que logo, logo ele estaria andando.
De manhã, Noah acordara antes do despertador tocar. Ele, imediatamente, puxou seu pé e o apertou para ver se conseguia sentir. E sentiu. Com um sorriso nos lábios, ele passou para a cadeira de rodas e seguiu para o banheiro fazer suas necessidades.
Já na porta da escola, George tirou a cadeira de rodas de Noah da mala e a colocou emparelhada ao carro. Com a ajuda do pai, Noah sentou-se na cadeira e afastou-se do carro.
—A mochila, esquecido! — O pai dele exclamou e jogou a mochila para o menino, que surpreendeu-se quando ela caiu sobre seu colo.
—Nos vemos depois da escola, pai.— Ele exclamou.
—Ah, quase me esqueci! Tenho um trabalho na igreja hoje. Não vou poder te levar. Hoje, você vai com a sua mãe.
—Tudo bem.
George era carpinteiro e fazia serviços para todo o bairro. Era muito bom no que fazia e trabalhava por conta própria, por isso, tinha bastante disponibilidade. No entanto, a igreja era algo que não podia esperar. Para George, fazer um trabalho na igreja em que frequentava era sagrado. Ele nem cobrava o pastor.
Noah seguiu para dentro da escola, subindo a rampa, e rolou pelo corredor. Alguns segundos depois que entrou, um grito rompeu o som das conversas e Peggy veio correndo do fundo do corredor. Ela estava animada e com um sorriso gigantesco no rosto. Ao chegar em frente ao seu amigo, a menina saltou e o abraçou com força.
—VOCÊ ESTÁ MESMO SENTINDO O PÉ?— Ela perguntou animadíssima, e, sem dar tempo para a resposta, ela afastou-se e chutou o pé do garoto, tendo, então, um grito de dor. —EU NÃO ACREDITO, ISSO É TÃO BOM!
Peggy tornou a abraça-lo e dançaricou com os braços envoltos do garoto e da cadeira. Noah, que tentava não rir, a abraçou também.
—Duas coisas boas em um mesmo dia! Isso é sensacional!— Peggy afastou-se de novo, continuando a falar.
—Duas? E qual foi a outra?
A japonesinha olhou ao redor e, constatando que as pessoas pararam de olhar, agachou-se para falar no ouvido do menino.
—Meu Crush me convidou para o baile de inverno.
—Jura?
—SIIIIIIMMM!!!
—Isso é ótimo!
—SIIIIIIIIIMMM!!!
—E você é uma bobona!
—SIIIIIIIIIIIIMMM!!!... Espera! NÃAAAAAAAO!!!
Noah acabou rindo e balançou sua cabeça, seguindo para seu armário.
—É verdade? — Uma voz veio da esquerda de Noah enquanto ele abria a porta de seu armário. Quando virou-se, se deparou com Marcy. — Seu pé. Você sentiu?
Noah assentiu, um sorriso estampado em seu rosto.
Marcy, então, agachou-se e abraçou o menino com força. Ele retribuiu e eles ficaram ali, para dos por alguns segundos. Quando o abraço terminou, Marcy estava chorando.
—Isso é tão bom. Você realmente poderá voltar a andar. —Disse marcy.
—Sim, eu vou. — Confirmou Noah.
—Parabéns, irmão! — Uma nova voz veio por trás do cadeirante e uma mão grande e negra pousou em seu ombro, dando-lhe dois tapinhas... que não foram bem tapiiiiinhas. Para Noah, fora quase um soco de mão aberta. Por isso, ele sabia quem era.
—Greg. — Noah virou-se para o amigo, que estava sorrindo. — Obrigado
—Logo vai estar perdendo no basquete para mim de novo.
—Eu já te disse que te ganho sentado na cadeira mesmo. É só marcar o dia e a hora.
O sinal tocou e Greg despediu-se do casal. Marcy não parecia muito confortável com a presença do menino, por isso, quando ele se foi, ela até soltou um suspiro aliviado.
—O que houve? — Perguntou Noah.
—O quê?
—Você pareceu não estar muito bem com a presença do Greg. — Noah girou a cadeira e seguiu pelo corredor, acompanhado da namorada. — Aconteceu alguma coisa?
—Ah, não é nada não. Não esquenta. Foi uma brincadeira de mal gosto do time de futebol com as líderes de torcida.
Noah ergueu as sobrancelhas, como se entendesse.
Mais tarde naquele mesmo dia, o horário de almoço chegou rapidamente. Naquele dia, estranhamente, todas as turmas almoçavam juntas. Tanto os novatos quanto os veteranos. O que, claro, fez muito calouro perder o dinheiro do lanche. E isso incluía Vitor.
O menino de pele escura seguia para o refeitório junto de uma outra menina, quando fora parado por dois grandalhões. Sem que eles precisassem pedir, ele e a garota estenderam o dinheiro, que fora pego pelos dois e os deixaram passar.
—Isso é um horror! — Disse a garota. — Alguém tinha que nos ajudar! Calouros nessa escola são tratados como... como... Ah, sei lá! Como algo que é muito mal tradado!
— Uma menina já me salvou uma vez. — Disse Vitor, num ar sonhador, como se lembrasse de cada momento que passou ao lado da garota. Ela era tão linda dando bronca no valentão, ele pensava.
—Ah, a japonesa super-heroína? Você já me disse e eu vou repetir: Japoneses são os melhores. Depois dos coreanos, claro. Eu já te mostrei a foto do carinha da DBSK? Ele é tão gostoso!
—Yasmim! Já te disse que não me interesso por esses seus fetiches por homens de olhos puxados.
—Ué, achei que gostasse de olhos puxados.
—Não. Eu gosto de UMA garota que tem olhos puxados. — Vitor respondeu e, assim que deu dois passos para dentro do refeitório, seus olhos encontraram quem ele desejava encontrar. O amor da vida dele. A mulher que seria a mãe de seus filhos. A garota que o salvou de ser atirado em uma lata de lixo. Peggy. —É ela!
—Onde? — Yasmim procurou em tudo o que é lugar rapidamente, procurando a garota dos olhos puxados.
—Ali!. — ele virou-se para Yasmim e notou que ela estava olhando para o lado errado. — Não, Mym! Aqui! — O garoto segurou o queixo dela e virou seu rosto para o lado correto, a fazendo soltar um "Ahhhhhh".
—Ela é bonita.
—Siiiiim!!
—E parece ser veterana.
—Siiiiiiiiiiim!!!
—E você não tem nenhuma chance com ela.
—...Sim... — Vitor deixou seu corpo pesar para a frente.
—Mas você não desistira! — Mym levantou os braços, como uma líder de torcida que incentivava o time.
—SIM!!!
—Mesmo sabendo que nunca, nunca, nuuuuunca vai conseguir pegá-la!
—Hei!
—Desculpe.
Os dois jovens caminharam até uma mesa vazia e ficaram ali, fazendo absolutamente nada.
—Estou morrendo de fome. — Anunciou Yasmim, por fim. Ela virou-se e encontrou um grupo de pessoas comendo pudim. — Isso é tortura! Eles comendo pudim e eu, aqui, comendo vento. Precisamos fazer algo, Vitor.
.... Nada de resposta.
— Vitor? — Ao virar-se para o garoto, Yasmim notou que ele estava com o olhar fixo na mesa onde a japonesa sentava-se. Ela estava na companhia de seus amigos. Uma ruiva, um negro, um cadeirante e algumas líderes de torcida.
—Eu preciso falar com ela. — Falou o garoto, sem tirar os olhos da mesa dos meninos.
—Vitor. Você está parecendo um zumbi. É melhor parar ou vou acertar uma raquete de tênis em você.
—É sério, Mym! Preciso falar com ela! Agora!
—Então vai, ué...— A garota deitou sua cabeça na mesa.
—Quer saber? Eu vou.
—Isso mesmo. Vai lá.
—E você vai comigo.
—O quê?
Vitor levantou-se e agarrou o pulso de Yasmim, a arrastando junto a ele para a mesa dos veteranos. Ao chegar, o menino parou a poucos passos e travou. Yasmim o olhou de cima a baixo e revirou os olhos, o empurrando de modo que quase caísse em cima da japonesa. A conversa entre o grupo parou e a atenção voltou-se para os dois calouros.
—Ahn... Ahn... Ahn........ Oi....— Vitor abriu um sorriso trêmulo e levantou a mão, acenando para eles. Yasmim abriu um sorriso e colocou as mãos para trás, ela tinha uma pele branquinha e cabelos negros e meio cacheados. Seu rosto e voz a faziam parecer ser do oitavo ano.
—Oi. — Peggy cumprimentou os dois. — Você é o Vitor, não é? O menino que ajudei naquele dia da lixeira.
O menino assentiu freneticamente.
—Sim, sou eu.
—E eu sou Yasmim. — A menina falou. Ela parecia ser acanhada, mas não tinha problemas em falar. Inclusive, ela parecia adorar falar. Falar, falar e falar.
—É um prazer te conhecer, yasmim. — Peggy sorriu para a garota. As duas tinham algo de semelhante. Talvez o sorriso infantil.
Alguns segundos de silêncio reinaram na mesa, até que vitor teve a coragem de quebra-lo.
—Então... Ahn... Peggy. Eu naõ consegui te agradecer direito naquele dia.... Então... obrigado.
A japonesa abriu um sorriso, notando a vergonha do menino, e quase riu por achar engraçadinho.
— Não precisa agradecer. E já sabe, não é? Se alguém voltar a mexer com você ou com qualquer outro amigo seu, pode avisar.
—Pode mesmo? — Yasmim perguntou e Peggy assentiu. — Que ótimo, porque eu tenho uma reclamação!
—Mym! — Vitor a repreendeu.
—O que foi?— A garota franziu o cenho e ignorou Vitor, cruzando os braços. — Então, é o seguinte, Vitor e eu estávamos entrando no refeitório, quando dois brutamontes nos pararam e pegaram nosso dinheiro da merenda. Agora não podemos comer e eu estou mooooorrendo de fome.
—Yasmim! —Vitor falou de novo, envergonhado.
—O que foi? — Ela exclamou de novo.
Peggy ergueu as sobrancelhas. Ela, em seguida, estreitou os olhos e levantou-se, batendo as mãos na mesa.
—Eu aposto que sei quem foram os idiotas! Ah, mas eles vão se arrepender! Se eles querem tanto dinheiro assim pra comprar comida, vou fazê-los engolirem a minha mãe e, de sobremesa, meu sapato.
—Acalme-se, Peggy. — Falou o cadeirante, Noah, tentando acalma-la. — Se forem eles mesmo, sabe que já gastaram o dinheiro. Não vai adiantar nada ir atrás deles agora. Resolvemos isso depois.
—Mas...— Peggy respirou fundo e deixou seus ombros caírem, voltando-se para os dois calouros. — Foi mal, gente, mas não vou poder fazer nada dessa vez... Quer dizer, nada com eles. Mas, se estiverem com fome, não ligo de dividir meu lanche.
—Não precisa. — falou Vitor, acanhado.
—Ahhhh, eu quero! — Respondeu Yasmim, sorridente.
—Yasmim! Sua esfomeada! Deixe o lanche da menina, vamos.
Todos da mesa riram. Até as líderes de torcida, que pareciam víboras de coração frio quando passavam no corredor da escola, estavam acessíveis e simpáticas.
—Não se preocupe, eu não estou com fome. — Falou Peggy. — Mas aposto que os dois estão.
—Não, eu não estou. — Falou Vitor, sorrindo nervoso.
—Ué, mas você disse que estava há uns dez minutos atrás.
—Não, yasmim. Eu não disse. — O olhar do garoto para Mym era o do tipo que dizia "Concorde comigo, sua vaca".
—Não se preocupem. Somos veteranos, mas não iguais àqueles idiotas. Venham, sentem aqui.
Peggy colocou as mãos nos ombros dos dois e os conduziu para a mesa. Todos deram mais espaço para que os dois coubessem, até que, então, estavam sentados. Peggy estava no meio dos dois, tendo Vitor à sua direita e Yasmim à esquerda. Ela partiu seu sanduíche intocado em dois e deu um pedaço para cada.
—Vocês são do primeiro ano, não é mesmo? — Noah perguntou e Mym assentiu. Ela já tinha devorado metade do sanduíche. — E como é? Ainda têm aula com a professora Gertrudes?
—A múmia? — A menina perguntou e todos riram.
—Os anos passam, mas os apelidos são imortais, cara! Imortais! — Falou o garoto negro, Greg.
E então, a hora do almoço passou. E, para os dois calouros, fora o melhor almoço que já tiveram até aquele dia. Sentar na mesa dos veteranos. Isso era um sonho para qualquer um do primeiro ano!
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