Com o forte som do despertador, Noah acordou. Era quinta-feira e ele teria aula... isso se não fosse feriado, óbvio. Dia vinte e seis de novembro de dois mil e quinze! Dia de ação de graças!

A porta do quarto do menino abriu-se e sua mãe apareceu. Ela vestia roupas que pareciam ser de época, cheia de fivelas e babados, e um pano na cabeça.

—Bom dia, filho! Vamos levantar! Hoje é um dia maravilhoso! Dia de agradecer a Deus por tudo de bom o que aconteceu em nossas vidas! De festejar nossas vitórias!

—De nos encher de peru até dizer chega. — Noah completou e abriu um sorriso para sua mãe. A mulher, animada, foi em direção ao menino e o ajudou a sentar-se na cadeira de rodas.

—É, isso também. — Ela falou e deu um beijo na bochecha do menino, logo saindo por onde entrou.

O cadeirante rolou as rodas da cadeira até sair pela porta e seguiu pelo corredor, indo de encontro ao banheiro. Lá, ele escovou os dentes e virou-se para sair. Seguiu em direção à cozinha e encontrou seu pai, vestido, também, com roupa de época. Ele não parecia tão satisfeito quanto sua mãe.

—Foi obrigado? —Noah perguntou, segurando o riso.

O homem careca encarou o garoto e assentiu, soltando um suspiro.

—E eu não vou ser o único. Sua roupa está ali. — George apontou para o lado, onde havia uma sacola preta sobre a cadeira ao seu lado.

Noah soltou uma risada sarcástica e seguiu até a torradeira para preparar seu café da manhã.

Mais tarde, Noah não conseguira escapar e acabou tendo que usar a roupa de camponês. Já eram seis da tarde e ele estava arrumando seu chapéu decorado com fivela, quando alguém entrou em seu quarto.

—Boa tarde, senhor fazendeiro! Como vai a plantação de milho?

Reconhecendo a voz, Noah virou-se e se deparou com Matheus. Suas sobrancelhas ergueram-se ele abriu um sorriso, não medindo esforços para responder à altura.

—Está muito bem. Por que a pergunta? Interessado no sabugo?

Os dois garotos riram e Matheus caminhou até Noah, curvando-se e dando-lhe um abraço.

—O que faz aqui?

—Seu pai me convidou para o dia de ação de graças. Disse que tinha muito a agradecer a mim também, pelo trabalho que estava fazendo e tudo o mais... —Matheus colocou as mãos na cintura e encarou o quarto de Noah. — Quarto legal.

—Obrigado. Mas... seus pais não vão sentir falta de você no jantar? — Noah fez com que sua cadeira rolasse no sentido do corredor.

—Na verdade não. Não somos do tipo que faz jantares comemorativos, sabe? Meus pais saíram para jantar fora e levaram minha irmã com eles. Me chamaram para ir, mas o peru daquele restaurante não se compara ao de Antony.

Noah acabou rindo alto, o que chamou a atenção de sua mãe, que saía do banheiro.

—Está tudo bem? — A mulher olhou para os dois adolescentes e sorriu. — Ah, você deve ser Matheus, o fisioterapeuta que cuida do meu filhinho. George me falou de você, eu tenho muito a agradecer pelo que está fazendo.

Ah, não é nada, senhora. — Falou Matheus e colocou as mãos nos bolsos, balançando a cabeça para baixo.

—Bom, eu vou preparar a mesa e já, já iremos comer. — A mulher passou pelos dois, bagunçando o cabelo do filho e dando um tapinha no ombro do outro menino. — Lavem as mãos!

Depois que Mirian sumiu de vista e já estava na cozinha, Matheus e Noah seguiram para fora da casa, chegando ao quintal dos fundos.

— Mas e Anthony? Não vai passar o feriado com você?

Não, ele disse que a família dele é muito rigorosa com essa coisa de dia de ação de graças. Na casa dele, só entra familiares.

—E eles sabem de vocês dois? Quer dizer, os pais dele.

Matheus deu de ombros e escorou-se na parede da casa, encarando o entardecer.

—Não sei, mas acho que não. Eles são meio religiosos.

—Mas e seus pais?

— Eles sabem. Não ligam muito, contanto que eu não leve nenhum homem para transar no meu quarto.

De repente, do interior da casa, um grito ecoou tão auto que pôde ser ouvido perfeitamente pelos dois garotos.

—DRAKE! SAI DESSE QUARTO E VAI TOMAR BANHO! LARGUE ESSE COMPUTADOR, GAROTO, TEMOS VISITA! — Era Mirian.

Os dois adolescentes se entreolharam e começaram a rir juntos.

Já na hora de comer, Noah chegou sendo empurrado por Matheus. Ambos já tinham lavado as mãos e estavam prontos para o jantar. À mesa, todos da família já estavam sentados. Mirian estava em uma ponta e George na outra. Os dois irmãos de Noah sentavam-se um ao lado do outro, sobrando então, um espaço sem cadeira, que era onde Noah entraria, e uma cadeira ao lado, onde Math deveria sentar.

—Drake! — Mirian exclamou e então puxou um aparelho eletrônico que estava em sua mão. O menino arregalou os olhos e tentou pegar de volta, exclamando que faltava pouco para capturar um tal de Mewtwo, mas Mirian não mostrou interesse. Desligou o aparelho e guardou em um dos bolsos do vestido de época.

Já em seus lugares, Noah sentiu algo vibrando em seu bolso. Quando enfiou a mão ali, viu que era seu telefone. O menino colocou no ouvido e começou a falar. Por sua voz doce, melosa e molenga, era notório que quem estava do outro lado da linha era Marcy.

—Tudo bem... Te amo... Feliz dia de ação de graças para você também — Por fim, Noah desligou o telefone e guardou no bolso.

—Ela não vem? — Perguntou Mirian.

—Não. Está na casa da avó.

—Tudo bem, então. Bom, não sei quanto a vocês, mas eu estou faminta. Então, vamos orar e cair de boca no peru!

Matheus e Noah seguraram o riso por toda a oração. Tiveram fingir se engasgar com a comida para conseguirem rir do que a mulher disse.

Já no fim da refeição, o pai de Noah e Matheus conversavam sobre basebol enquanto Noah prestava atenção. Os irmãos dele já se retiraram, um indo capturar o tal do pokemon e o outro, capturar umas 'minas'. Enquanto debatiam sobre o sistema de arremessos de bolas de um time da liga, Mirian, da pia, pediu para que Noah juntasse os pratos sujos e levasse para ela. Atendendo ao pedido, o menino assim fez. Juntou todos os pratos, os colocou em seu colo e rolou sua cadeira na direção de sua mãe.

Chegando à borda da pia, o garoto foi dando de um em um para a mãe, que os pegava com a mão molhada e cheia de detergente. Quando já estava em um dos últimos, Mirian, sem querer, deixou a peça de porcelana pesada escorregar de suas mãos e caiu em cima de um dos pés de Noah.

—Ai!— O menino reclamou e abaixou-se para pegar o prato no chão, o colocando, junto com o restante, na pia. Por sorte, não tinha quebrado. Quando levantou-se, sua mãe estava com os olhos arregalados.

—Ai?— Ela perguntou.

—Ai?— Outra pergunta veio de trás, agora em um coro de seu pai e Math.

—É, ai. — O menino franziu o cenho, como se pensasse. De repente, ele arregalou os olhos. — Espera... ai?

Noah, rapidamente, levantou um deus seus pés até conseguir colocá-lo em seu colo. Ele arrancou os tênis e a meia, deixando o pé nu. Então, agarrou seus dedos e os apertou com força, dando um grande sorriso.

—Está doendo!— Ele olhou para sua mãe, que parecia incrédula — MÃE! MEU PÉ DOEU!

Como um trovão, Matheus e o pai de Noah levantaram-se e correram até o garoto, parando atrás do menino.

—Você sentiu? — Math perguntou, sem acreditar.

—Sim! — Noah exclamou, supercontente.

Matheus, então, esticou sua mão e apertou seus dedos menores, o que fez o menino soltar um grito.

—AI! — Noah podia ficar zangado, mas não ficou. Apenas reabriu o sorriso, ainda maior. — Eu senti de novo!

A alegria estourou naquela cozinha. Ouvindo os gritos, Drake apareceu na porta para ver o motivo da algazarra e encontrou todos abraçando-se e comemorando. Mirian notou a presença do menino e correu até ele, o dando um forte abraço.

—O seu irmão sentiu dor nos pés! — Ela exclamou, mas o garoto não pareceu entender o motivo daquilo ser bom.

—Ahn... que legal... Então, quando alguém aqui de casa sentir dor de cabeça vai ter festa também?