As verdades escondidas
1 Capítulo 1
Aurélio saboreava uma taça de vinho do porto enquanto comtemplava a tempestade pela janela. Ficou preocupado com o Brandão. Seu amigo tinha dito que precisava resolver alguns assuntos e talvez não dormisse em casa, e com a chuva torrencial que caia no Vale ele com certeza estaria preso em algum lugar. Só pode rezar que seu amigo estivesse em segurança. Fora isto, tivera uma boa semana. Seu trabalho na fazenda de Julieta estava se mostrando mais que um ganha pão, estava sendo um alimento para sua alma. Sentir-se útil e produtivo era gratificante e trabalhar tão perto dela era também um combustível, pois o desafiava a ser melhor. Ela merecia a melhor versão dele. No entanto, batidas desabaladas o tiraram dos seus devaneios.
— Mas quem será a esta hora da noite e no meio de tamanha tempestade?
Ele se apressou ao pensar no Brandão e que talvez pudesse ter acontecido algo. Mas quando abriu a porta, seu coração deu pulo no peito. Julieta se encontrava para em sua porta, encharcada. Havia lama em seu vestido, que também estava rasgado, quando se voltou para o seu rosto percebeu que seu cabelo, sempre bem arrumado estava desalinhado, havia sujeira e sangue em seu rosto. Seus olhos estavam arregalados e ela parecia perdida e assustada quando disse seu nome.
— Aurélio...
Aquilo o tirou do transe gerado pela a surpresa. Imediatamente a puxou para dentro de casa e fechou a porta.
— Julieta, por favor entre. – Ele a conduziu até o sofá.- O que aconteceu? Você está ferida! – De repente, um pensamento terrível atravessou a sua mente. – Foi Xavier? Ele armou outra emboscada?
Ela o olhou, com aqueles olhos grandes, sempre tão cheios de fulgor e audácia, e agora pareciam assustados.
— Foi uma ideia estúpida, a minha. Aconteceu... bem, aconteceu uma grande revelação na mansão, eu precisava... eu queria te ver. Então eu selei o tornado e vim. Mas estava chovendo muito, e um raio caiu muito perto de nós. Já estávamos quase na cidade, ele se assustou e me de-derrubou. – Ela se abraçou devido ao frio. Agora que estava dentro da casa dele, e a adrenalina começava a baixar, sentia seu corpo doer e o efeito do vestido molhado era gelar até os seus ossos. – Meu Deus, o Tornado. Eu não sei onde ele está, o que aconteceu com ele. – Ela se levantou. – Eu preciso checar se ele está aqui por perto, eu...
Aurélio estava mais confuso do que quando ela chegou. O que teria acontecido para fazer ela sair desembalada da fazenda até ele, no meio de uma tempestade como esta? Mas no momento, ele tinha coisas mais importantes a fazer.
— Você não vai a lugar nenhum. – Ele a interceptou. – Você está congelando e precisa de cuidados. Fique aqui que eu voltarei em um instante.
O primeiro pensamento de Julieta foi o de responder que ele não diz o que ela deve fazer ou não, mas não queria brigar. Não queria mais discutir. Ela tinha ido até ali apenas porque queria estar com ele. Porque no momento, era o único lugar que conseguiu pensar que estaria bem, a salvo. Queria se sentir amada. Aurélio vinha dando a ela este sentimento que até um ano atrás achou que nunca fosse experimentar. O de se sentir amada. Ele voltou com um cobertor, uma toalha e um guarda-chuva.
— Por favor, tente se secar e se aquecer. – Eu vou dar uma volta pelo perímetro e ver se encontro o Tornado. Isso vai fazer você se sentir melhor?
Ela quis dizer que não precisava. Não queria ele sozinho, no meio da tempestiva noite procurando pelo seu cavalo. Mas sim, aquilo ia fazer ela se sentir melhor e daria um tempo para ela se recompor. Então, ela apenas afirmou com a cabeça e ele partiu em seguida.
Julieta foi até o banheiro e olhou-se no espelho. Estava deplorável. Se censurou por aparecer assim em público, e ainda mais na frente do Aurélio. Já tinha sido vaidosa há muito tempo, mas isto havia sido outra vida. Era importante, entretanto, manter sua imagem, de mulher digna, respeitável. Uma imagem a altura da Rainha do Café. Mas desde que começou a se envolver com Aurélio, quis estar bonita. Quis sentir-se desejável e agradável aos olhos e se odiou por isso. Se odiou por querer encaixar em um padrão do que a sociedade ditava que uma mulher deveria parecer, se odiou por querer estar nele por um homem e odiou o Aurélio por despertar esses interesses juvenis nela. Mas naquele exato momento, enquanto lavava a sujeira do rosto, ela não quis brigar consigo mesma. Quando tirou a maior parte da sujeira de seu rosto, viu que tinha perdido boa parte dos grampos, e seus cabelos encharcados pesavam e pendiam para um lado, então tirou os restantes e o deixou cair sobre os ombros. Enxugou-os um pouco e retornou à sala.
Quando Aurélio retornou a encontrou sentada no sofá, enrolada na manta que ele havia lhe dado e com os cabelos soltos. Nunca a havia visto de cabelos soltos, não além das noites imaginadas por ele. Mas quando ela se voltou para ele, Aurélio levou um susto. Ela parecia tão jovem e indefesa que partiu seu coração.
-Não fui capaz de encontrar o Tornado. Peço desculpas. Mas ele é um cavalo esperto, deve ter encontrado abrigo para noite, e amanhã de manhã iriei eu mesmo em busca dele.
Julieta exibiu um sorriso triste e apontou para o espaço ao lado dela no sofá.
— Você não precisa se desculpar. Eu agradeço por ter ido checar ainda agora, nessa tempestade. Por favor, sente-se comigo.
Quando Aurélio sentou, observou que seu rosto, agora limpo, apresentava dois machucados: um corte na têmpora e uma esfoliação em uma das bochechas.
— Seu rosto.- Ele levou a mão ao rosto dela e ela fechou os olhos. Já era um carinho habitual entre eles. Ele gostava de pensar que era como eles diziam “te amo” sem palavras.- Eu vou buscar um curativo.
Antes que ela pudesse se opor ele já havia levantado e voltado com uma caixa de primeiros socorros e ela deixou que ele fizesse um curativo. Ele tinha mãos ágeis e delicadas e ela descobriu que gostava da sensação de ser cuidada.
— Você vai me contar o que te fez sair assim, no meio da noite?
— Vou. – Mas apesar de ter dito isso, ela apenas o encarou em silêncio. Seus olhos fitando os dele.
— Tudo bem. Que tal um chá? Pode ajudar a te esquentar.
Aurélio pôs água na chaleira e retornou à sala, onde Julieta se encontrava no mesmo lugar. Ela encarou aquele homem parado diante dela, com seus olhos claros cheios de carinho e preocupação e então percebeu que tinha feito o certo. Procurá-lo era a única opção correta.
— Acabei de ter uma das maiores revelações e decepções da minha vida. — Ela começou.- Acontece que o Xavier não estava trabalhando sozinho. A Susana era parceira dele.- Aurélio sentou-se ao seu lado e segurou suas mãos — ouso dizer até, que ela encabeçou o esquema todo.
Julieta se levantou, deixando a manta cair no chão.
— Todo esse tempo Aurélio, que eu considerei ela uma funcionária fiel, uma parceira. Uma amiga! — Aurélio decidiu que deixaria ela pôr para fora tudo, antes que ele falasse algo. — E quando a confrontei… Você não faz ideia das coisas horríveis que ela me disse. — Aos poucos, a tristeza ia se transformando em raiva dentro de Julieta. — A audácia que ela teve, para dizer, em minha cara, que eu era incompetente. Eu, Aurélio. Eu. Quando eu conheci Susana, eu já tinha meu império, já tinha feito meu nome. É verdade, que nos últimos anos ela foi de bastante ajuda. Eu sei reconhecer isso. Susana… Aliás, Genésia! Susana não eram nem o seu verdadeiro nome.
Neste momento Aurélio se assustou. Nunca gostou da Susana, e não achava que a Julieta deveria confiar tanto nela, porém jamais pode imaginar tal absurdo.
— Genésia? Ela mentiu o próprio nome?
— Não só o nome, Aurélio. Ela mentiu sobre quem ela era. E eu descobri isso da pior maneira possível. Eu entreouvi uma conversa entre ela e o Olegário. Eles eram casados. CASADOS Aurélio! — Ela caminhava de um lado por outro. – Ele ameaçou me contar tudo, ela o ameaçou de volta. Veja bem, não costumo andar pela casa escutando as conversas das outras pessoas. Apenas parei quando escutei meu nome.
Ela parou de andar e olhou para ele. Ele entendeu aquilo como uma deixa. Foi até ela e a abraçou.
— Eu sinto muito que você tenha se decepcionado com ela. Eu sinto muito que você tenha perdido alguém de sua confiança, mas fico feliz que você descobriu, e assim poderá se cercar de pessoas realmente gostem de você.
Neste momento, ela se desvencilhou de Aurélio.
— Quem Aurélio? Susana, ou melhor, Genésia, dentre todas as coisas horríveis que ela me disse, disse que ela era a única amiga que eu tinha, que ela era única, esses anos todos que me suportou. Quando eu a mandei embora da minha casa, ela disse que eu finalmente ia ficar sozinha, onde eu poderia terminar de murchar e espantar tudo a minha volta. E apesar do veneno, da crueldade de suas palavras, é verdade Aurélio. Eu não tenho ninguém.
— Não, não é, Julieta... por que você veio até aqui, Julieta?
— Porque apesar de a ter expulsado, não pude jogá-la na rua no meio da noite, em uma tempestade. Jamais faria isto com outra mulher. Dei até amanhã de manhã para que ela saísse. Mas não consegui suportar a ideia de ficar debaixo do mesmo teto que ela.
Aurélio sorriu.
— Isto pode ter sido uma das razões. Mas você me procurou porque sabe que pode contar comigo. Porque sabe que eu sou de confiança, que sou seu amigo. Na verdade, eu espero que a esta altura, me considere mais que isto. E você tem o Darcy, e recentemente, você e a Elisabeta tem se tornado grandes amigas. Além do Camilo e da Jane. Existem tantas pessoas que te amam e que se importam com você, de verdade. Não é porque a Susana não conhece o verdadeiro significado deste sentimento que você não o possua.
Julieta quis chorar. Ela achou que ia chorar. Mas apenas foi até ele e se permitiu ficar no seu abraço, até que ouviram a chaleira apitar. Eles tomaram um chá, quase em silêncio. Aurélio sempre respeitou os seus silêncios e isto era apenas uma das coisas que amava nele. Assim que teve este pensamento, isto a assustou. Nunca tinha usado esta palavra para ninguém, além do filho. A ideia de amar outra pessoa era assustadora e perigosa, mas seria indulgente consigo mesmo aquela noite, e se permitiria pensar nisto só no dia seguinte.
— Está tarde, e você passou por um mal bocado hoje. Venha, eu irei arrumar o meu quarto para que possa dormir.- Neste momento, Aurélio percebeu que ela travou, então ele completou. – Não se preocupe, eu vou dormir no sofá.
Eles subiram, e enquanto ele arrumava a cama, Julieta se deu conta que nuca esteve no quarto dele. Aquilo era tão íntimo e pessoal. Tudo era arrumado, limpo e simples. Em sua mesa, havia uma foto de Ema e outra de sua esposa. Ficou olhando para a foto daquela mulher, e percebeu que nunca sequer tinha perguntado a ele como ela se chamava. Então, odiou a mulher sem nome. Mais que isto, sentiu inveja. Sentiu inveja daquela mulher que teve a sorte de se casar com o Aurélio. De teve a sorte de ter um marido bom, sincero, carinhoso. Então, se permitiu imaginar no lugar dela. Permitiu imaginar aquela Julieta jovem, espirituosa e divertida que um dia fora cruzando os caminhos de um jovem inocente e educado Aurélio. Permitiu-se imaginar os dois se apaixonando perdidamente, com o fulgor e o desespero que só a juventude tem. Imaginou-se casando em um lindo dia de primavera e mudando para a fazenda Ouro Verde. Conseguia ver os dias passando, ela implicando com o Barão e sendo amada e cuidada por Aurélio. Imaginou Aurélio como pai de Camilo e a si mesma como mãe de Ema. Ficou presa naquele sonho impossível por mais tempo que se deu conta, e não percebeu que o Aurélio a chamava.
— Julieta? – Ele disse pela terceira vez. Ela estava parada, com o retrato da sua falecida esposa em mãos, mas o olhar estava a milhas dali.
— Desculpe. – Ela enfim respondeu, pondo a foto de Maria no lugar. – O que disse?
— Eu ofereci a você uma camisa. Imagino que dormir neste vestido úmido, além de desconfortável pode te trazer um resfriado.
— Eu... não sei se devo Aurélio. – A ideia de dormir vestindo uma peça de roupa dele a deixava desconcertada.
— É só um pijama. Mas a escolha é sua.
E quase sempre era, não era mesmo?
— Bom, acho que vou aceitar. Eu realmente gostaria de tirar este vestido.
Aurélio tirou uma blusa do armário, deixou em cima da cama e então saiu. Ele estava com raiva, e se sentia impotente. Detestava saber que algo ou alguém havia ferido Julieta. Ele sabia que ela já foi ferida no passado, algo muito cruel aconteceu com ela. Não sabia o que, ou quem, mas podia sentir essa ferida latente nela. E odiava se sentir um inútil, odiava não ser capaz de protege-la do mundo. Ele ajeitou o sofá para que pudesse dormir, mas antes resolveu dar uma última checada nela e desejar boa noite. Ao bater na porta do quarto, e escutar que podia entrar, a encontrou sentada na cama, vestida apenas em sua camisa. Os cabelos soltos davam a ela um ar de jovialidade e ele quis tanto abraça-la! Mas ele apenas sorriu.
— Vim apenas ver se você precisava de mais alguma coisa.
Ela sorriu para ele. E toda vez que fazia isso, ele tinha medo de cair, pois sentia suas pernas bambearem.
— Não Aurélio, está tudo bem. Eu não sei como agradecer por tudo que fez por mim esta noite.
— Você não precisa. É para isto que serve nossa... amizade. Eu estou aqui para você, sempre que precisar, para sempre. – Ele sorriu para ela e apagou a luz. – Boa Noite Julieta.
Quando ele estava fechando a porta ela disse.
— Aurélio, espere. Você não poderia ficar? – Seu coração batia tão alto quando proferiu aquelas palavras que teve medo que ele ouvisse. – Fica comigo esta noite, por favor.
Ela não precisou dizer a ele que a intensão era só que dormissem juntos, e nada mais. Ela sabia que ele sabia que ela não estava pronta ainda. Mesmo assim, Aurélio não pode descrever tamanha alegria. Ele deitou ao lado dela e a abraçou. Ela encostou a cabeça no peito dele e logo em seguida adormeceu. Ele ainda ficou um pouco acordado, apenas observando a respiração dela em seu peito, até que enfim, também adormeceu.
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