As três da manhã
2 Doce Despedida
Notas iniciais
"Quando morrer quero ser cremado, para que minhas cinzas alimentem as ervas e as ervas alimentem as mentes dos loucos como eu." Bob Marley
BIANCA S.
–Como ela está? — perguntou George sentando ao meu lado, na fileira atrás de Talia. Todos ouviam pacientemente a missa fúnebre. O dia estava nublado e abafado, eu apenas me abanava com o santinho que me entregaram.
–Eu não sei... Ela esconde tudo de mim. — confessei fazendo-me de coitada. Era a pura verdade. — Talvez você saiba já que é o M.A dela.
Seus olhos rolaram, uma, duas vezes e depois de um longo suspiro ele deixou sua mão em meu ombro.
–É claro que sou o M.A dela querida, eu sei tudo mas não leio pensamentos. Não se culpe por ela não te contar nada, você é a garota da qual ela apenas fode. Nada mais.
Meu olhar foi carregado de ódio para ele que apenas sorriu gentilmente enquanto Edu tossia ao meu lado. Não gostei de sua resposta, contudo tive que me confirmar já que era apenas a namorada de Talia a um ano. A mão dele deixou meu ombro e desta vez foi Edu que falou.
–Conversamos a caminho daqui. — disse ele tão baixo que apenas eu ouvi. — Péssima é pouco, ela está destruída e vocês dois deviam deixá-la um pouco sozinha. Ela perdeu os pais, e o irmão está a caminho para ter sua guarda.
–Ela odeia o irmão. — confirmei e Eduardo balançou a cabeça concordando.
–Jon é meu melhor amigo, sei quais são as razões para ela odiá-lo. E você não devia se intrometer nisso Bianca, se ele teve coragem de destruir sua própria irmã imagina com você.
–Agora algumas palavras da filha do casal. — anunciou o padre deixando o púlpito improvisado em frente aos dois caixões. Estávamos no meio do cemitério, gente rica faz assim uma cerimônia ao ar livre. Talia se levantou e ajeitou a saia de seu vestido igual ao meu, as vezes quando uma queria apoiar a outra usávamos roupas iguais ou da mesma cor. Secou os olhos quando olhou para a pequena platéia, para mim velórios eram mais para os vivos do que para os mortos. Já estão mortos, do que adianta todo esse choro e tristeza, as flores caríssimas, os caixões com detalhes em ouro, as lápides com suas fotos e esculturas de anjos ainda mais caras que todo o funeral em si. Quando eu morrer quero ser cremada, simples e sem gasto de dinheiro a toa.
–Acho que ninguém esperava estar aqui tão cedo. Morreram tão de repente, meus pais eram tão alegres, vivos e cheios de sonhos. O sonho deles era morrer bem velhinhos e juntos. Pelo menos juntos eles se foram. — ela fungou para controlar o choro. Se fazia de forte, mas era tão fraca quanto uma pena. É só soprar que voa. — Eu... Desculpem, não posso fazer isso.
Quando menos percebi, George já estava na fileira da frente e quando Talia deixou o púlpito foi de encontro ao abraço dele. O abraço dele não o meu. Aquilo me magoava, ela sempre confio mais em George do que em mim.
–Quer uma carona? — perguntou Edu tirando-me de meus devaneios. — Agora vão guardar os caixões na casa de mármore, digo lápides.
E foi assim, levaram o caixão até a mini mansão totalmente de mármore com o nome Greyson em cima de sua entrada. Tudo é tão dourado e chique que mais parece uma casa pequena do que dois túmulos. Lá dentro os caixões ficavam separados um de cada lado, as pessoas começavam a entrar e sair deixando as flores para os mortos. Talia foi a primeira a entrar e sair. Não se dignou a olhar para mim, foi abraçada com George para longe talvez fossem embora juntos.
Edu não se moveu o tempo todo. Talvez estivesse me esperando e gostei de saber que pelo menos ele se importava comigo, senti sua mão no meu ombro nu.
–Ainda quer a carona ou vou deixá-la aqui?
–Tudo bem vamos. — levantei-me junto com ele observando ainda as outras pessoas. Os pais de Talia foram bons comigo, achei que fossem me desprezar quando ela apresentou-me como "minha namorada" pelo contrário. Foram meus segundos pais. E sua mãe era tão gentil que se ofereceu a pagar minha carreira de bailarina. — Descansem em paz. — sussurrei.
Caminhei com Edu até seu carro do lado de fora do cemitério, um sedan preto. Ele era advogado na empresa dos pais de Talia, e sempre estava com a gente em jantares e reuniões familiares, era como um filho — o que os pais dela queriam que Jonathan fosse — para eles.
Falamos pouco durante todo o caminho até ele deixar-me na frente de minha casa. Agradeci e despedi-me com um beijo em sua bochecha, ele corou e não entendi o motivo para tal.
–Mãe? — perguntei enquanto adentrava pelo apartamento. — Você não vai acreditar... — calei-me quando a vi tossindo e se apoiando na pia de mármore da cozinha. — Tudo bem?
–Sim. — assentiu. — É só o maldito câncer.
Corri até ela abraçando-a fortemente. Ela havia descoberto o câncer quando teve um crise de falta de ar e foi levada correndo para o hospital. Eu diria que a culpa era o seu vício em cigarro, e realmente foi, tiveram que arrancar uma parte de seu pulmão. Não adiantou, minha mãe fumou escondido de todos e a situação apenas piorou. Os remédios e tratamentos apenas prolongavam seus dias e ela precisava de um transplante, o seu lugar na lista de espera era o vinte e um havia mais de um ano que a situação era essa.
–Eu não quero te perder. — respondi depois de todo esse pensamento. — Você vai ganhar um par de pulmões novos.
–Colocaram outras pessoas na minha frente na lista. Casos mais graves.
–Mais graves? — gritei soltando-a indignada. — Você não consegue respirar direito, vive a base de remédios trancafiada aqui o dia inteiro. Não ri, não chora não vive! E que caso é pior que o seu?
–Pessoas que se não tiverem um pulmão bom em horas, morrem. — calei-me, eu sei estava sendo um pouco egoísta. Minha mãe também precisava disso e para agilizar a situação só com bastante dinheiro. Talia tinha, eu que não era corajosa o suficiente para pedir.
–Desculpe.
–Tudo bem, venha ver. Costurei sua sapatilha de ballet, está pronta para você dançar. — disse gentilmente se soltando da pia e caminhando lentamente até o corredor. — Você não vem?
–Claro. — falei seguindo-a.
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