"O maior prazer de um sadomasoquista não é a dor que ele sente e sim a que faz os outros sentirem." Desconhecido

Talia C.
Chegando em casa, George tentou cozinhar. Um gay na cozinha é claro que não daria certo. Pelo menos ele se preocupou em jogar a gororoba fora e pedir comida em algum restaurante. Evitei falar o tempo todo, George não conformado com meu silêncio puxou assunto.
–Então... O que se passa veada? — perguntou sentando ao meu lado no balcão da cozinha.
–Eu não sei... Eu queria chorar mais, sentir dor, só sinto raiva e abandono. Como vou ficar agora? — perguntei a mim mesma. George sorriu gentilmente.
–Pelo menos seu irmão é um deus grego. Deus não, uma delicia suprema. — acabei rindo. Era impossível ficar serio ao lado de um gay tão sem noção quanto ele.
–Eu ouvi o que disse a Bianca no funeral, não acha que foi um pouco grosso?
–Grosso? Grosso é o tronco do meu namorado. Fui simpático ainda comparado a verdade que tenho que fazer ela enxergar. — seus dedos acariciaram meu rosto. — Vai ficar tudo bem.
–Você fez minha namorada sair correndo. — disse afastando sua mão.
–Não entende? Você a traí com qualquer lesbica que conhece por ai, e o que ela faz? Perdoa todas as vezes, porque prefere continuar um namoro onde apenas ela ama. Como pode fazer isso com ela? Como Bianca aceita isso? Ela não tem amor próprio.
–Você está tentando nos deixar uma contra a outra. — falei indignada. — E daí que a traio? É só eu estalar os dedos que ela volta. Nos últimos dias ela até que me surpreendeu, foi ótima na cama, mas as vezes é tão grudenta que só tenho vontade de fugir.
–Ai veada, falando assim você me deixa com dó dela.
–E quando pensar em ser grosso com ela de novo, não seja. Apesar de tudo, ela é a namorada perfeita. Faz tudo o que mando e não reclama.
–É muito amor. — disse ele sorrindo. — Queria ser amado assim. Se a pessoa grudasse eu não deixaria fugir.
A campainha tocou e franzi a testa.
–Mal fiz o pedido e já chegou? — perguntou confuso.
–Não. É ele...
–Quem?
–Jonathan. — sussurrei sentindo tudo dentro de mim esvaziar. A pouca alegria que tive conversando com George estava me deixando. — Você não vai querer revê-lo.
–Agora eu quero. — ele cruzou as pernas. — Anda veada, vá abrir a porta para o Deus Grego entrar!
Levantei-me olhando para George com pena, meu irmão ia humilha-lo tanto. Ia deixa-lo tão para baixo quanto me deixava. Sei que fazia seis anos que não nos víamos, eu sentia que ele continuava igual. Nas fotos do Facebook, era bonito, risonho, o sonho de toda garota, mas se realmente alguém o conhecesse tanto quanto eu, não chegaria perto.
Minha mão tocou a maçaneta e apreensiva girei-a. Quando abri-a, a pessoa que aguardava me surpreendeu, era ele igual as fotos do Facebook, com uma aparência de homem e não de garoto revoltado desde a ultima vez que nos vimos. Eu tinha dezessete, Jonathan vinte e quatro anos. Tinha os cabelos castanhos despenteados e olheiras profundas e quando seu olhar azul pairou sobre mim senti um pedaço de mim, quebrar ao meio.
–Olá irmãzinha, esperando-me? — a típica pergunta brotou de seus lábios seguida de um sorriso. Aquele que ele fazia para provocar. — Está linda.
–Jonathan. — sussurrei. — Pensei que só chegaria amanhã.
–Ah eu quis vir mais cedo. Soube que iria cuidar de minha irmã ate ela completar dezoito anos, você não sabe o quanto essa notícia me deixou animado. — ele passou por mim empurrando com suas malas. Olhou para a sala de estar e riu um pouco, quando George apareceu do corredor, Jon tossiu.
–George. — gritou. — A quanto tempo! Ainda brinca de boneca com a minha irmã?
–Não. Agora prefiro ficar com homens, principalmente como você, se faz de machão, mas dá o rabo. — respondeu provocando. A não...
Jonathan olhou para seu relógio de pulso. Ouro reconheci, como ele tinha um relógio de ouro se meus pais não se dignaram a lhe dar um centavo quando nos deixou? Deixei a pergunta quieta, quando ele voltou o olhar para George desfazendo o sorriso.
–Você vai embora ou eu preciso quebrar a sua cara para deixar minha casa? — Jonathan disse rápido e direto apontando para a porta ainda aberta. George sempre passava os Domingos comigo, e aquilo me deixou um pouco chateada.
–Eu prefiro ir embora do que conviver com você mais um segundo. Monstro. — George passou por mim com um olhar de pena. Ele sabia o que eu ia viver depois que saísse, o que eu ia sofrer nas mãos de meu irmão. Ge, sempre soube de tudo.
Fechei a porta e bufei. Jonathan riu. Ele era bipolar, completamente. De raiva ia para alegria com um piscar de olhos.
–Estamos a sós. Legal não? — preferi não responder sua pergunta cruzando os braços. — O que foi Talia, está triste porque? Não sentiu saudades?
–A única saudade que sinto, é de você longe daqui.
–Eu mando em você agora. Então... Que pena, não posso fazer nada quanto a isso.
–E a nossos pais? Nem para ir visitá-los você foi não é? Nem chorou por eles... — perguntei sentindo nojo de seu carácter duvidoso.
–Não vejo motivos para chorar. Eles me odiavam e eu a eles. Agora com suas mortes, estamos quites. — pegou sua mala e entrou no corredor, foi arrumar seu quarto. O único sentimento que eu tinha por ele era ódio e nojo.
Como a justiça e principalmente Eduardo, me deixaram nas mãos dele? Eu podia ter ficado com minhas avós — já que ambas estão vivinhas da Silva — ou até com meus tios. Jonathan? Quem foi o louco que autorizou isso?
–Seus pais deixaram por escrito. — disse Eduardo quando lhe fiz a pergunta por telefone. — Queriam que sua guarda fosse para seu irmão. Eles achavam que isso ia fazer vocês se redimirem, e um perdoar o outro.
–São loucos. Eram... — sussurrei confusa. — Porque não autorizou? Você tinha o direito de colocar tudo na mesa e mostrar os motivos do qual ele não poderia de forma alguma vir cuidar de mim!
–Talia... Eu sou amigo de seu irmão, se o fizesse ele me mataria ou até me expulsaria da empresa e acabaria com minha reputação. — esqueci que estamos no Brasil onde dinheiro é mais importante do que tudo. — Desculpe.
–Tudo bem, eu mesma faço questão de expulsar você como um cachorro da empresa quando ganhar o direito dela daqui a seis meses. — desliguei em seguida, não queria ouvi-lo mais. Jonathan apareceu na cozinha procurando algo para comer. Evitei falar com ele, todas as suas perguntas tinham um enorme vácuo como resposta.
Quando a comida que George pediu, chegou. Peguei as duas e comi sozinha deixando Jon com água na boca. Eu não esperava que de troco, ele fosse fazer uma deliciosa lasanha para si. Desgraçado.
Eu não sabia o que viria a ser de mim nesses próximos seis meses, se ele me mataria ou voltasse a me espancar — o pensamento fez meus pêlos se arrepiarem — por isso eu não podia ficar sozinha com ele em casa. Tinha a Así, a empregada e outros que sempre estavam por aqui durante a semana, mas o que seria de mim sozinha com meu irmão nos sábados e domingos? Essa resposta, só ele saberia dar.
–Não vai mesmo falar comigo? — perguntou tirando-me de pensamentos profundos enquanto terminava meu último prato de comida.
–Prefiro beijar um homem e ir para a cama com ele do que falar com você. — respondi afastando o prato. Perdi a fome.
–Não sabia que tinha virado lésbica.
–Graças a você eu tenho nojo dos homens. Não suporto nem quando George me toca.
–Que bom, posso ficar tranquilo, pelo menos você não vai tentar me beijar nem me estrupar a noite.
Revirei os olhos e deixei a cozinha indignada. Como ele podia ser tão... Cretino!

Notas finais
Comente. Deixe uma escritora feliz e pulando pela casa, sou legal eu não mordo. Só arranco pedaço.