As três da manhã
1 Prólogo
Talia C.
"A música que tocava em meus fones não era capaz de abafar os gritos e ruídos ouvidos do andar de baixo, onde ficava a sala e a cozinha. Nem os unicórnios e nuvens coloridas desenhados no teto do meu quarto me traziam paz, nem as bonecas Barbie traziam alegria. Eu devia ter ficado calada não ter dito nada e agora as consequências são essas... Jonathan discutindo com minha mãe.Não que ele fosse um cara bom acima de qualquer suspeita. Ele já fez e vai continuar fazendo coisas erradas e todos aqui sabem disso. Meu pai, meu amigo George e principalmente minha mãe, era nela que tudo o que Jon fazia, a destruía. Afaguei os cabelos da Barbie Cinderela e tentei sorrir, será que um dia eu seria como ela?–Basta Jonathan. — o grito pareceu o último, pondo fim a discussão. A porta da sala bateu e jurei que Jonathan tinha ido embora, e minha mãe viria conversar comigo.Pulei da cama arrancando o headphone da cabeça e em segundos já estava abrindo a porta e olhando para o corredor principalmente para o inicio da escada, ouvi passos. Mãe! Contudo o rosto que vi fez todos os meus órgãos pararem de funcionar.–Olá irmãzinha, esperando-me? — perguntou Jon sorrindo.Fechei a porta e tentei trancá-la, Jonathan foi mais rápido empurrando a madeira contra mim com toda a sua força. Quase caí se não fosse a sua mão puxar-me contra si, queria gritar e bater em seu rosto.–Ouça Vadia! Eu mandei ficar calada e o que você faz? Justo a nossa mãe ? Isso é golpe baixo. — ele me jogou na cama e se aproximou pegando minha Barbie e arrancando sua cabeça. — Até quando vai viver nesses contos de fada? O que você viu ontem, aquilo é a vida real, se voltar a me dedurar vou fazer com você!–Eu não fiz nada... — choraminguei já entregando toda a verdade de bandeja a ele.–Ah... Não fez? — perguntou irônico vi seus olhos azuis brilharem quando ele acertou a primeira palmada em minhas costas. Gemi de dor e ele virou-me começando a queimar meu rosto com tapas seguidos. — Talvez assim eu refresque sua memória.–Eu contei. — gritei e Jon finalmente soltou-me. Sua expressão de fúria sumiu e ele abriu um largo sorriso.–Você só aprende apanhando... — sussurrou. — Mamãe vai voltar com a polícia aqui para eu confessar tudo, só que eu não vou. Porque você vai desmentir tudo, dizer que era outro cara parecido comigo e que eu estava na biblioteca ou trancado no meu quarto e você não sabia.Balancei a cabeça confirmando repetidas vezes enquanto sentia o gosto das lágrimas. A cabeça da Cinderela estava na minha frente, meu sonho era ser tão linda quanto ela. A dor do tapa não era nada, apenas mais uma das várias que já senti.–Se eu voltar pro reformatório faço com você tudo aquilo que viu eu e meus amigos fazendo com aquela garota.Só de pensar já me dava ânsia de vômito e ainda mais vontade de chorar. –Eu vou concertar as coisas. — respondi para mim mesma faltava apenas dois meses para ele se tornar maior de idade e sair desta casa. Se eu ficasse quieta até lá sofreria menos. Saiu do meu quarto e chorei o resto do dia. Quando meus pais chegaram com a polícia, falei tudo o que Jonathan mandou dizer, meus pais ficaram quietos, mas quando a polícia nos deixou... Eles pareceram não engolir a minha versão.Meu pai fitou Jon com uma expressão fria enquanto minha mãe afagava meus cabelos no sofá.–Porque não disse a verdade? — sussurrou ela só para mim.–Você sofreria mais se ele voltasse para a FEBEM. — sussurrei de volta e ela depositou um beijo na minha testa.–Foi você. — disse meu pai ainda com o olhar para Jon. — E não adianta negar porque todos aqui sabem.–Então corra pai... A policia ainda está lá fora, entregue seu filho. — respondeu Jonathan com deboche.Minha mãe ficou surpresa, eu evitei olhar para ele.–Você acabou de vir da FEBEM e já quer voltar para lá de novo? — continuou meu pai indignado.–Talvez eu esteja com saudade de lá. –Cale a boca antes que eu lhe dê a surra que merece. — alertou meu pai. — Talia vai para seu quarto agora e sem más. Não sei porque mentiu garota, devia ter contado a verdade. –Ela só queria proteger o irmão, James. — respondeu minha mãe levantando-se.–Não é porque ama seu irmão que deve protegê-lo, ele tem que pagar por seus erros. — amar? Aquilo tudo era muito irônico, se meus pais soubessem a verdade não pensariam isso. — Agora vá para o quarto.Eu obedeci, o silêncio reinou na sala até que eu finalmente estivesse no meu quarto. Eram tantas conversar que eu já havia perdido as contas, só que desta vez meu irmão tinha passado dos limites.Desde aquele dia, nunca mais vi Jon. E se via era raramente quando ele estava em casa. Trazia várias garotas e vivia trancado em seu quarto. Meus pais não deixaram mais eu ficar sozinha nem um segundo com ele, e no dia do seu aniversário (o pior e o melhor da minha vida) ele se foi deixando a pior marca em mim." –Que marca? — perguntou Bianca observando-me com aqueles seus intensos olhos verdes cheios de curiosidade.
–Nada... — respondi dando um fim a minha confissão. Virei de costas para ela e apertei o edredom contra meu corpo nu, ela colou-se a mim e senti o bico de seus seios na pele fazendo-me arrepiar.–Você nunca me conta o final da história. –O final é este. Eu e você juntas. — fitei a parede de meu quarto enquanto seus dedos alisavam meus curtos cabelos.–Eu sonhei com você. — disse bem perto de meu ouvido. — Estava no altar usando um vestido branco me esperando. Então entrei vestida de noiva como uma princesa. — ela devia estar sorrindo como eu.–A igreja não permite.–E daí? George poderia dar sua benção ao casamento... Padre pra quê? — a situação só estava piorando, George era um gay bem assumido.–Eu vou casar com você e teremos nosso próprio felizes para sempre. — procurei sua mão e quando a encontrei, encaixei nossos dedos.–Vamos adotar todos as crianças do mundo. — gritou pulando para cima de mim, encaixou suas pernas em meus quadris e senti a umidade de sua vagina em meu umbigo, seus cabelos ruivos caíram como uma cascata sobre mim, escondendo nós duas do resto do mundo. Nossos olhares se encontrarem. — O que foi?–Você é perfeita demais para mim. — respondi, quase senti seus lábios se unirem aos meus se não fosse meu celular tocando. Empurrei-a para o lado e tratei de me por em pé pegando o aparelho.–Deve ser os meus pais. — tranquilizei Bianca. Para ela um telefone no meio da madrugada trazia novidades ruins. Mas o nome na tela era outro, Eduardo um dos advogados e amigos da família. — Alô?–Talia? Que bom que atendeu eu, eu não sei o que houve mas, ligue a TV agora. ... — ele disse tão rápido que não entendi coisa alguma.–Liga a tv. — sussurrei para Bianca. Confusa pulou para fora da cama e foi até a Tv ligando a mesma, não resisti e olhei para seu perfeito corpo nu. — Edu? O que aconteceu?–Tudo aconteceu. — gritou Bianca apontando para a tela. Meu olhar seguiu seu dedo. "Casal sofre acidente de carro, duas mortes na Avenida Paulista" dizia a manchete do jornal da madrugada.–Estamos no local do acidente onde os corpos do casal está sendo retirado, a família será avisada. A polícia ainda não quis divulgar suas identidades. — falava uma repórter ao vivo, balancei a cabeça. Em seguida o telefone residencial começou a tocar no andar de baixo.–São eles? — perguntei para Edu, e talvez para eu mesma. –Eu sinto muito Tay. — sua voz saiu como um sopro do outro lado da linha.Não. O celular caiu de minha mão, Bianca correu, mas eu já estava escorregando cada vez mais de encontro ao chão e ao profundo vazio. As lágrimas surgiram e a dor também.
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