As três da manhã
8 O beijo
"As mulheres são como fruta. Cada uma com seu sabor, aroma, forma e cor. O problema está nos homens, que adoram salada de frutas." Anônimo
Bianca S.
Segui seu olhar na direção de uma faca. Estava a centímetros de nós dois, sua mão se esticou e meu olhar caiu sobre o dele. Jon pegou a faca e minha respiração acelerou, sentia meu coração querer sair para fora do meu peito. Fechei os olhos, querendo que tudo fosse um sonho até que senti seus lábios sobre os meus. Droga.
Ele estava me beijando! E aquilo era bom, porque deixei permiti sua língua se unir a minha e a faca tilintou ao cair no chão, a mão que a segurava estava me pressionando contra a geladeira. Eu precisava respirar contudo ele não me soltava, e não deixava eu escapar. No jogo de força ele ganhava. Minhas mãos procuravam desesperadas algo para que eu pudesse usar contra Jon, até sentir o cabo de uma frigideira. Eu não conseguia, estava gostando de suas mãos por meu corpo e seus lábios nos meus, era errado. A frigideira voou na direção de seu rosto e ele se afastou praguejando.
–Desculpa... Mas isso é errado. — fugi da cozinha antes que ele me alcançasse. Ao entrar de volta no quarto tranquei a porta e voltei meu olhar para Talia que dormia profundamente, como eu era uma vadia de traí-la com o próprio irmão.
[...]
Meu celular despertou cinco horas da manhã. Eu nem consegui dormir direito. Observei Talia enquanto trocava de roupa e me preparava para mais uma manhã de ensaios pesados. Desci as escadas correndo e bebi um copo de leite gelado, eu não podia engordar então tinha que evitar comer coisas pesadas, a pizza de ontem foi um erro. Deixei a casa antes que todos acordassem e segui meu rumo para a jornada de ônibus lotado, metrô ainda pior e por últimos a cansativa academia de ballet. Já eram nove horas quando pisei no hall da academia e Rebeca que conversava com seu namorado Renan, venho correndo até mim deixando-o sozinho.
–Bianca! — gritou preocupada. — Madame Pety está a sua espera na sala de ensaios.
–Merda! — bufei respirando profundamente. — Eu vou lá e depois a gente almoça juntas?
–Claro. — assentiu com a cabeça enquanto eu corria para a sala de ensaios com um péssimo pressentimento.
Madame Pety, aguardava-me tocando piano, mal entrei na sala e seu reflexo furioso fitou-me em todos os espelhos colados as paredes. A música parou e essa era a hora de minha bronca.
–Qual é a desculpa para o atraso de hoje? — perguntou friamente. As vezes ela parecia uma vilã de novelas.
–Eu dormi na casa da Tay, e acordei cinco da manhã para chegar até aqui. — respondo.
–Claro! — virou-se para mim, mostrando suas costas aos espelhos malditos. Sua expressão era de puro nojo. — Esqueci de seu péssimo gosto. Seu problema não é namorar e sim fazer da sua vida um namoro.
–Isso não vai se repetir. — sussurrei.
–Ontem você chegou no horário... Porque? — perguntou e demorei para responder.
–Porque eu não dormi com ela.
–Exato! Espero que essa sua vida de atravessar metade de São Paulo só para ver sua namorada não estrague sua carreira. Quinta acontecerá uma festa aqui, e eu vou lhe apresentar para um diretor. Ele quer fazer um espetáculo... Romeu e Julieta. Se ganhar o papel, entrará no Bolshoi. — mais uma vez ela tinha completa razão.
–É meu sonho.
–Então não se atrase, além de perder o papel perderá sua vaga aqui. — ela me olhou de cima a baixo. — Quem será seu acompanhante?
–Talia...
–Não. Ela mais se comporta como uma marginal do que como uma dama. Traga um homem com você.
–Mas.. Ela é minha namorada.
–Problema seu. — ela grunhiu. — As garotas vieram reclamar que não querem tomar banho no mesmo vestiário que você. Disseram que você as olha com perversidade e disso eu não discordo.
–Eu jamais faria isso. Pergunte a Rebeca. — justifiquei.
–Rebeca é sua amiga, é claro que vai te proteger. Vai tomar banho depois dos garotos e no banheiro deles, aliás se quer conseguir o papel de Julieta, vai ensaiar o resto do mês comigo aqui, ok?
Era tudo tão injusto, eu jamais faria isso. E ainda ter que tomar banho no vestiário masculino era ainda mais injusto, e vergonhoso.
–Eu sou melhor que elas. Têm inveja. — respondi.
–Cale-se. Cem flexões por seu atraso.
–Cem?
–Agora! — gritou de volta. Humilhada deitei-me apoiando-me nos mãos, flexões era coisa de exército não de academia de dança.
[...]
–Desde quando estão nos treinando para o exército e eu não sei? — perguntou Rebeca enquanto dividíamos uma salada.
O Subway estava mais vazio do que de costume. Talvez fosse porque almoçavamos onze horas da manhã e não meio-dia. Não me importei, Rebeca era uma ótima companhia.
–Não sei... — respondi pegando um tomate e um pedaço de frango e engolindo. — Sinto que Madame Pety está contra mim.
–Claro que está. Ela te deu um castigo militar, isso é prova o suficiente. — ela arregalou os olhos e ri de sua reação. -Só porque você se atrasou, como se isso fosse novidade.
–No fundo, está certa eu fico demais com Talia.
–Demais é pouco. Você arruinou sua vida, começando por ser a única adolescente a não ter um perfil no Facebook! — gritou. — E nem um namorado.
– Não preciso de Facebook nem de garotos. — falei ofendida.
–Todo o universo feminino precisa. — ela bebeu todo o seu copo de agua em um só gole. — Quando beijar um homem, vai ver como é diferente de Tay.
–Eu já beijei um homem. — enfiei o ultimo pedaço de frango na boca e ela ficou boquiaberta.
–Quem? — seus olhos brilharam de curiosidade.
–Não importa.
–Claro que importa! — ela se inclinou sobre a mesa e pensei que fosse me beijar — Eu te conto até quando eu depilo a axila e porque você não pode me dizer isso?
–Quando foi a última vez que se depilou? — mudei de assunto e ela franziu a testa furiosa.
–Semana passada. Falando nisso Renan já viu e gostou. — acabamos rindo, depois que nos controlamos ela voltou a ficar séria. -Quem, quando e como foi?
Molhei os lábios com um gole de água enquanto pensava no que dizer. Rebeca era minha melhor amiga e sabia arrancar de mim tudo o que queria.
–Jonathan... — ouvir o nome saindo de minha boca era constrangedor. — Ontem, quero dize hoje, e me sinto horrível por fizer que foi ótimo.
–Uau! — ela exclamou sorrindo. — Perae quem é Jonathan?
–O irmão da Talia.
–Ah... Nada haver, ela também te traí quando saí nessas baladas GLS.
–Eu não sou como ela. Podemos ter um relacionamento aberto, mas não é por isso que vou ficar por ai beijando outras pessoas.
–Ele deve ser muito gostoso para você cair na sedução dele. Que tal você nos apresentar, ai eu vou para a cama com ele e o experimento?
–Ah claro! — falei irônica. — Então você me conta se ele é bom ou não.
–Adorei o plano. Renan não pode saber. — mostrei o dedo do meio para ela que fez uma cara de ofendida. — Ouça Bi, porque não prova algo de diferente uma vez na vida? Talia já se relacionou com várias pessoas, você não. Talvez ela nem seja a pessoa certa e você não sabe.
–A gente vai casar. É a pessoa certa para mim. — falei levantando e pegando minha mochila, joguei a mesma nas costas. — Foi só um beijo, não significou nada para mim.
Caminhei até a porta de saída do restaurante.
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