As três da manhã
9 Preconceito
"Fumo agora, fumarei daqui a uma hora, fumo hoje e amanhã. Fumarei sempre, mas não eternamente." Karen C.
Talia C.
Quando o carro parou na frente do colégio, saltei para fora. Pelo menos Jon não havia me deixado sem motorista, seria péssimo andar a pé. George já me esperava sentado na escadaria com um cigarro na mão, não um simples cigarro, era maconha. Merda!
–Oi veado. — falei sentando-me ao seu lado.
–Oi veada. Ta ligada na festa que vai rolar hoje? Baladinha GLS. Vai ser o fluxo. — ele já estava meio brisado então eu não ia insistir.
–Ok eu vou. — levantei-me e segui meu rumo para a escola. De certo George ia matar aula, por isso não me seguiu.
Copiei diversos textos, e ouvi as mais chatas explicações. Porque o início de ano era uma droga? No intervalo encontrei Catita, uma lesbica maluca e sinceramente muito bonita e sexy, estava lanchando sozinha na cantina ao lado do grupinho de populares da escola.
–Oi Tita. — sentei ao seu lado.
–Oi, ontem você nem falou comigo. — resmungou mordendo seu hambúrguer.
–É por causa de tudo o que aconteceu nesses dias... — confessei.
–Pois é os jornais estão falando até hoje de seus pais. Sinto muito. — ela se inclinou sobre a mesa e me deu um selinho para cumprimentar ou para fazer-me melhorar. Voltou a seu lugar e sorrimos.
–Oh sapatonas! — gritou um garoto na outra mesa. — Vão para um motel!
Mostrei meu dedo do meio para ele. Os outros de seu grupinho se ofenderam principalmente as garotas. Pois é, você xinga a galinha e o galinheiro inteiro se ofende.
–Que escrotas. — gritou uma das garotas.
–Vão procurar um pau, pra chupar. — disse novamente o garoto e todos riram.
–Cala a boca seu gayzinho, eu sendo lesbica pego num mês o que você nunca pegou em toda a vida. — gritou Catita e eu fiquei boquiaberta. O sorriso do garoto se desmanchou.
Ela se levantou e pensei que fosse voar no pescoço deles ou começar uma briga. Ela abaixou suas calças e agarrou sua vagina com uma mão por cima do tecido da calcinha e balançou os quadris para a frente e para trás.
–Escrotos são vocês. Peguem no meu pau! — gritou de volta. O grupinho saiu da cantina em seguida horrorizado enquanto eu e Tita caímos na risada. Ela se vestiu e voltou a seu lugar.
–Odeio vadias preconceituosas. — falei.
–Merecem morrer. Aliás George também te convidou para a festa de hoje?
–Sim, eu vou e você?
–Talvez a gente se encontre... — sua mão deslizou por cima da minha. — É uma pena que você tenha namorada.
–Ela não se importa. — falei. Era claro que Bianca se importava, só que nunca era capaz de me largar. Preferia ser corna do que viver sem mim. De fato eu não me ligava, gostava de ficar com outras sabendo que quando eu chamasse Bianca viria correndo.
–Então ta. Na festa a gente se encontra. — disse Catita sorrindo de orelha a orelha.
Estávamos tão concentradas na nossa troca de olhares que não percebemos o caos ao redor. O grupinho voltou, não sozinhos. A diretora e por acaso mãe de uma das garotas, vinha atrás, procuravam alguém e quando nos viram eu sabia que estava fudida.
–São essas duas mãe. — apontou a loira magricela. — Digo, diretora.
–As duas poderiam me acompanhar até minha sala? — perguntou a mulher com cara de fuinha.
Tira levantou-se com a mochila nas costas, eu não carregava nada além de meu celular então pude ir tranquilamente para a diretoria. Só me preocupei que agora quem seria chamado pela escola era meu irmão.
–Foi um beijo casual de quando dois amigos se encontram. — tentou explicar Catita já na sala da diretora.
–Eu não beijo minhas amigas na boca, Sra.Cassilias. — respondeu a fuinha.
–Quantos alunos ficam por ai se beijando a ponto de trepar no corredor e vocês da direção escolar não fazem nada? Foi só um selinho. — continuou Tita.
–O problema é que...
–São duas garotas se beijando! — completei a frase. — E os alunos são tão preconceituosos que ainda não se deram conta de que posso processá-los. Tenho dinheiro e poder para isso.
–Controle suas palavras Sra.Greyson. Não é porque perdeu seus pais que vai ficar revoltada com a vida. — minha vontade era agarrar e torcer aquela garganta miserável.
–Não tem nada haver com meus pais. É a puta da sua filha e sua escola, que se diz a melhor de São Paulo mas para mim é a pior. — gritei furiosa.
–Como ousa falar de Letícia dessa maneira? Não tem moral.
–Nem a senhora tem moral para cobrar de nós, o que aconteceu na cantina. Sua filha fuma maconha no banheiro feminino e apesar das diversas denuncias nunca moveu essa sua bunda gorda para ir averiguar. — respondi a altura. Catita bateu palmas e a mulher ficou com uma expressão de fúria.
–Saiam daqui agora! — gritou explodindo. — E esperem na secretária porque quando seus pais chegarem teremos uma longa conversa.
Sai da sala vitoriosa, nada me preocupava depois de meus argumentos. O que tinha para dizer, disse e ainda fui aplaudida. Sentei num banco de frente para a secretária particular da diretora. Tira ao meu lado.
–Desta vez a corajosa foi você. — disse ela.
–Não. Tudo vai ser em vão, quando ele chegar.
–Ele quem? — perguntou curiosa e sem entender nada.
–Jonathan.
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