As linhas tortas do tempo.
9 Capítulo nove
Notas iniciais
Passei os dois dias seguidos do Natal mofando no meu quarto, 1) Estava muito frio, 2) Eu estava com uma preguiça danada, 3) Eu não tinha absolutamente nada pra fazer do lado de fora do meu quarto, e 4) Finn não tinha me ligado, o que me deixava meio triste.
Finn já me chamava de Rachel Ber, já me chamou para passar o Natal com sua família, mas ele ainda continuava um total mistério, e eu insisto em sair do foque de ajudá-lo a se livrar das malditas drogas, acontece que, ou o Finn as usava escondido, ou ele ainda não tinha chegado no estágio da "dependência", quer dizer, ele já era bem dependente do cigarro, mas da heroína que foi o que o matou eu não vi cara até agora.
Meus salgadinhos e refrigerantes já tinham acabado, então joguei o sobretudo por cima do pijama, coloquei um gorro, calcei meu coturno e fui no mercado, eu só tinha que tomar cuidado para não deixar ninguém me ver naquele estado.
Fui numa mercearia que tinha pertinho da minha casa, não era nada grande, tinha de tudo um pouco, entrei, não tinha aquecedor e o mercado parecia mais frio que lá fora, a moça do caixa conversava com um senhor, peguei uma cestinha e andei silenciosamente pelos únicos três corredores, peguei pão, salgadinho, água e refrigerante, então, eis que eu viro para o próximo corredor e encontro a minha salvação para os dias de frio, uma panela elétrica! Só tinha uma unidade, então me apressei e a coloquei na cesta, ela era do modelo menor, praticamente pra fazer comida apenas pra uma pessoa, o suficiente, já que só eu morava na casa. Então enchi meu carrinho com sopas instantâneas, arroz instantâneo, tudo o que se era possível fazer na panela.
Passei a compra no caixa e até agora tudo tinha ocorrido bem, sem ninguém conhecido me encontrar, com a maravilha da panela elétrica em mãos, talvez fosse meu dia de sorte. Saí na rua, minha casa era logo alí, mais alguns passos e eu estaria nela, mas aí, logo na minha frente eu encontro quem? Isso mesmo, Finn! Era só o que faltava, eu ali podre, com pijama, cara lavada, me equilibrando com as compras em mãos para não escorregar no gelo, e o Finn todo lindo, jaquetinha de couro, óculos escuros — fumando, pra variar — tentei me esconder dele colocando uma das sacolas de compra na frente do meu rosto, mas não adiantou muito, ele logo me viu e venho me cumprimentando com um enorme sorriso.
– Rachel Ber!
Tirei a sacola do meu rosto e fiz um sorriso bem do tipo "nossa você me encontrou nesse estado, que bosta."
– Finn — eu disse meio desanimada e envergonhada.
– Nossa que "Finn" murcho foi esse...
– É que eu não queria que você me visse desse jeito.
– Que jeito?
Ótimo! Agora ele nem tinha reparado em mim, será que tinha como o dia ficar mais bosta, e eis que ficou! Eba!
– Eu estava pensando e por acaso você não quer ir lá em casa?
– Ir na sua casa fazer o que?
– Sei lá, só ir lá.
Merda, ele acabara de me convidar pra ir na sua casa fazer um nada mas que no final podia se tornar um tudo, e eu simplesmente não podia ir, por que eu estava daquele jeito.
– Finn, me desculpa mas, por acaso, eu não posso ir.
– Ah, que pena... — notei um leve tom de decepção na sua voz — Mas no ano novo vamos nos ver, né?
– Não sei, talvez, onde vai passar o ano novo?
– Na praça, eles sempre soltam fogos lá.
– Ah, eu vou ir sim.
Vi o seu sorriso de lado aparecer em sua boca, fiquei a encarando, queria beijar aquela boca.
– Então tudo bem Rachel Ber, até o ano novo — ele disse se despedindo, mas já?
– Até.
Finn tomou uma direção contrária a sua casa e eu fui logo me entrometendo na sua vida.
– Ué, você não vai pra casa? — gritei pra ele que já estava a uma distância considerável.
– Não agora, tenho que fazer algumas coisas antes — ele se explicou do seu modo me fazendo um "tchauzinho" singelo com a mão.
Tornei a meu caminho, estava com um arrependimento enorme por não ter aceitado o seu convite, cheguei em casa guardei o que devia ficar gelado lá na varanda/geladeira, e fui correndo testar minha panela elétrica-salvadora-da-minha-vida-no-frio, deixei a água fervendo e fui tomar um banho rápido.
Como todo mundo faz, fiquei no banheiro fazendo uma profunda reflexão sobre a minha vida, e eu fui a escolhida pra voltar no tempo, eu fui a privilegiada pra voltar e concertar o passado, não o meu, mas o dele. Eu era a encarregada disso, mas ao invés de estar o impedindo de usar drogas, eu estava tomando banho enquanto a água da sopa esquentava, eu sou uma pessoa horrivelmente ingrata.
Terminei o banho e fui tomar uma sopinha de legumes enquanto assistia As Visões da Raven na Disney. Fiquei pensando no por que eu tinha voltado no tempo, no por que entre bilhões de pessoas no mundo que querem voltar ao passado, justamente eu tinha sido a escolhida, tem coisas que são assim, sem porquês, só são como são. Ficar pensando me deu uma dor de cabeça, então tomei um analgésico e fui dormir.
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