As linhas tortas do tempo.
10 Capítulo dez
Notas iniciais
A queima de fogos acontece no Washington Square, aquela mesma pracinha onde eu conversei com o Finn há umas três semanas, era tradição da cidade. Normalmente montava-se um pequeno palco com quilos de fogos de artifício, o povo ficava atrás da grade de segurança apenas observando a festa de cores no céu. Era algo legal de se ver, todo mundo tirava fotos, famílias iam lá, era um ambiente bem alegre.
Estava nevando um pouquinho, então vesti o meu casaquinho cinza que parecia um cobertor, com minha saia, meias e bota preta, coloquei um gorrinho vinho, e fiz cachos na ponta do cabelo. A cidade toda estava indo em direção a praça, eu estava ansiosa para estar ao lado do Finn quando desse 00:00, por que assim como na Times Square, lá também era costume beijar alguém na virada do ano.
Comecei a caminhar, ficava de olho pra ver se o encontrava no meio do caminho; vi um senhor bêbado passando na direção contrária da praça, ele parecia um mendigo, eu senti pena dele; vi um jovem todo de preto, cabisbaixo, com as mãos no bolso, ele também seguia a direção contrária; vi uma família feliz seguindo para a praça e me vi ali sozinha, caminhando pela calçada, vi os diferentes jeitos que cada um comemora o ano novo, e que no final de tudo nem é uma data especial, é apenas mais um dia qualquer, o que o torna especial são as pessoas a nossa volta.
Ao longe avistei Blaine, Mercedes, Santana, Brittany, Puck e Sam, fiquei entre a multidão pra que eles não me vissem, funcionou, eles não me viram, logo fui me afastando, fiquei no começo da praça a uns 5 metros de distância da grade, procurei o Finn, ele não estava com eles, ele não estava em nenhum lugar.
Rodei a praça inteira e logo escutei um "Rachel!" bem animado, me virei na esperança de que fosse o Finn fazendo o nível de intimidade entre nós aumentar mas era apenas o Blaine. Fiquei um pouco desapontada.
– Rachel! Tudo bem?
– Tudo — eu disse tentando ser simpática.
– Veio passar a virada de ano aqui também?
"Não só estou aqui comprando cenouras, claro que eu fui passar a virada de ano lá!"
– Sim — dei uma risadinha meio falsa.
– Ah, vem com a gente — ele disse me puxando, então eu recuei.
– Blaine, obrigada por me convidar, mas você não viu o Finn?
– Não o vejo desde ontem.
– Ah, então acho que vou ficar por aqui e procurá-lo.
– Tudo bem, foi bom te ver.
– Obrigada — eu devia ter dito "foi bom te ver também", mas acontece que não tinha sido muito bom vê-lo, por que u não queria vê-lo, eu queria ver o Finn.
– E feliz Ano Novo — ele me desejou já sumindo em meio a multidão.
Era estranho o Finn não estar alí, ele disse que iria ir. Tentei ligar pro seu celular mas ninguém atendia, não respondia minhas mensagens, parecia ter sumido do mundo. Era cerca de 23:10 e nenhum sinal de vida dele.
Sai da praça e fui até sua casa, estava acesa, subi até a varanda e bati na porta.
– Amiga do Finn! — sua avó me recepcionou toda alegre — Em que posso ajudar?
– Oi, eu queria saber se o Finn está em casa...
– Ah, o Finn saiu de casa faz mais ou menos uma hora, ele disse que ia ir na virada do ano lá na praça.
– Ah ta bom então, obrigada.
– De nada querida, apareça mais vezes.
Dei um sorriso singelo, e fui para a rua, havia cerca de uma hora que ele havia saído de casa, e não tinha chego na praça, pra onde ele poderia ter ido? Eu pensei que ele poderia estar na casa de alguém mas ele odiava casas, o lugar dele era nas ruas.
Já eram 23:45 e nenhum sinal dele, então me lembrei da primeira vez que ele pegou na minha mão, foi em baixo daquela árvore seca, no Memory Grove Park, talvez ele estivesse lá. Comecei a caminhar até o parque, peguei meus fones de ouvido e fui escutando música, eu estava com medo, o caminho era grande, estava escutando Wait do M83, a letra ecoava pelos meus ouvidos, "give your tears to the time, to the time", estava passando por uma rua bem silenciosa, apenas a música em meus ouvidos, tive a impressão de escutar um "Rachel Ber" bem baixinho, tirei os fones, fiquei olhando para a rua, não vi ninguém, continuei meu caminho, e então escutei a palavra "ajuda", parecia um sussurro em meu ouvido, fiquei apavorada, não sabia quem estava pedindo ajuda, olhei atentamente para os lugares, até focar em uma viela escura, ao longe vi alguém sentado no chão, estava inclinado na parede úmida de uma casa, vi a silhueta de seu corpo em meio a neve que era levemente clareada com a luz do luar, cheguei ligeiramente mais perto, era Finn! Apressei os passos, ele estava esparramado pela neve fria, quase desacordado, ao longe já se era possível escutar a contagem regressiva para o ano de 2003.
10...
– Finn! Finn! fala comigo! — ele não me respondia
9...
Eu dava tapinhas em seu rosto, ele suava frio, seus olhos estavam sem um foco, as pupilas dilatas, finalmente ele conseguiu focar nos meus olhos.
8...
– Ainda bem que você veio — ele praticamente sussurrava.
7...
Havia uma seringa ao seu lado, uma colher, um isqueiro, e heroína.
– Finn, finn! Olha pra mim, não feche os olhos, fique olhando pra mim — eu segurava seu rosto, mas ele continuava a fechar os olhos.
6...
Comecei a chorar, ele não podia morrer ali, agora, "SOCORRO!" eu gritava, mas ninguém estava ali pra me ajudar.
5...
– Rachel não chore, é ano novo — ele me disse pausadamente.
4...
– Finn fique aqui comigo, não se vá, fique aqui, olhe pra mim! — eu gritava na esperança de mantê-lo acordado.
3...
– Eu já... estou aqui... com você...
2...
– Tá? — ele dizia ofegante.
1...
– Feliz... ano... no... — Finn desmaiou, alí, em meus braços.
FELIZ ANO NOVO!!!
Os fogos de artifício iluminavam o céu, eu me agarrei ao Finn, minhas lágrimas escorriam pelo rosto dele. Tirei o celular do bolso, liguei para o 911, pedi para que me mandassem uma ambulância imediatamente para a Bonneville Boulevard, eu gritava ao telefone, estava desesperada. Enquanto esperava disquei no número do Blaine.
– Blaine! — o tremor em minha voz era notável.
– Rachel? O que foi?
– Eu achei o Finn.
– Onde?
– Em meus braços.
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