As e Os

1 Eles crescem tão rápido


Notas iniciais
Um romance só para distrair um pouco. :)

Sabe quando você se perde em um assunto? Talvez fosse porque Gabe não para de bater a cabeça na parede ritmicamente. Não é bom de se ouvir, mas é viciante. Ele estava contando alguma coisa sobre o primeiro dia de aula no ensino médio. Ele pirou com a ideia de estar ficando velho e ter que ir para um faculdade em pouco tempo. Eu lembro a sensação da paranoia de que a sociedade vai te cobrar em triplo tudo o que ela dizia que você ainda era muito novo para entender.

— Dá pra parar com isso? Ta me incomodando – coloco a mão entre a parede e a cabeça dele.

— É a sétima vez que você pede isso. Não ta nem ai pro que eu to falando mesmo. Além disso não dói, não com a touca – ele levanta os ombros como se eu fosse a culpada de alguma coisa.

— Ei, eu to te ouvindo falar besteiras já tem uma hora. Agora vamos para minha parte favorita, pessoas novas. Alguém bonito? Alguém legal? Alguém interessante? – a cada pergunta eu faço uma voz diferente, ou pelo menos fracasso de modo engraçado. Ele gosta, apesar de sempre dizer o contrário, faz ele rir.

— Tem uma pessoa, mas não sei se conta. O resto parece ser legal, você sabe, são simpáticos comigo.

— Fala mais dessa pessoa misteriosa – eu tenho trezentos trabalhos e tenho que estudar quatrocentas matérias, então pelos menos tenho que ver o que é possível fazer hoje.

— Olha, a faculdade deve ser cansativa e você tem milhares de coisas pra fazer, aposto. Deixa o papo furado pra outra hora, eu também tenho que ler alguma coisa sobre algum tipo de revolução. To no meu quarto se precisar de alguma coisa – ele finalmente para com o horrível som e sai do quarto.

— Eu mando mensagem caso qualquer coisa – ele vai estar de fones mesmo.

É meu segundo ano na faculdade, mas o primeiro ano que faço ela a distância. Eu meio que consegui uma licença especial para estudar em casa, mesmo ainda fazendo provas presenciais. Pode ser que seja mentira e a diretoria tenha mandado metade do campus para casa porque alguém explodiu o laboratório e contaminou boa parte do local, então como não tinha como realocar tanta gente, eles nos mandaram embora e nos disseram que receberíamos instruções do que estudar por e-mail. Minha mãe aproveitou a situação para me usar de babá, não que eu não goste do meu irmão, só que eu posso ter melhores ideias de como gastar meu tempo.

Gabe tem sido minha válvula de escape há alguns anos. Quando eu estou cansada demais ou estressada com alguma coisa, eu o levo para a praia, parque de diversões ou qualquer lugar onde eu possa ficar uns dois ou três dias longe de tudo. No começo foi meio complicado, ele me rejeitava um pouco. Isso foi um puta eufemismo. Nós não dividimos o mesmo pai, então, antes de o meu ter que ir embora em uma viagem de negócios, meu irmãozinho dizia mentiras depreciativas sobre mim. Ele puxou minha mãe.

Desde que eu vim morar aqui com eles e fui finalmente aceita como parte integral da família, Gabe percebeu o quão importante as viagens de fim de semana são. Eu estava terminando o terceiro e ele o sétimo. Eu deveria ter ido morar com meu pai no final daquele ano, em outro estado. Não conseguiria passar tanto tempo longe do meu pequeno passarinho. Decidi ficar pelo bem da comunidade. Foi só sentar na cadeira e abrir o livro que alguém manifestou-se pela parede.

— Gabe! O que foi isso? – o fato do quarto dele estar literalmente na frente do meu facilitava muito as coisas entre nós.

— Ele ta me provocando, desde que ele me viu hoje cedo – eu lembro quando ele ficava sentado na cama e os pés não alcançavam o chão, agora ele já tem a minha altura.

— Quem? Precisava socar a parede? Você se machucou?

— Não! Ele sabe, eu tenho certeza. Ele deve ter percebido, eu não consegui ser discreto. Eu não sei o que fazer – dá pra ver as lágrimas prontas para correr pelo rosto dele.

— Calma, respira. Me conta com detalhes o que você fez e quem é ele. Eu estou tentando ajudar, preciso de mais do que frases soltas.

— Kai, é um menino novo. Pelo menos eu acho que é um menino e é esse o problema. Eu não sabia se é ele ou ela, então fiquei encarando a manhã inteira. Ele percebeu e veio falar comigo e eu não sei como responder. Eu não queria ofender ele, só queria saber como chamar ele. Ou ela.

— Espera, ele é aquele alguém que você mencionou antes, quando eu perguntei se tinha alguém bonito? Olha, não precisa ficar assim, as vezes a gente acha alguém do mesmo sexo que é bonito e atraente. Não significa que você é gay ou alguma coisa assim. Me deixa ver como ele é.

— Não tenho nenhuma foto dele, ninguém tem. Sem rede social, a única coisa é o Whats, mas também não tem foto de perfil. O problema é que todas as meninas acham ele uma gracinha e os caras querem saber se é ele ou ela. Eles fizeram Kai passar vergonha na frente da sala inteira. Eu quero ajudar, eu queria ajudar...

— Kai, que mistério de pessoa. Eu vou te ajudar a resolver isso, apesar de eu não chamar de problema. Amanhã, quando você chegar na escola, convida seus quatro melhores amigos pra vir em casa no sábado, na frente do menino novo, daí você puxa assunto com ele e distraidamente, como se não quisesse nada, chama ele. Lembra de chamar pelo menos uma garota ou duas, assim se for uma menina, ela não vai se sentir desconfortável.

— Você acha que vai dar certo? – ele limpou as marcas molhadas com as costas da mão.

— Tenho. Não precisa ficar nervoso. O que ele te mandou? Aposto que você fez cena por nada.

— Ele perguntou se eu poderia parar de encarar ele nas próximas aulas, ele se sentiu desconfortável. Eu te disse, ele percebeu que eu não sei o que ele é.

— Amanhã eu vou visitar o colégio, ver como os professores estão e tudo mais. Vou na hora da saída, ai eu vejo se posso ajudar. Pode ser?

— Valeu, você é a melhor, Gabi.

Eu sei que ele está assustado porque é um menino e pode estar apaixonado por ele. O amor é tão bonitinho que eu estou morrendo de vontade de voltar lá e apertar as bochechas do Gabe. Isso vai ser no mínimo interessante. Agora vamos procrastinar uma pilha de coisas e ser feliz como sempre.

Notas finais
Hey! Então eu vim escrever um romancezinho só para distrair um pouco daquele sangue e daquela violência. Não vou abandonar a história, preciso de um tempo para colocar as coisas em ordem e trabalhar em alguns outros projetos. Espero que não fique muito clichê, vou tentar meu melhor. Espero você no próximo capítulo, não morra até lá.