As duas vidas de Catarine
7 Outra invisível versão de mim
Notas iniciais
Allain estava preocupado e paranóico com os últimos acontecimentos, voltamos ao apartamento que me pertence nessa vida doida e ele trancou a porta e todas as janelas, desceu as persianas e quando não estava puxando um pedacinho delas para espiar a rua, estava no celular falando rápido com alguém ou no computador, ele estava com medo que mais homens armados aparecessem e nos trouxessem de presente algum problema, como polícia, complicações na empresa que trabalhava ou nossa morte. Ele não parecia o tipo de cara que tinha medo de morrer, mas parecia temer que acontecesse comigo.
Deixei-o na sala e fui para o quarto, joguei-me na cama e observei o teto por um instante, haviam tantas coisas na minha cabeça, tanto em que pensar que nem conseguia organizar os pensamentos e decidir por onde começar. Eu havia matado pessoas e não havia nenhum vestígio de qualquer sentimento em relação a esse fato para me punir, pensamentos sobre meu irmão morto ficavam surgindo, assim, do nada, eu estava gostando de muitos aspectos dessa vida quando sabia que não deveria, eu estava passando do estágio de confusa para completamente insana, apaixonada em menos de vinte e quatro horas pelo homem no outro cômodo, quando passei os últimos anos amando outro garoto, que agora parecia já não significar mais nada, metendo-me em brigas de bar, levando praticamente numa boa o fato de ter acordado na vida de outra pessoa, logo depois que o choque inicial passou, é claro. Suspirei e virei-me de lado, encarando as cortinas fechadas, fechei os olhos e antes de me perder em devaneios, ouvi minha própria voz.
– Quem é você? – A voz era agressiva, mas era como se eu mesma estivesse falando, ou como se houvesse uma duplicata de mim, tão perto que pude sentir seu hálito quente de cigarros.
Com esse último pensamento abri os olhos e me assustei, afundando mais no travesseiro, não gritei, a verdade era que o cheiro de cigarros e bebida me fez esperar ver Allain, mas definitivamente não aquilo, não realmente uma duplicata de mim.
– Você é algum tipo de “projeto” da SSTA? Isso tudo é realmente a merda de um teste, não é? – A minha duplicata me fitava com olhar muito parecido com o de Allain, havia algo de muito perigoso e assassino, ela falava com algo beirando a indiferença, mas, ainda assim, parecia agressivo, estava curvada sobre mim, me olhando de perto, mas então afastou-se e começou a andar pelo quarto.
Ela era idêntica a mim, o mesmo cabelo, mesmos olhos, altura e peso, foi então que percebi que essa era a dona dessa vida, a Cat assassina, a garota que o Allain amava e com quem tinha uma história… Que coisa louca… Pensei então que se ela estava aqui, havia uma forma de eu voltar para minha vida… Mas eu queria voltar?
– O que você está fazendo na minha cama, vadia? – Ela perguntou sentando-se na cama e acendendo um cigarro.
– Eu… Não sei… Simplesmente acordei na sua vida… – Eu disse, me sentando, observei bem para ter certeza que ela não estava com nenhuma arma, louca para me matar.
A outra Cat pareceu pensar por um momento e recostou-se na cabeceira dando uma tragada e depois soltando a fumaça devagar, antes de falar.
– Deixe-me adivinhar, você conhece o Roger?
– Sim. – Respondi com desconfiança, o quanto ela sabia da minha vida? Ou pior, será que aconteceu com ela o mesmo que aconteceu comigo? Ai meu Deus, isso certamente bagunçou minha vida toda, ou pior, ela matou meus pais, ou qualquer um… Ai. Meu.Deus…
– Nós somos mesmo idênticas ou isso na sua cara é só maquiagem cinematográfica ou sei lá?
– Essa é a minha cara, eu garanto. – Me apressei em dizer, desejando que ela não quisesse arrancar meu rosto para ter certeza.
– Então o que somos? Apenas muito parecidas ou gêmeas separadas no nascimento? O que você acha, garotinha cor de rosa?
– Acho que vivemos versões diferentes da vida, como… Dimensões paralelas…
Ela me olhou por um instante com uma cara estranha e quando percebeu que eu falava sério, começou a gargalhar.
– É mesmo? – Ela perguntou – Não seja idiota, se somos versões da mesma pessoa que vivem em dimensões paralelas, então o que estamos, nós duas, fazendo aqui? Na mesma cama, tendo essa conversinha?
A versão assustadora e assassina de mim se levantou, olhando para algum ponto invisível no ar, deu alguns passos pensativa e então parou no meio do quarto e virou-se para mim com uma expressão de pura raiva.
– Espera… – Ela começou, apontando para a porta às suas costas com o polegar – Allain está aqui? Sua cadela desgraçada! Eu não acredito nisso!
Ela começou a andar de um lado para o outro depressa e eu estava paralisada, só conseguia observar, essa garota era uma assassina e era intimidadora, assustadora e eu só conseguia pensar que a qualquer momento ela iria me matar por estar em sua vida e… Ter feito sexo com seu namorado.
– Você… Você transou com ele, não foi? Claro que foi, por qual outro motivo ele estaria aqui? – Ela parou de andar de repente e respirou fundo, fechando os olhos, suavizou a expressão e me fitou – Bem, espero que tenha aproveitado. E de qualquer forma eu estou sendo tão injusta, não é? Afinal eu transei com o Roger, então acho que está tudo bem.
Ela sorriu de um jeito nada amigável e voltou a se sentar na cama.
– Você… Você… Ficou com o Roger? – Eu não estava conseguindo processar bem essa informação.
– É.
A porta foi escancarada e Allain me encarou de forma estranha e desconfiada, eu gelei, pensando em como explicaria essa situação.
– Com quem você está falando, Cat? – Ele perguntou, olhei para a outra Cat, que também olhou para mim, então olhamos para ele, ambas percebendo que ele só estava enxergando a mim.
– Co… Comigo mesma… – Gaguejei, um tanto espantada com tudo isso.
– Cento… – Ele disse, balançando a cabeça positivamente, ainda com a estranha expressão, então voltou a fechar a porta e me deixar sozinha com a outra invisível versão de mim.
Ela continuou fumando em silêncio, encarando a porta com olhos semicerrados, provavelmente tentando pensar na loucura que era tudo aquilo, como eu mesma estava fazendo.
Quando finalmente decidiu quebrar o silêncio, ela quis saber porque Allain estava no apartamento comigo, então expliquei a ela tudo o que aconteceu desde que acordei naquele quarto de hotel no dia anterior, ela pensou um pouco sobre o que falei e então começou a narrar sobre sua estranha experiência de acordar em um hospital e estar em minha vida,com meus pais e meus amigos, meu irmão e... Roger, sobre todas as loucuras em que se meteu com ele, não tão diferentes assim do que andei fazendo com Allain, no fim das contas, confusão, briga de bar, sexo… Percebemos então que parecíamos estar em tempos diferentes, ao que parecia, de acordo com a data nos calendários, parecia que estávamos em tempos diferentes. Ela acordou em minha vida, dois dias antes de eu acordar na vida dela.
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