As duas vidas de Catarine
8 Para o inferno!
Notas iniciais
Depois que terminei minha parte do trabalho, depois que matei todos aqueles pedófilos nojentos, fugindo naquele táxi, não conseguia conter minha excitação pelo que faria a seguir, meu coração batia cada vez mais forte, sentia que de alguma forma estava perdendo meu último fio de sanidade, mas estava até salivando por aquele momento.
Assim que o taxista me deixou na rua em que pedi, corri para localizar a casa certa, olhei bem ao redor, não queria que ninguém me visse, não podia ter qualquer atitude suspeita que fizesse alguém querer me observar, nenhuma daquelas velhas vagabundas sem nada melhor para fazer, se não vigiar a vida alheia, toda vizinhança tinha, pelo menos, uma dessas. Olhei bem e tive certeza que àquelas horas algumas pessoas já estavam dormindo, se masturbando na frente de um computador ou vendo TV, qualquer coisa assim, aquela era uma rua completamente residencial e já havia passado da hora de passear com cachorros e chegar em casa do trabalho ou da escola.
Próximo ao fim da rua havia um banco de concreto embaixo de uma grande árvore, cercado por algumas flores e mato, uma espécie de micro pracinha, se as informações que Livy me passou sobre o cara estivessem corretas, ele chegaria em poucos minutos e entraria naquela bonita casa que ainda estava em meu campo de visão, mesmo ali do fim da rua. Sentei-me no banco e peguei meu celular, fingi digitar mensagens e ouvir música com fones enquanto esperava pacientemente o homem que matara meu irmão chegar.
Depois de pouco mais de vinte minutos de espera, o homem passou por mim, bem na minha frente, parecia um desses professores pervertidos, de cabelos perfeitamente alinhados com gel, óculos grandes, pasta na mão e um suspeito sorriso gentil, ele me dava nojo.
O homem caminhou devagar na calçada, atravessou a rua e então entrou na casa que Livy me disse que ele entraria. Poderia tê-lo matado ali mesmo, só um tiro e então iria embora, seria rápido e fácil, mas eu queria olhar bem para ele, queria que ele soubesse quem sou, pelo quê iria me pagar, porque estava perdendo sua vida.
Andei rápido até a entrada da casa, observei o jardim perfeito, olhei em volta rapidamente, para ter certeza que ninguém me via e pulei o portão tentando ser o mais silenciosa possível. Corri abaixada até uma das janelas laterais da casa, onde ficaria oculta pelos muros e pelas flores e assim os vizinhos não iriam me ver, as janelas estavam abertas e as cortinas também, apenas as partes de vidro estavam fechadas, ergui minha cabeça para espiar o interior, era realmente uma casa bem grande e bonita, haviam três homens lá, o que eu iria matar, sentado em uma poltrona, conversando com os outros dois, que assistiam TV, os três eram bem parecidos, certamente irmãos. Ainda abaixada, fui até os fundos, olhando por todas as janelas não vi sinal de mais ninguém na casa, nenhuma mulher, a casa era tão arrumada e tão feminina, pelo que pude ver, que parecia estranho que não houvesse uma mãe, irmã ou esposa por lá, mas eles eram apenas três velhos safados e filhos da puta com mania de arrumação. Peguei minha arma e, tendo o cuidado de não deixar minhas digitais na maçaneta, entrei pela porta dos fundos, que para facilitar minha vida estava destrancada.
Andei devagar pela cozinha e depois pelo corredor, olhando cada cômodo ao passar e quando cheguei à sala, percebi que um dos homens não estava mais lá, os outros dois ainda estavam conversando em frente a TV, sobre coisas banais, mas o terceiro, ou havia saído enquanto eu entrava na casa, ou estava no andar de cima.
– Olá, Jonas. – Eu disse, apontando a arma para a cabeça do assassino do meu irmão, sem conseguir me conter mais.
Os dois homens assustaram-se e viraram-se para mim com espanto nos olhos, a boca meio aberta como se tentassem decidir o que dizer, mas sua mente não funcionasse bem pelo choque de dar de cara com uma garota segurando uma arma em sua direção.
– Imagino que você não saiba quem sou, mas eu quero que você saiba. – Falei enquanto andava devagar até a porta de entrada, para ter visão completa dos dois e da escada, não queria ter nenhuma surpresa caso o terceiro homem estivesse no andar de cima.
– O... O que você quer? – Jonas perguntou, levantando-se ao mesmo tempo que o outro homem.
– Sente-se, vamos ter uma conversa, rápida e esclarecedora, não quero demorar, meu dedo no gatilho não vai se conter por muito tempo. Onde está o outro homem?
Nenhum dos dois disse nada, eu estava suando e cheia de adrenalina, tinha que acabar logo com aquilo, era o que eu estava esperando, só aquele pequeno momento para um grande feito com tanto significado em minha vida e para meu irmãozinho.
– Você matou meu irmão, – Comecei, sem perder mais tempo e continuei a história como se estivesse narrando algum suspense ficcional – Há alguns anos você invadiu uma casa, apenas uma garota e seu irmãozinho estavam lá, você fez coisas horríveis, Jonas, você matou o garotinho e fugiu quando percebeu que a garota correra para pedir ajuda...
Jonas me olhava impassível, perigoso, o outro olhava dele para mim e de volta para ele, mas os dois continuavam mudos, como se temessem que qualquer coisa que saísse de suas bocas, até mesmo alguma desculpa esfarrapada, fosse fazer minha arma disparar ou metê-los em problemas com a polícia, eu era a invasora armada, mas dava para ver nos olhos deles que temiam a verdade em minhas palavras, se a polícia viesse, eu seria apenas uma garota louca e traumatizada, procurando vingança pela morte de seu irmão.
– Mesmo depois de tudo o que você fez, continuou vivendo sua vidinha de merda, feliz e livre por muito tempo e há muito tempo eu tenho procurado você, há muito tempo tenho desejado esse momento, você não sabe o quanto. – Sorri para eles, mordendo o lábio inferior.
– Você está errada! – Disse o outro homem, fingindo pânico, mas dava para ver, bem no fundo de seus olhos, que ele estava frustrado por eu estar ali, por estarmos naquela situação.
– Eu não matei ninguém, você é louca e se continuar com a palhaçada, vai acabar presa por assassinar um homem inocente. – Jonas disse, usando o mesmo tom que certamente usava para repreender seus estúpidos alunos, que não faziam ideia do monstro que ele era.
– Eu não estou errada, querido, eu tenho provas. Muitas.
– Você não tem nada, porque eu não fiz nada. Se eu tivesse feito e se você tivesse alguma prova, a polícia teria batido à minha porta e não uma criança surtada com uma arma. Eu não matei ninguém e você também não vai, você precisa de uma família que saiba criar seus filhos direito e de muitos remédios. – Jonas parecia com raiva, foi até o telefone e quando tirou-o do gancho, eu atirei.
O homem gritou e segurou o braço, onde a bala o atingira.
– A polícia não te daria a justiça que você merece! – Eu disse e me aproximei alguns passos.
Enquanto o outro homem mantinha os olhos em mim, atirei mais duas vezes, acertando os joelhos de Jonas, ele caiu e então algo veio em minha direção, atingindo-me na cabeça, fiquei desnorteada apenas um mínimo instante, o outro homem correu na direção da cozinha, o maldito desgraçado jogou um troço estranho de vidro na minha cabeça, que pegou da estante ao lado dos sofás em algum momento que não percebi, corri atrás dele e disparei mais dois tiros, um o atingiu na cabeça e ele caiu quando estava tentando chegar a um dos armários, provavelmente para pegar uma arma.
Voltei depressa para a sala, para acabar logo com aquilo, pensando no terceiro homem, acreditei que ele não estava no andar de cima, se ele estivesse em casa, certamente já teria dado o ar da graça. Eu precisava ser rápida, depois dos tiros era certeza que a polícia não demoraria muito.
Assim que Jonas, caído no chão numa poça de sangue, entrou em meu campo de visão, percebi que havia alguém no último degrau da escada, perto demais, tarde demais, a arma estava apontada para Jonas e o maldito do terceiro homem estava lá, atrás de mim, deu-me um soco na cabeça, segurou meus braços e torceu-os para trás, minha arma disparou uma vez, mas a dor me fez largá-la, o desgraçado estava tentando quebrar meus ossos, gritei e ele me jogou contra uma parede, bati a cabeça com força e minha visão ficou embaçada, ele pegou minha arma, mas me obriguei a levantar e jogar-me contra ele, caímos, a arma disparou mais uma vez, ele me empurrou para o lado, era grande e forte. Consegui afastar a arma com a perna, antes que ele a pegasse e rapidamente peguei a faca em minha bota, quando ele agarrou meus cabelos, enfiei-a na coxa dele, ele berrou e eu retirei-a e enfiei-a novamente enquanto ele puxava tão forte meus cabelos e me jogava para trás que me deu uma dor de cabeça imediata. Tentei cortar-lhe a garganta, mas ele desviou e segurou meu braço, eu o chutei no joelho com toda a força que tinha e quando ele caiu, chutei a cara dele, fazendo o sangue jorrar do nariz e da boca. Corri cambaleante para pegar a arma quando a campainha tocou e alguém lá fora chamou.
Que merda, eu não podia mais perder tempo, precisava ir.
Jonas tentava se arrastar até a cozinha, o que tornou clara minha teoria de que havia uma arma lá, aproximei-me dele, andei até que cada uma de minhas pernas estivesse em um lado de seu corpo e atirei em sua cabeça, o sangue espirrou em minha calça e botas. Virei-me para atirar no terceiro homem e percebi que minhas balas haviam acabado.
Ele correu em minha direção e se atirou em cima de mim, fazendo-me bater contra a parede, me acertou dois socos, senti o gosto de sangue na boca e antes que ele me batesse mais, enfiei a faca no seu abdome, a campainha tocava com mais urgência, enfiei a faca novamente quando ele caiu, corri e saí pela porta dos fundos, pulei o muro para a caso do vizinho de trás, guardei a faca e a arma e corri, passei pelo lado da casa, atravessei o gramado que ladeava um caminho de pedra onde um carro estava estacionado, escalei e pulei o portão, direto para a rua de trás da casa de Jonas, corri até virar uma esquina e me afastar o máximo que pude, tirei o capuz e respirei aliviada.
Eu já tinha estudado todas aquelas ruas, sabia onde encontrar pontos de ônibus e táxi, porém o ponto de táxi por onde passei estava vazio, andei então até o ponto de ônibus mais próximo e, para minha total e completa sorte, um ônibus chegou imediatamente, não fazia ideia por onde ele passava e qual o destino, mas só precisava me afastar dali rápido.
O ônibus estava quase vazio, larguei-me em um dos assentos e fechei os olhos, estava exausta, precisava dormir, os efeitos depois de descargas de adrenalina eram difíceis, sentia minha cabeça e meu rosto inteiro latejando, meus lábios queimavam e sabia que estavam inchando, porém eu finalmente podia sentir o alívio tomar conta de meu corpo, depois de tanto tempo o assassino de meu irmão estava morto, ele já podia descansar em paz e eu já podia viver o resto da minha vida sem sentir que havia algo que eu tinha obrigação de fazer.
Minha única preocupação restante agora, era sobre o terceiro homem, eu não tinha certeza se conseguira matá-lo, mas também seria perigoso perder mais tempo para garantir isso, então por precaução eu não podia ir direto pra casa.
Senti o celular vibrar no bolso, olhei sua tela escura, o ícone de ligação piscava e logo abaixo estava o nome de Allain, devolvi o celular ao bolso e dei sinal para que o ônibus parasse no próximo ponto.
O plano de Allain sempre foi que deveria estar comigo quando eu fosse cumprir minha vingança, ele queria garantir que eu não fosse me deixar levar pelo impulso e fazer tudo de forma imprudente, ele estava certo no fim das contas. Sorri amargamente ao pensar nisso, estávamos tão afastados, a verdade era que eu nunca teria conseguido nada se não fosse por ele, ele me apresentou a Livy, ele me ensinou a matar e foi com o dinheiro dele que pude pagar por parte das investigações de Livy, ela realmente tinha um preço muito alto... Eu não queria falar com Allain agora, era certo que ele iria reclamar, gritar e brigar comigo pelo que fiz, pela forma como fiz e por não garantir que todos estavam devidamente mortos no final.
Quando desci do ônibus, liguei para o serviço de táxi e esperei até que um chegasse para me buscar e me levar até o hotel de costume, estava reconhecendo as ruas e sabia que não estava longe do hotel, já de casa eu estava bastante e tudo o que eu queria agora era deitar e dormir.
No hotel pedi o quarto de sempre, o melhor.
Logo que tranquei a porta, larguei a mochila na cadeira ao lado dela, arranquei minhas roupas e tomei um banho rápido, passei uma toalha úmida nas botas para tirar um pouco do sangue e então me joguei na cama, enrolei-me nas cobertas e deixei o sono me alcançar lembrando-me do rosto de Emanuel e imaginando que ele podia sorrir agora, podia sorrir porque seu assassino finalmente fora para o inferno.
Fale com o autor