As duas vidas de Catarine
6 Não fique com medo, querida
Notas iniciais
Roger ainda estava na minha cama quando acordei, sinceramente esperava que ele já tivesse ido embora. Ele estava me olhando com aquele seu jeito de garotinho, eu apenas sorri, ele já sabia a encrenca que eu era e mesmo assim queria ser cavalheiro.
Levantei-me, vesti um camisetão preto de alguma banda que Allain gostava e acendi um cigarro, ele apenas continuou me olhando, parecia pensar em algo.
– Você sabe que apesar de eu ter me divertido muito noite passada e de ter gostado muito do que fizemos, não sou sua namorada, certo? – Comecei, em pé no meio do quarto, estreitando os olhos ao fitá-lo – Você é um garoto realmente bonzinho, Roger e eu... Não sou a garota que você pensa que conhece, estou longe disso.
Caminhei até a mesa de cabeceira e peguei a arma reserva que sempre deixava lá. Roger arregalou os olhos ao vê-la e não pude conter o riso.
– Eu sou problema, Roger, um tipo de problema com o qual você não quer se envolver, acredite.
Por um momento ele ficou me olhando com uma estranha expressão, uma espécie de decepção e incredulidade, misturadas a um pouco de raiva. Vestiu-se depressa e parou na porta antes de ir embora.
– Juro que não entendo... – Ele disse apenas e saiu batendo a porta.
Perguntei-me se ele se referia ao fato de eu ser diferente do que ele pensava ou ao fato de eu tê-lo dispensado depois da noite passada.
Joguei-me na cama, dei uma longa tragada no cigarro e segurei a arma acima de meus olhos, fiquei observando-a por algum tempo. Eu sabia tudo o que precisava sobre o maldito que matou meu irmãozinho e precisava resolver isso, acabar esse assunto de uma vez.
Depois que o cigarro acabou, tomei um banho quente e demorado, me vesti e peguei minhas botas favoritas, encontrei meu celular debaixo de algumas roupas que estavam jogadas pelo chão, Allain me mandara algumas mensagens de texto avisando que teve problemas no ultimo trabalho e que trocara o número do celular. Passou-me as informações sobre um trabalho que precisávamos fazer juntos e informou que me esperaria as oito horas da noite em um café.
Peguei meu relógio de pulso na mesa de cabeceira e arrumei uma mochila pequena com algumas coisas que eu poderia precisar, minhas duas armas, balas, a faca de caça, três maços cigarro, para o caso de eu ficar muito nervosa, não poder voltar para casa ou ficar impossibilitada de conseguir comprar mais por qualquer motivo que fosse, alguns de meus documentos falsos e um casaco, para o caso de esfriar mais depois.
Desliguei aquela merda de celular rosa medonho, que já começava a me dar dor de cabeça de tanto tocar com ligações e mensagens de Rita, Tiara e meus pais e joguei-o no lixo, joguei uma bandeja de lasanha congelada no micro-ondas e esperei até que ele apitasse quatro vezes me avisando que já estava pronta. Levei a comida numa bandeja para a sala e quase tropecei nas roupas que deixei espalhadas pelo chão, fazia tempo que não arrumava esse lugar, sentei-me no sofá e comi mudando os canais da televisão sem parar, não havia nada que se pudesse aproveitar na porra da grade de programação.
Lembrei-me de meus remédios, senti falta deles no dia anterior, quando terminei de comer fui até a mesinha de cabeceira e os peguei, tomei um de cada com grandes goles de água, certamente boa parte das coisas loucas que me aconteceram, como a confusão e acreditar que vi meu irmão, eram efeitos de passar tempos sem eles, ao devolvê-los à gaveta, vi a foto que Tiara e eu tiramos quando ainda estávamos juntas, quando eu gostava de mudar meus cabelos, todos os dias usando uma peruca diferente, fechei a gaveta, peguei o notebook e joguei-me na cama, abri os arquivos que guardava com informações do assassino do meu irmão e fiquei horas ali, olhando cada detalhe, como vinha fazendo desde que consegui todo aquele material.
Assim que percebi que já estava anoitecendo, me apressei para encontrar Allain. Cheguei uma hora antes do combinado no café, sentei-me à uma mesa junto à grande parede envidraçada e pedi torta de maçã e cappuccino de chocolate com menta, comi devagar enquanto esperava, fazia tempo que não trabalhava com Allain, a última vez fora pouco depois que terminei o relacionamento que nunca tivemos e desde então eu não o vi. Eu sabia que gostava dele, o quanto gostava, ele era um homem de trinta e dois anos, cheio de tatuagens com significados místicos em que acreditava e eu desconhecia, tinha aqueles olhos perigosos e sorriso pretensioso, eu era apaixonada por tudo nele, mas tinha algo mais importante que meus sentimentos para lidar, minha vingança, talvez depois de dar fim a esse assunto eu pudesse pensar na possibilidade de começar algo com ele, mas talvez ele não quisesse mais nada comigo, já que logo depois que terminamos eu fiquei com Tiara e ele pareceu odiar isso, odiar muito, muito mesmo.
Perdida em meus pensamentos, não notei quando Allain chegou e sentou-se à minha frente.
– Oi, Cat. – Ele disse sério e quase me assustou.
– Oi. – Levantei os olhos para ele com um pequeno sorriso – Faz tempo que não trabalhamos juntos...
– Você já está bastante independente. – Não havia qualquer vestígio de sorriso ou simpatia nele – Pronta pra ir?
– Sim. – Fui pagar a conta e o segui até sua moto no estacionamento.
Nossa, como eu amava aquela moto, por um instante lembrei-me das vezes em que ele dirigiu como louco, me fazendo gritar com aquela sensação incrível. Subi na moto e ele me levou até um lugar próximo de onde o trabalho seria realizado, não falamos até chegar lá.
– Depois que terminar me avise, entendeu? – Ele me olhava com frieza, ainda estava com raiva.
Apenas assenti. Escondi uma das armas debaixo do casaco, na parte de trás de minha calça e a faca em uma das botas.
Seja rápida e não faça besteiras.
– Eu conheço as regras, Allain. – Disse com um suspiro.
Assim que Allain se foi, peguei o celular e olhei o endereço para onde eu deveria ir, apaguei todas as informações sobre o trabalho, saí do beco onde estava e andei rapidamente em direção a um parque que havia a alguns metros, deveria esperar lá por dois homens. Sentados em bancos próximos ao portão principal do parque haviam alguns adolescentes fumando baseado e usando outras drogas, fiquei encostada ao portão esperando, conforme as informações que Allain me passou. Rapidamente dois homens com roupas escuras se aproximaram, um mais baixo e gordo, com boné e o outro loiro com óculos grandes e olheiras profundas.
– Oi e ai? – O loiro falou baixinho, tinha um sorriso maníaco e nojento, cheirava a maconha e cerveja barata.
– Oi. – Eu disse séria, minha mãos coçando para cortar a garganta daqueles dois escrotos filhos da puta.
– Você é a garota do K, certo? – O gorducho pergunto, me olhando de forma perversa, dos pés à cabeça e parando em meus seios.
Balancei a cabeça positivamente, sentindo nojo. O gordo fez sinal com a cabeça para que eu os seguisse e o loiro me segurou pelo braço, percebi o olhar dele dirigir-se para minha bunda.
– Você é cheirosa... – Ele disse com seu sorriso podre ao cheirar meus cabelos.
Eu não disse nada. Meu coração já estava acelerando, o surto de adrenalina estava acontecendo, já preparando meu corpo para o que eu precisaria fazer. Eu estava suando, com leves tremores, podia ouvir e sentir o pulsar de meu coração, mas não, eu não estava com medo, aquilo era verdadeiramente excitante e eu estava ansiosa pelo momento em que a diversão iria começar.
Andamos para longe do parque e viramos uma esquina, três casas depois, entramos por um portão de garagem, seguimos por um corredor e descemos por uma escada estreita até uma espécie de sala onde haviam mais cinco homens, computadores, câmeras fotográficas, filmadoras, um grande sofá, algumas cadeiras, bebidas, drogas, uma mesa de centro com duas armas em cima, nenhuma janela e nenhuma porta além daquela pela qual entramos.
– Quantos anos você tem? – Um dos homens sentados no sofá me perguntou.
– Quatorze. – Eu disse mordendo o lábio, tentando fingir a melhor expressão de timidez e nervosismo.
– Parece mais velha! – Ele disse, levantando-se e andando em minha direção.
Deixei minha mochila cair no chão e os dois homens que me acompanharam se afastaram para pegar câmeras.
– É a maquiagem... – Eu disse, com minhas mãos para trás, fingindo estar inibida e amedrontada.
– Não fique com medo, querida... – O escroto disse, tentando parecer suave e tocou meu rosto com delicadeza, depois segurou minhas bochechas com violência.
Deslizei minha mão devagar para debaixo do casaco e peguei minha arma, rapidamente encostei-a na cabeça do homem, antes que ele se desse conta do que estava acontecendo, atirei e nesse momento a diversão realmente começou, era como se eu pudesse mesmo ver tudo em câmera lenta, tive que ser rápida, atirei no homem mais próximo, enquanto dois deles tentaram correr para as escadas, um se jogou no chão entre o sofá e a mesa e os outros dois pegaram as armas em cima da mesa. Atirei primeiro em um dos homens que tentou fugir pelas escadas, ao mesmo tempo em que ouvi um tiro ser disparado, a bala me atingiu na coxa esquerda, atirei no segundo homem e antes que o corpo caísse nos degraus, eu o segurei e puxei-o para minha frente, usando-o como um escudo, senti o impacto das balas disparadas pelos dois homens armados atingindo o corpo, atirei sem parar até que os tiros disparados contra mim cessassem e os homens caíssem no chão. Soltei o corpo que segurava, andei devagar até onde o último homem estavam encolhido no chão, ele dizia alguma coisas, mas eu não o entendia, só ouvia minha respiração ofegante de excitação e as batidas do meu coração. Atirei duas vezes acertando na cabeça.
Peguei minha mochila e saí de lá correndo, puxei as mangas da blusa para cobrir minhas mãos, tomando o cuidado para não deixar minhas digitais quando abri o portão.
Escondi a arma e corri o mais rápido que pude pela rota que estava especificada nas informações do trabalho, para uma rua em que havia um ponto de táxi. Três táxis estavam parados, entrei no primeiro e antes mesmo que o motorista me perguntasse para onde eu queria ir, falei o endereço de onde encontraria o assassino do meu irmão.
Precisava fazer isso logo, não suportava esperar mais, não iria deixar que aquele maldito assassino respirasse por mais um dia.
Recostei-me no banco e respirei profundamente, o taxista me olhou pelo espelho retrovisor, mas logo voltou sua atenção para a estrada, fechei meus olhos e por um estranho instante vislumbrei um resquício de lembrança, um bolo de aniversário com duas velas brilhantes que formavam o número dezoito, meus pais, Tiara, Rita e meu irmão estavam em volta batendo palmas e sorrindo. Eu não estava dormindo, mas deveria estar sonhando, porque isso nunca aconteceu. Eu não me lembrava ao certo o que fiz no dia do meu último aniversário, mas não teve bolo, não teve família, certamente não teve Tiara e muito menos meu irmão, que já estava morto há muito tempo.
Olhei para minhas mãos, ainda estavam tremendo e com toda a certeza continuariam até que eu tivesse feito o que tinha que fazer, meu estômago revirava com uma sensação gelada, estava ansiosa por esse momento, esperei-o por tanto tempo e finalmente o alcançaria.
Eu não era uma pessoa normal, certamente se o fosse, não teria que tomar tantos remédios por não conseguir superar o trauma que foi a morte do meu irmão, certamente me sentiria culpada por tirar a vida de pessoas, mas como eu poderia ser normal num mundo como esse? Eu não queria ser a porra de uma pessoa normal, gostava de matar, sentia prazer ao fazer o sangue jorrar daqueles monstros pedófilos, maníacos torturadores, eu realmente sentia uma diversão imensa dando fim a vida de lixos humanos que a tal “justiça” não estava interessada em perseguir. Eu recebia muita grana por isso, havia muita gente, que tinha muito dinheiro, pagando muito caro para a SSTA achar e acabar com certos tipos de criminosos. Eu não me sentia culpada fazendo o que fazia, nem um pingo de remorso, não via como podia ser errado acabar com a vida de criminosos.
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