As duas vidas de Catarine

1 Desejos de aniversário


Notas iniciais
Aqui estamos novamente, com uma história novinha em folha, uma história um tanto louca eu diria, tão louca quanto a autora que vos fala, vos escreve na verdade. Espero que gostem, bom, pelo menos eu estou gostando de escrever então espero que seja um bom entretenimento. Boa leitura. ;)

Em meu aniversário de dezoito anos, quando soprei as velas do bolo, desejei poder viver uma história de amor, como aquelas lindas da ficção, desejei que tudo fosse diferente, que minha vida fosse diferente e que eu pudesse ser diferente. Eu odiava minha vida e me odiava de um certo modo, por não ser tão forte ao enfrentar os problemas e por nem mesmo ter coragem de conversar com Roger, o garoto mais lindo que eu já tinha visto na vida, minhas pernas ficavam bambas e meu coração disparava, minhas mãos suavam e a boca ficava seca todas as vezes que eu tomava fôlego, tentando criar coragem para dizer ao menos um “oi”.

Eu não imaginava que terminaria a noite ao lado dele, sentada à beira de um penhasco, observando o céu estrelado e as ondas do mar, graças a minhas melhores amigas bêbadas, Tiara e Rita, que ligaram para ele, convidando-o para minha festa para me dar um beijo de aniversário. No início eu quis morrer de vergonha, mas parecia mágico e meu peito explodiu de felicidade ao saber que ele iria, mas nada se comparou ao momento do beijo de aniversário. Sim. Foi o melhor presente de aniversário de todos.

Era uma linda noite de lua cheia, com estrela cadente, para a qual repeti o pedido que fiz ao apagar as velas do bolo e de repente, depois que Roger se foi, sentada sozinha no penhasco, uma tempestade de raios começou e um turbilhão de imagens surgiu em minha mente , deixando-me tonta, nauseada e com muita dor de cabeça, tentei me levantar e meu pé escorregou me levando à queda.

Existe outra de mim. Enquanto eu caía para a morte isso se tornou muito claro em minha mente, a outra versão de mim, em sua vida diferente. E minha própria voz risonha surgiu em minha cabeça, como se outra pessoa estivesse falando comigo.

"A grama do vizinho é sempre mais verde não é, Cat? Estamos sempre desejando ser outra pessoa, ter uma vida diferente, estamos sempre amaldiçoando nossa existência... Mas como seria se pudéssemos mesmo ser outra pessoa? Viver outra vida?"

Quando meu corpo bateu contra a água gelada do mar, minha mente começou a se apagar, meus olhos já estavam fechados há muito, sentia como se minha consciência estivesse sendo arrastada pela água, suavemente para o fundo, era desesperador, eu estava morrendo...


***

A luz do sol me despertou, pisquei algumas vezes para conseguir enxergar melhor, não reconheci o quarto em que estava, a cama era grande, uma das paredes era completamente de vidro, eu estava nua e havia uma arma e cigarros na mesa de cabeceira. Vi meu reflexo em um grande espelho de moldura dourada e me assustei, estava com olheiras profundas e alguns hematomas pelo rosto e corpo, os lábios levemente inchados, avermelhados e um pequeno corte no lábio inferior e um ferimento na perna esquerda, na coxa. Comecei a me desesperar, onde diabos eu estava? O que aconteceu comigo? De quem era aquela arma e aqueles cigarros? Eu nem mesmo fumava. Só conseguia pensar em duas possibilidades, alguém botou algum tipo louco de droga na minha bebida na noite passada, fiquei doidona e agora estava ferrada, o que parecia loucura, então fiquei com a segunda opção, aquilo era um sonho, um daqueles sonhos em que você descobre que está sonhando. Mas os sonhos nãos doem... Certo? Meu corpo todo doía e agora tremia pelo nervosismo. Vi uma mochila jogada numa cadeira bonita perto da porta, enrolei-me nas cobertas e corri para pegá-la. Mal consegui ficar em pé quando vi o conteúdo, havia mais uma arma, balas, uma faca grande, mais maços de cigarro, um casaco preto e documentos com minhas fotos e outros nomes. Documentos falsos. Muitos.

Sentei-me enjoada e ouvi um telefone tocar, parecia vir de debaixo da cama. Abaixei-me para procurar, encontrei-o entre botas pretas e bonitas com fivelas, era um celular pequeno, cor de chumbo, nunca vira um desses. Um ícone de mensagem de texto piscava em azul neon na tela preto brilhante, toquei e a tela se acendeu exibindo inúmeras mensagens com a mesma identificação, alguém que eu não conhecia. Allain. Aquele celular não podia ser meu, então deixei- o junto a arma e os cigarros na mesa de cabeceira. Estava com medo de descobrir o conteúdo das mensagens, estava com medo de descobrir que não estava sonhando. Notei que um dos documentos falsos que deixei sobre a cama era um cartão de identificação de funcionário de uma empresa, a SSTA (Sistemas de Segurança e Tecnologia Avançada), nunca ouvi falar, mas a foto no cartão exibia meus rosto e o nome era o meu, Catarine Bidens.

Meu coração disparou quando ouvi o som de uma chave girando na fechadura, senti um frio surgir na barriga pelo medo, e minhas mãos trêmulas seguraram com força as cobertas que me cobriam. Meu coração pareceu acelerar ainda mais quando o homem entrou, ouvia-o martelar minha cabeça, sentia as veias pulsando. Ele me olhou com uma careta de estranheza e fechou a porta, era alto e moreno, cabelos escuros, curtos e levemente arrepiados. Seus olhos eram frios, perversos e me fitavam com um ar de ameaça de morte.

– Você não recebeu minhas mensagens e nenhuma das ligações? – Ele perguntou jogando a mochila no chão, sua voz grave era neutra, não deixava transparecer nada, nenhum tipo de intenção ou emoção.

Não consegui dizer nada, nem mesmo conseguia pensar e sei que estava com os olhos arregalados fixos nele demonstrando todo meu pavor.

Ele sentou-se na cadeira bonita e ficou me observando.

– O que deu em você, Cat? Pirou com o que aconteceu e resolveu desistir? – Ele esperou por uma resposta e quando percebeu que não iria ter, recostou-se e tirou um pequeno telefone celular do bolso – Você simplesmente desapareceu depois do trabalho sem reportar nada, se desconfiarem que você quer sair vão mandar o caçador, sou seu amigo, por isso estou te lembrando isso.

Eu não podia simplesmente dizer a ele que não sabia do que ele estava falando e também não podia começar a disparar perguntas, ele agia como se soubesse quem sou, me chamou até por meu apelido, mas nunca vira esse homem na vida.

Quando o vi se levantar e vir em minha direção, me encolhi involuntariamente, segurou meu braço direito sem nenhuma delicadeza e começou a olhar os hematomas, depois segurou meu queixo, provavelmente procurando mais algum em meu rosto, então soltou-me.

– Ok, não sou seu amigo. – Ele disse com uma risadinha – Mas não quero ser responsabilizado caso você faça alguma idiotice, como se arriscar a sair da empresa.

O homem pegou um dos cigarros na mesa de cabeceira e acendeu, estreitando os olhos para mim.

– O que você está fazendo, Cat? Pare de me olhar como uma retardada. Já são três horas da tarde e você está... Me dando pena. – Ele deixou o cigarro no cinzeiro na mesa de cabeceira e tirou a jaqueta jogando-a na cama ao meu lado, estava usando uma camiseta sem mangas de alguma banda de rock que eu não conhecia, seus braços eram musculosos e cobertos de tatuagens, símbolos místicos pelo que pude reconhecer.

Quando menos esperei ele agarrou meu queixo de novo, com força e aproximou tanto o rosto do meu que por um instante quase gritei, dominada pelo pânico achando que ele iria me beijar ou pior...

– Porque você está nervosa, Cat? – Ele perguntou num tom mais ríspido, severo, a ponta de seu nariz colada na ponta do meu e eu senti seu hálito quente contra minha pele – O que você fez ou pensa que vai fazer de errado? E não minta pra mim, não invente que é sobre o trabalho de ontem, eu já te vi matar muita gente e você não sente remorso algum.

Aquelas palavras me atingiram como um soco na cabeça, me deixaram atordoada. Eu? Matar? Meu Deus, eu nunca tive coragem de matar nem mesmo barata. O que diabos estava acontecendo? Isso não era um sonho, não podia ser, porque eu sentia o toque dele, sentia dor, sentia medo, sentia meu coração batendo, sentia as lágrimas começarem a escorrer em meu rosto, eu... Sentia tudo e estava paralisada de pânico. Isso não era um sonho, era um maldito pesadelo e de alguma forma sobrenatural, era real.

– Você fez alguma merda com o trabalho de ontem? – Ele continuou a perguntar, com os olhos ainda dentro dos meus.

– … Eu... Não sei... – Me ouvi dizer em um sussurro trêmulo.

Por mais um instante ele continuou me segurando e então se afastou, andando pelo quarto, passando as mãos pela cabeça, parecia irritado.

– Era tudo tão simples. Você só tinha que matar aqueles caras enquanto eu cuidava do resto. Que porra você fez? Esqueceu de deletar qualquer foto ou vídeo que eles fizeram? Deixou alguém de fora te ver? Câmeras de segurança? O quê?

– Eu não sei... Não lembro... De nada...

Ele me olhou com uma cara estranha e pegou o cigarro de novo.

– Você ficou doidona? Não importa, vou dar um jeito de descobrir tudo, agora se veste e vamos dar o fora daqui. Vou falar com o chefe, dizer que você só bebeu de mais.

Fiquei lá, parada e confusa, enquanto ele digitava algo no celular.

– Sabe, eu odeio novatos, pirralhos como você entram, acham que aguentam, mostram muito potencial e simplesmente piram. – Ele disse distraidamente.

– Eu não sei do que você está falando... – Sussurrei, meus olhos foram em direção a mochila em cima da cama e avistaram a arma e a faca, peguei a arma com dedos trêmulos e apontei para ele, tentando ser firme, nunca havia segurado uma arma, nunca tinha matado ninguém.

Quando ele olhou para mim, fez a mesma careta de estranheza de quando entrou no quarto. Não demonstrou medo ou surpresa, nem mesmo um pouco de nervosismo.

– Estamos brincando agora, Catarine? – Ele cruzou os braços e me encarou, sério novamente – Você é mesmo insana, gosta de brincar comigo, não é garotinha? Mas não se engane, eu não cometo o mesmo erro duas vezes, Cat. Eu quase morri por você e não vou fazer isso de novo, então abaixe essa merda e pare de brincadeira, vou te levar pra casa.

– Pra... Casa? – Eu mal consegui dizer, minhas mãos tremeram mais e uma onda de alívio me deixou mole. Quase morreu por mim, ele disse. Mas do que ele estava falando, eu não entendia nada do que saía da boca dele.
O homem respirou pesadamente e vestiu a jaqueta, pegou a mochila com violência e abriu a porta.

– Espero você lá fora. – Ele estava claramente com raiva.

Quando ele saiu e a porta se fechou, soltei a arma e olhei para o celular, peguei- o e abri as mensagens:

Allain — 00:53: “Q diabos vc pensa q está fazendo sumindo antes d informar os resultados do trab?”

Allain — 01:08: “Cat, onde vc está?”

Allain — 03:24: “Será q vc pode atender a merda do tel? Já liguei 1000 X”

Allain — 06:32: “Cat, estou preocupado, vão achar q vc fugiu, q quer sair. Vão acabar te matando.”

Allain — 10:44: “Seja lá o q estiver fazendo, me ligue. OU ATENDA A PORRA DO TELEFONE!!”

Allain — 12:17: “Catarine, estou cansado d te procurar, onde vc está?”

Allain — 13:31: “Estou indo até o hotel. É melhor q esteja lá ou q tenha um bom motivo pra ter sumido, do contrário arrume outro pra trabalhar com vc e consertar suas merdas.”

Quando terminei de ler as mensagens, percebi que o ícone de ligação piscava indicando 182 chamadas perdidas, todas desse tal Allain, deduzi que se tratava do cara que me esperava do lado de fora do quarto.

Deus, eu estava tão confusa... A verdade era que sentia tanta coisa que nem mesmo sabia ao certo o que estava sentindo, a única certeza que eu tinha era que estava pirando...

Notas finais
Espero que tenha gostado. Obrigada pela visita e até a próxima. XD