Notas iniciais
Bem, as coisas vão ficando cada vez mais confusas para Cat... E creio que até mesmo para os leitores. Claro, a partir do próximo capítulo as coisas ficarão cada vez mais claras... Ou não, até que seja a hora certa das grandes descobertas. Espero diverti- los um pouco com minhas idéias insanas. Boa leitura.

Quando percebi que estava em um hospital, a primeira coisa em que pensei foi:

"Que porra aconteceu? Como vim parar nesse lugar?"

Lembro exatamente de ter ido para o Hotel para me esconder, não achei seguro voltar ao meu apartamento e de qualquer forma, era mais perto de onde eu estava. Esqueci de reportar ao chefe as informações sobre o trabalho logo de imediato, mas tudo tinha dado certo e era o que importava para eles. Depois de passar todas as informações do trabalho, falei um pouco com Livy para reclamar das informações que ela esqueceu de me passar, o que me fez quase ser pega, eu não pagava tão caro pra ter só metade do que queria. Pedi um dos melhores quartos daquela espelunca e até não era mal, a cama era confortável, pelo que me lembro, deitei nela e aí... Acordei num hospital?

O que era tudo isso? Um sonho?

A porta do quarto se abriu e uma enfermeira entrou conduzindo três pessoas. Ai. Meu. Deus... Meus pais e... Meu irmão? Puta que pariu! Eu não via meus pais há... Nem lembro quanto tempo e meu irmão... Eu vi meu irmão ser assassinado...

Assim que olharam para mim, meus pais correram para me abraçar, minha mãe chorava e falava sem parar coisas que não conseguia entender. Meus olhos não conseguiam desviar de meu irmão. Sim, isso era um sonho, sorri para ele e estendi a mão para que ele pegasse, ele veio com um sorriso tímido e sentou-se na beirada da cama, olhando de forma estranha para o esmalte preto em minhas unhas.

Emanuel sempre fora a melhor parte de mim, porque apenas por ele eu conseguia ser boa e a morte dele trouxe para fora a minha pior parte. Mas eu me sentia melhor agora, menos atormentada, noite passada finalmente encontrei o desgraçado que matou meu irmão e isso me dava um alívio, uma satisfação que ninguém era capaz de entender. Eu iria matá-lo.

Meus pais continuaram falando e falando sem parar, mesmo enquanto dirigiam por ruas que eu não conhecia. Aquele sonho estava se prolongando muito e minha cabeça doía. Nunca senti dor em sonhos.

Emanuel parecia mais velho do que eu me lembrava, mais alto também. Fazia dois anos que eu não o via, dois anos que ele fora assassinado daquela forma horrível, ele tinha só seis anos quando aquele homem horrível invadiu a casa.

Como minha cabeça doía, isso estava me deixando louca, faria qualquer coisa por meus comprimidos.

Não pensei que veria meus pais de novo, depois de ter saído daquele hospital de loucos e ter fugido de casa. Algumas vezes pensei que se eu os visse de novo iria matá-los. Por terem me jogado num manicômio porque não consegui me recuperar do choque de ter visto meu irmão morrer e por não terem insistido mais em descobrir a verdade sobre o assassino. Mas estava tudo bem agora, eu não precisava mais deles. Eu descobri tudo e resolveria tudo. Eu tinha Allain. Certamente ele não compreendia minha forma de gostar dele, mas eu não queria me aprofundar nisso, não queria estragar, mesmo que ele acreditasse que era exatamente isso que eu estava fazendo. Allain cuidou de mim quando me encontrou naquele beco imundo, no dia em que quase consegui me matar, me levou até a empresa, me deu a chance de alcançar minha vingança e me ensinou tudo que sei, me tornou boa em matar. Eu realmente gostava dele. Do meu jeito.

Eu dormi dentro do sonho, no banco de trás do carro, segurando a mão de Emanuel. Acordei de novo em um quarto que nunca foi meu. Haviam bichos de pelúcia por todos os lados, enfeites afrescalhados e um mural repleto de fotos minhas com pessoas que nunca vira na vida, usando roupas que eu jamais cogitaria a hipótese de ter. Isso não era um sonho, eu não estava em um sonho dentro do sonho. Isso só poderia ser algum tipo de teste da empresa, talvez estivessem avaliando o quanto eu poderia ser “normal”, se eu era capaz de fazer o que fazia sem levantar qualquer suspeita, provavelmente queriam saber se eu ainda era capaz de me misturar às pessoas comuns. Como isso era idiota! E porque ninguém fez o favor de ao menos me informar, ao invés de simplesmente me jogar de volta na casa dos meus pais?

Uma das fotos do mural era da família toda reunida em um dia de sol em algum parque... Não consegui lembrar desse dia, de qualquer coisa assim já ter acontecido, meus pais sempre foram tão ocupados.

De repente um celular pink esquisito em cima da mesa do computador tocou, e era uma música pop ridícula e irritante. Atendi, mas não disse nada.

– “Cat? – Uma voz feminina chamou do outro lado.

– Sim. – Respondi apenas.

– “Aiiiii, amiga você está bem? Ficamos tão preocupadas, choramos demais... E o Roger está se sentindo tão culpado por ter deixado você lá sozinha e até comprou flo...”

Eu não estava disposta a suportar as idiotices daquele teste, desliguei o telefone enquanto aquela escandalosa tagarelava. Eu podia perfeitamente bem provar que era uma pessoa normal, como qualquer outra, sem precisar ouvir aquela ladainha. Que coisa mais estúpida! E quem era Roger? Quem eram essas pessoas? Como diabos eu poderia agir normalmente se eu nem conhecia nada dessa palhaçada? Esse teste, em minha opinião, era totalmente desnecessário, eu era uma pessoa completamente comum, quando não estava a trabalho!

Para minha surpresa, quando prestei atenção, estava usando um pijama cor de rosa com ursos lilás. Abri as portas do grande guarda roupas e quase tive um ataque de pânico quando vi aquele monte de roupas de patricinha santa. Peguei a coisa menos mortal, uma calça jeans e uma blusa preta, encontrei um tênis legal e procurei meus cigarros, mas é claro que eles não estavam lá, nem minhas armas ou qualquer um de meus documentos falsos.

Assim que abri a porta para sair, ouvi meus pais conversando lá embaixo. Não queria falar com eles. Aquilo estava mais para castigo, do que para a porra de um teste. Seja lá o que fosse, eu iria encontrar Allain e fazê-lo me explicar o que era toda essa merda.

Saí pela janela do quarto, não reconheci a casa, o jardim, a vizinhança, nada, era como se eu tivesse acordado em um universo diferente. Tirei o celular rosa ridículo do bolso e tentei descobrir como usar a internet, para me localizar, descobrir onde diabos eu estava, mas aquele celular deveria estar louco, os resultados não poderiam estar certos, porque se estivessem eu estava, não apenas em uma cidade diferente, mas a empresa para qual vinha trabalhando no último ano nem sequer existia. Quando procurei a localização da SSTA, não encontrei nada. Tentei então ligar para Allain, fazia tempo que não nos falávamos, mas ele era a única pessoa que eu poderia procurar, uma voz computadorizada informou que aquele telefone não existia. Estavam tentando me enlouquecer? Prestes a estilhaçar o aparelho no chão de tanto ódio, ouvi passos correndo em minha direção, quando olhei, duas piranhas estavam correndo para mim de braços abertos e antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, estavam me abraçando com força e me deixando enjoada com seus malditos perfumes doces de vagabunda.

– Ah, amiga, estávamos tão preocupadas... – Disse a garota loira, com um vestido florido curto demais, a voz afetada chorosa dela me deu nos nervos.

– O que você está fazendo na rua, Cat? – Perguntou a outra, uma garota negra bonita, parecida com minha ex namorada, parecida não, idêntica – Sua mãe disse que você precisa repousar muito.

Olhei para os lados, respirando profundamente, não sabia o que dizer, sinceramente eu queria mandá-las irem se ferrar, mas pensei melhor e decidi que talvez fosse bom conversar um pouco, descobrir algo sobre qual era a história aqui. Olhei para elas com um sorriso forçado e cruzei os braços.

– Eu... Estava me sentindo sufocada... – Comecei, tentando não dar um soco nelas por serem tão típicas patricinhas, exatamente como as que eu sempre odiei – Pensei em... Caminhar um pouco...

– Ainda não entendemos até agora como aquilo aconteceu... Foi tão terrível quando soubemos que você estava em coma... Tivemos tanto medo, Cat.

– Em coma... – Repeti, e certamente havia um sorriso estranho em meu rosto, porque elas me olhavam de um jeito preocupado.

– Sei que talvez ainda esteja cedo, mas... – A garota loira trocou um olhar com a morena antes de continuar – Bem, o Roger ficou muito preocupado com você, ele nos disse que realmente gostou de você, Cat, até mandou flores pra sua casa. Muitas... Foi muito fofo.

– Roger? – Perguntei estreitando os olhos e balançando a cabeça negativamente.

– Ai, querida... Você... Esqueceu das coisas? – Perguntou a garota que parecia com a minha ex.

– Deve ser por causa do coma... – Disse a outra segurando minha mão. Tive que me impedir para não puxar a mão de volta.

– É. Acho que não consigo organizar minhas ideias... As lembranças estão confusas... Será que... Vocês podem me ajudar a lembrar de algumas coisas? – Fingi uma expressão confusa.

– Ah, é claro, amor. – Disse a menina negra, sorri e quase tive o impulso de beijá-la como resposta. Sempre fazia isso quando minha ex falava assim.

As duas me levaram a uma lanchonete, me compraram a porcaria de um chá de sei lá o quê e me descreveram minha patética festa de dezoito anos e o beijo com o suposto maravilhoso Roger, que elas ficaram espiando escondidas. Tive que usar toda minha força de vontade para não morrer de tédio ou vomitar. De qualquer forma essas frescas não me disseram nada que me ajudasse. Credo, era como se eu tivesse sido mandada para um universo paralelo, para um subúrbio chato, como aqueles dos filmes.

Já sem paciência, inventei que estava cansada, mas elas insistiram em me acompanhar até minha suposta casa e foi difícil convencê-las a me deixarem em paz. Consegui entrar sem que meus pais me vissem e vasculhei o quarto em busca de qualquer informação útil. De acordo com as fotos, diário patético e arquivos no computador, eu adorava minha família, era uma garota cor de rosa ridícula e passei os últimos três anos apaixonada pelo mesmo cara, que no fim das contas até era gostosinho, o tal Roger, nada como os músculos e tatuagens do Allain, ou seu jeito perigoso, mas não era mau, era o tipo que eu poderia usar para passar o tempo.

Notas finais
Obrigada pela visita, espero que não esteja confuso demais, minhas histórias costumam ser mesmo assim, então espero que esteja mesmo curioso. Até a próxima.