Notas iniciais
Oi gente, espero que não estejam muito confusos como rumo da história, mas para ser muito sincera tenho que deixar bem claro, que tudo só se tornara realmente claro mais para a frente, quando certas coisinhas acontecerem e a própria Cat começar a descobrir certos fatos sobre si mesma e seu passado. Boa leitura.

Allain me levou para um apartamento que obviamente eu não conhecia, eu deveria estar desesperada com tudo o que estava acontecendo, acho que qualquer um estaria, mas enquanto estava com ele na moto, subitamente algo sobre a noite passada voltou à minha mente, o pedido que fiz quando apaguei as velas do meu bolo e quando vi a estrela cadente, lembrei-me do que ouvi minha própria voz dizer na minha cabeça.

“... Como seria se pudéssemos mesmo ser outra pessoa? Viver outra vida?”

Isso seria possível? Eu estar vivendo outra vida? Essa era a vida que uma outra versão de mim teria? Eu não estava sonhando, já havia aceitado isso, toda essa loucura não era um pesadelo e eu não era do tipo que criava teorias da conspiração sobre experimentos governamentais ou aliens, mas, por mais que eu realmente sempre tenha acreditado em amuletos de sorte, destino e todo o misticismo existente, nunca poderia imaginar algo assim, simplesmente acordar tendo outra vida, e... Uma vida insana, com armas, cigarros, um cara obviamente perigoso... Sei que deveria REALMENTE pirar, porque eu não sabia como fazer tudo voltar ao normal, mas acreditei que assim como tudo foi feito, na hora certa seria desfeito. Quando tudo isso se tornou claro para mim, meu coração acelerou novamente, mas dessa vez de excitação, comecei a observar tudo, tentando absorver cada detalhe, eu sempre quis isso, experimentar uma vida totalmente diferente, essa situação toda não era exatamente o que eu tinha em mente, mas era minha oportunidade de fugir de mim, de quem sempre fui, isso era como tirar férias da minha vida e as férias foram feitas para serem aproveitadas ao máximo.

No caminho até o apartamento, não tirei os olhos da paisagem, nunca tinha estado naqueles lugares.

O apartamento era pequeno, cheirava a cigarros e perfume cítrico, haviam pôsteres de bandas de rock pelas paredes e roupas jogadas pelo chão, filmes e livros na grande estante de madeira ao lado da porta, na mesinha de centro e no sofá, havia um tapete preto felpudo incrível no quarto e algumas botas espalhadas tão lindas quanto as que eu encontrei embaixo da cama e estava usando. Essa versão de mim tinha um gosto incrível para botas e com certeza também tinha dinheiro, o relógio com que acordei no pulso me dizia isso e as marcas das botas confirmavam.

Enquanto eu andava pelo apartamento, olhando tudo, certamente com um sorriso idiota e olhos brilhantes, Allain me observava estranhamente, é claro, ele não sabia de nada sobre a loucura incrível que estava acontecendo comigo. Sentei na cama e peguei uma das armas na mochila, deslizei meus dedos sobre ela com delicadeza. Meu Deus, eu nunca tinha visto uma dessas de verdade, nunca tinha tocado. A sensação era legal. Tipo, algo poderoso. Sorri e Allain se aproximou e tomou-a de mim.

– É sério, o que está acontecendo com você? – Ele perguntou, deixando a arma em cima de uma mesinha triangular.

– Eu não sei... Não me lembro... A ultima coisa de que me lembro é da minha festa de dezoito anos... Foi legal. – Eu disse, com um sorriso, olhando todos aqueles documentos falsos com minhas fotos. Não sabia o que deveria dizer, então optei pela verdade.

Allain começou a andar pelo quarto mexendo em gavetas, procurando algo.

– O que você anda tomando? O que aquele médico pirado receitou dessa vez? Não está te fazendo bem... – Ele disse olhando alguns frascos de comprimidos que encontrara na gaveta da mesinha ao lado da cama, ao mesmo tempo em que eu falava sobre Roger e o beijo.

– Quem é Roger? – Ele perguntou, me olhando sério, exatamente quando respondi que não sabia nada sobre os comprimidos.

Ele respirou profundamente, devolveu os comprimidos à gaveta e saiu batendo a porta.

Peguei os frascos de comprimidos e descobri que eram antipsicóticos, antidepressivos e uma série de outras coisas que eu nem conseguia pronunciar ao certo. Junto aos comprimidos na gaveta, havia uma foto de duas garotas se beijando, olhando mais atentamente percebi que era uma versão de mim com cabelo bem curto e Tiara. Comecei a rir. Minha nossa, eu e Tiara num beijo quente daqueles era algo que eu nunca iria imaginar. Essa versão de mim era realmente moderninha, e não era preconceituosa, mas certamente garotas não me atraíam, especialmente uma de minhas melhores amigas. As vezes ela era tão irritante que eu poderia matá-la.

Corri para o guarda roupas para ver o que essa eu costumava vestir e, exatamente como esperado, só encontrei roupas escuras, típicas das garotas do rock, algumas eram muito chic, tipo gótico ou sei lá.

Ouvi a voz de Allain no outro comodo, estava no telefone, mas não entendi o que estava falando. Abri a porta e o vi andando de um lado para o outro, estava sem sua jaqueta, apesar de não conhecê-lo, de nunca tê-lo visto antes desse dia, tive uma sensação de familiaridade estranha. Ele era mesmo bonito, não era o tipo que minhas amigas gostariam ou meus pais aprovariam, mas eu gostei das tatuagens dele. Ele era, com toda certeza, meu tipo. Por um instante lembrei-me de Roger, passei os últimos três anos apaixonada por ele e ainda o achava o garoto mais bonito que já vira, mas Allan tinha quele ar perigoso, excitante, que me fazia querer fazer coisas que secretamente eu sempre desejei, mas nunca tive coragem. Coisas que meus pais me matariam se eu fizesse. Tipo, ficar bêbada, dançar em cima de uma mesa em uma boate, atirar em alguma coisa, acelerar a moto até a velocidade máxima, alguma tatuagem sexy...

Quando me notou espiando, Allain desligou o telefone e me encarou.

– Porque está me olhando assim? – Ele perguntou cruzando os braços.

Desviei meus olhos envergonhada, sentindo meu rosto ficar quente e ele chegou bem perto de mim, com um sorriso sarcástico.

– O que é isso agora? – Perguntou segurando meu queixo com aquela falta de delicadeza que eu estava começando a odiar – Estamos brincando de novo? Você aprendeu até a fingir ficar vermelha?

– Não estou vermelha! – Disse com alguma agressividade e dei um safanão na mão dele para que me largasse.

Ele estreitou os olhos e depois riu.

– Porque você está corando, Cat? Juro que nunca vi você assim.

– Suas tatuagens são bem legais. – Desconversei, da forma mais idiota e revirei os olhos mentalmente para mim mesma.

– Você já está cansada ver. – Ele disse e antes que continuasse eu o interrompi.

– Estou com fome. Você pode me levar pra comer em um lugar legal?

– Legal é sua nova palavra favorita? – Allain perguntou me dando as costas para pegar um cigarro no maço sobre a mesa de centro.

Não o respondi, fui para o quarto e escolhi uma das roupas mais legais que encontrei. Uma calça com detalhes de fivelas nos bolsos que era obviamente muito, muuuuuuito, MUITO cara mesmo, um casaco muito incrível e peguei as botas mais maravilhosas com cano até o joelho, linda de morrer. Procurei maquiagem em meio àquela bagunça para esconder os hematomas em meu rosto e corri para a saída.

– Estou pronta. Vamos? – Disse, segurando a porta.

Allain veio para perto de mim vestindo sua jaqueta, me olhando com certa diversão.

– Certo, Cat, me diga, você vai se suicidar ou acredita que vão te matar em breve?

– O quê? – Perguntei, surpresa.

– Seu comportamento é muito estranho. – Ele balançou a cabeça negativamente e continuou – Vai querer comer em que lugar?

– Me surpreenda... – Eu disse pensando no quanto isso era idiota, afinal qualquer lugar em que ele me levasse seria uma surpresa.

Estar na moto de Allain era muito divertido, emocionante até, meus pais nunca me deixaram sair assim, eles passavam o tempo todo me dizendo para não fazer isso, não fazer aquilo, se pudessem me trancariam em uma bolha protetora, eu os adorava, mas eles me sufocavam de tantos cuidados.

Queria pedir para que Allain fosse mais rápido, muito rápido, mas me contive, ele certamente não iria arriscar sofrer um acidente, ou até causar nossa morte só por diversão.

No fim das contas, fomos comer em uma pizzaria e não conversamos. Eu não sabia o que dizer e ele não tirava os olhos da tela do celular, digitando coisas rapidamente.

Já estava anoitecendo e comecei a me perguntar se caso eu dormisse, acordaria de volta em minha vida real, em meu quarto, com minha família, onde tudo era tão conhecido e... Seguro. Ainda não estava pronta para voltar, mal tinha começado a viver nessa vida, ainda não tinha descoberto como realmente é ser essa outra versão de mim, ainda não tinha aproveitado essa liberdade tão perigosa.

– Descobri umas coisas úteis. – Allain interrompeu meus devaneios com sua voz grave e severa – Tudo certo com o último trabalho. Que bom pra você. E o cara que assassinou seu irmão está morto, deduzo que isso explique seus hematomas e o fato de você ter desaparecido depois do trabalho, mas acredito que você vai me dizer que não sabe nada sobre isso, estou certo?

Ignorei o que ele disse, talvez nessa versão da minha vida eu matasse pessoas, mas isso não me importava agora, eu não sabia nada sobre isso e não queria saber.

– Porque não paramos de falar sobre essas coisas chatas e você me leva a um lugar divertido? – Perguntei, curvando-me para ele sobre a mesa, tomando coragem para experimentar o real gosto de um pouco de liberdade. Eu estava pronta para isso e tinha que aproveitar as oportunidades antes que elas passassem. Eu queria tudo. Tudo de uma vez.

Allain me olhou com um sorriso pequeno e pretensioso e um misto de diversão e desconfiança no olhar.

– Ok... – Ele disse apenas, guardando o celular e levantando-se de imediato.

Terminei meu refrigerante depressa e o segui até a moto. Estava começando a adorar aquilo.

O bar de rock para onde Allain me levou, era o tipo de lugar em que eu nunca estive. Por algum motivo eu estava nervosa de tão animada ao entrar lá, estava um pouco cheio, Allain segurou minha mão ao passar pelo aglomerado de pessoas na entrada e isso fez meu coração disparar.

Como eu nunca bebi antes, estava disposta a experimentar todas aquelas bebidas que as pessoas sempre pediam nos filmes, tipo martini, tequila, conhaque... A sensação do líquido descendo quente pela garganta, esquentando o peito e descendo pelo barriga era interessante, me dava vontade de rir. Estava tocando uma música que Allain disse ser a minha favorita, de uma tal banda Disturbed ou qualquer coisa assim, era pesada e legal e me deu vontade louca de dançar.

Allain atendeu um telefonema e se afastou.

Eu não entendi bem como tudo aquilo aconteceu, em um instante eu estava experimentando cerveja e decidindo que era horrível, havia começado outra música e subi na mesa, estava dançando e sentindo que havia finalmente estourado a maldita bolha de proteção e descobrindo como era um pouco de liberdade, e no instante seguinte havia um homem mal encarado gritando algo que não entendi, ele me olhava com raiva e jogou cerveja em mim, instintivamente chutei a cara dele fazendo o sangue jorrar, desci da mesa e fui para cima dele, acertando um soco e depois outro, ele caiu e antes que eu o atacasse de novo alguém me segurou. Era Allain. Ele me arrastou para fora do bar.

– Não posso mesmo tirar os olhos de você, não é? – Ele disse, me empurrando contra a parede ao lado da porta do bar, sua voz sem qualquer emoção e seus olhos frios.

– Você viu como acertei aquele idiota? – Minha voz saiu quase num grito de tanta excitação, sabia que havia um sorriso em meu rosto, olhei para minhas mãos, o sangue do homem estava em meus punhos – Isso foi tão... Legal! Meu Deus, pensei que no dia que isso acontecesse eu ia me ferrar muito... Nem sei como fiz aquilo, eu nem pensei, quando vi já estava fazendo, era tão fácil e...

– E você não ia parar. – Allain me interrompeu, sua voz agora deixava transparecer a desaprovação – Esse é o seu problema, Cat, você não sabe quando parar... As vezes me pergunto se teria te ensinado tudo isso se soubesse que você era assim. Você é um perigo pra você mesma.

Ouvindo aquilo me perguntei que tipo de relação exatamente existia entre aquela versão de mim e Allain, ele já dissera que quase morreu por mim, que me ensinou a fazer o que eu acabei de fazer com o homem no bar, ele falava sobre matar pessoas e trabalhos obscuros. Estava muito curiosa para descobrir as histórias daquela minha vida, mas também estava com medo de não ter tempo.

Sem pensar, ainda com a adrenalina correndo nas veias e o álcool deixando minha cabeça leve, toquei uma das tatuagens no braço de Allain, uma lua celta.

– Eu gosto das suas tatuagens. Que tal você me levar pra fazer uma?

– Acho que você já fez coisas demais hoje... – Ele disse pegando um cigarro.

– Mas não o suficiente. – Eu disse, antes que ele acendesse aquele cigarro e o beijei.

Eu nunca fui impulsiva assim, nunca tive coragem de sequer falar com Roger, por um momento tive medo que Allain me rejeitasse, mas eu não estava disposta a reprimir tudo para o resto da vida, eu estava cansada de sentir medo das possibilidades ruins e por isso me impedir de ter as coisas boas, era tão libertador simplesmente desejar e fazer, sem se preocupar premeditadamente com o resultado.

Quando Allain passou os braços em volta de mim, fui invadida novamente por aquela sensação de familiaridade, era como se eu já tivesse experimentado o toque dele inúmeras vezes.

– Porque você está fazendo isso comigo, Cat? – Ele perguntou quase num sussurro, encostando a testa na minha – Porque de novo? Eu amo você, porque você tem que ser tão perversa comigo?

– Você não me ama. Você nem me conhece... – Soltei, esquecendo que ele não ME conhecia, mas tinha uma história com a Cat louca e assassina dessa versão distorcida da minha vida.

Uma fina garoa começou a cair. Sempre gostei de noites chuvosas, do cheiro do ar, da escuridão do céu, era tudo tão inspirador. Sentindo as gotas de chuva tornando-se cada vez mais fortes caindo sobre mim, fechei os olhos e encostei meu rosto ao de Allain, tudo isso que eu estava vivendo, pela primeira vez me permitindo experimentar o que eu queria sem ninguém para me dizer que eu não posso, que não devo, que não é seguro.

– Me leva pra casa agora... Vamos fazer a moto ir rápido, bem rápido, muito muito rápido, para sentir que estamos voando.

– Agora você quer nos matar, correr tanto à noite e na chuva? – Ele perguntou com um sorriso.

– É perigoso. Por isso é divertido... – Eu o beijei de novo antes que ele me levasse pela mão até a moto e pegássemos a autoestrada a toda velocidade.

Notas finais
Espero que tenham gostado desse capitulo louco. Voltem sempre... ;*