As crônicas de Nárnia - Nuvem negra
3 Às vezes um cavalo pode salvar a sua vida!
Notas iniciais
– Sobre o que vocês conversaram quando todos nós nos afastamos?
Depois de se decidir, Lúcia havia voltado ao quarto para colocar um vestido confortável para uma nova aventura, e claro, pegar o seu inseparável kit de cura e punhal.
Quando atravessava a soleira da porta deu-se de cara com o irmão do meio, que estava sério, mas que esforçou-se a abrir um sorriso depois de ver a garota. Como sempre curiosa Lúcia parou o irmão, perguntando qual era o assunto de que Aslam conversava.
– Ele só respondeu a minha pergunta — explicou Edmundo — Aslam disse que Susana que escolhera não anunciar que está viva.
– Por quê?
– Não sei...
Os dois irmãos ficaram parados, encarando um ao outro. Ora, por que Susana teimou em não demonstrar que estava viva aos próprios irmãos? Isso chateava um pouco a Lúcia e preocupava Edmundo. Será que a irmã estava escondendo algo?
– Nós vamos hoje mesmo? — perguntou Edmundo, quebrando o silêncio que pairava sobre eles.
– Parece que sim — a garota respondeu — Está pronto?
– Bom, sim. Só espero que nossa irmã não tenha virado uma feiticeira. Nuvens negras? Ainda lembro da última vez.
– Pegou trauma de feiticeiras, Edmundo? — riu-se Lúcia.
– Não! E-eu só acho que não tenho sorte com elas.
[...]
– Está tudo bem, meu amor — Lúcia agachou-se na altura da filha — Voltaremos logo.
– Promete mamãe? — a garotinha perguntou.
Lúcia olhou para Rillian, fazendo com que ele agachasse também perto da menina de expressão triste.
– Nós prometemos — falou, sorridente — Alguma vez já mentimos pra você?
Kiara negou.
Lilliandil aproximou-se e agarrou uma das mãos da menina. Kiara levantou os olhos e encontrou o sorriso da avó. Sorrindo, a menina voltou o olhar para os pais, que se afastavam, e aos tios, que já estavam prontos.
Quando Lúcia montou em seu cavalo, os outros já começavam a se afastar a galopes.
Ela os seguiu a galopes também, olhando para trás, vendo Kiara e Lilliandil acenarem.
O sol estava a pino velado por uma camada de nuvens finas, seus raios pesavam nas costas de Lúcia como tijolos. Todos continuavam galopando. Lúcia se esforçava a acompanhá-los. O impacto dos cascos do cavalo no solo reverberava na coluna da garota, algo constante que a dificultava a deixar os pulmões com ar.
Alguém havia diminuído o volume do galope, fazendo com que os outros cavalos fizessem o mesmo.
– Para onde realmente estamos indo? — Edmundo perguntou por sobre o ombro.
– Não sei — respondeu Pedro, agora parando o cavalo, fazendo com que novamente todos o seguisse — Talvez pudéssemos ver com os narnianos o que realmente está acontecendo.
– Eu sei a onde podemos começar — Lúcia sorriu, animada com a noticia.
Edmundo encarou a irmã, confuso, mas depois entendeu, sorrindo também.
– Ótima ideia, Lúcia!
– Do que está falando, Edmundo? — perguntou Pedro, protegendo olhos do sol, quando virou para o irmão.
– Iremos visitar um velho amigo — Lúcia preparou o cavalo, virando para a esquerda — Vamos! — Então, cavalgou.
Depois de meia hora cavalgando os Pevensie e Eustáquio avistaram um acampamento, algo simples.
Todos pararam os cavalos, fazendo com que isso chamasse a atenção de quem estivesse ao redor. Uma mulher cuja os cabelos eram negros com mechas grisalhas olhou pela janela da cabana do acampamento. Um garoto que estava sentado em um tronco caído de árvore enquanto fazia uma lança levantou os olhos, sorrindo para os cinco montados nos cavalos.
Rillian ajudou Lúcia a desmontar enquanto os outros já se aproximavam do rapaz de cabelos negros e olhos azuis.
– Olhem só! o garoto sorriu Visitas!
– Tyler! — animou-se Edmundo, aproximando-se — que bom vê-lo!
– O que posso fazer por vocês? perguntou.
Os irmãos se entreolharam.
– longa história — respondeu Lúcia.
– Adoro histórias — sorriu Tyler, voltando ao tronco de árvore -, será um prazer em ouvi-los.
Todos acomodaram-se a presença do sol cálido da tarde, começando a informar o amigo da missão proposta. Contaram os pontos principais, como o ressurgimento da irmã e as coisas estranhas que pertubavam os narnianos, como alegou o leão.
– Nunca notei ninguém nos observando — disse Tyler -, e nem nuvens negras com vida própria. Vocês têm certeza de que isso é um fato?
– Não nos certificamos de nada — respondeu Pedro — Não temos provas, mas tenho a palavra de Aslam.
– É apenas isso? Ou existe mais alguma coisa?
– Além do que dissemos, nada — informou Lúcia — viemos falar primeiro com você, não temos outra palavra que não seja a de Aslam e a sua. Mas, irá nos ajudar?
– Minha proposta de me chamarem quando tiverem uma aventura sempre estará aberta, Lúcia. — sorriu — Agora, vocês sabem qual o tipo das coisas estranhas que podem estar acontecendo?
Todos fizeram silêncio, como se a resposta da pergunta fosse impossível de se interpretar.
– Não tenho teorias formadas — Rillian franziu a testa, incomodado com o zumbido do vento que lhe dava arrepios — Mas pesadelos podem ser considerados como estranhos?
Lúcia o olhou com olhar crítico, fazendo com que o rapaz desviasse rapidamente.
– Provavelmente para uma pessoa que não é acostumada com isso — respondeu Tyler, mudando de posição no tronco seco.
– O que quer dizer? — perguntou Lúcia, rapidamente
Tyler fechou a expressão, franzindo o cenho.
– Quero dizer que minha irmã anda sofrendo com isso.
– Sua irmã? — hesitou Edmundo, incrédulo, fazendo com que os presentes o encarassem.
– Minha nova irmã — corrigiu Tyler — Ela não sofria de pesadelos até a alguns meses. Acordo com ela gritando e quando vejo está se debatendo — ele suspirou — Cada noite é um tema. Temas terríveis, mas eles não são fortes o suficiente para expulsar a coragem que Ariel tem.
– Tive um pesadelo hoje — murmurou Lúcia, olhando o garoto pela mecha caída nos olhos — faziam alguns anos que nunca me vieram pesadelos. Mas esse pareceu diferente, mesmo teimando em ignorar.
– Pode comparar com os de Ariel, digo, claro que o assunto será diferente, mas sempre há algo em comum, certo? A sensação que vocês sentiram, talvez? — Tyler levantou, alisando sua calça — Posso chamá-la se quiser.- Se ela não tiver algo melhor a fazer, será um prazer — disse Lúcia, sorrindo.
– Não acredito que colher flores seja mais divertido do que colaborar a uma futura aventura — disse Tyler, aproximando-se do fundo da cabana.
Minutos depois, quando todos já estavam em cantos diferentes — Pedro lendo um livro pequeno, próprio a se por em um bolso. Edmundo ainda sentado em um dos troncos secos, desenhando algo na terra vermelha com um graveto, enquanto questionava algo com Rillian. Eustáquio escrevendo em seu inseparável diário. E Lúcia, acariciando a crina de seu cavalo acizentado — Tyler apareceu, segurando as mãos de uma garotinha da altura de sua cintura, talvez um pouco maior. Seus lábios eram vermelhos como cerejas, seus cabelos negros como carvão e seus olhos eram azuis celestes, como reflexos em águas cristalinas. Sua pele morena tinha impressão de brilhar no sol.
Seu vestido avermelhado estava rasgado na barra da saia e havia uma adaga guardada em sua cintura. A garota sorriu ao ver os cavalos e correu na direção de Lúcia, soltando a mão do irmão, que continuou com passos curtos até os amigos.
– Tyler ainda não me ensinou a andar de cavalo — disse Ariel.
– Acredite — o irmão sorriu, quando estava mais próximo das duas garotas — Quando você chegar em uma certa idade irá me agradecer. Nós não precisamos andar de cavalo.
– discordo — a voz da garotinha soou fina. Tyler sorriu, preferindo não discutir, porém ela continuou: — Se você estivesse em fuga, com homens te perseguindo, e se de alguma forma não conseguisse se transformar, como iria fugir a não ser de cavalo?
– Correria — Tyler levantou uma sobrancelha.
– Mas a sua velocidade iria ser menos, eles com certeza estariam bem transportados. Você seria pego, e se eles quisessem te matar, não teriam o que perder — respondeu Ariel, acariciando o pelo do animal.
– Você é muito esperta para uma garotinha de 7 anos, Ariel — disse Tyler, acariciando os cabelos soltos da irmã.
– Os livros do papai me ajudam muito — respondeu.
– O seu raciocínio pode ter surgido dos livros, porém a teimosia ainda é um mistério — ele sorriu — Mas não iremos falar disso. Ariel, Lúcia também teve um pesadelo, poderia conversar com ela sobre isso? Talvez assim podemos conseguir uma das respostas do que realmente procuramos.
Ariel assentiu.
– Tudo bem.
Sol era apenas uma linha, composta das cores vermelho e laranja, no final do horizonte. As nuvens velavam o céu e a Lua já podia ser avistada a pino. Pássaros guardavam seus cantos para o dia seguinte e as corujas surgiam com seus rostos assustados por entre os galhos das árvores, que dançavam às vezes com o vento gelado, que cuidaria da noite.
Percebendo que o dia passara rápido e que o frio faria uma visita surpresa, Tyler e Edmundo foram atrás de lenha, para que seus debates antes de caírem em sonhos sejam compensados.
Ariel e Lúcia, como combinado, discutiram sobre a situação que vivenciaram. Comparando com seus pontos de vista, estavam indo pelo caminho certo.
– Ariel, meu bem, deixe eles, venha para dentro — sua mãe gritou da soleira da porta da cabana.
Todos já estavam reunidos entre a fogueira cálida, copos mornos de chocolate quente e cobertores improvisados. Ariel estava ao lado de Lúcia e do irmão. Quando ouvido a voz da mãe, a garotinha hesitou, agarrando-se a Tyler.
– Deixe-a aqui, mãe — o garoto respondeu pela irmã — Essa pode ser a primeira chance de Ariel participar de uma aventura, ou pelo menos colaborar a uma. Ela está sobre minhas ordens, se desobedecer, a levarei até você.
Sorridente com o discurso, Sue voltou para dentro de sua casa, despedindo-se dos aventureiros.
– Então? — perguntou Tyler — Algum resultado da conversa, Lúcia?
A sensação que Ariel alegou ter é a mesma que tive — respondeu -, mas acho que os problemas não são causados por pesadelos. Todos temos, não é grave, é normal.
– Por que a mudança de opinião? Assim, de repente? — quis saber Rillian, parando o seu chocolate quente no meio do caminho até a boca.
– Eu não... — começou Lúcia — talvez se pensarmos direito encontraremos outra teoria.
– Estamos fazendo isso, Lúcia — indagou Ednnundo.
– Eu sei — suspirou a garota -, mas não acha que isso seria um pouco... absurdo?
– Às vezes a causa pode ser o que você menos espera — respondeu Tyler — Pode até ser absurdo, quem manipularia pesadelos?
– Existe alguma lenda sobre isso? — perguntou Eustáquio, por cima de Tyler. Seu rosto parecia estar alaranjado pelo tom do fogo — Quero dizer, existem fadas, feiticeiras, faunos, animais falantes. Não existe alguma lenda em algum livro sobre pesadelos?
– Bingo! — Tyler animou-se, fazendo um gesto com uma das mãos — Ariel, já leu sobre alguma coisa assim? Com lendas? Sendo que uma delas tenha esse assunto?
– Ainda não. Achei um livro sobre lendas na estante do papai, mas deixei para lê-lo outra hora. Não posso deixar um livro lido pela metade por que a curiosidade me consome, e se eu decidir ler dois de uma vez posso me perder.
– Como eu disse, o que procuramos pode ser o que não pensaríamos ser — sorriu Tyler — sinto que estamos no caminho certo. Logo quando amanhecer pegarei o livro e pesquisaremos.
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