Eu sempre imaginei como seria o dia em que minha vida mudaria, começando com um adeus aos velhos amigos de colégio, e dizendo oi para a nova cidade. Aconteceu mais ou menos assim.

Após o divórcio dos meus pais, minha mãe pediu para ser transferida,pois havia finalmente conseguido comprar uma casa em uma cidade próxima a Seattle.

Assim que ela nos contou a ideia, eu realmente fiquei feliz em saber do fato, ao contrário de Mia, minha irmã gêmea, o lado mal, a ovelha negra da família.

Esta manhã quando entramos no carro, ela parecia decidida a não falar mais conosco, passou a noite baixando coisas no seu iPod e desde então ela não abriu a boca, o que me fez supor que além do fato de papai ter recusado a oferta de ter sua querida filha morando em sua residência, ela definitivamente não queria se mudar.

A viagem de carro dura quase três horas, sem contar com as paradas para xixi e alimentação. Mia com seus cabelos loiros iguais aos da mamãe está sentada no banco da frente, pela sua expressão facial esta manhã percebi que nem morta ela sentaria atrás junto com Teddy, as malas e eu. Não liguei, pois também não estava afim de sentar na frente.

Teddy passa a maior parte do tempo jogando AngryBirds, Mia dorme e eu tento me concentrar no livro, minha mãe reclama várias vezes e diz que ler enquanto se está em movimento é ruim, não lhe dou atenção até que minha cabeça começa a doer, tento dormir, mas com o barulho dos gritos dos pássaros quando atingem um bloco de madeira fazem o ato parecer impossível.

Durante alguns episódios da série e o barulho do jogo,acho que adormeço, pois quando abro os olhos estamos parando em frente a casa.

Esfrego os olhos para ter certeza,mas ainda sim a decepção pode ser vista em meu rosto, estamos definitivamente no meio do nada, atrás de nós tem um caminho de terra e ao redor da velha casa há várias árvores.

Há alguém cortando as flores no pequeno canto a frente da casa,o qual não me atrevo a chamar de jardim. Desço do carro sem me preocupar com as malas, Teddy, Mia e mamãe descem também.

Ao sentir nossa presença o garoto se vira, seus cabelos são negros assim como seus olhos e sua pele tem um tom moreno, cor natural, diferente de muitos bronzeados como os que vimos quando fomos à Califórnia.

Ele para de cortar os finos galhos e olha para nós, pela primeira vez no dia vejo Mia sorrir, o garoto faz o mesmo.

– Sou Piedro, meu pai ficou doente, ele está cuidando da casa desde que os antigos donos “sumiram” – Ele faz aspas no ar e ri achando irônico o ocorrido. – No momento eu estou no lugar dele, querem ajuda para levar as malas?

– Não obrigado, já tenho dois braços fortes aqui. – Minha mãe aponta para mim e Teddy. Reviro os olhos e sigo para dentro.

No térreo vejo que há duas salas, uma cozinha e um banheiro, na primeira sala temos uma escada que nos leva ao primeiro andar, vejo um corredor com dois quartos, o que me deixa preocupado,pois de jeito nenhum, quero dividi-lo com a Mia.

Minha sorte é pior do que eu esperava, quando mamãe sobe com algumas malas e abre a porta percebo que o quarto é pequeno demais para somente uma pessoa quanto mais para dois adolescentes problemáticos.

– Eu sei o que estão pensando e não se preocupem vocês não terão que dividir o quarto – antes que eu pudesse suspirar de alívio ela continua, — Eu achei que os dois caberiam bem no sótão.

Não tenho reação nem palavras, minha mãe foi maligna demais desta vez, mas tento me conformar com a idéia, contrario de minha irmã quena escada grita.

– QUÊ??

Ela dá meia volta e desce novamente, a escuto dizer alguns palavrões bem baixinho,para que não chegue ao ouvido de minha mãe.

Tento ri, mas realmente não estou contente com a situação.

Após minutos de uma falha tentativa de tirar Mia do banheiro para que eu possa usá-lo, desisto e resolvo fazer o que tem que ser feito no mato. Ando mata adentro a procura de um lugar onde eu não possa ser visto.

Acho um lugar e assim que fecho o zíper tenho uma sensação de estar sendo observado. Olho ao redore não vejo nada, um breve segundo depois algo se mexe a minha direita. Viro rapidamente e nada, ouço algo vindo da esquerda, desta vez sou mais rápido e consigo ver quase que em câmera lenta um pequeno homem com focinho de rato passar correndo para trás de uma árvore.

Tento me convencer que é somente um animal assustado, mas não consigo, corro atrás dele por bastante tempo até perceber que estou perdido, quando acho o caminho de volta para casa o sol já esta se pondo, penso que minha mãe está nervosa em relação ao meu sumiço, mas me engano quando entro na residência pela porta da cozinha ela está fazendo algo no fogão.

– Querido, vejo que você já foi dar um passeio pelas redondezas, achou algo interessante?

– Nada que valha a pena perdermeu tempo... Mia já saiu do banheiro?

– Hámuito tempo, e ela também ajudou a levar suas coisas pra o sótão, acho que você deveria tomar um banho e arrumar a sua parte.

Sinto meus dentes travarem, agora estou fazendo o papel de Mia, estou revoltado,pois essa definitivamente não era a nova vida que eu planejava.

Subo as escadas correndo, no fim do corredor no primeiro andar tem uma pequena escada que me leva para cima, fico surpreso ao ver que o lugar é realmente grande, pois couberam as duas camas entre outras coisas.

Vejo que Mia está com sua moeda da sorte entre os dedos, quando ela está nervosa com algo, gira a moeda cada vez mais rápido. Uma mexa de seu cabelo está sobre os seus olhos e ainda assim consigo ver o medo neles.

– O que houve?

Ela com a mão trêmula, aponta para a parede, onde não vejo nada demais além de um pedaço da mobília faltando.

– Eu ouvi um barulho atrás da parede, então destaquei uma parte da mobília porquese fosse um rato eu o mataria, pois você sabe que eu não tenho medo de ratos, mas não tinha rato, somente aqueles livros e... Quando eu me aproximei para vê-los eu vi um rosto, Adam, um rosto humano, tem algo preso aqui, por favor, não vá atélá, temos que ir embora dessa casa.

Não a escuto, já é tarde demais, me aproximo e pego o primeiro livro na ordem e leio o titulo bordado na capa de couro.

Diário de Campo

Memórias de Gregory A.

1913 – 1978