Mia

Não sou boa com as palavras então desde a noite passada tento mostrar para todos que não estou contente com a situação. Eu não quero me mudar, não quero deixar meus amigos. Tento manter-me firme mas sinto as lágrimasrolarem assim que acabo de baixar o novo álbum de Eletric State.

“Às vezes a vida tem que mudar, nem sempre o que queremos é o mesmo que Ele quer.”

Não me importo com o que o resto quer, só sei que eu não quero ir. Apago o álbum que acabei de baixar, não quero palavras reconfortantes, quero alguém que me apoie.

Durmo um pouco e passo toda viagem de carro sem dizer uma palavra, sem demonstrar um pingo de emoção. Meu silencio emocional é quebrado assim que desço do carro.

Há um garoto cortando as flores mortas no canteiro da casa, ele olha diretamente para mim, seu sorriso é perfeito, e sua pele nem posso comentar, ele é similar a um modelo mexicano que eu vi uma vez na revista.

Sinto meus lábios se curvarem, droga, estou sorrindo, meu pensamento automático é seguir para dentro de casa, mas perco a lógica quando ele sorri de volta para mim.

Adam segue para dentro, minha mãe pega algumas malas e sobe, algum tempo depois, a única pessoa além de mim e Piedro é Teddy que ao perceber que está atrapalhando se manda para dentro do imóvel.

– Oi, sou Mia. – Ajeito meu cabelo para trás da orelha. – Minha mãe por um motivo que só Deus sabe comprou esta casa, então eu fui obrigada a vir, e nem sei por que estou desabafando com alguém que acabei de conhecer.

Ele ri. Ele. Riu. Da. Minha. PIADA!!!

– Não se preocupe, pode falar comigo sempre que precisar. – Ele ri e me abraça. Ele parece que tem um tempão trabalhando, pois sinto seu suor quando ele chega próximo a mim. Ele se afasta e com cara de surpresa pergunta?

– Você está ouvindo ES no seu fone?

Definitivamente,esqueci de pausar a música, droga de efeito que você tem sobre mim. Assinto com uma balançada de cabeça, ele sorri, e eu não consigo evitar e faço também.

– Eu sou fã dele, você já baixou o novo álbum?

Eu penso em falar a verdade e contar como havia achado ridículas as novas canções da banda, mas não quero espantá-lo.

– Sim, mas ainda não tive tempo de ouvi-las. – Minto.

– Sem problemas, a gente pode ouvir juntos da próxima vez que eu vier aqui.

Sinto algo estranho em minha barriga, e percebo que não parei de sorrir desde o primeiro minuto que o vi.

– Você mora aqui por perto? – Sinalizo indicando a floresta.

– Mais ou menos.

– Diga-me que você não mora em uma cabana no meio do mato!

– Com certeza não, moro com minha mãe na cidade. – Ele diz e monta na moto, (lindo, e ainda tem uma moto, controle-se coração) – Nos vemos em breve.

O momento de paz e guerra dura pouco, os momentos de luta começam assim que subo as escadas e escuto minha mãe dizer que teria que dividir o sótão com Adam, desço as escadas correndo e me tranco no banheiro.

Meu irmão bate na porta durante bastante tempo, não abro. Saio horas depois, e vou até o carro, para compensar o que fiz, levo as malas dele para cima também. Arrumo as coisas do meu lado do “quarto” e deixo as malas de Adam sobre a cama dele.

Neste meio tempo escuto batidas vindas da parede, pego uma vassoura e começo a batucar, rezo para que seja um rato e saia para me enfrentar, o barulho para em certo ponto da parede, bato de leve, o lugar oco, com as unhas puxo a tábua de madeira, com um grito abafado pulo para trás.

Havia um rosto na parede, tenho certeza, me afasto do lugar e sento na cama, tiro a moeda do bolso, e giro ela entre os dedos, fico encarando o livro e nada mais se move.

Adam chega ao quarto, por mais que eu o avise, ele se atreve a mexer nos livros. Ele tira um de dentro e lê o titulo em voz alta, ele se senta na cama e folheia algumas páginas.

– Isso me parece um diário comum, deve ter pertencido a alguém que já morou na casa. – Disse ele depois de um tempo.

– Eu imagino. – Tomei o livro da mão dele, e olhei algumas páginas, elas estavam cheias de desenhos de flores, fadas, gnomos, duendes, cavalos com asas e grifos. – Isso me parece com um livro de fantasia qualquer. Ele tirou o restante,um total de dez livros e colocou sobre a mesa.

– Não importa,eu vou dormir em breve, e não tenho tempo para essa besteiras.

Ele pegou uma toalha e desceu para tomar banho, sentei na cama e comecei a ler.

Dia Vinte e Três

Não sei o que está acontecendo, acho que estou ficando louco, eles estão atrás de mim querem a minha ajuda, não estou errado, eles querem me culpar por algo.

Por favor, se eu não passar de hoje saibam, esconderei este livro debaixo da madeira, não exatamente este livro, mas você saberá o que fazer. Espero que seja a hora certa.

Sinto muito, eles chegaram.

Esta folha parece ter sido colada com fita adesiva, assim como outras, vejo alguns textos de jornais e imagens coladas, abri em uma página aleatória, e vi a palavra Trollescrita com letras vermelhas.

Leio a abordagem rápida sobre o tema.

Há quatro tipos de Trolls:

– Aqueles que podem ser confundidos com gnomos, mas não se engane, estes não são tão legais quanto, em geral a espécie possui como diferença visível um “nariz” de rato.

– Troll Lideres, herdeiros do castor estes vivem ainda mais distantes da sociedade.

– Troll Humano, não se sabe muito, mas estes tem somente um leve traço sobrenatural, podem se disfarçar no meio de nós, eles costumam ter um ódio grande por sua verdadeira natureza.

– Troll Monstro, optei por não estudar muito sobre eles, e se faço você também cairia fora, só digo uma coisa: Nunca mexa com esse tipo de troll, e nunca, nunca mesmo, os deixe chegar perto de açúcar. Parece bobagem, mas imploro a vocês, não façam isso.

Concentro-me para não rir, o fato é ironicamente hilário, como se fossem existir criaturas mágicas.

No meio de meus pensamentos escuto um grito vindo da cozinha, pela voz reconheço Teddy, desço o mais rápido possível, chego à cozinha vejo uma enorme bagunça. Tudo está de perna pra cima.

Localizo Teddy e ele não está sozinho, ao seu lado há um homem com quase a altura do meu irmão, ele tem um jeito carrancudo e um macacão velho, um nariz empinado diferente dos outros dois com nariz de rato.

– Não é este, o garoto é maior que este.

– Eu sei, chefe, mas nós não o localizamos.

Eles não notam minha presença, me abaixo atrás do balcão. Penso em ligar para a polícia, mas acho que não acreditariam que estou sento atacada por gnomos e trolls.

No momento exatamente errado, Adam passa pela porta da cozinha, ele está de calça, all star, e casaco, como se planejasse ir para algum lugar.

Tarde demais, eles o veem.

– Ali está, o nosso salvador.

Pego uma frigideira e bato na cabeça do anão maior que segurava as bochechas de Teddy, os outros dois soltam os braços dele e puxam minha perna.

– Corra, vá para o quarto, só abra a porta quando eu chamar!

Teddy correu escada acima.

O duende maior se recuperou rápido e atacou Adam, os dois menores amarraram meus pés e minhas mãos,

– Fiquem calmos, estou aqui para negociar. Somos do bem.

Ele levantou a mão para o alto como se estivesse se rendendo. Tentei tirar a mordaça da boca, mas estava muito apertada. Adam estava preso ao banco fixo lado oposto ao meu.

– Sou Gregory, um duende, — Ao falar essa palavra ele fez cara de nojo. – Não sou fofinho como nos desenhos, então façam o que irei pedir ou a mãe de vocês será morta.

Somente quando ele cita percebo que minha mãe não está aqui, e juro para mim mesma que se eles a machucarem eu matarei toda sua espécie.

– Existem outros como nós, vivemos na floresta, não exatamente estafloresta, mas precisamos da energia dela para chegar ao nosso mundo.

– E... – Disse Adam, que acabou de levar um chute entre as pernas, ele grita de dor, mas tento me concentrar somente em achar uma solução para salvar mamãe.

– E... Que hoje pela manhã recebemos uma visita de um Empresário que deseja destruir toda a floresta para construir um Shopping Center, o que acabará com toda a magia e seria o fim de todo um legado de Criaturas.

Adam abre a boca para dizer algo, mas ao ver a cara feia do duende ele a fecha rapidamente.

– Ai que vocês entram, no nosso lado da floresta há uma flor que seu cheiro tem o dom da persuasão, no caso, quem estiver sobre seu efeito irá fazer tudo aquilo que lhe for dito. Eis que você pegarão a flor e irão até o prédio dele lá na cidade e o farão desistir de tudo isso. Perguntas?

Fiz um pequeno ruído para que percebessem que eu queria falar. Um dos trolls menores tira o pano de minha boca.

– Se vocês tem essa flor, o que lhes garante que iremos lá, porque vocês mesmo não vão?

– E para ter certeza que ajudaríamos você porque ameaçaram nossa mãe invés de nos fazer usar a planta? – Completou Adam.

– Primeiro, só temos uma Osep, ela só floresce uma vez por ano, e mesmo que não sequestrássemos a senhora Applebaum, tenho certeza que vocês o fariam, e segundo, não poderíamos chegar assim do nada até ele e usar a flor, pois só podemos ser vistos por aqueles que realmente acreditam.

– Nós o faremos, não só por nossa mãe, mas pelo fato de que o desejo daquele homem é algo imoral não devemos destruir um bem natural para satisfazer a vontade humana.

Fiquei assustada com minha sábiaspalavras, e um pouco orgulhosa no fundo.

– Desamarrem eles, para que sigamos, vamos levá-los até vossa mãe, em seguida pegaremos a flor e daremos continuidade ao plano.