As cinco portas
1 Capítulo 1
AS CINCO PORTAS
A humanidade, outrora civilizada, caminhava a largos passos para o clímax da sua própria decadência. Os que resolveram viver à margem da lei já não temiam qualquer tipo de punição que a chamada justiça tentava lhes impor. Em contrapartida, os que viviam em dia com seus impostos, deveres e obrigações, viam-se, a cada dia mais, aprisionados em suas próprias casas. Não podiam sair a qualquer hora da noite e, dependendo do bairro, nem mesmo durante o dia. Sentiam-se inseguros, apavorados, desguarnecidos e estuprados pelos criminosos que encontraram nesse tipo de vida um salvo conduto chamado Direitos Humanos.
A declaração universal que fora criada no século passado, em 1948, acabou por criar diversas organizações que se autodenominaram detentoras do direito de manipular a carta, com autorização do governo único vigente. Os secretários de direitos humanos eram todos políticos, ou tomavam posse com o aval dos mesmos, quando recebiam essa ‘responsabilidade’ como gratificação por serviços prestados em períodos eleitorais. Ficando assim, sujeitos aos caprichos e interesses dos representantes eleitos. Com isso, quem sofreu as conseqüências foram as pessoas de bem. Os marginais, que em sua esmagadora maioria eram egressos de famílias pobres, recebiam atenção especial dessas organizações com o intuito de se beneficiarem com reduções de pena, punições brandas, indultos em feriados e substituição das penas de restrição da liberdade por penas alternativas, sempre em troca de voto. Isso resultou em uma inversão de valores sem igual na nação. Aqueles que eram presos assaltando, assassinando, furtando, agredindo, violentando, debochavam da sociedade fazendo caretas para as câmeras de TV, pois sabiam que em pouco tempo estariam novamente nas ruas. Ameaçavam publicamente testemunhas, policiais, denunciantes e juízes, levando a cabo suas promessas, tão logo estivessem livres. O sistema prisional estava falido. Não havia o menor sinal de recuperação dos presos que ficavam alguns poucos anos encarcerados, vivendo como animais amontoados em celas superlotadas, quentes e sujas. Isso só nutria seu ódio pela sociedade que, segundo criam, os excluíram e ansiavam o dia em que vingariam sua dor, fazendo pior do que antes. A população, por sua vez, achava que o castigo prisional era pouco para as barbáries que eles cometiam. A polícia e a justiça eram extremamente corruptas, assim como a quase totalidade dos políticos e formadores de opinião. A balança da Justiça pendia para o lado dos que possuíam bens e afundava em descontrole para o lado inverso. E tudo se transformou num grande barril de pólvora.
Quatro décadas se passaram e o sistema agora parecia funcionar corretamente, apesar de não ser perfeito. Quando os criminosos começaram a atacar e seqüestrar filhos de governadores, senadores e presidentes de grandes multinacionais, acabaram ironicamente por selar o fim do seu estilo de vida marginal. Tocaram na ferida daqueles que poderiam mudar alguma coisa.
Foi logo após a quarta Olimpíada de Los Angeles, onde o carro que transportava o Presidente da República foi alvo de um atentado, matando todos os seus integrantes, é que a nova ordem surgiu. E a população agradeceu.
Seguindo recomendação do recém criado conselho de ex-presidentes da América, a antiga constituição foi abolida e reescrita. O exército fez sua parte e deu apoio nas ruas, mantendo a ordem durante esse período de renovação. Todas as forças de direito uniram-se e ajudaram a manter a estabilidade do país.
Houve renovação na polícia, política e educação. Porém, a mudança mais celebrada pela sociedade foi o tratamento destinado aos que resolviam se rebelar contra as normas de boa conduta e moral. Qualquer crime cometido, mesmo os de menor potencial ofensivo, era punido drasticamente. Policiais corruptos eram punidos com encarceramento ininterrupto, assim como políticos que, ao invés de olharem pelos interesses do povo, olhavam para o interesse dos seus próprios bolsos. Não havia mais os indultos em feriados e datas festivas, penas alternativas, visitas íntimas, regime semi-aberto, fugas ou sorrisinhos diante das câmeras. Os criminosos agora temiam o enclausuramento eterno, até que a morte os separasse. Eles eram agora desligados definitivamente da sociedade. Tornavam-se números e suas famílias não possuíam qualquer informação do indivíduo encarcerado. Os antigos presídios foram postos abaixo e centenas de prisões modelo, construídas a toque industrial, brotaram eu seu lugar. Os prisioneiros viviam uma rotina militarmente rígida. Não tinham mais direitos, só deveres. A constituição foi mudada para que cada pessoa, acima de 15 anos de idade, que decidisse viver fora dos padrões estabelecidos, fosse punida exemplarmente a fim de que não acontecessem novos desvios. Os menores de 15 anos que cometessem crimes eram separados em definitivo de suas famílias e conduzidos aos rigorosos CASI: Centro de Adaptação Social Infantil, onde após completarem a maioridade, um rigoroso tribunal superior avaliava se eram capazes de voltar à vida em sociedade. 90% deles não passavam pelo crivo dos juízes, sendo levados a cumprirem sua pena eterna em um dos presídios modelo. Aos condenados com mais de 15 anos de idade não havia segunda chance ou oportunidade. Se quisessem viver, seria em uma das novas celas.
Contudo, os presídios agora eram limpos e organizados, Os presos passavam boa parte do dia em atividades que eram revertidas em benefício da sociedade, como pagamento pelos danos causados. Cada prisão era um campo gigantesco voltado à mão de obra prisional. Algumas eram direcionadas à construção de estradas e rodovias, com grandes usinas de asfalto funcionando em seu interior. Os presos aceitavam com bons olhos prestar este tipo de serviço, pois somente assim poderiam sair de dentro dos grandes muros e apreciar um pouco a paisagem, mesmo que acorrentados uns aos outros. Havia centros que eram como uma grande marcenaria, onde eram construídas carteiras escolares, móveis de escritório e toda sorte de bens públicos. Outros tantos eram metalurgias, olarias, centros de montagens de aparelhagens eletrônicas, etc. Tudo com o absoluto controle do estado.
As tentativas de suicídio eram punidas com seções frequentes de choques elétricos e períodos cada vez mais longos em celas limpas, porém escuras e frias, chamadas de solitária.
Sendo assim, trabalhar 8 horas por dia era uma forma de não enlouquecer naquele lugar e os presos acabavam entendendo que era melhor se adaptar e seguir com sua nova rotina de vida.
No início dessas quatro décadas do chamado Regime Extremo implantado, assim o governo batizara a nova ordem, seus criadores acreditavam que a tendência era de que os índices criminais amenizassem drasticamente, e a sociedade assim poderia deixar brotar novamente os valores familiares, como camaradagem, bondade, gentileza e moral. Porém, apesar de realmente conseguirem fazer baixar a criminalidade, a população tornara-se, em oposição, quando entregue livremente aos seus desejos e fetiches mais íntimos, insaciável.
No início o acesso à pornografia na internet e fora dela era considerado algo apenas imoral. Com o tempo tornou-se uma questão de saúde pública, mas não conseguiram forma de conter essa peste negra moderna, escondida dentro dos lares. Antes os estupradores vinham do lado de fora dos portões, mas agora o inimigo dormia ao lado. Os casos de pedofilia e estupro por parte de parentes e amigos da família aumentaram drasticamente, porém as famílias na intenção de manterem seu estilo de vida acobertavam os escândalos cometidos pelos chefes da casa. Era melhor ter uma filha abusada dentro de suas paredes ao escândalo na imprensa marrom e a conseqüente prisão do provedor.
Os programas de TV, no começo, exibiam Reality Shows dos mais diversos. No início a febre eram os programas que retratavam grupos de pessoas se aventurando em troca de algum prêmio milionário, fazendo seus integrantes desejarem mudar de vida, da noite para o dia, e tornarem-se milionários bon vivant. Os programas variavam de disputas musicais às estéticas, contudo os de maior audiência eram os zoológicos humanos, em que pessoas eram confinadas e filmadas 24 por dia. As operadoras de TV pay-per-view lucravam bilhões vendendo pacotes desses programas. Todos queriam ficar no conforto da sua casa vendo as intrigas, futilidades e podridões do que se tornara a alma humana. Viam neles apenas seus próprios reflexos, porém não tinham coragem de assumi-lo. Era muito mais cômodo assistir, julgar, eliminar e escolher quem levaria o prêmio do que olhar para dentro de si mesmo.
Como tudo o que era lícito no novo mundo evoluiu moralmente para pior, os programas de TV não seguiram caminho diferente. O programa que era quase unanimidade nas noites de sábado da atualidade chamava-se: 5 Perguntas Para a Liberdade. Tudo consistia em um sorteio virtual semanal em que um prisioneiro era selecionado para tentar na TV a sua liberdade. Assim que um fosse selecionado, iria ao programa no sábado seguinte onde tentaria responder cinco perguntas feitas pelo apresentador. O “felizardo” ficava numa câmara de vidro, com um fone de ouvido e um microfone, de onde fazia contato com o apresentador e era ouvido e assistido por milhões de espectadores. Usava ainda suas algemas e correntes nos pés e nas mãos e seu uniforme prisional laranja, que só eram retirados se ele respondesse corretamente a todas as perguntas. Se respondesse erradamente a qualquer uma das questões, a câmara enchia-se automaticamente de um gás venenoso, de cor verde, e o homem agonizava horrendamente, para delírio da sádica platéia. A fase seguinte consistia em o condenado escolher uma porta, em cinco. Se acertasse a porta correta, conseguia sua liberdade. Saía com documentação de liberação e encerramento de pena. Se escolhesse qualquer uma das outras quatro portas, uma surpresa bizarramente mortal o aguardava.
Na última semana, após acertar as cinco perguntas, um jovem preso foi para a escolha das portas. Preso número B78656-11. O rapaz não deveria ter mais de 22 anos de idade. Estava preso por dirigir embriagado e causar um acidente que tirou a vida de 4 pessoas, entre elas um policial. Enquanto o apresentador fazia suas macaquices, com seu indefectível sorriso estampado no rosto, as câmeras focalizavam o rosto do preso, que a essa altura era libertado das correntes pelos assistentes de palco.
- Senhoras e senhores, audiência de todo o nosso país, estamos de volta com o programa: “5 Perguntas Para a Liberdade”! – todos da platéia gritaram o nome do programa em uníssono com o show man – Estamos aqui com o sortudo da semana. Como se sente filho?
- Bem, senhor – disse o garoto, visivelmente intimidado com toda aquela agitação. Seus olhos pareciam o de um inofensivo filhote de gato acuado.
- Meu jovem – disse, colocando o braço sobre os ombros do prisioneiro – você respondeu corretamente todas as 5 perguntas, e agora é chegado o momento do grand finale. Cinco portas! Uma para cada pergunta respondida! Só uma leva à liberdade! – A platéia gritava excitada, quase babando.
O jovem foi conduzido a uma porta de aço, enorme, e indicaram a direção que deveria tomar. Enquanto ele seguia pelo corredor, a porta fechou-se atrás dele. Todos agora acompanhavam pelos monitores de Tv. Ele agora estava sozinho lá dentro. Andou até que chegou ao fim do corredor e entrou em um grande salão em forma de meia lua. Com um estrondo dramático, as luzes se acenderam revelando as cinco grandes portas. As câmeras controladas à distância não saíam de cima do rapaz, que ficou parado olhando e pensando em qual porta arriscaria o seu destino.
Silêncio no auditório. Todos observam.
No Presídio, o show era transmitido ao vivo e todos os presos vibravam e torciam para serem sorteados e um dia tentar a chance de saírem livres. Mas com milhões de presos encarcerados, era como acertar na loteria. Todos estavam vidrados na escolha que o jovem faria. Nunca, na história de um par de anos de duração do programa, alguém havia saído livre.
O garoto enfim começou a se mover. Em cima de cada porta havia um número enorme, indicando ordem numérica crescente. Ele andou em direção à porta de número 2. Uma nota instrumental contínua de suspense encheu os ouvidos de todos. Segurou a maçaneta e após cerca de três segundos a abriu até o fim. Uma luz forte saiu de dentro da porta aberta e todos ficaram esperando para ver o desfecho da escolha que ele havia feito. Cego pela luz forte, o jovem deu dois passos para trás e tentava proteger os olhos e ao mesmo tempo entender o que havia por trás da luz. Nesse instante, sem aviso, saiu de dentro da porta em velocidade altíssima, uma lâmina enorme, com cerca de três metros de largura, e dividiu o garoto ao meio num só golpe.
O silêncio foi quebrado e todos vibraram animalescamente: O apresentador, o auditório, as pessoas em casa e os prisioneiros.
Tudo isto era feito com o aval do governo e das novas leis. Um preso selecionado não poderia recusar. Na verdade, a loucura social era tamanha, tanto entre os que pagavam seus impostos quanto entre os párias, que todos desejavam e vibravam com a oportunidade de fazer parte daquele circo.
Após o término do programa, um novo sorteio eletrônico foi feito e mais um preso sorteado. O número foi enviado ao gabinete do governador.
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