As cinco portas
2 Capítulo 2
Na cela 101 do XXIII Centro Integrado de Serviço Prisional da região leste, um homem estava deitado na sua cama beliche lendo um livro, alheio ao circo que se formara no refeitório, onde os presos assistiam ao programas das cinco perguntas.
Ao longe ele ouvia os presos urrando como animais, e batucando nas mesas. Em seguida ouviu-se uma sirene, indicando que o horário de festa havia acabado. Os presos deveriam formar uma fila, seguindo sua numeração prisional e encaminharem-se de volta à frente de suas celas. Em instantes os guardas fariam a conferência. O homem deitou o livro em cima da cama e levantou-se, ficando de pés, em frente à porta de metal para que fosse feita a contagem. Seu companheiro de cela, Jason, chegou logo e estava visivelmente eufórico.
– Você é louco? Ficar aí deitado lendo esse maldito livro ao invés de se reunir para ver o programa!
– Eu é que sou louco? – perguntou olhando-o de canto de olho, com um sorrisinho sarcástico – O cara conseguiu dessa vez? – perguntou como que sabendo que a resposta seria negativa.
– Não. Ele respondeu as cinco perguntas, mas abriu a porta errada. Pobre garoto. Foi partido ao meio – em um primeiro instante, Jason, pareceu comover-se, mas logo a euforia estava de volta – Eu daria tudo para ir à TV e sair de lá livre, cuspindo na cara daqueles que me tiraram a liberdade!
– Será que você não percebe? Aquilo tudo é armação. As pessoas pagam milhões ao canal através da interação na votação e audiência, e o mesmo repassa ao governo uma polpuda soma. Em contrapartida a população carcerária é eliminada, semana após semana e todos ficam como retardados aplaudindo de pé.
–Mesmo assim eu gostaria de tentar – ignorou o comentário sorrindo.
O homem que dividia a cela com o velho Jason chamava-se Irwin. Cumpria pena por roubo a mão armada. Estava preso há muitos anos, desde o início do Regime Extremo. Apesar de condenado, atrás das grades parecia ser uma pessoa inofensiva. Era dado à leitura e nunca se envolvia em motins, confusões ou mesmo andava em grupos.
Gostava de conversar com quem se chegasse disposto a divagar sobre a vida perdida e a nulidade da vida na prisão, mas seu assunto predileto eram os livros. Assunto escasso na prisão.
Viu muitos escaparem de dentro dos muros. Todos num saco preto, após tentarem fugir ou acabarem se suicidando. Eram enterrados nos cemitérios estaduais que ficavam em uma área atrás dos presídios. Eram campos enormes com pequenas lápides, onde haviam apenas números escritos. A família do preso nunca era informada sobre o paradeiro do condenado ou até mesmo sobre sua morte ou destino final.
Vivia sua vida tentando conformar-se com o seu destino, porém muitas vezes desejou ter a coragem necessária para dar cabo da própria vida. Lembrava com dor dos pais, esposa e do pequenino filho que deixara para trás, ao fazer a escolha de lutar contra a ordem instituída ao portar uma arma e tentar praticar um roubo.
Era um homem branco, alto e forte. Tinha quarenta e dois anos de vida. Quase metade dela viveu atrás das grades. As más companhias fizeram com que se metesse na vida criminal atrás de ganho fácil, já que naquela época era muito difícil conseguir emprego. Nunca se perdoou pelo que havia feito. Foi o seu primeiro e único assalto.
– Todos em forma! – gritou um dos guardas, sendo prontamente atendido por todos os presos que, em silêncio, colocavam-se lado a lado.
Os números foram gritados e prontamente respondidos por cada preso, na última conferência do dia. Ao gritar o número “B76776-09”, Irwin respondeu positivamente, porém o guarda não deu prosseguimento à chamada. Olhava para a prancheta como que conferindo algo que lhe chamou a atenção.
– Número B76776-09, Irwin F. Hewit? Esse é seu nome?
– Sim, senhor.
– Então parece que o próximo candidato às 5 perguntas será de nossa prisão! – disse o guarda com uma satisfação imensa.
Os presos de imediato gritaram em celebração, enquanto Irwin sentiu-se nauseado. O velho Jason o agarrou com um dos braços e pulava animado, vibrando pela chance do amigo de cela. Para os presos era como se ele tivesse recebido um salvo conduto do governador, porém para o homem sorteado era como se sua vida tivesse chegado a um fim.
Após os guardas prisionais colocarem cada homem no seu devido lugar, apagaram as luzes após alguns minutos de silêncio. Irwin ficou deitado na cama de cima, encarando o teto.
– E aí, meu amigo, está animado? – perguntou Jason.
– Animado? Um garoto acaba de ser partido ao meio na Tv e você me pergunta se eu estou animado? No próximo sábado sou eu que estarei lá. Você realmente tem idéia do que isso significa? Minha família não sabe se estou vivo ou morto e aparecerei na TV, diante de milhões de pessoas, na iminência de ser partido no meio e você pergunta se estou animado? Ora, faça-me o favor, Jason.
– Pense, meu amigo. Pode ser a chance de você se livrar dessa vida de tormento e controle! Se você morrer estará liberto, entende? A probabilidade de você ser morto instantaneamente, sem dor, é enorme, você não vê! Creio eu que pior seria se você fosse liberto. Afinal, você acha que conseguiria conseguir emprego lá fora? Que voltaria para sua família normalmente? – disse virando-se para o lado e deixando o homem pensativo.
A noite passou demoradamente. Irwin não conseguia segurar o medo e a ansiedade. Pensou que talvez, somente talvez, seus pais, mulher e filho, fossem ao programa para vê-lo, quem sabe, pela última vez. Talvez não fosse tão mal, se pelo menos acertasse as cinco perguntas. De súbito pegou-se imaginando como seria a câmara enchendo-se do gás verde, entrando pelas narinas e boca, sufocando diante de seus entes queridos. A terrível sensação que a imaginação lhe trazia fez com que seu corpo se arrepiasse todo. Finalmente adormeceu.
Durante os dias que antecederam o programa, os presos o cumprimentavam e saudavam como se realmente fosse algo bom ser convocado para a execução televisionada. Porém ao fim de dois dias, Irwin chegou mesmo a gostar da atenção que lhe era direcionada.
À tarde do segundo dia, um dos guardas aproximou-se dele:
– Me acompanhe. O diretor o aguarda – sem esboçar qualquer reação, Irwin o seguiu. Os outros presos estavam no pátio, de modo que os corredores que levavam para a administração encontravam-se vazios. Portão após portão os dois seguiram, ouvindo os grandes cadeados serem trancados após a passagem de cada um deles – Você é o sortudo, não? – perguntou um dos guardas que estava de plantão em uma das grades de passagem.
– Se chama isso de sorte.
– É como alguém certa vez disse: No futuro, todos terão seus quinze minutos de fama. Mesmo que morra em seguida – desdenhou o guarda.
Subiram pelo elevador ao terceiro e último piso da prisão. Lá, ao fim de um grande corredor, com grandes janelas que davam para a parte exterior do presídio, ficava a sala do diretor. Do lado de fora da sala, um guarda fazia a vez de ordenança, um tipo de secretário imediato.
O prisioneiro assentou-se em uma cadeira de madeira, com espuma coberta por veludo vermelho escuro nos assentos, seguindo a indicação gestual do condutor que o acompanhava. Observou enquanto os guardas, falando mansamente e em baixíssimo volume, faziam algum tipo de piada sobre a convocação do preso. O volume com que eles conversavam demonstrava o respeito à autoridade que estava na sala em frente, mas o tom de voz revelava total desdém pelo prisioneiro.
O que estava atrás da mesa levantou-se, abriu a porta da sala do diretor e fechou-a atrás de si. O segundo guarda, o condutor, assentou-se em silêncio ao lado do condenado.
Em cerca de dois minutos a porta se abriu e a ordenança mandou que entrassem. Numa postura de submissão, o guarda condutor retirou o quepe e pediu permissão ao diretor para adentrar a sala e o preso seguiu-o de perto. Irwin ficou impressionado quando viu o contraste do interior da sala em relação ao restante do presídio. As instalações, até então conhecidas, eram de uma funcionalidade rigidamente fria, porém limpa. Grandes paredes pintadas de cinza, com as portas das celas brancas, onde havia metal rebitado. Contudo, a sala do diretor era extremamente aconchegante. Um grande tapete vermelho cobria a quase totalidade da sala, que não era gigantesca, mas sim, acomodava confortavelmente todos os móveis. Obras de arte enfeitavam as paredes, assim como uma grande estante de madeira escura repleta de livros. Irwin invejou aquele móvel por ser amante de livros. Aprendera a amar a leitura nos anos de enclausuramento.
O calor do aquecedor fazia a sala ser mais agradável ainda. O diretor, um homem que aparentava quase sessenta anos, estava sentado atrás de sua grande mesa de madeira escura. Os cabelos brancos do grande chefe e seu bigode acompanhando a mesma coloração davam ao homem um tom de seriedade. Apesar de estar a muitos anos no complexo prisional, Irwin nunca vira o diretor pessoalmente. Só ouvira falar dele. Os presos que tiveram a oportunidade de conhecê-lo comentavam que era um bom homem, porém rígido. Não tripudiava em cima dos presos. Tratava-os como homens, por isso o respeitavam. Não por medo, mas por uma honradez que já começava a ficar escassa nos homens daqueles tempos..
– Obrigado, guarda Wilson. Peço que aguarde do lado de fora da sala, por favor. Gostaria de conversar a sós com o preso. E por favor, retire as algemas dele – disse o diretor.
– Tem certeza, senhor? – perguntou o condutor, surpreso pela atitude do chefe que acenava com a cabeça, dizendo que sim, estava tudo bem. O guarda virou o preso, soltou-lhe as algemas e saiu da sala em silêncio.
Irwin coçava os pulsos que formigavam pelo uso quase contínuo dos grilhões, quando estava fora da cela ou do refeitório. Ainda estava meio desconfiado, apesar de saber que os presos falavam bem do diretor.
– Você deve estar pensando que eu sou um louco em mandar que ele tire suas algemas e se retire da sala, não? O que impediria você de pegar um caneta na minha mesa e enfiar no meu olho, certo?
– Para ser sincero, senhor diretor, é uma boa questão.
– Eu sou diretor desse presídio, filho. Você não me conhece, talvez nunca tenha me visto, mas eu vejo todos vocês, o tempo todo. Você sabe que em cada canto dessa masmorra moderna há câmeras de monitoramento contínuo. Até mesmo em suas celas e banheiros, ironicamente, como num grande reality show.
Você deve fazer idéia do porque de ter sido chamado até a minha sala, não é mesmo? Vamos direto ao assunto então.
Como você já sabe, foi sorteado para o show de horrores do governo. Nunca concordei com o que acontece ali, apesar de não ser um entusiasta de presidiários. Sei que aqui estão homens que cometeram latrocínio, que estupraram crianças indefesas, que mataram famílias inteiras, mas sei também que aqui dentro há pessoas como você. Pessoas que cometeram um crime, sim, porém ainda que houvesse chance e tempo de reabilitação, o governo entendeu que era melhor encerrá-los numa cela fria. Bom, eu não sou e não pretendo ser doutrinador e nem governador, tampouco farei parte do conselho que julga os que cometem crimes, mas a questão é que eu o observo há muito tempo. Você é diferente dos demais presos. É comedido na fala, culto, devora livro após livro, é habilidoso no trabalho e com as palavras. Vejo um pouco de mim em você, acredite. Não porque eu me considere um pouco criminoso, mas sim porque vejo um pouco menos de criminalidade em você do que na grande maioria dos presidiários. Infelizmente você foi o sorteado. Sei que para a maioria dos presos isso é uma glória, mas desconfio que com você seja diferente, certo?
– Para ser sincero, senhor diretor, eu não faço a menor questão de me explodir em frente às câmeras de Tv para satisfazer a morbidez de uma sociedade hipócrita.
– Mas como você sabe, apesar de eu não concordar com essa loucura, sou submisso ao sistema. Hoje eu enviei relatórios detalhados a seu respeito. Os livros que lê, seus interesses em conversas, etc. Tudo o que foi monitorado ao longo de anos, foi enviado à emissora de Tv para análise e escolha do grau de dificuldade das cinco perguntas que lhe farão. Tenho chefia acima de mim, compreende?
– Sim, compreendo. Só não consigo entender aonde quer chegar diretor.
– Vejo que é um homem bom, Irwin. Posso ver isso em seus olhos. Então, gostaria de conceder-lhe um último desejo antes do programa e lhe oferecer uma alternativa à morte televisionada. Vamos começar pela segunda opção: Nunca antes a nossa prisão teve um condenado selecionado, mas eu sabia que mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer. Só não contava, por Deus, que fosse você. Por isso quero lhe oferecer uma ajuda, se é que me entende.
– Como assim, uma ajuda?
– Uma cápsula de cianureto, por exemplo – foi direto.
– Está sugerindo que eu me mate? Que me envenene? É isso?!
– Estou sugerindo que poupe a sua família de ver suas tripas espalhadas num palco, somente isso. Quero lhe dar a chance de morrer com dignidade. Longe dos holofotes – o diretor fez uma pausa e os dois ficaram em silêncio por alguns poucos segundos, encarando um ao outro – Não estou pedindo que decida agora. Vá, pense e me diga.
– E quanto ao primeiro desejo?
– Peça. Se estiver ao meu alcance realizá-lo, o farei.
– Não tenho outra coisa a pedir, senão que traga a minha família para me visitar uma última vez.
– Sabe que as regras são muito rígidas, filho. Se eu fosse pego pela imprensa fazendo esse tipo de coisa, acabaria atrás das grades com os outros – disse, enquanto olhava para a mesa e passava a mão pelo bigode grisalho – verei o que posso fazer. – Chamou o guarda em seguida e pediu que conduzisse o preso de volta à cela.
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