30 anos antes, durante a batalha apocalíptica contra um dos reis do inferno Asmodeus.

céu parecia sangrar. Raios cruzavam o horizonte, incendiando os escombros de um mundo que já não lembrava o que era a esperança. Asmodeus observava tudo de seu trono de fogo e sombras, sorrindo. Um sorriso tranquilo — terrivelmente humano — que tornava sua presença ainda mais insuportável.

— Pobres crianças, realmente achavam que podiam ser heróis… — murmurou ele, a voz grave ecoando como um trovão arrastado. — Acreditavam tanto nisso que vieram até o fim do mundo acreditando que amor, fé e amizade mudariam alguma coisa. Que doce ilusão.

Anne ergueu o arco, mas suas mãos tremiam. As lágrimas corriam silenciosas, misturando-se à fuligem no rosto. Os olhos dela, fixos no demônio, ardiam de dor.

— Asmodeus, seu desgraçado! Onde está… meu irmão? — sussurrou, a voz entrecortada. — O que fez com ele, monstro?

Asmodeus inclinou a cabeça, divertido.

— Seu irmão? Ah… o pequeno elfo que gritava o seu nome até o último fôlego? — ele riu, um riso baixo, quase compassivo. — Ainda o procura? Tão tocante… e tão trivial. A morte dele foi apenas mais uma centelha em minha fogueira. Nada mais.

Anne deixou escapar um soluço, o arco vacilando em suas mãos.

— Você… vai pagar… Vai pagar por isso!

— Pagar? — Asmodeus interrompeu, rindo com desprezo. — Sejamos honestos, nenhum de vocês pode me derrotar... São vermes que acharam que podiam fazer alguma coisa, mas a verdade? É que não podem.

Atrás dela, Jason cambaleou. O sangue escorria de um ferimento profundo no peito, manchando a armadura prateada. Ele tentou erguer a espada abençoada pelas deusas, mas suas forças o traíram. A lâmina cravou-se no chão com um som surdo, e ele caiu de joelhos, arfando.

— Jason! — gritou Marylin, correndo até ele. A maga deslizou sobre as pedras quebradas, o coração disparado. Seus dedos tremiam ao segurar o rosto do cavaleiro. — Você tá bem? Fala comigo seu idiota!

Mas os olhos de Jason já não eram mais os mesmos. Negros — completamente negros — e envoltos por uma energia sombria que se espalhava pelo corpo como uma fumaça viva. Cardia rosnou, os pelos da nuca eriçados, os dentes à mostra.

— Afaste-se dele, Marylin! — rugiu, num instinto feroz.

A risada de Asmodeus ecoou por todo o campo de batalha, grave, ressoante, quase musical.

— Ah… finalmente — disse ele, com deleite. — A verdade desperta. Vocês realmente achavam que a espada das deusas o aceitaria por pura virtude? Que tolice encantadora.

Marylin o fitou, confusa, o rosto empalidecendo.

— Do que está… falando?

O demônio deu um passo à frente, as chamas se curvando diante dele como servas obedientes.

— Estou falando do meu filho.

O silêncio que se seguiu foi mais devastador do que qualquer explosão.

— Sim, — continuou Asmodeus, os olhos cravados em Jason — o sangue que corre em suas veias é o meu. Você lutou o tempo todo contra o reflexo de si mesmo, garoto. Ele se abaixou, quase tocando o chão, o tom de voz suave como o de um pai orgulhoso:

— Eu te criei com um propósito… e ele não era me destruir.

A energia negra se intensificou. O chão rachou sob os joelhos de Jason, e Marylin recuou, os olhos arregalados em horror.

Asmodeus abriu os braços, as asas de sombra se estendendo por trás dele como véus do inferno.

— Então, meu filho… — disse, o sorriso voltando, amplo e cruel. — Mostre ao mundo o verdadeiro herdeiro do fogo.

E, quando Jason ergueu o rosto, os olhos queimavam como duas estrelas negras.

— Jason... — a voz de Marylin vacilou.

O olhar dele, antes humano, agora era puro abismo.

Num movimento brusco, a mão de Jason agarrou o pescoço dela.

O calor foi imediato.

Chamas — negras e vivas — serpentearam pelos braços dele enquanto a levantava do chão.

— J... Jason... — ela engasgou, tentando respirar.

Os dedos dele se fecharam com força, o fogo crepitando ao redor dos dois.

Atrás, Asmodeus observava com deleite.

— Isso, meu filho... mate-a. Mate todos eles. Mostre-me do que é capaz.

Marylin se debatia, as unhas arranhando o pulso do garoto. Os olhos dela se encheram de lágrimas e medo — mas também de algo mais: recusa.

— N... não é você... — sussurrou, entrecortada pela dor.

De repente, Jason a lançou com violência.

O corpo de Marylin voou, colidindo contra Cardia, que tentou amortecer o impacto.

Ela tossiu, arfando, enquanto o garoto-fera rosnava, os músculos tensos, o olhar cravado no amigo que agora parecia mais fera do que ele.

— Sai dessa, cara! — rugiu Cardia, a voz rouca. — Você não pode deixar esse monstro tomar o controle!

Jason não respondeu.

Seu rosto estava vazio, os olhos negros queimando com fúria e tormento. Cada respiração sua soava como o rugido de um vulcão prestes a romper.

— Ele não nos ouve! — gritou Marylin, tentando se levantar. — Asmodeus está controlando ele!

Asmodeus riu, o som ecoando como uma sinfonia distorcida.

— Controle? — zombou, abrindo os braços. — Ele é o controle.

Anne, ainda ferida, ergueu o arco com esforço, as lágrimas manchando o rosto.

— Jason! — gritou, a voz tremendo. — Eu sei que você ainda está aí! Não deixe esse demônio vencer! Lembre-se de quem você é! Do que você é!

O olhar de Jason se voltou lentamente para ela.

Por um instante — só um — a escuridão pareceu vacilar.

Mas Asmodeus sussurrou:

— Ela mente pra você, meu filho. Como todos mentiram. Você nunca pertenceu a eles.

O fogo se acendeu novamente nos olhos de Jason.

Num piscar de olhos, ele se moveu.

O punho atingiu Anne no estômago com um som seco.

O ar fugiu de seus pulmões — e o corpo dela foi lançado metros adiante, caindo entre as ruínas.

— Anne! — gritou Marylin, desesperada.

Cardia rugiu.

O som ecoou entre as ruínas como o brado de uma fera encurralada. As garras dele brilharam sob o reflexo das chamas, e seu olhar — selvagem e humano ao mesmo tempo — cravou-se em Jason, que agora caminhava em meio ao fogo como uma sombra viva.

O filho de Asmodeus sorriu.

E aquele sorriso… não era dele.

Era o sorriso de algo antigo, cruel e infinitamente satisfeito.

Eles colidiram.

O chão se partiu sob o impacto.

As garras de Cardia rasgaram o ar, deixando faíscas, enquanto Jason o golpeava com a força de um deus em fúria. Cada soco era um trovão. Cada respiração, uma explosão.

Mas Cardia hesitou — por um único segundo.

A lembrança veio como um raio: a fogueira das noites frias, o riso compartilhado, a promessa de nunca lutarem um contra o outro.

E esse instante de humanidade custou-lhe tudo.

Jason o atingiu com um golpe brutal.

O som do impacto ecoou como o estalar de ossos e trovões.

O garoto-fera foi lançado longe, arrastado pelos escombros, o corpo se chocando contra as pedras antes de cair imóvel, inconsciente.

Anne tentou correr em sua direção, mas o corpo não respondeu. O mundo girava, os pulmões queimavam, e a força a abandonava.

Ela desabou — e o campo de batalha ficou em silêncio.

Jason caminhou lentamente em direção a Marylin.

As chamas se curvavam à sua volta, dançando como espectros obedientes.

A maga, de joelhos, levantou o cajado com mãos trêmulas.

— Jason, por favor... — a voz dela era um sussurro implorante.

O cajado começou a brilhar, mas Jason pisou sobre ele com força. O estalo da madeira quebrada ecoou como o fim de uma esperança.

Ele o lançou para longe, e o som das chamas pareceu rugir em aprovação.

Marylin olhou para cima, as lágrimas escorrendo.

O fogo refletia nos olhos dela, e mesmo assim havia ternura.

Jason ergueu o punho.

As chamas envolveram o braço.

O ar ficou pesado, vibrante, prestes a colapsar.

E então… ela chorou.

A lágrima caiu, sozinha, em meio à devastação — e, ao tocar o chão, fez o fogo hesitar.

O punho de Jason parou, a centímetros do rosto dela.

Ele tremia. O corpo inteiro tremia.

— O que está esperando? — rugiu Asmodeus, sua voz ecoando dos céus e das sombras. — Mate-a! Acabe com essa fraqueza!

Marylin, ainda ajoelhada, sussurrou entre lágrimas:

— Jason... você não é um demônio. Você é nosso amigo.

A palavra atravessou o ar como uma espada invisível.

“Amigo.”

O fogo se distorceu.

O corpo de Jason arqueou.

Um rugido gutural escapou de sua garganta.

O poder enlouquecido o devorava de dentro pra fora.

As chamas se tornaram brancas, depois douradas, e então o vento rugiu.

Jason olhou em volta — para Anne, caída; Cardia, ferido; e Marylin, chorando diante dele.

E algo dentro dele quebrou.

O grito que ele soltou não era humano.

Foi o grito de um homem e de um monstro, de um filho e de um inimigo, de tudo o que o mundo tentou separar e nunca conseguiu.

Os olhos dele sangraram.

O chão rachou.

As nuvens se abriram como cortinas do apocalipse.

Jason olhou para Asmodeus — e naquele olhar havia ódio, dor e libertação.

— Seu desgraçado! — rugiu.

A espada respondeu ao chamado.

Um clarão — puro, impossível — engoliu o campo inteiro.

A luz rasgou o céu, calou o inferno, e por um instante, até o próprio Asmodeus recuou.

E quando o brilho cessou…

Nada restava.

Apenas o eco distante de um nome:

Jason.