10h da manhã de uma Quarta-feira – Na floresta de treino dos espadachins

A slime caminhava pesadamente pela floresta, levando Constantino balançando dentro dela como uma gelatina ambulante. O pobre elfo apertava o nariz e batia desesperado nas paredes transparentes, com o desespero de quem já aceitava o próprio destino.

— SOCORRO! ALGUÉÉÉÉM! ME SALVEEE! EU TÔ SENDO COMIDO VIVO!

Sua voz ecoou tão alto que até os pássaros fugiram. Foi então que, entre os arbustos, surgiram Jade, Lucios e Mune.

Por três segundos, ninguém disse nada. Apenas olharam a cena. E então...

— PFFFF— HAHAHAHAHAHAHA! — Jade caiu de joelhos gargalhando.

— Isso é… isso é tão fofo! — Mune ria tanto que precisou se apoiar em uma árvore. — Eu devia ter trazido algo pra fotografar o momento, é uma raridade natural!

— SOCORROOO! — Constantino se debateu, escorregando dentro da gosma. — PAREM DE RIR E ME TIREM LOGO DAQUIII!

Lucios deu um assobio impressionado.

— Eu admito, ele combina com o ambiente. Parece uma pérola dentro de uma bolha.

— Isso não tem graça! — berrou Constantino, e algumas bolhas se formaram ao redor dele.

— Tá, tá — Jade suspirou, limpando as lágrimas de tanto rir. — Vamos decidir quem salva ele. Pedra, papel ou tesoura?

— Fechado. — Lucios ergueu a mão, ELES ESTAVAM CONCORDANDO?!

— VOCÊS SÃO UNS MONSTROS! — Constantino gritou, já em tom de tragédia grega.

Antes que ele perdesse o resto da dignidade, duas lâminas cruzaram o ar — o som metálico ecoou como um trovão. Em segundos, a slime foi cortada ao meio, derretendo-se em uma poça brilhante. Constantino caiu de cara no chão, coberto de gosma transparente da cabeça aos pés, parecendo um doce mal acabado.

— Ugh… eu tô vivo…? — perguntou ele, cuspindo bolhas em um arroto.

Jade e Lucios se entreolharam, as espadas ainda cruzadas em uma pose dramática, o vento balançando os cabelos deles como se estivessem num comercial heroico.

— Eles estão se exibindo… — comentou Mune, apontando para os dois.

— Você está bem, Constantino? — perguntou Jade, saindo da pose.

— Sim, sim… obrigado, princesa… e você também, Lucios.

— Como diabos você se perdeu da sua dupla? — Lucios indagou, guardando a espada.

Constantino coçou a nuca, sorrindo sem graça.

— Eu… acho que… ele foi embora sem mim.

O silêncio caiu por um segundo. Jade e Lucios trocaram olhares.

— Abandonado… — murmurou Jade.

— Por ser fraco demais — completou Lucios, sem cerimônia.

— Hehe… olha pelo lado bom! — Constantino tentou sorrir. — Vocês se juntaram pra me salvar! Eu falei que as escolhas das duplas nunca são por acaso!

Mune arqueou a sobrancelha.

— Até fizeram poses combinando... Suspeito, viu?

— NÃO FIZEMOS NÃO! — Jade e Lucios gritaram em uníssono, vermelhos, se afastando cinco metros um do outro como se fossem detentores de uma doença contagiosa. O que só fez Mune cair na gargalhada novamente.

[...]

Eles continuaram a busca pelos totens, mas nada… até que, finalmente, encontraram o bendito objeto… preso dentro de uma caverna maldita, com cheiro de urso e perigo.

— Um urso negro… enorme… e eu sinto que ele está nos observando… com ódio! — sussurrou Lucios.

— Ótimo! Um urso assassino! — choramingou Constantino, agarrado à Mune. — Eu deveria ter ficado com as slimes! Pelo menos elas só grudam na gente!

Jade rolou os olhos, respirou fundo e empunhou a espada:

— Vamos logo, antes que ele decida que somos petiscos!

E como se o universo tivesse ouvido, um rugido ensurdecedor ecoou pelo local. O urso negro surgiu, colossal, com olhos flamejantes de raiva, dentes que mais pareciam lanças, e um ronco que fez os espadachins tremerem até os joelhos. Constantino gritou:

— EU NÃO ESTOU PAGANDO PARA MORRER HOJE!

Jade avançou, Lucios ao lado, e Mune bufou, tentando parecer útil. Mas era inútil. O urso os observava como se fosse um crítico gastronômico avaliando uma refeição ruim.

— GRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR

— SEU ROSNADO NÃO ASSUSTA A GENTE! — Berrou Jade.

— QUE MENTIRA! EU ESTOU ME CAGANDO DE MEDO! — Constantino ditou.

Jade e Lucios tentaram fazer algo, mas logo foram jogados com uma brutalidade sem igual contra o chão, o urso era forte demais.

— Droga... O que a gente faz?! — Praguejou Jade.

— Eu não sei, se soubesse já teria dado um jeito nessa coisa!

— Não era você o melhor do treinamento?

— VAI MESMO COMEÇAR COM ISSO AGORA? — eles se olharam rosnando.

E então, como se tivesse saído de um comercial de magia épica no meio da briguinha dos dois, uma explosão de luz negra e vermelha iluminou a entrada da caverna. O urso cambaleou como se tivesse tomado um soco de raio laser.

— O QUÊ?! — Jade quase derrubou a espada, finalmente voltando a si.

— MAGIA?! — gritou Lucios, quase caindo de costas.

— Só pode ser… — murmurou Constantino, agarrando Mune como se ela fosse uma almofada de emergência. — UM MILAGRE!

E lá estava ele: Matthew Sylver, jovem mago de cabelos negros e olhos rosados, flutuando levemente acima do chão, rodeado por uma aura que parecia gritar “NÃO ME IRRITE!”.

Ele estalou os dedos.

O urso negro, que parecia pronto para um filme de terror, desabou no chão como uma almofada pesada. Poeira subiu por todos os lados.

— Meu nome é Matthew Sylver... Estava observando, acho que vocês são realmente muito fracos para virem tão longe.

Os três espadachins ficaram paralisados:

— Ele… ele fez isso sozinho?! — disse Lucios.

— Ele é… Fez! — Jade murmurou, arregalando os olhos como se tivesse acabado de descobrir um dragão no quintal.

— Eu vou vomitar… — resmungou Constantino, ainda coberto de gosma das slimes do encontro anterior.

Matthew piscou e o silêncio reinou…

Até que Constantino não aguentou e vomitou na frente dele.

— Que nojo... — Disse Matthew cerrando os dentes e os olhos.

Jade respirou fundo, os punhos cerrados:

— Não posso acreditar…

Lucios apenas bufou e cruzou os braços:

— Ele acaba de roubar todo o nosso show!

E Mune, disse:

— Veja pelo lado bom, finalmente podemos voltar pra casa.

— Mas, afinal... Quem são, vocês? — Perguntou o jovem Sylver.

Sim, ele também tinha se perdido na floresta rumo ao castelo.

[...]

Quando o jantar finalmente foi servido, o clima era de pura expectativa. Todos queriam ver, com os próprios olhos, o garoto que havia salvado a princesa Jade — e lá estava ele, sentado com a postura impecável e um olhar que misturava mistério e confiança. Matthew Sylver, o filho da lendária rainha da Árvore da Magia.

Diziam que ele conjurava feitiços antes mesmo de aprender a ler. Que uma vez acendeu uma fogueira espirrando. E que os livros de feitiços praticamente se abriam sozinhos diante dele. Um prodígio — e ele sabia disso.

— Somos muito gratos por ter salvo nossa filha, jovem Matthew — disse o rei Jason, com um sorriso diplomático.

— Sua mãe realmente falou que você era um prodígio — completou a rainha Lena. — Vejo agora que não era mentira.

— Minha mãe tende a exagerar às vezes… — disse Matthew, erguendo a taça com elegância. — Mas, bem… não chega a ser mentira.

Jason o observava em silêncio, lembrando-se de Marylin. “Ele é realmente filho dela...”

Enquanto isso, Jade o fitava com um misto de curiosidade e desconfiança.

— Então, você é filho da rainha da magia?

— Sim, mas isso é segredo — respondeu Matthew, com toda a calma do mundo, como se não tivesse acabado de revelar algo que poderia causar um colapso político. — Minha mãe disse para não contar a ninguém.

— E não contaremos — disse a rainha Lena, séria.

— Mas… por que tanto segredo? — perguntou Jade, inclinando-se curiosa.

Matthew apoiou o queixo na mão e respondeu com o tom de quem estava recitando uma tragédia:

— Pessoas vindas da Árvore possuem habilidades mágicas sem igual. Uma única gota de nosso sangue pode gerar um poder imensurável.

Silêncio na mesa. Até Marnie parou de respirar, segurando uma travessa.

— Em outras palavras — concluiu ele, com um sorrisinho lateral — eu sou uma fonte de magia viva.

Jade arregalou os olhos.

— Nossa, que demais!

Matthew piscou devagar, o mais blasé possível:

— Não diria “demais”. Preciso me controlar grande parte do tempo. Não posso fazer o que bem entender.

— Mesmo assim, o que você fez com o urso na floresta... — insistiu Jade.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Ah, o urso? Não se preocupe. Ele apenas está dormindo. É contra meus princípios ferir alguém indefeso.

Silêncio.

Jade o encarou, o canto da boca se contraindo em um sorriso torto.

“Indefeso, é? Aquele urso tinha o dobro do seu tamanho e tentou arrancar minha cabeça!” Mas, ao vê-lo ali — tão cheio de pompa, com aquele cabelo rebelde e ar de mistério — ela teve de admitir: comparado a ele, o urso realmente parecia indefeso.

— Ele realmente é uma cópia da mãe dele... — O reiJason murmurou.

— Disse algo, majestade? — Perguntou o garoto comendo a sobremesa.

— Nadinha. — Disse risonho, enquanto o jantar seguia no fim da noite.

[...]

Quando o jantar terminou, a princesa Jade conduziu Matthew até o quarto que seria dele durante a estadia. O garoto andava com as mãos nas costas, o olhar afiado percorrendo cada detalhe do castelo como quem avalia uma peça defeituosa de vitrine.

— Esse aqui vai ser seu quarto enquanto estiver aqui, espero que seja do seu agrado, Matthew! — disse Jade, sorrindo gentilmente, tentando manter o clima amistoso.

Matthew olhou ao redor com uma expressão neutra, mas o silêncio dele pesava mais que qualquer comentário.

— Hm. Aceitável... — respondeu por fim, com a calma de quem dá nota seis para uma obra-prima. — Não é como os cômodos da Árvore, mas... dá pro gasto.

A princesa piscou, sem saber se ria ou se empurrava ele pela janela.

— Ah, claro. Imagino que os aposentos do seu reino sejam... mais mágicos.

— Bem mais. Mas não posso esperar muito de pessoas sem magia — disse ele, casual, como se tivesse comentado sobre o tempo.

— O quê?! — Jade ergueu as sobrancelhas.

— Você não tem magia, tem? É por isso que o seu pai vive pedindo conselhos à minha mãe, não é?

— Meu pai faz o quê?!

— Achei que fosse óbvio — respondeu Matthew, cruzando os braços. — Afinal, ela é a única com poderes mágicos dignos de nota.

— Única?! — Jade cruzou os braços também, inflando o peito. — Temos muitos magos aqui!

— Hm. Sim, e eu tenho um gato que quase fala — rebateu o garoto, impassível. — Os magos daqui mal sabem canalizar mana sem desmaiar.

— Ora, seu...! — Jade cerrou os punhos, mas ele continuou como se não tivesse notado.

— A propósito, vocês chamam a Árvore de várias coisas ridículas... Árvore do Destino, Árvore de mana... Mas o nome correto é Yggdrasil, ou árvore do mundo. O pilar de tudo. Todo poder vem dela e volta para ela.

— Então quer dizer que... indiretamente todos somos parte dela?

— Mais ou menos. Diria que vocês são... Pequenas migalhas mágicas. — E ele deu um leve sorrisinho satisfeito, daqueles que dá vontade de dar um beliscão.

— Isso é completamente ilógico! — retrucou Jade, vermelha de indignação.

— Eu sei. É por isso que eu não discuto com quem não entende magia — disse ele, abrindo a porta do quarto e fazendo um leve aceno com a cabeça. — Agora, se me dá licença, preciso descansar.

— Achei que você disse que não estava cansado!

— E não estou. Mas é importante manter corpo e mente em harmonia, especialmente depois de usar magia para salvar pessoas... sem magia. — Ele enfatizou as duas últimas palavras com um sorrisinho presunçoso.

E antes que Jade pudesse responder, Matthew simplesmente a empurrou para fora e bateu a porta com elegância.

— EI! — Jade esbravejou do corredor, inflando as bochechas. — Que garoto mais arrogante! — resmungou, cruzando os braços e bufando. — Aposto que o “gênio prodigioso” também ronca!

Do outro lado da porta, um murmúrio sonolento escapou:

— Não ronco. Só respiro com estilo.

Jade rangeu os dentes com tanta força que parecia que ia triturar o próprio orgulho. Bateu o pé no chão, bufou e tentou respirar fundo. Não, não, não! Não vai perder a compostura, Jade. Ele é um convidado. Um mago metido, mas um convidado!

Determinada a não quebrar o decoro real, ela deu meia-volta com a cabeça erguida, pronta para ir embora com dignidade — e foi aí que BAM! trombou de cara com Masa, que vinha distraída carregando um cesto de lençóis limpos.

— Ai! — Masa exclamou, quase derrubando tudo. — Desculpe, princesa! Eu juro que não notei você aí!

— Tudo bem, não foi nada... — Jade murmurou, esfregando o nariz dolorido, o que fez Masa soltar um risinho disfarçado.

— A senhorita estava levando o jovem aprendiz da rainha Marylin para o quarto, certo?

— Sim... — Jade cruzou os braços e suspirou dramaticamente. — E o que ele tem de forte tem de desdenhoso! Chega a ser pior que o Lucios! Ele nem precisa falar pra parecer antipático, é um dom natural!

Masa arqueou uma sobrancelha, divertida.

— Ele me pareceu um rapaz gentil. Ouvi dizer que salvou Constantino e Mune na floresta... Já ganhou meu respeito por cuidar da minha irmã.

— Ah, não se engane, Masa... — Jade levantou um dedo como quem dá uma lição. — Tenho certeza de que aquele mago é um poço de caprichos! Um... um... conjurador de arrogância!

— Até porque ele não é um cavaleiro, não é mesmo, princesa? — respondeu Masa com um sorriso sereno.

— Exato! — Jade apontou de volta, animada. — Você entendeu perfeitamente!

E então, percebendo o próprio exagero, pigarreou e ajeitou o cabelo.

— Bem... eu vou indo dormir um pouco. Boa noite, Masa.

— Boa noite, princesa — respondeu Masa, ainda rindo baixo, enquanto via Jade se afastar resmungando algo sobre “magos metidos que se acham deuses do mana”.

Masa apenas balançou a cabeça e seguiu na direção oposta, murmurando:

— Aposto que amanhã ela já está sonhando com ele...

[...]

Matthew entrou no quarto, lançou o manto sobre a cama e fechou a porta com a calma contida de quem guarda segredos demais. Não parecia cansado — apenas precisava de um momento só seu. Suspirou, esfregou a nuca e se aproximou da janela; abriu-a devagar para deixar o vento entrar.

O ar trouxe um cheiro estranho, sutil mas errado, que pairava nos arredores do castelo como uma nota dissonante numa canção conhecida. O vento mexeu nos fios negros e os olhos rosados de Matthew estreitaram-se: havia algo de podre além dos portões.

As palavras da mãe lhe vieram à mente, frias e claras como um comando:

“Sinto que a mana de alguns elfos está desaparecendo na região do castelo. Quando tiver oportunidade… encontre o suspeito e faça-o pagar por corromper a ordem natural da existência.”

A frase reverberou no peito dele. Matthew fechou os punhos por um segundo.

— Preciso fazer com que essa missão dê certo — murmurou, voz baixa, decidida.

O vento soprou mais forte, apagando as velas do quarto e deixando apenas o pálido brilho da lua a desenhar sombras sobre o jovem mago. Por fora, a indiferença; por dentro, uma chama contida que iluminava tudo — e a promessa de que ele não permitiria que a corrupção da mana passasse impune.

[...]

Do lado de fora, o velho sr. Carteiro descia a escadaria do castelo com passos pesados e um humor ainda mais pesado. O corpo cansado pedia cama, mas a língua... a língua reclamava sem parar.

— Aquele cachorro endiabrado! — bufava, ajeitando o chapéu amarrotado. — Aquela pirralha da Masa devia aprender a domar aquele bicho antes que ele arranque o braço de alguém!

O vento frio da noite balançava as lanternas e fazia ranger as placas das tavernas próximas. Foi então que ele percebeu — algo o seguia. Um som baixo, ritmado. Passos? Não… deslizava, como uma sombra viva.

Ele parou. O coração deu um salto.

— Tem alguém aí?... — murmurou, virando-se. Nada além da penumbra e das pedras úmidas. — Deve ser aquele maldito Caramelo...

Virou-se de volta, rindo nervoso, quando algo — uma mão negra e disforme — surgiu das sombras e agarrou-lhe o rosto com uma força monstruosa. O grito que tentou sair foi engolido pela própria escuridão. O som de ossos se partindo ecoou seco pela viela.

A bolsa de cartas despencou, espalhando envelopes por todo o chão. Enquanto o velho se debatia, a criatura sugava dele a energia vital — séculos de vida, evaporando em segundos. O corpo encolheu, enrugou, e o brilho dos olhos se apagou, substituído por veias negras e sangue escuro.

O ser o soltou, deixando-o cair no chão como um trapo seco. Um sorriso largo, grotesco, revelou dentes longos antes de desaparecer de novo nas sombras, como se nunca tivesse estado ali.

Poucos segundos depois, uma elfa do bordel ao lado saiu para ver o que causava aquele som horrível. Quando seus olhos encontraram o corpo do carteiro, a garganta dela se fechou num grito lancinante:

— SOCORRO! CHAMEM OS CAVALEIROS! UM HOMICÍDIO!

As portas da taverna se abriram, as luzes se acenderam e o povo se aglomerou ao redor da cena — o corpo seco, os olhos revirados e um líquido negro escorrendo do canto da boca.

O velho sr. Carteiro, que minutos antes reclamava de um cachorro, agora era só mais uma sombra na noite.

[...]

Masa dormia serenamente, até que seus olhos se abriram de repente, como se algo a tivesse arrancado do sono. O coração batia rápido, e por um instante, ela não soube dizer o porquê. Virou-se de lado e viu Mune, adormecida ao seu lado, respirando tranquila. Um suspiro escapou de seus lábios — alívio. Então... por que sentia aquele peso no peito?

Ela se sentou na cama, passou a mão pelos cabelos e foi até a janela. O vento frio da madrugada entrou, bagunçando seus fios esverdeados e arrepiando-lhe a pele. Havia algo diferente naquela noite. Algo... errado.

— Masa? — a voz sonolenta de Mune a chamou. A gêmea abriu os olhos devagar, vendo-a de pé, imóvel diante da janela, o olhar perdido. — O que foi?

— Não foi nada — respondeu, forçando um sorriso. — Só... precisava de um pouco de ar.

Mune se levantou e, sem dizer nada, abraçou-a por trás. O gesto foi suave, protetor.

— Teve um pesadelo, não foi? — perguntou baixinho. — Pode me contar.

— Eu não tive pesadelo nenhum! — respondeu rápido, desviando o olhar.

— Hm... você parece mais agitada que o normal.

— Eu não sou agitada!

— Tá bom, tá bom — Mune riu baixinho. — Vem, volta pra cama. O que quer que tenha te assustado... já passou.

Masa hesitou, mas acabou cedendo, deitando-se ao lado da irmã. Mesmo assim, demorou a dormir — o vento lá fora parecia sussurrar coisas que ela não conseguia entender.