As aventuras de uma Docete Ciclope
56 Chapeuzinho adormecida no pais das maravilhas - Parte 3
Notas iniciais

Ao longo do caminho Alice chegou a cogitar se não estaria dormindo. A floresta, a grama, o céu e tudo mais tinha uma coloração extremamente esquisita. Mas independente de sua condição, ela precisava chegar ao castelo.
Em meio ao seu percurso, Alice sentia-se desolada e perdida. Sem sua capa para lhe acompanhar, sentia-se despida e totalmente desprotegida. Era um alvo fácil para as maldades do mundo e seu coração sucumbia rapidamente ao desespero. Foi então que viu ao longe um brilho gracioso, uma forma graciosa e resplandecente pelo simples fato de existir. Algo capaz de confortar a alma e resgatar a esperança perdida no mais profundo do coração de qualquer ser vivente. Sentia como se estivesse aproximando-se a cada passo de felicidade materializada.
Um coelho branco, de uma elegância incontestavelmente impecável prostrava-se em seu percurso. Mesmo que, visivelmente confuso e perdido, o mesmo mantinha uma postura e classe extraordinária, que poderia ser facilmente descrita como praticamente palpável até mesmo sob o olhar de um bárbaro.
Aproximando-se da criatura que, como qualquer outro de sua espécie, emanava benevolência, Alice proferiu:
—Boa tarde senhor coelho. Poderia me ajudar, por favor? Um lobo asqueroso e repugnantemente, fedendo a cigarro, sequestrou minha querida vózinha e eu e manteve-nos em cativeiro. Preciso encontrar minha avó e sair desse local. Minha avó foi enviada como escrava para a tal Rainha de Copas, enquanto eu consegui fugir dos... desejos obscenos daquele... imbecil.
Alice sabia, coelhos eram seres puros e de confiança, fantásticos por natureza.
Sabia que podia acreditar cegamente na bondade dos coelhos.
Lembrou-se de seu querido manto vermelho, com a imagem de um coelho bordada por ela mesma e dos doces que sua mãe preparava em forma de coelho para agradá-la.
Lembrou-se então do bosque e de sua fazenda de coelhos e de como criou seus mil novecentos e quarenta e dois coelhos.
Alice desejava do fundo de seu coração e sonhava com o dia em que o mundo seria regido por coelhos, trazendo assim a paz mundial e o fim das guerras religiosas, pois todos aceitariam em fim a divindade cunicular unificando assim o mundo como um só sob um reinado de felicidade e amor que só poderá ser alcançado quando a humanidade compreender a magnanimidade imprescindível da graça cunicular. Ela acreditava, e sabia que estava absolutamente certa, os coelhos eram o caminho para erradicar a violência do mundo.
Coelhos eram seres evoluídos e mereciam total confiança de forma indiscriminada, pois jamais mentiriam ou trairiam a confiança de qualquer ser vivente.
Ela, em um exemplo que deveria ser seguido por toda a humanidade, amava coelhos acima de tudo, e tinha uma certeza que queimava em seu coração com fulgor ardente, de que qualquer pessoa que tivesse afeição por coelhos também seria digna de afeição, pois teria seu coração esterilizado de qualquer malevolência pela aura de benevolência perpetua dos coelhos.
Era fato, mais que consumado que qualquer um que não reconhecesse um coelho como uma criatura digna de amor merecia ser condenado, assim como, qualquer um que realizasse um ato perverso para com um coelho, merecia pena de morte, com execução imediata da sentença mediante ao flagrante e sem direito a julgamento.
Sumarizando, coelhos são criaturas perfeitas, superando a própria mãe natureza como um todo. A divindade toca cada coelho no plano terrestre, tornando-os uma ponte de ligação com o plano divino.
Era certo que aquele coelho iria ajudá-la a superar seus problemas. Talvez ele até sacrificasse a vida dele por ela, pois isso é a natureza deles. Heroísmo é uma qualidade cunicular latente.
Então educadamente o coelho respondeu-lhe
—Jovem dama, eu estou plenamente ao à seu dispor. Entretanto, gostaria de solicitar-lhe auxilio. Poderia primeiramente, por obsequio, caso não seja um importuno de minha parte, me ajudar com meu relógio? Preciso ingressar na morada de vossa majestade, a Rainha de Copas antes das quinze horas. -disse enquanto mostrava a jovem o relógio que portava.
—Senhor coelho! Eu preciso, veementemente, me dirigir para o mesmo lugar que o senhor! Acompanhe-me por favor!- Ela falou totalmente vibrante.
—Oh! Fortuna de nossa parte! Necessitamos entretanto certificar-nos do horário em questão, pois em caso de atraso, seremos privados de todo o conteúdo acima de nossas cabeças.- gesticulou o coelho, passando a mão pelo pescoço, sinalizando decapitação eminente. — Nesse caso, seria mais saudável para ambos, independente do ponto de vista aplicado, que sequer comparecêssemos a corte – completou.
Ao contemplar o relógio, a jovem notou a ausência de movimentos. Os ponteiros haviam parado.
—Senhor coelho...Seu relógio está parado. Ele marca exatamente 12:20 -Alice falou.
—Oh...muito bom, muito bom. Se ele parou quer dizer que temos mais tempo. Na verdade temos o tempo que quisermos — Ele falou com um sorriso brando.
Alice e o coelho puseram-se a caminhar, e fizeram-o durante horas, conversando incessantemente.
Após muito andar, encontraram um chapeleiro, que veio em direção a ambos.
— Boa tarde. Posso perguntar onde vão com tanta pressa? Perguntou a figura de aparência peculiar, dirigindo-se ao coelho que por sua vez dirigiu-se a Alice.
—Boa pergunta! Então minha jovem, onde estamos indo mesmo? Estamos andando a um já faz um bom tempo. Não que sua companhia não seja agradável, pelo contrario, não me sinto tão lisonjeado pela companhia de alguém há muito tempo.
—Er... Nós estávamos indo para o Castelo de Copas senhor! — respondeu Alice desentendida.
—Bem, nesse caso necessitamos certificar-nos do horário em questão, pois em caso de atraso, seremos privados de todo o conteúdo acima de nossas cabeças.- gesticulou o coelho, passando a mão pelo pescoço, sinalizando decapitação eminente. — Nesse caso, seria mais saudável para ambos, independente do ponto de vista aplicado, que sequer comparecêssemos a corte – completou.
Foi quando Alice finalmente percebeu estivera andando em vão por o que pareceu ser no minimo três horas seguidas. Seu novo amigo sofria de sérios problemas de memória.
O chapeleiro então parou do lado de seu amigo coelho e apoiou seu cotovelo esquerdo no sobre o ombro de direito do mesmo enquanto encarava Alice com o sorriso mais feliz que a mesma já havia visto.
—Alzheimer . -Falou o chapeleiro apontando para o coelho antes de socá-lo com força suficiente para desmaiá-lo em um único golpe.
Um único pensamento correu pela cabeça de Alice. O único aceitável e concebível naquele momento:
“PENA DE MORTE!”
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