As aventuras de uma Docete Ciclope
57 Chapeuzinho adormecida no pais das maravilhas - Parte 4
Notas iniciais

Um arauto da destruição, emissário do mal, extirpado de qualquer senso comum. Definitivamente um ser conspurcado e abominável. Era isso que Alice via em sua frente naquele momento. Desejava, de forma irônica, que o lobo viesse atrás dela naquele momento. Voltaria de bom grado para a casa dele caso o mesmo punisse da forma mais hedionda e perversa o possível esse ser inominável e de tenebrosidade indescritível. Tudo que Alice enxergava em sua frente era um vazio ambulante em forma de gente. Algo que não era humano, algo desprovido de qualquer sentimento. Um ser conspurcado, que merecia a morte.
Desesperada, como qualquer donzela ficaria ao ver um herói caindo a sua frente, Alice pensou em aplicar a justiça divina com suas próprias mãos, mais o bom senso falou mais alto. Ela poderia até derrotar um lobo gigantesco, mas sabia que não podia comparar um vilão secundário com um ser cujo a força de sua maldade foi grande o suficiente para penetrar na sagrada aura de benevolência cunicular. Provavelmente ele conseguiria apagar sua existência da Matriz da realidade com um único olhar. Sabia que estava observando o grande vilão final. O ser que deveria ser derrotado para que pudesse assistir o tão esperado encerramento de sua jornada épica.
Consciente de que não possuía experiencia suficiente para confrontar o grande vilão a sua frente, Alice tentou contornar a situação de com palavras:
—Como você pode bater no ser mais puro do universo? Você não tem coração? -Alice falava enquanto segurava o pobre coelho. Seus olhos estavam transbordando com lagrimas incessantes.
Era uma visão aterrorizante. Era como ver um anjo guerreiro, derrotado pelo senhor das profundezas, que acabara de despertar de seu sono milenar em busca dos descendentes dos heróis que o aprisionaram no passado.
—Eu estava somente sendo prestativo. Nada mais fiz que defender-te das impurezas do mundo, desse mundo obscenamente obscuro.- O Chapeleiro falou.
—Impurezas? Coelhos são os seres mais puros e perfeitos já criados pelo cosmo. Como se atreve a dizer tamanha blasfêmia?- Ela estava desesperada com o absurdo que havia acabado de ouvir. Somente um louco falaria tal asneira. Era certo de que estava tratando com um chapeleiro louco.
—Minha pequena princesa, você parece uma bonequinha de porcelana. O mundo é negro e logo irá corrompê-la e não posso permitir que isso ocorra. Você precisa se afastar de tudo, de forma a preservar a sua luz interior- Alice começou a caminhar lentamente para trás, com sorte poderia fugir desta batalha.
—Eu irei preservá-la, pura e inocente ao longo da eternidade minha querida princesa! — Falava o Chapeleiro Louco com seu rosto naufragado em um sorriso insano que tomava quase toda sua face.
—Não! Eu estava bem até o senhor aparecer! Deixe-me em paz!- Ela chorava ainda mais mais, olhando pobre ser, puro e inocente abatido de forma brutal no chão próximo.
—Não querida, você pensa que estava tudo bem, mas no fim, não estava- Nesse momento o chapeleiro puxou a delicada mão da pequena Alice e à lambeu. Os olhos da jovem ardiam em chamas ferozes, estava pronta para partir para o ataque, queria enfrentá-lo, mas sabia que por maior que fosse o desejo, a diferença de nível entre eles era grande demais para que pudesse derrotá-lo.
—Que sabor puro. Eu não posso permitir que a macula mundana alcance seu coração. Não deve haver espaço para o ódio, raiva ou qualquer outro sentimento negro em seu doce coração – Falou o chapeleiro encarando seu olhar feroz com um sorriso. — Garantirei que nunca mais tenha ódio em seu olhar. — E com um movimento rápido o Chapeleiro puxou uma seringa com sonífero e injetou na jovem.
—Protegerei seu coração e garantirei sua pureza. Agora descanse. Durma o sono de uma princesa e seja feliz em seu mundo particular.
E desde então pequena Alice passou a habitar uma cúpula de cristal, no centro de sua florida fortaleza radiante.
Todos os três caminhos para sua fortaleza eram patrulhados por seu exercito particular de ratos raivosos treinados, e ao menos três torres magicas que disparavam bolas de fogo poderosíssimas existiam em cada caminho, para evitar que qualquer um tentasse se aproximar de sua base.
Com o passar dos anos, historias sobre a fortaleza fortemente guardada espalharam-se. Surgiram lendas sobre vários tesouros, que ali existiriam. Mas nenhuma das historias de riqueza era tão verídica quanto a lenda da bela princesa adormecida no patio da fortaleza.
Porém a essa altura todos temiam o terrível feiticeiro invocador conhecido como Chapeleiro.
A história da princesa adormecida ganhou forças quando a própria Rainha Vermelha anunciou que o feiticeiro havia sequestrado sua filha há muito tempo perdida e mobilizou seu próprio exercito para enfrentar as tropas de ratos raivosos a fim de resgatar sua filha. Temendo um contra-ataque, a rainha ergueu também torres magicas, munidas de lazers poderosíssimos, nos caminhos para seu castelo. E começou uma guerra sem fim entre o chapeleiro e o reino de copas, ignorando totalmente o fato de a rainha nunca ter tido filhos.
Entretanto, tamanho era o poder do chapeleiro, que ele , mesmo frente a toda a situação de guerra, saia todos os dias, buscar uma roupa nova para a jovem Alice vestir.
Escolhia sempre as vestimentas que mais se assemelhassem as de uma boneca da realeza.
E assim o fascínio absurdo por bonecas e por manter tudo puro culminou em uma guerra sem precedentes .
E assim Alice poderia ser feliz, em meio a um sonho eterno em um mundo benevolente, regido pela supremacia intelectual dos coelhos.
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