As aparencias de uma alma de borboleta

1 a primeira impreção é o que conta


Só pude ver a beleza do mundo quando morri.

Começando do inicio, acho que eu não estou mais viva. Se estivesse acho que as pessoas seriam papazes de me ver andando por ai, lendo nos cantos escurou e tudo mais, as vezes acontece de eu acabar vendo pessoas confusas sem uma sombra, isso é normal? Nunca ouvi falar de pessoas sem sombra. Acho que minha vida começou uma semana após minha morte. Uma pessoa veio falar comigo em um sonho, depois que acordei não sentia mais meu corpo e conseguia ver as pessoas sem sombras as quais já falei. Realmente não sei por onde começar esta historia.

Deveria começar de uma forma mais calma um um lugar mais calmo, talvez seja uma boa ideia. Naquela sexta-feira fugi um pouco mais cedo do que o normal para ir dar uma caminhada, eu não gosto muito de escola ou aulas, não gosto de desculpas para não precisar estudar de pessoas que nem conseguem falar uma frase de modo formal, sem usar gírias ou xingamentos baixos, isso é repetição de termos? Mesmo assim. Eu sai mais cedo, claro que não seria o mais correto, mesmo assim ninguém me barrou na saída e eu as ignorei, elas não me olharam, como se eu não existisse, já acostumei com o caso, naquele lugar sou só mais um numero que espera uma chamada e uma chance de poder dizer, “ei eu existo, por que vocês nunca me olham?” eu deveria ser protagonista da minha história e não viver só para agradar as pessoas no geral, as que me querem viva para terem mais um numero para contar, as vezes eu me sinto em um programa de computador, parece que qualquer um pode vir e deletar as minhas vontades e atitudes para manter as boas aparências que vivem.

Durante o tempo que estava andando pelas ruas quase desertas eu vi uma menina sem sua sombra. A maioria das pessoas deveria estar no trabalho ou na escola, mesmo eu deveria estar vendo uma apresentação de uma banda na escola enquanto tomava sacolé e respirado fumaça de gelo seco junto com o resto do pessoal, os únicos de deveriam estar na rua eram idosos e pessoas de férias, mesmo assim eu não tirava os olhos de onde deveria estar a sombra da criança, não devia ter mais de oito anos. Quando ela me olhou não tinha muito o que fazer então mostrei um pequeno sorriso o qual foi correspondido com a frase “sabe onde estão meus pais”, eu fiz que não com a cabeça. “é que eles não me olham mais, não me servem almoço nem janta, não me dizem mais para ir na escola”. Me aproximei um pouco.

—Tem alguma ideia da razão disso acontecer.

—Acho que estão bravos por eu não ter tomado o remédio da gripe, tem gosto ruim.

—Mesmo assim não deveria estar andando sozinha. Quantos anos tem?

—oito. Era o que tinha da ultima vez que fiz um aniversário. Foi divertido, tinha cama elástica e uns palhaços.

Me achei um pouco idiota por perguntar isso mas…

— Quando faz aniversario?

—Onze de setembro.

Hoje era dez de setembro. Resolvia a animar com a noticia de seu aniversario mas ela só me olhou. “Meus pais não fazem mais festas para mim”. Ofereci um sorvete mas ela recusou. Ei mas por que eu estava falando com uma pessoa, eu não gosto de pessoas, mesmo que não tenha uma sombra continua sendo uma pessoa. Acho que esta seria uma boa pergunta.

—Você não tem uma sombra, né?

—Claro que eu tenho uma sombra, todo mundo tem uma sombra, mesmo que algumas sejam bancas, como a sua.

Olhei para minha sombra, estava igual ao que sempre foi. Preta seguindo meus movimentos. Ela continuou me olhando.

—Papai dizia que a sombra é a alma que está acompanhando o corpo, por isso todo mundo tem uma.

Perguntei se ela via sua sombra e ela me respondeu que via como sempre viu, mesmo que eu não conseguisse ver. O que significava era o que me intrigava. Perguntei a ela como era sua vida e qual ela queria que fosse sua profissão, comida favorita, o tipo de coisa que eu achava que não teria problema perguntar.

—Quero ser fazendeira como meus pais, quero me casar com vinte assim como mamãe, gosto de carne de carneiro, mesmo que seja pouca, gosto de correr no campo como sempre fazia. Nem sabia que existiam cidades assim. Que grande. Cheguei aqui a pouco tempo mas já gostei.

—De que cidade es?

—Não sei o nome, fica no campo, para lá- apontou um direção- andando se chega.

—mas não sabia que cidades como essa existiam?

Ela fez que não com a cabeça. “sempre me disseram para nunca sair de perto de casa, um dia fui nadar e fique resfriada, foi no ano passado.”

—Ano passado?

—Sim, mil novecentos e…

Era um da manha e eu não tinha conseguido dormir, peguei o laptop que está no meu quarto e contei esta historia que eu não quero esquecer, inventei uma ou duas coisas, é uma historia sonhada, eu posso ser arquiteta dos meus sonhos sem que me critiquem, escolhi uma data aleatória porque não sei que dia é hoje, só sei que é setembro de dois mil e desseis, sonhei com uma menina muito jovem sem uma sombra dando continuidade a minha saída antecipada da escola e eu sei que esta não é a primeira pessoa que vejo sem sombra nos meus sonhos mas é a primeira que não está totalmente confusa e perguntando coisas para pessoas que as ignoram por completo. Tenho a impressão de que não é a ultima vez que vejo a criança em algum sonho e que não foi a primeira. Tenho a impressão de que nos sonhos é a primeira impressão que importa.