As Vacas Canibais
2 Um começo bem meia-boca, meus amigos e eu
Meu despertador gritou pela quarta vez seguida naquela manhã, e isso geralmente indicava que eu já estava atrasado. Mas, honestamente, eu não estava com a menor vontade de levantar. Talvez eu pudesse dizer que estava doente. Só precisava verificar os atestados no meu computador e escolher um para o dia seguinte.
Foi com esse pensamento reconfortante que eu me entreguei ao sono novamente, e estava na beira do que seria uma agradável soneca quando um furacão colorido chegou cantando notas estridentes no meu quarto.
— Bom diiia, meu Raio de Sooool!
— Ahh, manhê!
Tentei me esconder embaixo do lençol, mas ela já havia me destapado enquanto dançava pelo quarto, abrindo as cortinas.
— Mãe! Por favor, eu estou de cueca!
Ela fez um gesto de pouco caso.
— Limpei todas as suas fraldas, meu neném. Provavelmente te conheço melhor do que você mesmo.
— Isso é tão errado, sabia?
— Vamos, vamos, tire essa careta do rosto e sorria. O dia sorri para você, não está vendo?
Ergui uma sobrancelha, incrédulo.
Mas ela me ignorou e desceu cantarolando. Para uma mulher de 37 anos, Catrina tinha mais disposição do que muitas meninas da minha idade. Os cachos loiros e olhos cor de mel davam a ela um ar ainda mais juvenil.
Ela provavelmente não tinha um único vestido que fosse monocromático, e tinha uma pequena obsessão por tecidos floridos. O escolhido naquele dia era um vestido branco com pequenas flores azuis e amarelas. Uma coroa de flores, e ela seria a própria encarnação do tumblr.
Resmungando, me levantei, pus uma roupa qualquer e desci as escadas, ainda amargando o fracasso prematuro.
— Ai, filho, cinza e azul de novo? Parece que você vai a um enterro!
Ela me deu um copo de suco e bagunçou meus já desarrumados cabelos castanhos.
— Desculpe por não ser a encarnação da primavera.
— Mas precisava ser o próprio defunto do enterro?
— O que posso dizer? Seu bom humor às sete da manhã me ofende.
— Quase oito. Você está atrasado.
— O celular não tocou.
Suas sobrancelhas loiras se arquearam.
— Que estranho. Ouvi o “Desnecessauro” cantando por quase uma hora.
— Jura?
Ela revirou os olhos.
— Você é incorrigível.
— E, ainda assim, adorável.
— Own, meu pequeno Sunshine!
— Nunca mais repita isso.
Mas ela me abraçou, me empurrou para o banheiro e jogou a mochila em mim.
— Faça o que tem que fazer e vá pra escola. Eu tenho que abrir a loja.
Encarei o meu reflexo, que olhou de volta com um par de olhos azuis cansados.
— E lá vamos nós.
Dez minutos depois, eu estava caminhando para o ponto de ônibus. Minha cidade é um subúrbio caricato, desses sem personalidade que podem ser um condomínio fechado ou uma cidade isolada no interior. Todas as casas são mais ou menos iguais, e as pessoas também. Temos até o nosso próprio velhinho que grita "saiam do meu gramado!"
Apesar de ser pequena, a escola fica longe demais para ir andando. Algum gênio pensou que se ela ficasse distante da cidade, as pessoas iriam até ela, dispersando a população.
Não funcionou.
De qualquer jeito, eu estava chegando quando vi Lola, uma de minhas mais antigas amigas. Ela faz tudo ser um pouco mais suportável em Vacária, uma cidade que fica em algum interior de algum estado.
— "Oi moça, está procurando cenouras?"
Ela sorriu e se virou. Lola tinha um olho castanho claro e o outro bem verde, mas quase não dava para notar em um dia de sol, como aquele prometia ser.
— Atrasado de novo, né?
— A suja falando do mal-lavado.
— Tenho certeza de que a mal-lavada sou eu. Você é o sujo.
O rosto era salpicado de sardas e os cabelos eram lisos e escuros como grafite; tem a minha altura, mas é tão magra que parece maior.
— Sem chance. Tu maratonou série ontem outra vez. Eu só não queria vir mesmo.
— Os dois são imundos. É a minha vez de ser o mal-lavado.
Rimos enquanto Ariel, mais alto do que nós dois, se apoiava em nossos ombros. O nome icônico e o cabelo ruivo renderam a ele uma série de apelidos ao longo dos anos. Ele chegou mesmo a pintar o cabelo por um tempo, mas de uns dois anos para cá assumiu sua sereia interior.
Ele piscou um de seus olhos cor de amêndoa pra Lola, que o empurrou com o cotovelo.
— Se peguem logo, pelo amor de Deus.
— Ficou maluco? Ariel é a minha princesa favorita!
Ele passou as mãos no cabelo, levantando a cabeça.
— O que posso dizer? Ser lindo é um fardo.
— Cale a boca antes que eu te jogue na frente do ônibus — Avisou Lola.
— Porque não estudamos no centro da cidade? — Perguntou ele.
— Porque o prefeito desviou o dinheiro da construção do novo prédio, lembra? — Respondi.
— Ah, verdade.
— Agora a família dele tem uma piscina olímpica e nós estudamos com as vacas — completou Lola.
— Que vida boa, não é mesmo? — Ironizei, respirando fundo.
O ônibus chegou, e nós subimos em direção a mais um dia torturante e cruel na escola.
Mas o que nós nem podíamos imaginar era que, bem perto da nossa escola, naquele momento, uma experiência muito louca com vacas poria tudo de cabeça pra baixo.
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