As Vacas Canibais

3 Sangue, tripas e cascos


Notas iniciais
Aviso: descrições leves de violência e mutilação.

Não notamos nada de anormal até chegarmos à escola, que era basicamente um prédio de sete andares da virada do século e sem elevador, com muitas janelas na fachada.

Todo mundo cochichava sobre alguma coisa, mas eu não conseguia captar detalhes.

— Ei Cris, o que aconteceu? Alguém morreu?

Não havia fofoca, boato ou notícia escabrosa rolando na escola que não fosse iniciada ou tivesse passado por Cristiano, o garoto de 14 anos mais bem relacionado que provavelmente já existiu. Essa necessidade patológica de mentir e saber de tudo normalmente preocuparia qualquer um, mas ninguém nessa cidade é muito normal mesmo, então ele passa batido.

— Vocês não ficaram sabendo?

— Nos ilumine — respondi.

Cris revirou os olhos.

— Você é velho por dentro, Dante. Nada na sua vida tem graça.

— Vindo de você, vou considerar um elogio.

Ele revirou os olhos azuis, que faziam um contraste curioso com a pele morena e os cabelos, lisos e negros. Seus 1,50m provavelmente fariam rir quem não soubesse do seu poder maligno de destruir vidas.

— Não consigo acreditar que não aconteça nada na sua vida que não valha a pena comentar. Todos escondem alguma coisa.

— Minha vida é um livro aberto, Cris.

— Aposto que existem várias notas de rodapé escritas com tinta invisível.

— Boa sorte tentando ler — disse, piscando para ele em seguida.

— Conta logo o que aconteceu, anão de jardim.

Cris fuzilou Lola com o olhar, mas sua compulsão por disseminar a tragédia era forte demais para que ele se sentisse ofendido por muito tempo.

— Acharam um corpo mutilado numa fazenda aqui perto.

— Um corpo? — Perguntei.

— Pelo menos o que sobrou dele. Nem deu para dizer se era homem ou mulher.

— Foi desovado?

Olhei para Ariel, que tinha um brilho nada saudável de animação nos olhos. Malditos maníacos.

— Dizem que mais parece ter sido devorado. Por algo bem grande e forte.

— Isso é ridículo. Essa cidade é mais parada do que um cadáver.

— Nunca subestime o potencial genocida de uma cidade pequena. É o que o meu pai sempre diz.

Encarei Cris.

— Sua família toda é louca.

Ele deu de ombros, sorrindo.

— Bem, aconteceu na fazenda dos Santana, aqui do lado mesmo.

— Sério? Tão perto assim?

— Sim. Na verdade… ainda está lá, se quiserem ver. Eu conheço uma entrada.

— Porque iríamos querer ver um corpo mutilado? — Perguntei.

— Ora, porque não ver?

Eu tinha excelentes argumentos, mas infelizmente Lola e Ariel eram moscas voando atrás de sangue.

Suspirando, eu os segui enquanto seguiam Cris até os fundos da escola.

Um muro de tijolos bem resistente divide o terreno dos fundos do resto descampado onde se encontra a fazenda da família Santana. Ele não é muito alto, e com o tempo aprendemos a retirar tijolos estratégicos, criando vãos que serviam como uma "escada" até o alto.

Depois que atravessamos, caminhamos por alguns minutos. O sol já estava quente, e não havia uma única sombra naquele pedaço de nada entre a fazenda e a escola.

— Porque tão quente? É muito cedo!

— Para de reclamar, você queria vir — disse Lola.

Ariel resmungou e continuou se arrastando, tentando se apoiar em Lola.

— Sai de mim, encosto!

Cristiano diminuiu o passo e começou a se agachar.

— Shiu, estamos chegando.

Policiais estavam espalhados por todo o lugar. Nos aproximamos da cerca gradeada que cercava os fundos, e Cris levantou um pedaço da tela para que passássemos.

— Tecnicamente, isso não é invadir?

— Já estava aberto, é praticamente um convite. Vamos.

Encarei Cris, e me perguntei o que seria daquele moleque quando chegasse à vida adulta.

O cheiro começava a dominar o ar conforme nos aproximávamos. Passamos agachados atrás de uns caixotes, para que os policiais não nos vissem.

— É logo ali na frente.

Quando nos deparamos com o que havia sobrado de quem quer ele tenha sido, desejei nunca ter saído da cama.

O corpo estava destruído, suas vísceras e órgão internos espalhados pelo chão. Tenho certeza de que pisei num pedaço de fígado acidentalmente. Havia muito sangue, moscas começavam a pousar nos olhos esbugalhados, larvas gordas caminhavam preguiçosamente para fora do nariz e formigas caminhavam entre os dentes da boca retorcida. Provavelmente a mandíbula fora quebrada.

— Estranho...

— Pode ser mais específica? — Perguntei à Lola. — Porque temos um corpo semidevorado aqui.

— Isso é que é o estranho. Há marcas de mordidas, mas veja… parece mais que ele foi pisoteado do que devorado.

Ignorando o bolo que se formava na boca do meu estômago, me forcei a olhar com mais atenção. De fato, os ossos quebrados e a carne amassada sugeriam mais um pisoteio insano do que um jantar.

— Eu acho que vou…

— Ariel, nem pense…

Eu tentei impedir, mas era tarde. O miserável ficou repentinamente verde, e derramou todo o café da manhã sobre os restos do que, um dia, fora alguém.

— Que barulho foi esse? — Perguntou alguém, e ouvimos passos vindo em nossa direção.

— Acho que é hora de irmos embora — Cris sugeriu.

Enquanto corríamos de volta para a escola, não conseguia parar de pensar que aquelas marcas no sangue me eram muito familiares. Pareciam assustadoramente cascos… de vaca.

— Foi por pouco — disse Lola, visivelmente aliviada por ir embora.

— Sim. Mas eu não consigo me livrar da sensação que isso ainda vai dar o que falar — comentei.

Ariel me olhou, ainda pálido por causa do enjoo.

— O que você acha que aconteceu?

Me concentrei no ritmo dos meus passos por alguns segundos antes de responder.

— Definitivamente nada que estejamos acostumados a ver por aqui.