As Treze Relíquias.

5 Capítulo 5 - O Desejo Prevalecerá.


Notas iniciais
Oi lindos e lindas!
Caramba, que felicidade postar novamente, com a saúde de ferro de volta, o coração aquecido pelo seus LINDOS reviews! Fico muito feliz, de verdade.
Esse capítulo tem mais umas beijocas, pra quem sentiu falta.
E super dedico pra Mililika, que me deu a honra de indicar minhas fics na sua própria fic! Que aliás, é um mega sucesso! (http://fanfiction.com.br/u/111286/ Leiam as ficas dela aqui)
Bem, nos vemos lá embaixo!
Beijão!

O tecido que servia de entrada pra tenda foi afastado repentinamente, me assustando, e voltei meu olhar para o local com velocidade.

Ainda estava em estado de surpresa devido à aparição inesperada da minha tia, e toda a minha situação de sequestrado desamparado. Por mais esforço que eu empenhasse, a ideia não fazia sentido em minha mente, e aquela situação não deixava de parecer um sonho ruim, que não acabava de forma alguma. E acabava de entrar num novo estágio.

— Bom dia docinho! — Cumprimentou com um sorriso a figura que adentrava a tenda. Reconheci de imediato Ronper, o moreno de cabelos longos que invadira o Cálice junto com o homem ruivo. Assustei-me com a visão, já fazia alguns minutos que eu estava sozinho naquela tenda amarela e velha, e tinha me esquecido que ainda havia outras pessoas naquele bando. O encarei com a face fechada, e me surpreendi quando um homem desconhecido entrou atrás dele.

Ronper devia ter alguns anos a mais do que eu, agora que o encarava mais de perto com mais atenção eu pude perceber. Também era mais alto do que eu me recordava, talvez 1,85m, de porte físico magro, mas com músculos definidos, a pele alva, e os cabelos negros e longos que desciam até sua cintura, mais longos que os meus, e pareciam impossivelmente lisos, como noite líquida. Seu sorriso tinha um ar de juventude e parecia carregado de travessura, algo que não passava muita confiança, muito menos quando visto junto com os olhos verdes e que brilhavam de maneira astuta, um verde claro e brilhante. Uma cicatriz fina e prateada brilhava em seu olho direito, dando um ar mais másculo ao seu rosto levemente delicado.

O homem que o acompanhava já era bem diferente. Ele era visivelmente mais velho, no mínimo 35 anos, e tinha uma expressão tão séria que daria inveja em Lortan com toda certeza. A despeito da idade aparente, seu porte físico ainda era bom, um homem robusto e sem muitas rugas no rosto, apenas o cabelo castanho curto salpicado de cinza que entregava sua idade, junto com a sua postura mais madura. O brilho de seus olhos azuis era indecifrável, mas de certa forma, amedrontador. Uma barba rala cobria sua mandíbula, e suas vestes, ao contrário das vestes de viagem escuras e puídas que Ronper usava, eram bem cuidadas e limpas, de um tom claro.

Mantive meu olhar sobre ele enquanto Ronper vinha até mim com aquele sorriso, carregando algumas vestes nos braços, que ele jogou em minha frente, se agachando na minha altura. Sem nenhuma palavra, ele pegou meus pulsos algemados e puxou um molho de chaves do bolso, começando a mexer nele.

— Como foi sua noite? — Ele perguntou, com o olhar concentrado ao separar uma chave específica, enquanto as peças de metal tilintavam em sua mão. Franzi minhas sobrancelhas, irritado, voltando meu olhar para suas mãos desajeitadas do moreno. Como aquele homem podia estar agindo de forma tão normal? Ele esperava o que, que eu agradecesse a hospitalidade do bando e pelo fato de ter sido tão agradavelmente sequestrado? Preparei uma resposta afiada, mas fui impedido de dizê-la pelo outro homem.

— Pare de provocar o garoto Ronper, ele já teve sua dose de conversa desagradável hoje. — Falou, seu tom de voz sério enquanto ele cruzava os braços. O encarei novamente, e ele retribuiu meu olhar duramente. — Muito prazer moleque, Hawe Jogger. — Deu um aceno de cabeça pra mim, me enchendo de raiva.

Reconheci o homem como o mal-humorado que me xingara mais cedo de “nobrezinho melado”. Observei-o sem palavras, até sentir as minhas algemas serem soltas por Ronper.

— Prontinho. — Ele disse com um sorriso, agarrando minha mão subitamente, e se levantando, me puxando junto. O encarei assustado, e olhei em volta, pensando em como fugir agora que estava liberto, mas sem encontrar nenhuma dica. Voltei meu olhar para o moreno que me soltara, e agora pegava as vestes no chão e as estendia para mim. — Aqui, pode se vestir. Estamos partindo em breve, então peguei algumas roupas menores minhas de viagem, estão velhas, mas estão limpas e devem servir bem em você. — Sorriu novamente de forma travessa, e pude ouvir Hawe soltar um longo suspiro.

— Pelos treze deuses, ande logo com isso Ronper. Eu quero ver. — Reclamou, e eu voltei meu olhar para ele, confuso.

Aliás, confusão era a palavra que definia meu momento desde que eu acordara. Ainda estava sem entender a merda que minha vida estava se tornando naquele dia, e pra ajudar, de alguma forma, meus miolos decidiram interpretar tudo de forma lenta, o que me deixava meio defasado em relação minhas reações. Pouco tempo atrás, eu já teria gritado, esperneado, agredido Selena, Ronper, Hawe, derrubado aquela tenda, ateado fogo no acampamento, matado Lucci e fugido, ou pelo menos teria tentado tudo aquilo. Mas o estupor em que me encontrava me deixava mais estático do que eu nunca estivera em minha existência. As coisas estavam estranhas demais, e quanto mais eu tentava compreender, mais eu me perdia em toda aquela estranheza, e perdia toda a minha determinação de agir em busca de fuga.

Talvez devido este meu estado de estupor, eu não tenha reagido quando Ronper agarrou minha nuca com dedos delicados, e lançou uma careta para Hawe, antes de se voltar para mim.

— Desculpe por isso Blaine. — Pediu previamente, e enquanto eu erguia minhas sobrancelhas de forma desconfiada, ele cortou a distância entre nossos corpos, colando nossos lábios num beijo.

Seus lábios eram macios e frios. Uma centena de ofensas passou por minha cabeça, e eu tentei automaticamente me livrar daqueles lábios, mas ele mantinha minha nuca firme entre seus dedos. Mas que porra aquelas pessoas tinham com essa de beijar todo mundo?

Ronper me soltou em seguida, e pela primeira vez eu recobrei minhas atitudes, empurrando-o com força com as duas mãos, fazendo-o dar alguns passos para trás, até recuperar o equilíbrio, e me encarar com um olhar curioso e surpreso. Limpei meus lábios com as costas da mão, fazendo uma careta, e voltando a encará-lo com raiva.

— Filho da puta. Por que fez isso?— Eu rugi. Minha vontade era de partir pra cima dele, mas tinha a plena noção de estar desarmado e em desvantagem numérica, então me controlei. Ele apenas abriu um sorriso, se voltando para Hawe.

— Viu? Era pra ele estar no mínimo no chão agora. — Aumentou seu sorriso, que tinha ares animados, e eu voltei meu olhar para Hawe. O grande homem me encarava com uma mão na barba, um brilho misterioso no olhar, e visível interesse. Fechei minha cara e estava pronto para xingá-lo, mas ele parecia ter a habilidade de perceber quando eu ia soltar minha língua, porque me interrompeu novamente assim que abri meus lábios.

— Ótimo, eu acredito. — Levou a mão esquerda fechada à boca, encostando os nós dos dedos nos lábios, movendo a boca, porém sem proclamar nenhuma palavra, numa atitude que eu conhecia bem. Novamente senti o espanto me invadir ao ver que ele usava um anel de metal azulado no dedo indicador, e que este estava encostado em seus lábios. Lembrei-me de ter escutado algo relacionado com aquele fato quando eles conversavam lá fora, e censurei minha falta de memória. Por Verne o supremo e todos os outros deuses, aquele homem era um sacristão. Um sacristão da Fiel Marca.

— Você é um sacristão. — Deixar escapar de forma estúpida, encarando o homem com a expressão pasma. Hawe parou seu ritual de oração e voltou a baixar a mão, me dando uma visão mais completa de seu Celentero, o anel dos sacristãos que simbolizava a ligação entre eles e os deuses, feito de aço-perpétuo, o tipo mais raro de aço de todo o reino.

— Não mais. — Ele falou com simplicidade, seu olhar se tornando mais duro que nunca. — São velhos costumes apenas. — Terminou, sacudindo a mão como se quisesse afastar um inseto dela, e antes que eu pudesse perguntar mais sobre aquilo, ele suavizou sua expressão. — Bem, estou convencido agora. Ronper, apresse o nosso jovem senhor. Lorde Docinho, seja bem vindo ao bando.

Num movimento repentino, ele abandonou a tenda, enquanto eu sentia o ódio invadir meu peito com aquele maldito apelido. Em Jeera, nomes assim eram muito populares, de forma que pegavam com facilidade. E se aquilo de “docinho” continuasse, logo eu seria conhecido como Blaine, o docinho, do mesmo modo que Bartholomew Lucci era conhecido como “Peregrino das Trevas”.

— Desgraçados. — Eu resmunguei, me voltando para Ronper. — Não pense que eu irei com vocês. — Aumentei meu tom de voz, de forma imperativa, percebendo o quão vazia era minha ameaça, já que eu ainda não tinha idéia de como fugir dali. O moreno apenas sorriu para mim de uma forma até compreensiva. — Por que vocês ficam me beijando?

— Vamos lá docinho, seja bonzinho. — Respondeu, se aproximando de mim, e ignorando minha pergunta. Dei um passo para trás para me afastar, mas ele apenas me estendeu as vestes que ainda segurava. — Você não tem muita escolha, e se der muito trabalho as coisas apenas ficarão piores pra você, então tente não ser muito rebelde. Não vamos fazer mal pra você se você não fizer mal pra gente.

Ergui minhas sobrancelhas, sem pegar as vestes da mão dele. Quem aquele merda achava que era pra ir me dando lição de vida sendo que eu nem o conhecia?

— O que vocês querem comigo? — Perguntei novamente, uma pergunta que já fizera à minha tia, à mim mesmo, e aos deuses. Ronper acabou por soltar novamente aquele sorriso cheio de compreensão, e de alguma forma, simpático.

— Sua ajuda. — Falou com simplicidade. — Agora, se você não se vestir logo sozinho, eu vou ser obrigado a te vestir à força, e sinto muito por isso, mas são ordens do chefe. — Ele gesticulou com as vestes na minha direção de forma insistente, fazendo com que eu as pegasse rudemente de suas mãos, com certo medo da ameaça.

Eu sentia a necessidade de um banho, mas roupas limpas já suavizavam minha sensação de sujeira. A calça marrom que Ronper me entregou era justa e longa, mas confortável, e seu tecido era macio, apesar de velho. A camisa era uma peça amarelada e larga, com uma gola que exibia grande parte do meu peito e mangas que pendiam maiores que meus braços, mas não muito. Por fim, o par de botas que ele me deu ficou levemente grande, mas nada muito incômodo.

— Toma, se quiser prender os cabelos. — Ronper me entregou uma fita negra e simples, que eu levei aos cabelos no mesmo instante, juntando meus fios prateados num rabo de cavalo loiro e apertado. Rodei meus pulsos, satisfeito com a liberdade momentânea das algemas, e senti a mão do moreno em meu ombro de forma firme. — Certo, vamos indo.

Voltei-me para ele com as sobrancelhas franzidas.

— Vocês vão se arrepender muito disso. — Ameacei, por falta de algo melhor para fazer, e pude ouvir Ronper soltar um risinho contido, enquanto ele dava tapinhas no meu ombro e me guiava para a saída da tenda.

— Sim, sim. Agora, se não quiser usar algemas novamente, é melhor segurar essa língua. Bartholomew não é dos mais pacientes. — Respondeu, e eu senti meu coração dar um pulo no peito, virando minha cabeça para encará-lo.

— Como é? — Perguntei incrédulo, e Ronper manteve seu olhar em frente, sem me olhar.

— Ele não vai ser tão bonzinho com você. — Falou com simplicidade, afastando o tecido que servia de entrada para a tenda, e me empurrando para a claridade que me cegou momentaneamente.

Estreitei os olhos para me defender do sol forte, e observei o local onde o acampamento fora montado. Era uma pequena clareira dentro de uma mata com uma grande variedade de árvores, com o chão coberto de cascalho cinzento, o que me fazia pensar que alguém já utilizara aquela clareira como acampamento antes. Vi restos de uma fogueira que ainda soltavam fumaça, alguns troncos em volta dela que pelas minhas viagens eu sabia que serviam de bancos para as noites longas em volta da fogueira. Estranhei ao não ver ninguém ali, eles tinham mais membros do grupo, mas não havia mais nenhuma tenda nem outras pessoas ali, apesar de rastros recentes. O mais provável era que estivessem arrumando as coisas em algum outro lugar.

Ronper me guiou através da clareira, sem tirar a mão de meu ombro.

— Onde está todo mundo? — Verbalizei minha questão, e pude ouvir ele rir baixinho novamente. Pelo jeito, via graça em tudo.

— Estão arrumando as coisas nas carroças. — Respondeu, me empurrando para dentro da mata, numa trilha estreita e discreta entre as árvores.

Pensei, como já tinha pensado, em repetir todas as perguntas que tinha feito para Selena, mas algo me dizia que de forma alguma aquilo seria proveitoso. Então mantive meu silêncio e caminhei, tentando de algum jeito afastar o medo crescente que me tomava. A trilha estreita e tortuosa não era muito longa, e nos levou a outra clareira, onde me surpreendi ao ver duas grandes carroças de madeira escura e lascada, com quatro cavalos robustos presos à elas. Em volta dos veículos, finalmente vi as pessoas.

Minha tia Selena estava de frente com Hawe, com os braços cruzados e a expressão séria, na traseira da primeira carroça. Um homem jovem e musculoso desconhecido segurava as rédeas de um dos cavalos, um castrado cinzento, e afagava seu pescoço de forma delicada, murmurando algo pro animal. Outro homem desconhecido estava na frente das carroças, com um sorriso em lábios enquanto conversava com uma figura ruiva que estava de costas pra mim. A visão me fez estremecer.

Bartholomew Lucci, o Peregrino das Trevas.

O rapaz com quem ele conversava colou seus olhos em mim, e ergueu uma sobrancelha, seu sorriso desaparecendo do rosto. Pude perceber quando ele gesticulou em minha atenção, chamando a atenção de Bartholomew para mim. Foi quando o ruivo se virou, com as sobrancelhas vermelhas franzidas, e me encarou.

Eu já tivera aquela sensação, uma certeza infundada de que aquele homem era Bartholomew Lucci, mesmo antes de saber da farsa que eles haviam panejado, me fazendo matar o homem errado. Agora que sabia a verdade, observá-lo fez meu peito ser sufocado em desespero, e um arrepio de medo percorrer minha coluna. Ele começou a se aproximar de mim em passos lentos, e percebi que todas as pessoas daquele bando se voltavam para a cena, subitamente calados.

— Boa sorte. — Ronper sussurrou em meu ouvido, subitamente se afastando quando Bartholomew estava a poucos passos de distância. Engoli em seco, encarando o homem que se aproximava lentamente.

Suas roupas eram definitivamente chamativas, o que não me parecia inteligente para um ladrão: uma calça negra presa por um cinto de couro negro, uma camisa tingida de vermelho-sangue, botas de uma qualidade perceptível que subiam até seus joelhos, um par de luvas de couro negro, e uma espada fina presa ao cinto. Aquele vermelho fazia com que seus cabelos curtos reluzissem como fogo vivo, e seus olhos mantinham um brilho misterioso e profundo quando ele parou em minha frente, com a expressão séria. Era gigantesco, certamente com dois ou mais metros de altura, e seu corpo fez sombra sobre mim.

— Docinho. — Ele falou em tom baixo, e minha indignação explodiu em meu peito. Porém, meu corpo havia virado pedra, e minha língua, água, então não consegui me mover ou dizer nada. Lucci continuou a me encarar de forma séria, e seu tom de voz não tinha o toque de deboche que os outros usaram quando se referiram à mim como “docinho”. — Você vai na minha carroça, quero manter meu olhar em você. — Anunciou, dando um passo em minha direção.

— Você... — Comecei, finalmente encontrando alguma movimentação na minha língua, mas sem conseguir terminar. Ele abriu um sorriso torto pra mim, esperando que eu continuasse, mas não encontrei palavras. Queria gritar com ele, ameaça-lo e prometer que ele pagaria por tudo aquilo, mas não consegui.

Continuei paralisado quando seu sorriso aumentou e ele encostou a mão direita em meu rosto, se aproximando um passo. Seus olhos pareciam piscinas de fogo castanho-esverdeado, fixos nos meus. Minha respiração ficou levemente descompassada, e subitamente, minha mente ficou completamente vazia, numa sensação que eu nunca havia sentido. Sua mandíbula movia, mascando algo, e me recordei que ele mascava goma no dia em que invadiu meu quarto. Lucci virou a cabeça, desviando os olhos castanhos dos meus, e encarando seus companheiros, enquanto eu tentava recuperar minhas ações.

— Muito bem, prestem atenção todos vocês! — Ele gritou, sua voz grave retumbando como um trovão pela clareira. O cheiro de goma me atingiu mesmo de certa distância.— Para todos que ainda tem dúvidas, é melhor prestarem atenção, essa é a prova definitiva que é ele mesmo.— Voltou seus olhos para mim, com um sorriso debochado no rosto. Senti minhas faces ruborizarem quando ele afagou minha bochecha com um polegar grosseiro, e agarrou minha cintura com a outra mão, com uma firmeza admirável. Seus dedos deslizaram para minha nuca, e ele se inclinou na minha direção. Parou numa distância em que nossas respirações se fundiam no ar, e eu senti meu corpo estremecer, enquanto minha mente ainda se mantinha nublada, vazia, confusa, tomada por aquele cheiro forte de frutas típico de goma. — Vamos ver se não funciona mesmo.

Já sabia o que ele ia fazer, mas mesmo assim me assustei quando senti seus lábios sobre os meus. O beijo em si não me surpreendeu, mas sim a estranha sensação eu veio com ele. Eu senti como se meu corpo entrasse em ebulição, todos meus músculos queimando com algo que eu nunca havia experimentado de forma tão intensa.

Desejo. Um desejo anormal e inacreditável, uma necessidade física de me aprofundar naquilo, encontrar mais contato, aumentar a intensidade daquilo. Resumidamente, tesão, uma sensação erótica intensa de tal forma que fugia ao meu controle.

Antes que eu pudesse perceber, meus lábios já estavam abertos para receberem a língua do ruivo, e minhas mãos agarravam suas roupas com força e necessidade. Senti meu corpo reagir sem minha permissão, encostando nossos corpos e aumentando a intensidade do beijo, que foi correspondida por Lucci e sua boca quente, tão quente, e com aquele sabor doce e queimado de goma, um sabor que eu associei com a libido. A mão dele apertou minha nuca com os dedos enluvados, me fazendo sentir um arrepio bom, e eu pude sentir que meu pênis endurecia nas calças. Meu corpo inteiro ferveu e senti meus pulmões clamando por ar e liberei seus lábios por um instante, engolfando o ar de forma desesperada.

Foi como receber um banho de água fria. Assim que soltei meus lábios dos dele, senti toda a libido me abandonar, e ser automaticamente substituída pela surpresa, e pela repreensão. Oh céus, terra, mar e infernos, que porra eu estava fazendo? Por Lux, que falta de controle fora aquela?

Afastei-me de Bartholomew com um safanão e cobri minha boca com as mãos, ainda assustado comigo mesmo. Aquilo nunca havia acontecido. Ainda mais eu ficar tão ereto com apenas um beijo de poucos segundos, e o pior, com um homem. Senti o olhar de todos sobre mim, e um assovio longo veio dos lábios de minha tia, em tom provocativo que me fez corar.

— Olha, isso foi bem inesperado. — Ouvi a voz do ruivo chamar, e o encarei. Ele continuava próximo, desta vez com os braços grossos cruzados e um sorriso prepotente cortando a barba rala. — Já se apaixonou? Tenho de te informar que eu sou um criminoso procurado.

A piada arrancou risos de todos, e eu apenas senti meu rosto queimar e cuspi no chão, irritado. Aquele gosto de goma me deixava enjoado.

— Vá se foder. — Rosnei em resposta, e ele apenas acompanhou o riso dos outros, e se aproximou de mim, agarrando novamente minha cintura com as mãos firmes. Tentei me afastar, mas ele era muito mais forte, e seus dedos se apertaram em minha carne.

— Relaxa docinho. — Lucci ronronou entre os dentes quando eu coloquei minhas mãos em seu peitoral e tentei afastá-lo. Uma de suas mãos agarrou meus cabelos da nuca.— Se quiser podemos matar esse seu desejo. — Murmurrou, colando os lábios em meu ouvido. Me encolhi para escapar daquela boca, e continuei a empurrá-lo. Com uma risada, Bartholomew me soltou, e eu me afastei vários passos.

— Desgraçado! — Gritei, cuspindo no chão novamente, e todos riram. O ruivo apenas aumentou seu sorriso.

— Dorian e Hawe, levem ele para a carroça. Se se comportar docinho, não vamos te algemar, mas se tentar alguma coisa é melhor estar preparado. — Avisou com simplicidade, e eu vi Hawe e o rapaz que segurava os cavalos se aproximarem de mim com sorrisos, inclusive o sacristão que eu achei que fosse igual ao meu irmão e nunca sorrisse.

— Filho da puta! — Gritei mais uma ofensa, e os outros riram. Hawe agarrou meu braço com força e o outro rapaz o imitou, no meu lado esquerdo. Olhei para eles com indignação, mas os dois pareciam ver graça na situação.

— Foi um belo beijo, rapaz. Ótimo saber que é mesmo você.— O desconhecido, Dorian falou, com um sorriso. Era uma cabeça maior que eu, mas seu corpo era ridiculamente musculoso, como um touro. O sorriso era amarelado, e percebi que devia ser pelo fumo, já que exalava o cheiro de fumo.

— Morra. — Rosnei pra ele, enquanto eles forçavam meu caminho em direção à primeira das carroças. Todos os olhos me acompanhavam, com ou sem sorrisos, e quando eles me colocaram dentro da carroça, Selena entrou atrás de mim imediatamente, sem me dar nem tempo de reparar no local.

— Céus, você não perde tempo mesmo! — Ela exclamou, enquanto Hawe e Dorian se afastavam da carroça, me deixando na entrada. Ignorei minha doce e irritante tia e olhei para o interior do veículo de madeira. Era maior do que eu imaginara, e escura, fechada por todos os lados. O interior tinha cheiro de feno e mofo, e como era uma carroça de carga, não tinha muita coisa além e alguns baús de tamanho variados e um monte de tecido amontoado que desonfiei ser uma tenda desmontada. Minha irritação crescente se tornou ainda maior quando eu vi aquilo, e me joguei no primeiro baú que vi.

— Não sei do que está falando. — Murmurrei, cruzando os braços. Merda, o que estava acontecendo comigo?

Selena parou na entrada com um sorriso malicioso em lábios. Com um movimento discreto, ela agarrou o tecido que servia para fechar a entrada traseira da carroça e nos isolou dos outros, deixando o compartimento escuro e abafado, com apenas a luminosidade que se infiltrava através da cortina escura e grossa.

— Ora, por Orfélia. — A mulher loira se aproximou de mim com um sorriso. — Vou ser sincera, no início eu também pensei em milhares de formas de fugir, mas tentar seduzir o Bartô nem passou pela minha cabeça! — Ela exclamou, se sentando no baú em minha frente, seus olhos dourados brilhando de animação, e o sorriso travesso em lábios. Senti meu rosto queimar com aquela suposição vergonhosa, mas Selena não me deu tempo pra falar. — Mas olha, como vocês mesmos aqui do Docestado dizem, eu não colheria os espinhos esperando pela rosa. Bartholomew não é de se deixar levar assim tão fácil...

— Eu não estou tentando seduzi-lo! — Gritei para ela, indignado, e com meu rubor nos limites. Senti meu coração batendo agitado, sobressaltado como se ele também estivesse com raiva e quisesse sair do meu peito para bater em todo mundo.

Selena ergueu uma sobrancelha prateada, e seus lábios grossos dançaram num meio sorriso.

— Ah é? Então posso saber o que foi aquele beijo profano que você acabou de apresentar? — Ela cruzou as pernas, seu tom petulante e absurdamente irritante. Fechei minha cara, e abri a boca, esperando que algum argumento saísse e justificasse minha ação, mas nenhum saiu. Repeti o processo mais duas vezes, sob o olhar atento dela, e acabei soltando uma exclamação exasperada.

— Não sei! — Anunciei por fim, colocando as mãos sobre meus olhos. — Merda, eu apenas não consegui me controlar, foi uma sensação de...

Ergui minha cabeça quando senti uma pontada estranha na minha mente, como uma pena roçando sobre a pele. Senti minhas sobrancelhas se unirem, e me concentrei, encarando o ar em minha frente.

“Calma pequeno e doce Blaine. O desejo de meu amoroso coração prevalecerá”.

Céus, eu conhecia aquela voz. A voz que me acalentara nos últimos dias, e estivera presente em basicamente todos meus sonhos e crises. Era Lux, a deusa do amor, do sexo, da vida.

— Blaine, você tá se sentindo bem? — Perguntou Selena, estalando os dedos em minha frente. Num sobressalto, voltei à realidade, sentindo aquela sensação agradável se afastar da minha mente.

— O que está acontecendo comigo? — Murmurei, e minha tia arqueou as sobrancelhas, encarando meu olhar vazio. Voltei a prestar atenção nela. Por um segundo, pensei em contar para ela sobre minhas alucinações, afinal, elas começaram quando eu conheci Lucci. Mas pensei duas vezes, e decidi manter silencio. — Onde eu estava?

Vi o sorriso brotar com lentidão nos lábios dela, até tomar o tamanho total, exibindo seus dentes brancos.

— Você estava dizendo sobre como se apaixonou por Bartholomew e sente seu coração palpitar quando o vê. — Ela provocou com o sorriso, e eu senti minha fúria me invadir.

— Sua puta! — Gritei, mas quando fui avançar contra ela, Selena se levantou de um salto e correu para fora da carroça, rindo alto. A segui, afastando o tecido da saída, mas dei de cara com Dorian e Ronper, um de cada lado da porta, e Selena alguns metros pra frente, me olhando com aquela expressão provocativa e irritante.

— Meninos, é bom segurarem ele firme, pois o nosso docinho está doido para se derreter nos lábios do Bartô. — Falou, com uma piscada, ao que eu soltei um rosnado irritado, pensando se conseguiria saltar dali até ela e atingi-la de alguma forma.

— Bom, se ele fosse um pedaço de goma, talvez tivesse alguma chance. — Dorian completou a piada, e os três caíram em gargalhada. Grunhi, sem encontrar nada para dizer, e me retirei pro interior da carroça.

Maldito tesão que me invadira naquele momento. Só podia ser uma maldição de Lux, o que faria bastante sentido, já que eu vinha sonhando com ela e tendo todas aquelas visões.

“O desejo do meu amoroso coração prevalecerá”. Ouvi a voz doce e feminina retumbar em minha mente novamente.

Céus, eu estava mesmo ouvindo os deuses?

Notas finais
Bom, espero que tenham gostado minhas lindezas!
Eu tenho a teoria que as fics passam por duas crises de criação... Capítulo 5, 10 e 15. Por isso, se eu demorar a postar, é a crise defasada! Mas tentarei superar haha.
Beijão pra todo mundo!
E deixem reviews!