As Treze Relíquias.

6 Capítulo 6 - Apascenta os Medíocres.


Notas iniciais
Oi gente!
O beijo do último cap fez sucesso hein! Que bom que gostaram haha. Muito obrigada por todos os comentários!
Esse capítulo tá mais soft, é meio filler pra mostrar um pouquinho mais da partida deles, e eu aproveitei o feriado pra escrever. O próximo va ter mais acontecimentos!

E vou dedicar esse cap pra Bella Hanes! Linda que acompanha desdo o começo da fic, mesmo não sendo o gênero favorito dela.

Um grande beijo para todos!
Boa leitura!
PS: A oração não é uma canção, vejam bem.

Foi na terceira vez que tentei saltar no pescoço de Bartholomew Lucci, que ele mandou Corisseu me algemar.

— Deuses garoto, fique quieto. — O rapaz rosnou entre os dentes enquanto eu me debatia, preso nos braços fortes de Bartholomew que me imobilizara novamente com facilidade, segurando minhas mãos com força e me mantendo preso, meio encurvado naquela carroça abafada e pequena. Seu abdômen encostou nas minhas costas quando ele apertou mais as mãos calejadas em volta de meus pulsos, colando-os abaixo do meu queixo.

— Desgraçados, cães! — Eu gritei, tentando chamar o máximo de atenção que podia, mas senti as algemas de ferro envolverem meus pulsos, prendendo-os com uma firmeza inquebrável. — Malditos!

— Cala essa boca. — Bartholomew sussurrou irritado no meu ouvido, me largando de forma brusca, e se jogando sobre um baú, com um barulho seco e uma expressão de quem estava ficando sem paciência. O encarei com ódio nos olhos, e tentei cuspir nele, mas minha tentativa foi por água abaixo quando a carroça passou sobre uma pedra, provocando um solavanco que me derrubou de bunda no chão. Lucci e Corisseu soltaram uma gargalhada, mas eu apenas os encarei com ódio profundo.

De alguma forma, eu finalmente conseguira romper a minha barreira de perplexidade e encontrar em meu interior alguma força de vontade para me rebelar contra aquela escória da humanidade. Tudo ocorrera depois que ouvi a voz de Lux, e a indignação tomou meu peito, me acordando do meu estupor. Os sacristãos diziam que os deuses sabiam bem o caminho que trilhavam para nós humanos, mas eu não ia deixar ninguém escolher meu caminho, fosse esse alguém terrestre ou divino. Ainda mais um caminho maldito como aquele, com aqueles ladrões imundos e bastardos.

E assim, eu conseguira gritar, ofender, me debater, e fazer tudo o que eu estava com vontade de fazer, mas infelizmente, falhando miseravelmente na maioria das vezes. Bartholomew era ridiculamente mais forte do que eu, e conseguiu impedir meus ataques com certa facilidade, apesar de eu ter lhe acertado alguns pontapés descontrolados e socos. Para ajudar, ele insistira que Corisseu, o último indivíduo do bando que eu conhecera, viesse na mesma carroça que nós, me deixando em menor número. Nunca fui forte, não na parte física em si. Era um guerreiro conhecido, com habilidades que, modéstia à parte, eram bem desenvolvidas, mas com uma maldita espada. E não com os punhos!

Como obviamente eu não tinha nenhuma espada, não estava adiantando muito avançar contra meus sequestradores notavelmente maiores e mais fortes do que eu. Mesmo assim, nunca fui muito controlado, o controlado era Lortan. Eu simplesmente não conseguia parar para pensar num plano de fuga, então usava minha falta de controle pra gritar e me debater, até alguma ideia surgir na minha mente.

— Vocês vão pagar por isso, miseráveis! — Gritei, jogando minha cabeça pro alto. — Socorro! Bandidos na cidade! Bartholomew Lucci e seu bando! — Berrei com todo o ar de meus pulmões, esperançoso que alguém me escutasse. Consegui perceber que estávamos numa cidade pouco tempo depois que deixamos o bosque. Os sons que chegavam através das paredes de madeira velha da carroça eram sons de vendedores, ruas movimentadas, e moradores caminhando para executarem suas tarefas diárias. Sabia que não estávamos em Bela Colheita, isso era perceptível pela rua extremamente acidentada na qual a carroça passava, coisa que não existia na capital do Docestado. Mas também, pelo tempo que eles tiveram para me afastar do Cálice, não podia ser muito distante.

Corisseu pulou do baú sobre o qual estava sentado e tapou minha boca com dedos firmes, segurando meus cabelos presos com força, o que fez minha cabeça doer por inteira. Seu olhar tinha um brilho sério.

— Mas que merda de nobrezinho cu de açúcar! — Ele exclamou, e eu tentei morder a palma de sua mão, mas sem sucesso.

Era um homem jovem, na faixa de seus 25 anos, de cabelos castanhos curtos e espetados e olhos espertos, tão negros como um recorte da noite. Tinha um físico mais magro do que os outros daquele bando, mas mesmo assim parecia extremamente perigoso. Ainda tinha dúvidas de sua origem, pois ele tinha uma pele morena que eu nunca vira antes, bronzeada demais até mesmo para as pessoas do sul, além falar com um sotaque perceptível. O mais provável era que o demônio sequer fosse de Jeera, talvez de algum dos Países Quentes ou do Deserto Dourado, que ficavam para além-mar.

Ergui minhas mãos unidas pelas algemas e atingi o peito do moreno com meus punhos fechados, de forma que ele soltou uma exclamação de dor abafada, e me soltou. Os olhos negros tomaram um brilho feroz de raiva, e os lábios finos se torceram, exibindo uma fileira de dentes num rosnado selvagem que me provocou um arrepio, e calou os gritos que eu tinha na garganta.

— Corisseu, é melhor não fazer nada com ele. — Bartholomew avisou num tom sério, e eu senti meu corpo estremecer. O desgraçado tinha uma voz tão imponente e forte, de um tom grave e profundo, que qualquer fala podia deixar até mesmo o rei paralisado. Corisseu não era exceção, e quando ouviu as palavras de seu líder, fechou o rosto automaticamente, mas obedeceu.

— Maldito. — Disse em tom baixo, afagando o peito no local em que eu o atingira. Dei um sorriso sádico, satisfeito por finalmente ter sucedido no meu ataque, e estiquei minhas pernas, sem ânimo para me levantar do chão da carroça. Prestei atenção no som externo, e percebi que a balbúrdia da cidade apenas aumentara, uma centena de vozes se misturando em gritos e falas, exclamações de senhoras sobre o preço dos tomates e vendedores anunciando seus produtos. Estava pronto para começar a gritar novamente, quando ouvi a cortina da carroça ser afastada, e uma cabeça invadir através do espaço aberto. Reconheci Dorian, o brutamontes palerma.

— Estamos na muralha. Será simples sair. — Falou rapidamente, se afastando de forma tão brusca que eu mal tive tempo de assimilar as informações.

Um sorriso brotou em meus lábios quando entendi. Estávamos saindo da cidade, o que significava que as carroças teriam de passar pelos portões na muralha, e ao mesmo tempo, pelos guardas. E obviamente, os guardas olhariam no interior das carroças, à nível de fiscalização, e me veriam ali, algemado, naquela carroça apertada e com dois ladrõezinhos dos mais vagabundos. Com certeza me reconheceriam e me libertariam no mesmo instante. Só havia duas cidades realmente próximas de Bela Colheita: Jarro Cheio e Vila das Tortas, cidades pequena que eu visitava com frequência semanal, devido a pequena distancia que as separava da capital. E nas duas, eu tinha certeza de ser conhecido pelos guardas, o que me garantia que eles não cairiam em nenhuma história de Lucci, sobre eu ser um possível preso ou ladrão, ou algo do gênero. Meu sorriso aumentou, e junto dele a minha confiança de que aquele pesadelo acabava ali.

— Não crie esperanças, docinho. — A voz grave me atingiu, muito mais próxima do que eu podia imaginar, arrancando uma batida do meu coração do compasso. Só então percebi que Bartholomew estava ajoelhado atrás de mim, no pequeno espaço vazio entre meu corpo e a parede da carroça, com a boca próxima de meu ouvido. Deuses, quando aquele homem se aproximara, que eu não havia percebido?

“Talvez essa seja a razão da alcunha de peregrino das trevas...” pensei, relacionando sua fama com o modo silencioso com que ele se aproximara, como a noite que trazia as trevas de forma silenciosa e imparável, sempre enterrando o brilho dos dias com seu manto estrelado. Ou seriam as trevas que traziam as noites?

Percebi as coxas grossas do homem ao lado do meu quadril quando ele se aproximou mais, e encostou seu abdômen em minhas costas, me fazendo estremecer. Senti a indignação invadir meu corpo, e estava pronto para me debater e me afastar, com os palavrões mais conhecidos na ponta da língua, mas paralisei quando senti a mão grande e coberta pela luva de couro se depositar na curva do meu pescoço. O couro estava frio, e senti minha pele arrepiar com o contato, abrindo levemente os lábios em surpresa. Corisseu nos observava com um sorriso no rosto moreno, com os braços cruzados.

— Está se esquecendo de uma coisa, nobrezinho melado. — Falou, chamando minha atenção, e eu franzi minhas sobrancelhas, confuso, tentando entender como eles podiam estar tão confiantes, sendo que eu tinha certeza de que o plano deles estava a ponto de dar totalmente errado.

— Como assim? — Questionei, ignorando por um momento a minha raiva de Bartholomew, tomado pela minha curiosidade. Senti a mão do ruivo deslizar para minha cintura, apertando minhas carnes e virei meu rosto para lhe lançar um olhar de ódio, sem conseguir me afastar devido minhas algemas e a posição desfavorável. Os olhos do Peregrino das Trevas brilhavam divertidos, e seus lábios se entreabriam num sorriso pretensioso. Aproximou-se do meu rosto, e eu me virei, evitando o contato, mas revelando novamente meu ouvido para ele. E ele não perdeu a chance de encostar aquele rosto barbado no meu, e sussurrar próximo do meu ouvido.

— Portas Abertas. — Falou com simplicidade, e eu senti meus planos ruírem no mesmo instante.

Tomei nota mentalmente de no futuro, reservar alguns minutos para amaldiçoar o rei e suas leis ridículas. “Portas Abertas” era uma lei tão estúpida e cotidiana que eu sequer me preocupava em recordá-la, pois nunca achei que seria relevante para a minha existência de nobre. Claro que nunca sonhei que seria sequestrado e ia precisar saber dela.

Era uma lei relativamente recente, e Hirmo Lifan, o Hirmo das Leis do Cálice arrancava os cabelos ralos perante a mínima menção sobre ela, tamanha sua falta de nexo. A lei era simples, e suas ordens eram claras: em tempos de paz, todas as cidades de Jeera deviam manter seus portões abertos, para que qualquer possa entrar e sair da cidade sem problema algum e sem fiscalização. Claro, a lei definia que isso era apenas por uma hora no dia. “Portas Abertas” foi criada pelo próprio Rei Raymond após o fim da última guerra do reino, 20 anos atrás, quando Fiel Morada se revoltou contra Coroa Real. Fora uma guerra tão ridícula quanto a lei criada em comemoração a ela, pois a cidade rebelde não tinha nenhum aliado, e Coroa Real tinha o reino todo. O único fator que impediu o exército do rei de acabar com a cidade era o fato da Fiel Marca se localizar no interior das muralhas, e os sacristãos serem mantidos como reféns.

Quando, após semanas de cerco, o senhor rebelde finalmente percebeu que não tinha chances contra o rei, abriu os portões em busca de uma única e última batalha para ser cantada na boca da peble. Porém o exército real se sobressaiu, e tomou a cidade em poucos segundos, todos invadindo a cidade através dos portões abertos na muralha. Não havia canções sobre esta batalha, mas a lei comemorativa foi criada, em homenagem ao dia que os portões foram abertos, e todos puderam invadir a cidade sem medo, apenas com a certeza da vitória.

E essa mesma lei, infundada e inútil, acabava de destruir meus planos.

— Ah não. — Soltei, com o choque da percepção. — Não!

Tomei ar para gritar, pois ainda tinha a chance de alguém me ouvir e decidir parar a carroça. Mas Bartholomew Lucci, como tantas outras vezes, foi mais rápido, e tapou minha boca com a mão que estava no meu ombro, apertando os dedos em minha cintura com a outra mão.

— Não senhor. — Ele rosnou, enquanto eu me debatia tentando me afastar. Aquilo não podia estar acontecendo comigo! Uma lei idiota que favorecia mercenários, ladrões e criminosos, ia foder comigo, um nobre de uma das maiores famílias do reino!

Tentei morder os dedos enluvados do ruivo, mas foi em vão, então continuei a me debater. Lá fora, o barulho estava ainda mais alto, e atentei meus ouvidos. Quando o barulho diminuísse, e por fim desaparecesse, era meu fim, já que eu não teria mais chances de ser salvo por alguém. Pelo menos não tão cedo quanto eu queria.

— Apascenta os medíocres Sacristão! — Ouvi alguém gritar lá fora, enquanto Bartholomew passava o braço forte em volta de mim, impedindo finalmente meus movimentos. Corriseu se levantou, como um animal desconfiado, e foi pra parte da frente do compartimento, parecendo atento ao cumprimento possivelmente direcionado à Hawe.

— Que estejam em paz, filhos. — Respondeu Hawe com a voz alta, e eu me senti ainda mais irritado com aquele falso sacristão criminoso.

A travessia pelos portões foi rápida, sempre era nessa hora do dia em que a fiscalização não estava ativa. Lutei contra o aperto de Bartholomew até meu corpo começar a doer, ouvindo resmungos irritados do homem perante meus movimentos.

— Estamos seguros. — Corriseu anunciou, pulando minhas pernas esticadas para chegar à entrada da carroça. Tentei acertar um pontapé nele, mas o moreno apenas desviou, soltando um rosnado irritado novamente. Arriscou afastar as cortinas grossas que nos isolavam do mundo e observar atentamente. — Pode soltá-lo, estamos longe da cidade.

Rapidamente, Lucci me soltou, se levantando de forma ágil e me deixando no chão. Ofeguei, cansado e acalorado pelo esforço recente, e senti as lágrimas subirem aos meus olhos, mas segurei o choro. Um choro que expressaria todo meu ódio e frustação perante aquele homem, que ajeitava as vestes e me encarava duramente.

— Morra. — Rosnei para ele, as ofensas presas em minha garganta que parecia inchada. O bandido me encarou com indiferença e se sentou no baú na minha frente, enquanto eu via com o canto dos olhos Corriseu deslizar para fora da carroça como um gato.

— Prefiro viver, Lorde Açúcar. — Respondeu com seu tom indiferente, e manteve seus olhos esverdeados e duros em mim.

E eu não encontrei em meu interior forças para continuar a esbravejar.

=—=

Tem muitas coisas que eu não tinha o costume de fazer, mas deveria. Estudar. Ler. Entender as leis e a história de Jeera. E orar também. Como todo o reino, ou pelo menos a maior parte dele, nós os Becklan seguíamos a Esfera dos 13 como religião, e devotávamos nossa fé nos treze deuses patronos dos treze estados. Mamãe me educara a ir no templo, e papai também prestava suas preces diariamente. Minhas irmãs eram fanáticas pela religião, e tinham o costume de cantar as canções de louvor como beatas durante todo o dia. Até mesmo Lortan, com todo seu jeito sério e político de ser, sabia cantar “Os Treze Louvores”.

Eu acreditava em minha fé. E meus recentes delírios com Lux, apesar de parecerem extremamente reais, eu tinha a certeza de serem fruto da minha religiosidade inconsciente. Mesmo assim, eu pouco frequentava o Templo das Flores em Bela Colheita, e raramente fazia minhas orações diárias, a não ser em momentos muito críticos. Uma hipocrisia da minha parte dizer que eu era um fiel, mas ainda assim, em momentos de desespero, eu lançava minhas orações aos deuses.

E eu estava em desespero.

Após algumas horas de viagem, em que Lucci simplesmente saiu da carroça e me deixou ali sozinho, eu estava me sentindo o próprio Jhon Erones, o famoso herói das histórias que lutou contra todo um exército sozinho para salvar sua amada, até morrer de cansaço. E a minha chama de esperança já estava completamente apagada, após perder minha grande chance nos portões daquela cidade. Eu sabia que nada adiantaria tentar pular da carroça, porque eles me capturariam antes que eu deixasse a estrada, e Ronper, de alguma forma, aparecera montado num cavalo quando partimos, o que apenas diminuía minhas chances de fugir correndo. Assim, eu permanecia sentado, com meu coração pesado, sem animação.

Além de eu não saber para onde estávamos indo, nem o porque, e nem o que eu tinha relacionado com aquilo tudo. Então, eu fechei meus olhos e puxei meus joelhos para perto de mim, apoiando minha cabeça sobre eles. Puxei na minha memória a Oração dos Treze. Era difícil recordar, pois o pouco que eu orava, era para Lux, e se minhas necessidades ultrapassassem os limites de seu poder, pedia para que ela intercedesse por mim aos outros deuses. Mas de alguma forma, eu relembrei a oração que aprendera quando menino, e com os olhos fechados, sussurrei.

Oh deuses dos treze estados

Completos juntos, nunca separados

Deem-me o direito de pedir nessa oração

O que trago guardado em meu coração.

Que possam me ouvir e entender

Decidir e se convencer

E se possível, realizar por mim

O que eu mesmo não consigo, e peço assim:

Orfélia, a Milagrosa, dai-me a saúde e a fé

Wilton, o Minerador, dai-me a força das rochas

Hestor, o Construtor, constrói em mim uma fortaleza

Gotsha, das Águas, purifica minha alma e lava meus pecados

Neréia, do Fogo, acende em mim a chama da coragem

Scalor, o Guerreiro de Aço, fortalece a minha espada

Lux, a Bela, cuida do meu coração

Radás, da Morte, afasta de mim tua mão

Fúrio, o Dragão, fortalece meus instintos

Tormé, dos Céus, cuida de meus dias

Aberet, Semi-morto, abre a minha mente

Cornélius, o Alado, me proteja da fúria dos deuses

E Verne, o Supremo

Ilumina a minha existência

Engrandece o meu ser

E permita que meu coração seja feliz.

Oh deuses, confiante em vós

Eu deixo aqui minhas preces

Que sejam realizadas conforme a vontade de Verne.

E que sejam agradáveis a vós.

Que os medíocres sejam apascentados.

Terminei minha oração insegura, sem vontade de abrir meus olhos. Diziam que quando se pedia aos deuses por seus dons, você conseguia tudo, e eu estava depositando minha fé falha nisso. Permaneci naquela posição por certo tempo, tentando esquecer de minhas aflições, e esperando que por algum milagre de Orfélia, quando eu abrisse meus olhos me deparasse com meu quarto, enrolado em minhas peles, desperto de um sonho ruim.

“Grande coisa ter sonhos com uma deusa, e se sentir abandonado por todos os outros doze”. Pensei, rancoroso. Se Lux me dera algo, fora apenas aquela maldita perda de controle quando Bartholomew me beijou. E eu não podia dizer que tinha sido adorável da parte dela.

— Você inverteu a ordem dos versos, mas a intenção é o que importa. — Uma voz me chamou, e eu ergui minha cabeça rápido, sentindo meus olhos arderem pelo tempo fechado. Hawe me observava sentado na entrada da carroça. Suas vestes brancas permaneciam imaculadas, e ele tinha uma longa faixa de seda azul jogada sobre os ombros, caindo até sua cintura. Quando havíamos parado, que eu não percebi?

— Não quero ouvir isso de um sacristão criminoso. — Falei, esticando meus braços. As algemas largas deslizaram até minhas mãos fechadas, com a corrente grossa tilintando.

— Já disse que não sou nenhum sacristão. — Ele resmungou, tirando duas maçãs de suas vestes. Levantou-se e foi até mim, estendendo a fruta grande e vermelha na minha direção. Pensei em não aceitar, mas meu estômago roncava, e eu realmente não tinha energias para discutir. Observei enquanto ele se sentava na minha frente, num baú robusto de carvalho, e me encarava, rolando a maçã que restara em suas mãos.

— Isso só torna as coisas piores. — Falei, segurando a maçã gorda com as duas mãos. — Um falso sacristão então. Porque está usando uma faixa da Marca se não é um sacristão? Isso é heresia.

Hawe soltou um suspiro cansado, se apoiando nos joelhos e dando uma mordida grande na maçã. O imitei, enquanto o encarava, esperando respostas. Se eu não conseguira fugir sendo socorrido, talvez a chave fosse me aproximar mais dos membros do bando e descobrir seus planos, para que assim pudesse formular o meu. E para ganhar a confiança deles precisaria me tornar mais próximo de todos. Eu era bom com isso, sabia me relacionar.

E ainda, eu estava mordido de curiosidade.

— Disfarces são coisas importantes pra um criminoso — O homem robusto me respondeu. Parecia mais velho e cansado do que naquela manhã, mas eu reparei que de certa forma ele era bonito. Não podia dizer muito de seu corpo coberto com as castas vestes de sacristão, mas podia perceber que preservara um físico robusto através dos anos, e seus antebraços, visíveis através das mangas, eram fortes e grossos. Os fios prateados que ponteavam a barba e cabelo escuro eram até charmosos, e seus olhos azuis-escuros carregavam um brilho agradável que combinava com a pele queimada de sol. — E você vai descobrir, com o passar dos anos, que é mais fácil os fiéis atacarem um sacristão abdicado, do que um falso sacristão. — Deu um sorriso cansado, e percebi que aquele sorriso carregava muito mais do que aparentava.

Não respondi nada, apenas mordi minha maçã mais uma vez, mastigando a fruta doce e firme. Hawe também deu mais uma mordida na sua, mas pegando uma quantidade menor que a minha.

— Paramos para acampar num bosque na beira da estrada. — Ele comentou, num tom de conversa. — Os rapazes saíram para caçar alguma carne pro jantar, mas compramos maçãs na última cidade, e linguiças defumadas. Se nada der certo, pretendemos assar elas na fogueira.

Eu o encarei, questionando o que ele pretendia com aquela conversa casual. Ainda me irritava quando eles me tratavam assim, como um amigo. Hawe abocanhou mais um pedaço da maçã e mastigou longamente antes de voltar a falar. Percebi que ele parecia bastante sem jeito, pois encarava o que restara de sua maçã quando falou.

— Costumamos ficar bastante em volta da fogueira. Contamos algumas histórias. Algumas noites cantamos. — Ele pegou a maçã pelo talo com dois dedos, e rodopiou o fruto meio comido, observando o movimento de forma distraída — É bem agradável. Ninguém vai te obrigar a ficar lá, mas seria bom ficar um pouco fora dessa carroça. E tirar essas algemas também.

Senti minhas sobrancelhas se arquearem, e minha indignação dar uma pontada em meu peito, ao que eu agradeci por finalmente estar com algum sentimento de ação surgindo.

— Você acha mesmo que eu vou ficar numa fogueira, cantando, junto com os meus sequestradores? — Perguntei sério, e ele ergueu o rosto pra mim, e por incrível que pareça, com um sorriso cansado nos lábios, que me atingiu levemente, mas não diminuiu minha ira. — Nem por Verne.

— Não garoto, claro que não. — Falou, de forma derrotada, mordendo um último pedaço da maçã. — Só quis convidar.

Fiquei sem ter o que dizer, enquanto o falso sacristão se levantava, ajeitando suas vestes, e começando a sair.

— Ei, Hawe. — Chamei, antes que ele chegasse na saída. O homem se voltou para mim com uma expressão de interesse, e eu respirei fundo, tentando me adaptar lentamente com aquela situação. — Por que isso?

Hawe deu mais um sorriso cansado, torto, e se aproximou de mim, que continuava sentado com as pernas encolhidas. De forma até paternal, ele colocou a mão sobre minha cabeça.

— Por que, pode não parecer, mas não queremos você como nosso refém. — Ele falou, seu tom de voz suave como algodão. — O Bartholomew não consegue mostrar isso muito bem, mas realmente não queremos causar mal a você. Eu sei que e difícil, ainda mais porque nós o sequestramos e viramos seu mundo de cabeça pra baixo. Ontem de noite, você ainda estava ao lado de seu irmão, repousando em seu delírio, e agora está acampado com um bando de desconhecidos, com apenas sua tia há muito desaparecida, e em quem você não confia. — Senti seus dedos afagarem meus cabelos, e franzi meu cenho. — Mas não fizemos isso por mal a você. Fizemos isso porque precisamos. O reino precisa.

Sua mão deixou meus fios prateados, e minha confusão apenas aumentou. Ergui a minha cabeça em sua direção, ponderando se aquilo era ou não uma mentira, mas claramente já aceitando como mentira. Ver aquele sacristão ali em minha frente, com sua expressão paternal, fazia meu cérebro dar um nó, porque se ele estava mentindo mesmo, era um dos maiores miseráveis de Jeera.

— Então me digam por que precisam de mim! — Exigi, mas meu tom saiu mais desesperado do que eu esperava. — Não minta pra mim! Se quisessem a minha ajuda, como vocês ficaram dizendo o dia inteiro, era só pedir! Se for pelo reino, eu faria! Mas não, vocês decidiram me sequestrar, e agora quer que eu acredite que querem a minha ajuda? Então me conte!

Hawe soltou um suspiro cansado, e eu percebi que estava gritando. Oh deuses, eu estava realmente perdendo o controle das minhas ações naquele bando desgraçado. E olha que era meu primeiro dia de cárcere.

— É mais complicado do que parece. Você nunca entenderia, não ainda, e não podemos falar sobre isso para qualquer um. Precisamos confiar em você antes de contarmos nossas razões. — Hawe me encarou com os olhos azuis. — Um dia você vai entender. Sua tia entendeu.

— Não me fale daquela vaca. — Rosnei, irritado. — E que infernos eu devo fazer para que vocês me contem?

— Vai precisar ganhar nossa confiança, já disse. — O sacristão falou, levando seu anel aos lábios, e mexendo os lábios, mas sem falar nada. Era um gesto comum aos sacristãos, orar para o anel que simbolizava a ligação entre eles e os deuses, como se pudessem sussurrar suas preocupações direto para as divindades.

— E como eu faço isso? — Perguntei, e ele deu um sorriso, dessa vez um pouco mais vivo que os anteriores.

— Apareça na fogueira quando acampamos. — Falou com simplicidade, me dando as costas e indo até a porta. Antes de sair, se voltou para mim. — Aliás, posso te ensinar a orar amanhã, se quiser. É muito importante para um fiel. — Ele abriu o tecido da porta, e eu vi a noite que começava a cair lá fora. Por alguma razão, a visão me recordou de Bartholomew Lucci. — Vou orar por você, também.

O homem saiu, me deixando ali sozinho novamente. Joguei o que restara da minha maçã num canto, amaldiçoando o falso sacristão. Como se eu precisasse das orações de alguém como ele.

Passei minha noite ali na carroça, me negando a sair dali. Todos vieram me chamar, com exceção do Lucci, porque segundo Selena, ele ia acabar me obrigando a ir com ameaças. Acabei me contentando com um pedaço de uma lebre que eles haviam caçado, várias linguiças saborosas, e maçãs assadas.

E apenas fiquei ouvindo enquanto eles cantavam e riam alto, como se fossem um bando de crianças, e não de amigos, e senti uma saudade precoce do Cálice e de sua barulheira tão comum.

Adormeci enquanto eles cantavam “As Caçadas de Barcelotche” e sonhei que dançava no salão do Cálice, com uma linda mulher, bêbado como o inferno, no meio de um banquete incrível.

Notas finais
Espero que tenham gostado! E finalmente, apresentei os treze deuses pra vocês! Mas sem muitos detalhes né... Façam suas suposições!
Um grande beijo pra todos!