As Treze Relíquias.

16 Capítulo 16 - Confuso.


Notas iniciais
Olá queridos!
Primeiramente, MUITO OBRIGADA a todos os reviews e as DUAS recomendações que recebi após o último cap, obrigada mesmo a Misakim e caty7lk pelo apoio, fico muito feliz.
Gentes, avisos: tenho um ask novo (aquele antigo, HenaPeople, agora é apenas dos personagens) e é ask.fm/henacarter. Espero vocês lá!
E também FIZ UM VÍDEO dos personagens aqui pra vocês, vejam lá:http://www.youtube.com/watch?v=WmL3tgcj638
Digam o que acharam nos comentários!
Sobre o cap agora, como o próprio título fala, é bem confuso, porque o Blaine está confuso. Então, não estranhem o discurso meio zuado haha. Espero que gostem!
Beijos!
Boa leitura!
(PS: ainda não respondi todas as reviews do último cap, as mais longas serão respondidas em breve!)

A cicatriz no rosto de Ronper reluziu à luz parca do interior da carroça quando começamos a nos mover. Eu tinha me acostumado tanto a ela que mal reparava, apesar de ela ser no olho direito, só notei porque ela realmente brilhou enquanto ele mantinha a cabeça baixa, sentado sobre um baú e polindo sua relíquia com um pedaço de couro não curtido, ainda com pelo cinzento nele. Parecia que estava mais abatido nos últimos dias, sem o jeito de criança sapeca de sempre. Todos pareciam um pouco apáticos na verdade, e eu me perguntava se era porque aguardavam minha resposta.

Apertei mais meus joelhos de encontro ao meu peito, sentindo meus músculos esticarem com o movimento, minhas costas batendo suavemente contra a madeira da carroça conforme ela sacudia na estrada. Meu corpo arrepiou com a sensação, a despeito do calor de fim de primavera que ainda tomava espaço no Docestado. Parecia que tudo me dava arrepios após a visão que Selena me mostrou. E isso já fazia 30 dias.

Nunca imaginei que 30 dias passassem tão rápido. Pra ser sincero, passaram de forma tão veloz que eu nem vi. Saímos de Vila das Tortas e já tínhamos passado por mais cinco cidades, entre elas Monte Poente, onde o bando realizara o último crime. Ninguém queria me dizer ainda pra onde íamos agora, mas eu suspeitava que era para a Cidade das Maravilhas ou para O Brilho Voraz, grandes cidades muito conhecidas no estado e não muito distantes de Monte Poente.

Bartholomew tinha me avisado que eu poderia entrar naquilo que ele chamava de “estado de choque” se optasse por ver a visão secreta que Selena tinha sobre como seria a Jeera destruída se não destronássemos Tornrey Ortyrien. E o tal estado de choque faria com que o eu perdesse um pouco da noção de tempo, um pouco de apetite, um pouco de sono... E muito da minha paz. Não estava muito confiante de que isso fosse verdade, eu pouco acreditava no Bartholomew de qualquer forma, aquele mentiroso nojento e sujo. Mas ele estava falando a verdade.

Na realidade, eu ainda estava me forçando a entender aquilo como verdade. É incrível como podemos ser hipócritas, todas a vezes que eu ouvia uma história de magia, espíritos, forças sobrenaturais, sempre recriminava os personagens principais por não aceitarem logo o que estava acontecendo como verdade, e dizia “se um dia algo assim acontecer comigo, eu acreditarei com toda certeza”. Tolice minha, eu estava passando exatamente por isso, e ainda assim me recusava a acreditar. Por mais que aquilo tudo parecesse verdade, era surreal demais, e o meu senso crítico não permitia que eu aceitasse aquela tal lenda como realidade, por mais que eu me esforçasse.

Lenda essa que agora eu conhecia muito bem. Depois de receber o beijo de minha tia e ver uma série de imagens que segundo ela eram memórias, os membros do bando me explicaram o significado daquela série de fatos, enquanto fugíamos de Vila das Tortas no meio da noite após aquele assalto. Parecia que havia sido ontem, mas já faziam trinta dias que aquela história inundava minha cabeça. E trinta dias em que eu finalmente sabia as razões pelas quais: tinha sido sequestrado, vivia recebendo beijos daqueles idiotas, estava tendo alucinações com Lux, e estávamos assaltando tantos castelos quanto possível. Pra variar um pouco, dessa vez quem me explicou a história toda foi Bartholomew, o homem que nunca me contara nada.

Foram duas horas de viagem com ele explicando tudo o que eu havia visto em partes nas memórias avulsas, enquanto sacolejávamos naquela carroça escura com um lampião aceso de forma irresponsável no espaço feito de madeira. Selena e Hawe iam na carroça de trás, pilotada por Corisseu, Dorian ia pilotando a que estávamos e Ronper estava à cavalo, vigiando. Éramos só eu e aquele ruivo contando-me a história em detalhes.

A história ainda me causava arrepios.

— E então, o que quer saber hoje? — Ronper questionou, sem erguer os olhos para mim. Diariamente, após eles me contarem da lenda e sobre a tal maldade de Verne, eles vinham fazendo aquilo: um dos membros passava o dia comigo e me dava respostas, desde que soubessem responder. Eu tinha perguntado de tudo: quem do bando era herdeiro, quantos anos fazia que eles estavam naquela caçada, se havia mais pessoas que sabiam daquela lenda...

E eu tivera respostas para a maioria das perguntas

Resumindo minhas descobertas, os herdeiros existiam desde o início de Jeera, e eram mortais comuns nascidos em cada um dos estados, que por alguma razão ganhavam a confiança dos deuses. Carregavam dois tipos de poder: alguns relacionados à beijos, que nunca funcionavam entre eles, e outros relacionados a objetos chamados relíquias. A missão inicial deles foi derrubar o primeiro homem no cargo de rei, o herdeiro de Verne, e eleger um novo homem, bom, para governar as terras. Essa missão fora um sucesso, porém ao fim dela, as relíquias foram separadas pelo deus Supremo e espalhadas pelo reino, deixando assim o grupo com apenas suas habilidades do beijo. Habilidade essa que segundo eles eu sempre tivera, porém nunca apareceu nos beijos que dei durante minha vida, pois eu não tinha conhecimento sobre isto, ou contato com outros herdeiros. Pelo que eles me diziam, agora se eu beijasse alguém, alguma coisa que ninguém sabia dizer o que seria podia acontecer.

Enfim, existiam algumas regras. Por exemplo, herdeiros de deusas mulheres eram sempre do sexo feminino, e de deuses homens, do sexo masculino. Também, a herdeira de Orfélia sempre conseguia usar seu Beijo do Poder em outros herdeiros, mas era a única. Ninguém se tornava herdeiro, já nascia com a responsabilidade e poderes do deus de seu estado, e obrigatoriamente carregava esse poder por no mínimo 30 anos, e ninguém sabia a razão disso. Se após os 30 anos, um outro mortal fosse escolhido pelo deus desse herdeiro, os poderes eram transferidos. Fora assim com o pai de Lucci, antigo herdeiro de Radás que perdeu os poderes com o nascimento do filho.

Claro que aquilo não era hereditário. Fora uma coincidência que Bartô fosse herdeiro de Radás quando nasceu, e era o único caso conhecido, com exceção ao herdeiro de Verne que sempre passava seus poderes ao filho. A missão dos doze herdeiros era de manter o trono longe das garras desse herdeiro, atualmente, o nosso Rei Tornrey Ortyrien. Ou seja, nossa missão era destrona-lo antes que ele causasse um mal irreversível ao reino. E isso vinha desde que os Ortyrien tomaram o trono, há mais de dois séculos. Dois séculos de vidas em busca de derrubar aquela família de herdeiros, caçando as relíquias.

Sobre as relíquias, eram objetos quaisquer espalhados pelos estados, que deviam ser reunidos, juntamente com seus herdeiros, para que assim a missão se completasse. Elas estavam espalhadas a mais de quinhentos anos, e as únicas dicas eram que eram objetos de valor — como joias e apetrechos preciosos — que estavam nas mãos de famílias nobres, e a relíquia de cada deus estava em seu próprio estado, pois elas não podem ser carregadas para fora dele a não ser nas mãos do herdeiro.

Elas eram necessárias para derrubar Ortyrien do trono antes que ele destruísse a vida em Jeera. Segundo a profecia recebida pela primeira herdeira de Orfélia, todas relíquias apenas seriam encontradas quando surgisse um herdeiro homem de uma deusa mulher — uma quebra naquela regra que eu citei — e um herdeiro de Radás banhado pelo fogo. E eu sabia, desde que recebera aquelas visões de Selena, que éramos eu e Bartholomew os herdeiros a quem a profecia se referia.

Eu porque era herdeiro de Lux, e essa era a ideia à qual eu estava me acostumando melhor, principalmente porque tivera o que eles diziam ser “contato” com minha deusa por diversas vezes. E Lucci, o herdeiro de Radás, eu descobrira posteriormente, era filho dos antigos herdeiro de Radás e a herdeira de Neréia, o que justificava-o como o “banhado pelas chamas” da profecia.

A lenda era um segredo para a maioria das pessoas, inclusive para os herdeiros que vieram posteriormente aos primeiros, já que não houve contato entre as gerações, e só vazou quando uma das antigas herdeiras de Orfélia teve contato com sua deusa, e foi avisada de que deveria seguir o caminho da sacristia e encontrar uma antiga escritura escondida na Fiel Marca. A escritura secreta que contava toda a história, e que mostrou que o novo rei — esse acontecimento foi na época que os Ortyrien tomaram o poder — devia ser destronado. Segundo Hawe, algumas pessoas tinham o conhecimento dessa história de alguma outra forma, e acreditavam nela, apoiando os herdeiros. A esses, dava-se o nome de “crendistas” e eram pessoas de confiança que ajudavam na caçada às relíquias, como Corisseu e Dorian.

Nessa época, a caçada aos herdeiros e às relíquias começou, e claro que era infindável. Primeiro, porque as relíquias eram dificílimas de se achar, segundo porque os herdeiros eram ainda mais difíceis de se encontrar. Com exceção daqueles que recebiam mensagens de seus deuses para que buscassem se reunir com os outros herdeiros, era muito difícil encontrar um herdeiro. Segundo Selena havia um processo, mas era extremamente complexo e sem garantias, além de que os herdeiros podiam simplesmente perder seus poderes após os trinta anos, ou morrerem. E isso levou ao fato de nunca, em dois séculos, os 12 terem se reunido.

Tinha mais informações, como o fato de Hawe, Ronper, Selena e Bartholomew serem os únicos herdeiros do bando, e etc. Muito mais me fora dito, porém este era o cerne de tudo: por dois séculos, pessoas comuns sofreram o que eu sofria agora. Recebiam informações assustadoras, ficavam confusos com suas personalidades, estavam assustados com o futuro. Esperando por uma resolução, com o medo do fim de Jeera se aproximar cada vez mais. Buscando de forma desesperada pelo reino objetos e pessoas, sem nenhuma dica válida, ou ajuda, perseguidos pelo reino e recebendo a alcunha de criminosos. Todos aguardando o surgimento dos herdeiros da profecia.

Uma quantidade assustadora de vidas que estavam nas minhas costas agora. O herdeiro homem da deusa mulher Lux.

Era isso principalmente que eu custava a aceitar. Porque se aquela história era real, eu tinha um dever gigantesco a cumprir, e por isso eu queria acreditar que ela era falsa. Não apenas com o futuro do reino, mas também com seu passado. Eu tinha a obrigação de cumprir minha função como aquele herdeiro da profecia, e finalmente dar um fim a todo aquele sofrimento que passava de geração a geração. Aquele sofrimento que eu conseguia perceber nos olhos de todos os membros daquele bando. Especialmente nos orbes castanhos esverdeados de Bartholomew Lucci.

E por isso, depois de conhecer toda a história, eu ainda não tinha aceitado entrar pro bando. Tinha medo das responsabilidades, e estava adiando minha resposta, dividido como o inferno. Ao mesmo tempo em que queria dizer não, eu tinha visto a Jeera destruída, e não podia deixar aquilo acontecer. Mas estava com medo.

— Por que os deuses... Não resolvem logo essa história, se eles existem mesmo? — Perguntei, extravasando um pensamento que me atormentava há dias. Esperei Ronper erguer os olhos de sua relíquia e me encarar, com as sobrancelhas comprimidas.

— Há quanto tempo está pensando isso? — Ele questionou, erguendo uma sobrancelha e fechando a mão em terno da estranha insígnia de cavaleiro. Senti meu peito formigar e percebi que Bartholomew estava incomodado com alguma coisa lá fora. Ignorei a sensação, estava me acostumando a ela.

— Desde quando tive contatos com Lux pelas primeiras vezes. — Pensei, admitindo o que estava tomando minha mente há tempos. — Digo, eu era fiel, mas sempre me questionei se os deuses existiam, já que eles não resolviam os problemas do povo. Fome, pobreza, doenças, e essas coisas... E agora, essa história toda do Tornrey. Se eles existem mesmo, porque simplesmente não agem de forma direta? O poder deles é total, não é? Logo devem ser mais fortes que o herdeiro de Verne. — Abracei mais meus joelhos, deixando minha visão relaxar e embaçar.

Ronper soltou um suspiro, e vi o borrão que era seu corpo se mexer. Foquei a visão novamente, e vi que ele tinha levado uma mão aos olhos, esfregando-os cansado.

— Acho que todo mundo pensa isso em algum momento da vida, seja herdeiro ou não. — Respondeu, com uma risada triste e curta. — Olha Blaine, eu não sou o melhor pra responder isso... Ninguém é. Hawe me falou uma vez que tem coisas pelas quais os mortais precisam passar. Mas é claro que nas horas difíceis tudo o que eu mais quero e jogar a merda da minha relíquia longe e mandar os deuses resolverem seus próprios problemas. Antes de saber que eu era herdeiro, tinha vezes que me questionava como os deuses podiam existir se deixavam tanta desgraça acontecer...— O moreno abaixou a mão, fixando os olhos verdes nos meus. — Só que ninguém vai se preocupar mais com os mortais do que os próprios mortais. E por isso eu não joguei isso fora ainda, se alguém vai salvar a vida em Jeera, são as pessoas e não as divindades.

— Entendo... — Respondi sem ânimo. Não esperava uma resposta concreta pra aquilo, então nem me decepcionei, e apenas observei enquanto o moreno enfiava a insígnia no bolso. Ele não me dissera o que aquele objeto era exatamente, apenas mostrara que era a sua relíquia. Tinha algumas coisas que eles se negavam a me falar ainda, enquanto eu não desse a resposta definitiva se iria ou não entrar no bando, como de quem Hawe e Ronper eram herdeiros, quantos herdeiros já eram conhecidos, quantas relíquias foram encontradas, e quais eram os poderes deles. Só Bartholomew e Selena falavam alguma coisa sobre eles mesmo, mas até agora eram só informações que eu já desconfiava antes.

Mantivemos o silêncio por longos minutos enquanto Ronper voltava a mexer em sua relíquia, e eu me perdia em pensamentos. As imagens de Jeera destruída pareciam me atormentar em sequência desordenada: fogo negro por todos os lados, o solo rachado, pessoas sujas de fuligem ajoelhadas sobre um chão pontiagudo e com as juntas sangrando. Choro de crianças e adultos, pedidos de piedade e perdão, orações pedindo socorro aos deuses. O ar pesado com ares de praga e morte. Som de guerra entre as pessoas saudáveis, castelos em ruínas manchadas de sangue, templos tão terríveis que pareciam intimidadores onde as pessoas se reuniam para orar em grupos...

— Almoço. — Escutei a voz grave enquanto meu peito se preenchia naquela sensação quente e agradável pela presença conhecida. Bartholomew irrompeu pela entrada da carroça, mesmo com ela em movimento, carregando uma trouxa de pano. Dorian entrou atrás dele, passando a mão pela barba que vinha deixando crescer nos últimos dias. — Olá Ronper, oi docinho.

Os dois homens se apertaram na carroça, enquanto Ronper se encolhia para deixa-los mais a vontade. Eles estavam inclinados para não baterem as cabeças no teto, e tentaram ficar de frente pra mim.

— Docinho. — Dorian o acompanhou, com um sorriso simpático. Tinha descoberto que Dorian, como Corisseu, não era herdeiro, e talvez por isso eu viesse achando agradável sua presença nos últimos dias, principalmente porque ele era muito mais amigável que Corisseu. Apesar de fazer o tipo caladão, era só dar uma oportunidade que ele soltava a língua, e isso me distraía. Em contrapartida, ele usava o apelido “docinho” muito mais que qualquer outro membro, então eu estava tendo de me controlar em relação a isso. — Trouxemos peixe defumado. Não é grande coisa, mas mata a fome...

— É mentira, é bem gostoso. — Bartholomew disse, revirando os olhos. — Coma, sem frescuras. — Ele me estendeu a trouxa, se inclinando na minha direção. Estava usando uma camisa verde e justa, levemente desfiada nas mangas, e uma calça marrom com suas botas de couro preto que subiam até a panturrilha. Semana passada tinha aparado os cabelos, e isso o deixara com ares um pouco mais jovens, e os fios rubros pareciam mais vivos. A barba e traços continuavam a se completar belamente, deixando o bandido desgraçado atraente como ninguém. Porém seus olhos verdes e bonitos ainda carregavam mistério e dor, e eu percebia que aguardavam minha resposta.

Meu peito parecia queimar de prazer com a presença dele após várias horas sem nos vermos, mas eu ainda ignorava aquilo.

— Não estou com fome. — Respondi. Não conseguia encontrar força de ânimo sequer para discutir com ele agora.

— Você precisa comer. Está perdendo peso. — O ruivo falou, se agachando meio sem jeito na minha frente. — Não quero ninguém morto de desnutrição aqui. — Brincou com um pequeno sorriso forçado. Questionei se ele estaria mesmo preocupado ou apenas puxando assunto para eu falar se ia ou não entrar pro bando.

— Qual foi sua última refeição? — Dorian questionou, apoiando uma mão no teto da carroça quando essa chacoalhou de forma mais brusca.

— Desjejum. — Menti. Não tinha comido nada que eles deixaram para mim, mas não queria que me forçassem a comer.

— Mentira, a comida dele estava toda aí. — Ronper desmentiu, e franzi minhas sobrancelhas para ele, irritado. — Acho que ele nem jantou ontem.

— Jantei sim, comi uma maçã. — Defendi-me, erguendo o rosto do meio de minhas pernas com uma pontada de indignação. Lucci ergueu uma sobrancelha pra mim, e virou para Dorian.

— Dorian, quantos quilos ele está? — Perguntou, e o grandalhão colocou a mão na barba.

— Uns 59. Corisseu, para essa carroça! — Ele berrou, me assustando, mas repentinamente o veículo parou.

Não tive tempo de reagir. O moreno gigantesco se inclinou em minha direção e num movimento rápido, me pegou na posição de donzela desposada e ergueu meu corpo naquele espaço reduzido, ainda encurvado para não tocar no teto.

— Ei! — Exclamei, me agarrando com as mãos em seu pescoço para não cair. — Me põe no chão!

— Hum... Acho que 57 quilos. — O moreno falou, movendo os braços para analisar meu peso, enquanto olhava pro ruivo que também ficou de pé, encarando a cena com um sorriso. Ouvi Ronper rir de forma contida. — Antes você pesava o que, uns 61 ou 62 quilos? Agora tá parecendo uma moça virgem e miúda.

— Certo, você precisa comer. — Bartholomew falou, e senti minha face corar de leve.

— Tá, eu como, mas me ponha no chão! — Falei irritado, e Dorian riu.

— Certo docinho, vai. — Ele brincou, depositando um beijo em meu rosto que me fez exclamar antes de me colocar de pé com delicadeza. Esfreguei meu rosto corado, indignado com aquela brincadeira, enquanto o homem ria.— Mas agora, coma. Sempre venci as competições de adivinhar o peso de pedras preciosas que faziam no Cinturão, então sei do que estou falando. Mesmo um baixote como você devia pesar mais que isso. — Completou, sorrindo. Abri a boca para argumentar que ele devia ter perdido a prática, mas Bartholomew me interrompeu.

— Bem, pegue aqui. É peixe defumado e algumas frutas. — O homem enfiou a trouxa em minhas mãos. — Dorian e Ronper, podem me dar um instante com Blaine?

O tom era casual, mas eu sabia do que se tratava. No fim, já iam 30 dias em que eu estava decidindo se entraria ou não pro bando criminoso que na verdade, não o era. Bartholomew se mantivera afastado e sem colocar muita pressão, alguns dias sequer aparecendo na minha presença, deixando aquele estranho buraco em meu peito. Os outros membros comentavam alguma coisa sobre minha decisão, mas não me forçavam a dar uma resposta. Eu tentava pesar todas aquelas informações, e ainda não tinha forças para me decidir. Porém sabia que a hora ia chegar.

Ronper e Dorian apenas anuíram com a cabeça, e saíram da carroça. Ouvi Dorian falar algo para Corisseu, e percebi que eles voltariam a se mover. Estavam evitando paradas muito longas depois de dois quase encontros com grupos de busca do Cálice.

— Então, sobre o que é? — Questionei direto, mas o ruivo me ignorou.

— É melhor se sentar, ou vai cair. — Lucci avisou, seguindo seu próprio conselho e se aconchegando sobre um baú. Eu voltei pro meu lugar no chão, e a carroça começou a se mover. — Vamos lá, comece a comer e eu começo a falar.

Suspirei cansado, e afastei uma mecha do meu cabelo para trás da orelha. Se eu tinha aprendido alguma coisa sobre o Peregrino das Trevas, era que não adiantava discutir com ele. Então, abri a trouxa de tecido e peguei um pedaço de peixe, mordiscando-o.

Bartholomew se moveu, enfiando uma mão no bolso de suas calças e arrancando um pequeno embrulho de pano manchado, que eu reconheci como seu suprimento de goma. Ele desfez o embrulho, puxando um pedaço da massa roxa e jogando na boca, inundando o ar com o cheiro doce da guloseima. Questionei-me a razão dele consumir aquele doce com tanta frequência. A goma não era viciante, porém causava um curioso efeito que inibia a fome, gerando sim uma certa dependência em pessoas mais pobres, já que o doce era barato. No mais, a massa feita de seiva das árvores Reccas misturada a várias frutas, nada mais era que um “passatempo” para quem gostava de doces, sendo que as pessoas costumavam consumi-la raramente.

O homem mascou algumas vezes antes de começar a falar, e eu mordi mais um pedaço do peixe, sentindo o sabor suave e esfumaçado.

— Bom, antes de eu começar, tem alguma coisa que você queira saber mais? — Ele perguntou, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Porque já te falamos tudo que podíamos sobre a história, e até umas coisas pessoais não é... — O ruivo sorriu, mascando a goma. Provavelmente se referia ao fato de eu ter recebido aquela visão sobre seus pais, que eu sabia que era desnecessária, mas Selena tinha me mostrado.

— Se está esperando que eu peça desculpas por ter visto seus pais, não foi culpa minha, e vai se ferrar. — Reclamei, encarando meu pedaço de peixe. Honestamente, meu peito apertou por falar aquilo, mas eu estava irritado, como sempre. Apesar de apático nos últimos dias, sem reação, como eu percebera que costumava ficar com informações novas, Lucci tinha a capacidade de despertar minha atitude. E eu ainda tinha muita mágoa com ele, então enfiava no inferno o pouco de arrependimento que a grosseria me provocava.

— Sabe, eu estou começando a me acostumar com essa língua maldita, apesar de ainda ter vontade de levantar e te dar uma porrada. — Ele respondeu, e ergui meu rosto em sua direção para ver seu sorriso prepotente.

— Oh, vá tomar no seu... — Comecei, com a boca cheia, mas ele me interrompeu com uma risada.

— É, já sei... — Ele esfregou a barba com uma mão, me encarando sério em seguida. — Agora, vamos lá. Tem duas coisas que eu quero te falar.

Ergui uma sobrancelha, curioso. Desde o dia que me explicara a lenda e detalhes dos herdeiros, Bartholomew fora o único membro do bando que não me dissera nada. Ou seja, provavelmente, ele ia exigir minha resposta mesmo.

— Quero que me responda... Bom, o que vem pensando nesses dias. — O ruivo falou, juntando os dedos e encarando-os. — Mas antes... Eu quero pedir desculpas por tudo que aconteceu antes. E olha que isso não é nada fácil.

Meu peito repentinamente esquentou, numa sensação agradável. Encarei o homem, que evitava olhar na minha direção, e tive um pequeno choque de realidade.

Ao mesmo tempo em que trinta dias tinham passado para mim como um piscar de olhos, e eu não tinha sentido nada além de confusão e preocupação, Lucci tinha passado trinta dias tentando ser agradável. Até o momento, eu imaginava que era porque ele queria que eu entrasse pro bando, mas agora, com aquela estranha ligação que eu partilhava com ele, sabia que era porque ele estava sinceramente arrependido. E isso me chocava, porque eu não esperava nada assim daquele homem que para mim, era um criminoso. Mas ao mesmo tempo, eu percebi que há algum tempo eu sabia que ele não era assim uma pessoa tão má. Irritante, criminoso e nem sempre agravável, mas não uma pessoa má.

— Não fomos muito gentis ou educados nos seus primeiros dias de cárcere, e sinto muito por isso. — Ele falou, finalmente erguendo os orbes esverdeados na minha direção. E eu vi um brilho de sinceridade em seu olhar.— Mas precisa entender que nós esperávamos por você há tantos anos, que não sabíamos como reagir quando achamos você, principalmente porque foi totalmente ao acaso. Gerou um tipo de alvoroço em nós, e no fim, não soubemos tratar você da maneira correta. Eu sinto muito, às vezes acho que perco o controle das minhas ações, hora estou irritado e reservado, hora estou falante... É assim com todos nós, passamos por muito estresse nessas horas, brincamos e provocamos bastante uns aos outros, e admito que em controle de minhas ações eu sou o mais fraco. E bem gerou certos momentos ruins entre nós, então, desculpe...

Ergui minhas sobrancelhas.

— Você está pedindo desculpas? — Questionei, largando meu peixe sobre o pano da trouxa. — Ou isso é uma piada?

Bartholomew fechou a cara numa expressão séria, parecendo ofendido.

— Vamos lá, já estou pedindo desculpas, quer forçar comigo ainda?

Por algum razão, eu soltei o risinho. O primeiro em trinta dias, baixo e contido, mas um risinho. Tinha me esquecido de como era gostoso rir.

— Pelos deuses, parece que você teve uma caganeira emocional pela boca! — Debochei, achando graça sem entender direito o porque. Lucci me encarou com repreensão, e eu acabei soltando mais um riso abafado, tapando a mão com a boca.

Céus, por que eu estava rindo tanto? Bartholomew grunhiu.

— Ah, é isso que dá tentar ser educado com você... — Reclamou, revirando os olhos. — Para com isso! — Disse, mas acabou sorrindo também.

Repentinamente, eu não conseguia mais me segurar, e acabei soltando uma gargalhada. Ao mesmo tempo, que uma vontade incrível de chorar me atingiu. Como eu tinha ido parar naquela situação, deuses! Era cômico, mas trágico também, e de alguma forma, aquilo estava revirando meus miolos. Ri, perdendo o ar dos pulmões, e não percebi em que momento meus olhos se embaçaram de lágrimas, e comecei a soluçar entre as risadas.

Eu estava fodido. Meu emocional e racional estavam destruídos com todas aquelas informações que eu recebia, a contradição me torturava em praticamente tudo. A afinidade que eu sentia pelas pessoas daquele bando e o ódio, a minha descrença e a presença inegável de Lux nos últimos dias, meu ceticismo sobre coisas místicas e aquelas visões e histórias, o medo de tudo aquilo ser verdade e a certeza de que era verdade, a saudade de casa e consciência de que eu não poderia voltar pra lá tão cedo, o medo de ter Jeera em meus ombros, e saber que eu a tinha.

A vontade de dizer não para aquela missão, e saber que eu precisava dizer sim.

— Blaine, não... — Ouvi Lucci, e senti sua mão tocar em minha face com delicadeza. Pisquei, limpando as lágrimas que embaçavam minha visão e vendo que ele se aproximara com aquele silêncio maldito. Estava ajoelhada na frente, eu rosto próximo do meu. Mais uma vez, meu peito rodopiou em sentimentos, raiva, afetividade, desejo. O ruivo me encarava com os olhos tristes e tensos. — Não chore assim, eu sei que é difícil entender tudo isso... — Ele falou, visivelmente sem jeito com a situação, esfregando os dedos em minha face de forma desajeitada para limpar as lágrimas. — Mas nós precisamos aceitar que essa é nossa situação, e se você entrar pro bando...

Interrompi sua fala acertando o punho em sua cara. Sequer prestei atenção no meu peito incomodado por aquela ação, e toda minha confusão de sentimentos. Não suportava mais pensar, eu tinha de agir.

— Eu não vou entrar pro seu bando! — Gritei, deixando minha raiva e confusão saírem com mais lágrimas, enquanto empurrava o peito de Bartholomew. Ele me encarava surpreso, e pela primeira vez eu vi seu sangue, enquanto ele escorria num fio rubro de seu lábio cortado. — Eu vou pra minha casa, ver meus pais, meus irmãos. — Falei, esquivando de suas mãos que tentavam segurar as minhas, e continuando a estapeá-lo. — Participar de festas, beber, tocar minha harpa, treinar com meu irmão, falar de mulheres e homens com meus amigos, ver minhas irmãs se casarem, e me encantar com uma mulher ou um rapaz direito, flertar, casar e constituir uma família...

E sem ver, eu estava abraçado em Bartholomew, soluçando com a cabeça enfiada em seu peito, apertando os dedos em suas costas sem entender porque. E ele afagava meus cabelos com aquela delicadeza rara.

— Eu sei, eu sei... — Ele murmurou, e eu apertei mais meus braços em volta dele.

— Então, pra eu realizar tudo isso, vou ajudar vocês a cumprirem essa missão. — Falei, segurando um soluço. — Mas não vou fazer parte desse bando. Nunca.

Senti Bartholomew beijar o topo da minha cabeça, e apesar de estar com raiva de mim mesmo por estar naquela posição, meu peito se aqueceu.

— Obrigado. — Ouvi ele falar, e foi de longe, o agradecimento mais sincero e aliviado que eu ouvi em minha vida.

E eu sabia que definitivamente tinha tomado a decisão certa. Só confirmei ainda mais essa ideia quando senti aquela sensação de ser afagado por uma presença agradável. Lux.

“Vocês deviam se beijar agora.” Ressoou em minha mente com aquela forma conhecida. Agora a desgraçada aparecia, depois de trinta dias de abandono.

— Oh, cale essa boca... — Falei, fungando o nariz e escondendo mais meu rosto no peito do homem ruivo, que se estranhou minha fala, não demonstrou.

E pela primeira vez, apesar de sentir algum tipo de desejo de mais contato com o bandido, eu me controlei. Afinal, já bastava a vergonha que eu ia ter quando aquele momento passasse e eu tivesse que lidar com o fato de ter chorado nos braços do Bartholomew.

Mas por enquanto, eu precisava daquilo. Porque depois de trinta dias encarando aqueles sentimentos confusos, eu finalmente conseguia ignorá-los. Não parar de senti-los, mas parar de me importar por um tempo.

“É o presente que demos à vocês, meu herdeiro. Juntos, toda dor se ameniza.” Lux voltou a falar, e senti sua presença desaparecer.

E fiquei novamente apenas com a presença do detestável Peregrino das Trevas.

Notas finais
Ae queridos! Espero que tenham gostado, apesar de toda a confusão, como eu disse, faz parte porque o próprio Blaine estava muito confuso.
Espero que tenham gostado! Qualquer dúvida, respondo nos reviews e no ask!
Beijos!