As Treze Relíquias.

17 Capítulo 17 - Espadas e novidades.


Notas iniciais
Alô amores!
Muito obrigada a todos os reviews, fiquei feliz apesar do número reduzido (perdi leitores pela demora, acho). Mesmo assim, obrigada a todos que leram!
A fic está entrando numa nova fase, que vai mostrar o início e desenvolvimento do relacionamento do Blaine com o bando.
E aproveitando isso, eu decidi, com muito peso no coração, fazer uma pausa na fic (quem me acompanha no twitter sabe isso). As razões estão aqui, por gentileza leiam: http://henacarter.tumblr.com/post/62547906317/pausa-em-as-treze-reliquias
E já aproveitando, esse é meu novo tumblr, onde manterei vocês atualizados sobre as fics, e postarei fotos, músicas e etc :)
Espero que gostem do cap, narração do Ronper!
Muito obrigada!
Beijos :*
PS: Não sei se vocês já perceberam, mas o Ronper não tem aquela felicidade toda que aparenta, ele na verdade é bem melancólico por causa do amor que nutre pelo Hawe. Só que ele aprendeu a controlar bem o modo de se expressar, e por isso que pros outros sempre parece que ele é um moleque arteiro haha, e quando ele narra fica meio "sério".

Blaine segurou sua espada, ainda na bainha, como se fosse um graveto delicado, apenas amparando-a com as duas mãos e olhando para ela com expressão confusa. Acabei sorrindo com aquela reação abobada por parte do loiro. Aliás, estava muito mais fácil sorrir agora que sabíamos finalmente que Blaine ia nos ajudar. Não que tornasse as coisas mais fáceis, mas por um momento pelo menos, amenizava nossas preocupações com o futuro, e isso tinha melhorado bastante o ânimo de todos. Era um pequeno passo para tudo dar certo, e qualquer pequeno passo já era um avanço.

— Pra que isso? — O loiro questionou, erguendo os olhos para mim e em seguida para Dorian. Percebi em seus olhos que ele estava satisfeito de ter sua arma de volta, mas ocultava a emoção. Eu tinha uma boa ideia de como era reaver sua arma após um tempo. Pra um guerreiro, sua arma é uma companheira muito querida.

— Ora, se você agora vai nos ajudar, precisa estar armado e preparado para lutar. — Dorian resmungou, a voz saindo meio mascada enquanto ele tentava manter o cachimbo na boca e acendê-lo com uma pederneira. — As coisas não são fáceis pra um bandido, e Bartô confia que você não tentará enfiar essa espada no nosso peito, então decidimos devolvê-la.

— Eu não sou bandido... — Blaine resmungou de forma baixa, mantendo os olhos em sua espada. Eu mesmo a tinha pego quando invadi o Cálice com Bartô, porque sabia que ele precisaria dela se entrasse pro bando. — Então tá, é só isso? — Ele indagou, erguendo o rosto e franzindo a testa. Dorian fez que não, tragando seu cachimbo e soltando uma nuvem de fumaça escura no ar.

— Não, na verdade queríamos ver seu estilo de luta. — Comentei, sorrindo simpático.

— É, eu queria que você e o Ronper lutassem, pra eu poder avaliar seu nível. — Dorian completou, e antes que Blaine reclamasse ofendido ele ergueu as mãos, na defensiva, segurando o cachimbo com a boca. — Vamos lá, sem crise. — Falou, tirando o objeto dos lábios. — Só quero ver. Não estamos duvidando da sua capacidade nem nada.

— E porque você? — O loiro questionou, enfezado. Dorian deu de ombros.

— Porque eu sou o mais especialista em análise de combate do bando. O Ronper e o Bartô são melhores do que eu em combate, mas quem tem mais experiência em analisar sou eu. Os dois só sabem na prática, eu sou estudado nesse assunto. — O grandalhão cruzou os braços, tragando seu fumo. — Eu até poderia lutar com você para a análise, porém acho melhor observar como terceiro.

— Ele está sendo modesto, Dorian é um exímio lutador, guerreiro, e cavaleiro. — Desmenti o outro. Com espadas, eu e Bartô realmente podíamos ser um pouco melhores, porém Dorian tinha uma longa história de combates, e era muito famoso em lutas desarmadas. Além de que, quando ele usava seu martelo de guerra, podia-se dar adeus à vitória. — Enfim, se estiver disposto, podemos fazer um treino agora, ou deixar para outro dia se achar melhor. Amanhã teremos esse tempo da manhã livre também, você quem sabe.

Todas as manhãs, tínhamos um certo tempo livre antes de pegarmos a estrada. Agora que sabíamos com certeza que deviam haver grupos de resgate atrás de Blaine por todo canto daquele estado, e que já tínhamos cometido uma quantidade considerável de crimes, precisávamos garantir que nosso caminho estaria seguro todas as vezes antes de continuar viagem. E por isso, na noite, pelo menos dois membros do bando pegavam os cavalos e seguiam a estrada em que estávamos nos dois sentidos, para averiguar se o caminho estava ou não livre. Isso rendia algum tempo de descanso pra quem aguardava o retorno dos outros, nessa manhã eu, Blaine e Dorian. Na última noite, Bartô e o meu sacristão tinham ido em direção a Brilho Voraz, cidade para a qual nos dirigíamos, e Selena e Corisseu seguiram a direção da qual viemos, para ter certeza de que não estávamos sendo seguidos. Como partiram no meio da madrugada, provavelmente estariam de volta em poucas horas. E enquanto Hawe não voltava, eu enchia minha cabeça pra não pensar muito nele. Já estava acostumado a fazer isso.

— Você quem sabe o caramba. — Dorian revirou os olhos, e puxou o cachimbo dos lábios, apontando na direção de Blaine. — Puxa essa espada Docinho, quero ver seus movimentos.

Blaine fez uma careta, um pouco cansado. O que era totalmente compreensível, todos sem exceção ficavam muito abalados depois de saberem toda a história dos herdeiros. Percebi que ele tinha ficado abalado nos últimos dias, mas também vi que aos poucos, ele estava voltando ao normal. E provavelmente, agora que sabia de tudo, e estava decidido a nos ajudar, íamos conhecer o verdadeiro Blaine, e não o refém Blaine. Isso era agradável, e imaginei se ele daria uma chance pra Bartholomew agora que estávamos do mesmo lado.

— Não me chame de Docinho. — Ele reclamou, e prendeu a espada às costas ligeiramente, e percebi que ela era longa demais pra ele levar na cintura, apesar de não ser uma espada de duas mãos, e sim de mão-e-meia. Em seguida, puxou a arma da bainha, e a pesou em mãos, como se voltasse a se acostumar com o peso dela. Usava a mão esquerda para segurá-la, o que achei interessante. A espada era uma arma magnífica, que eu e os outros membros do bando tínhamos analisado várias vezes após a termos em nossa posse. A própria bainha já era uma obra de arte: feita de ácer, uma madeira nobre e clara, ela era caprichosamente esculpida em padrões de folhas e flores delicadas, sem mais adornos, mas nem por isso menos bela. A arma em si era o verdadeiro atrativo, que Dorian não deixou de falar, como falara pelo menos trinta vezes nas ocasiões que a observara.

— É uma boa arma. — Ele se aproximou, ficando de frente com Blaine, e gesticulando pro garoto erguer a espada. O grandalhão tragou profundamente, e observou a espada com aquele olhar atento que ele tinha para esses assuntos, com os quais ele muito se identificava. O aço reluziu no sol forte da manhã. — Aço-flor roxo, forjada em estilo comum, espada de mão-e-meia, mais longa que uma espada de mão única, porém mais leve que uma de duas mãos, o que permite uma grande versatilidade de movimentos... É muito bonita, além de que, nas mãos certas, também é eficaz. O punho é envolto com couro de lagarto?

— Lagarto-Esmeralda das Terras Alagadas. — Respondi, reconhecendo o brilho esverdeado que o punho liberava, marca registrada do couro do lagarto, que brilhava mesmo muito depois de arrancado do animal. Blaine anuiu com a cabeça, voltando a abaixar a arma. — Ela tem um nome?

— Gracejo. — Ele falou firme, abaixando a espada. — Foi do meu tio, e passou para mim. É a terceira espada-símbolo da minha família, a primeira é a Bêbada, do meu pai, a segunda é a Dançarina, do meu irmão mais velho, e a Gracejo é a minha.

Fazia sentido. Toda família grande, em especial as que governavam os estados, e algumas que lideravam grandes cidades, tinham suas espada-símbolo, que eram especialmente feitas para serem utilizadas pelos seus membros, e passadas de mão em mão hereditariamente. Gracejo era uma espada que gritantemente anunciava ser dos Becklan do Docestado: além da lâmina longa de metal arroxeado e o cabo recoberto em couro verde brilhante com uma esmeralda decorando, as cores da família, ainda havia uma pequena taça torta marcada em relevo no aço, na base da lâmina larga, e um pequeno cacho de uvas feito em prata adornava a guarda da espada. Era uma arma magnífica, que poderia se passar como a primeira espada-símbolo da família sem problemas.

Gostei de ele ter nos contado aquele detalhe por vontade própria. Era um bom sinal de confiança.

— Certo, é uma beleza de se olhar, e vale a fortuna de uma vida, mas vamos ver se você consegue fazer alguma coisa com ela. Ronper, pode começar. — Dorian se afastou, e eu concordei com a cabeça, desembainhando minha própria espada.

Seguindo ao estilo dos Cavaleiros da Dignidade, minha espada tinha um nome de animal, e também era de aço-flor, mas sem nenhuma cor além do prateado do aço. Eu me aproximei de Blaine, que segurava sua arma com a ponta para baixo.

— Certo. Essa é a Víbora, a espada que recebi quando cavaleiro. — Ergui minha companheira, forjada de forma simples, sem adornos, com um punho envolto em couro velho e gasto. Lembro que ao ser ondenado, a escolhi apenas pelo nome, mas curiosamente me dei bem com ela. Víbora era simples, mas eficaz, e como toda arma pertencente à Dignidade, passara por várias mãos dignas até chegar às minhas, e se tudo desse certo, um dia eu a devolveria para a ordem, e eles a passariam para outro jovem recém-ordenado como cavaleiro. Sua única marca de decoração era a serpente forjada no aço da guarda, que subia pela base da lâmina apenas alguns centímetros, como se ela fosse escalar a arma até a ponta, e a imagem me agradava. — Você não vai prender os cabelos antes de começarmos? — Indaguei, ajeitando o coque que havia feito com meus próprios cabelos negros enrolados no topo da cabeça e presos com uma tira de tecido.

— Não, na verdade aprendemos a lutar com os cabelos presos ou soltos no Docestado. — Blaine abriu um sorriso, o primeiro dos últimos tempos, o que me animou muito, afinal, eu gostava bastante dele e queria ver ele mais à vontade e feliz. Mas achei meio idiotice lutar com os cabelos soltos. Enfim, se devíamos analisar o estilo de luta dele, eu não ia falar nada. Porém não devia ser um nível alto se ele achava que lutar com os cabelos soltos não ia atrapalhá-lo. — Certo, vamos começar logo com isso.

Blaine deu um passo para trás, e eu fiz o mesmo, colocando uma distância de treino segura entre nós. Ele agarrou a espada com as duas mãos e ergueu a ponta, balançando-a levemente para sentir o peso, antes de erguer o rosto para mim e sorrir de forma um pouco selvagem. Lembrei de todas as vezes que tinha reparado num brilho de insanidade naqueles olhos dourados do loiro, e por meio segundo pareceu que vi esse brilho cruzar os orbes. Ergui minha espada de mão única, apertando os dedos em volta do pulso e atentando meus instintos.

— Bom, vocês sabem como é, não se matem. — Dorian comentou. — E sem ferimentos sérios também. Tentem parar os golpes no ar, ou bater com a lateral da espada.

Eu fiz que sim com a cabeça, e fixei meus olhos nos de Blaine. Não podia pegar pesado com ele, além de eu ser um Cavaleiro já condecorado, e um bandido, o garoto estava magro e há dias sem treino. Também tinha o fato de ele ser jovem, e provavelmente ter pouca experiência de luta real, já que era um nobre, e devia apenas ter treinado no seu castelo, e nunca numa luta real.

Pensei nisso tudo acompanhando seus movimentos com atenção, e medindo os meus em resposta. Ele parecia ágil e preciso, pelo menos até agora. O sol, apesar de forte, não influenciava tanto na disputa, então não me preocupei em ficar de frente ou de costas para ele. Decidi que ia esperar ele atacar primeiro e ver como era sua investida, então amenizei o aperto por um instante no punho da Víbora, e a movi discretamente para a direita, provocando uma ligeira abertura para ele aproveitar.

E o loiro o fez. Avançou na minha direção com uma agilidade admirável, erguendo a espada com ambas as mãos e estocando, de modo que precisei responder de forma um pouco afobada, já que não estava preparado pra aquela reação. Usei minha mão livre para impulsionar meu movimento, e nossas espadas se chocaram no ar com um som alto de metal que me era familiar, desviando o golpe dele.

Tive tempo apenas para rodopiar, e já percebi que Blaine era um ótimo espadachim.

Trocamos uma série de golpes rápidos, que causaram uma sinfonia agradável de batalha. Devido minha abertura inicial, quase não tive tempo de reação aos movimentos, o que me deixou em posição defensiva enquanto Blaine me pressionava em sua investida. Após a série de golpes, consegui me recuperar, e com um giro rápido lancei um golpe horizontal, fazendo o loiro saltar para trás e me cedendo um pouco de espaço. Percebi que já estava suando, mas para meu alívio, Blaine também estava.

Investi na próxima série. Ele sabia usar bem a forma da sua espada, intercalando movimentos de uma espada de mão única com movimentos utilizando as duas mãos, o que gerava grande versatilidade e era imprevisível. Sabia manter e ganhar espaço muito bem com a lâmina mais comprida que a minha, e era admiravelmente ágil, apesar de sua precisão falhar em certos momentos, provavelmente devido ao tempo ausente de treino. Precisei intercalar movimentos defensivos e ofensivos com algumas esquivas, e logo dançava com o loiro da mesma forma que dançaria com qualquer outro bom espadachim do bando, apesar de não estar investindo com toda a intensidade ainda.

Na troca de golpes, nossas espadas se encontraram no ar, e o aço das lâminas se equiparou, fio contra fio, num clássico momento de disputa de forças. Precisei medir minha força, pois caso forçasse minha espada e ela escorregasse, poderia cortar Blaine no meio, e percebi que ele fazia o mesmo. Afinal, nenhum de nós queria machucar o outro, pelo menos eu achava.

Estávamos próximos devido à posição, e o esforço que fazíamos ali cobrava seu preço, fazendo gotas de suor escorrerem por minhas costas. Vi uma gota descer pela face de Blaine também. Nossos olhos se encontraram, e vi um certo brilho voraz naquele olhar, o brilho de loucura. Percebi que ele, como todo bom guerreiro, sentia prazer ao retornar seus treinos.

E então, num movimento rápido de sua parte, ele empurrou minha lâmina para frente, e rodopiou. Percebi que havia me distraído naquele olhar insano, e quando notei isso, já era um pouco tarde. Ao rodopiar, ele se aproximara mais de mim, e os cabelos soltos ergueram-se seguindo o movimento, e atingindo meus olhos de forma que os fechei, num reflexo involuntário quando fui atingindo pelo mar de fios prateados. Conclui que tinha sido derrotado.

Em seguida senti ele bater suavemente com a lateral da espada na minha coxa, meu joelho, e depois na minha cintura.

— Morto. — Ouvi ele ofegar, e quando abri os olhos, vi que ele tinha largado a espada púrpura no chão, e se apoiava nos joelhos, encharcado em suor, mas erguendo o rosto em minha direção com um sorriso e uma careta de cansaço.

Ouvi o som típico de palmas solitárias que Dorian emitiu. De alguma forma, aquilo me lembrou que eu passei por aquela mesma cena, lutando contra Bartô quando entrei no bando. Aquilo me fez sorrir, apesar da derrota.

— Olha, e não é que você luta bem? — Dorian elogiou, se aproximando. — Foi uma surpresa agradável. É sempre bom ter alguém com habilidade de batalha no grupo. Não esperava isso docinho, de verdade, achei que você era um nobre mimado que só sabia florear com a espada.

— É, eu tive um bom Hirmo para me ensinar. — Blaine ajeitou a postura, limpando a testa.

— Mas o cabelo foi golpe sujo. — Eu brinquei, sorrindo, enfiando minha espada na bainha e secando minha testa com a manga da minha camisa de mangas longas. Céus, ele tinha conseguido me cansar mesmo.

— O que é bom, já que bandidos jogam sujo. — Dorian elogiou, e eu anui com a cabeça. Blaine sorriu com o elogio. — Vai lá garoto, tem um riacho atrás das árvores pra você se banhar se quiser. Vai precisar lavar esse suor todo. — Dirigiu-se a Blaine, que apenas concordou com a cabeça, visivelmente cansado, e pegou sua espada no chão, guardando-a. — E fique atento para aproximações. Não se afaste muito da espada.

Blaine saiu, cansado, e eu o observei caminhar. Pensei em me banhar também, e receber Hawe um pouco mais apresentável quando ele chegasse.

— Eu menosprezei o garoto. — Comentei, quando o loiro já estava longe o bastante, sem tirar os olhos dele. — O truque do cabelo foi genial.

— Sim. Foi um erro ter dado abertura pra ele no início. — Dorian comentou. — Mas você pegou bem leve. Além de que, foi visível que ele teve um surto de energia porque ficou muito tempo parado e guardando sentimentos dentro dele. Deu pra perceber que ele botou tudo pra fora nesse treino. E não era exatamente raiva que eu vi ali, era mais... Frustação. O que é bem melhor do que raiva. De qualquer forma, você viu como ele ficou exausto assim que terminaram, as condições dele não são as melhores... Ele precisa ganhar peso.

Eu me virei pro grandalhão, que tinha o olhar pensativo e sem foco. Essa era a grande diferença entre Dorian e qualquer outra pessoa comum, ele tinha uma experiência e talento fora do normal para tudo relacionado a combate, e isso fazia dele um membro importantíssimo pro bando. Por mais que eu tivesse a formação mais reconhecida, sendo um cavaleiro, Dorian era de longe, ele era a pessoa com mais capacidade de raciocínio e análise de batalha que eu já conhecera, sendo que apenas os Grandes Cavaleiros, que comandavam a Dignidade se comparavam. Mais ninguém ali do bando teria percebido o que ele percebera naqueles poucos minutos de treino.

— Não diminui em nada o fato dele ser bom com a espada. — Respondi. — Eu realmente peguei leve, mas ainda assim teve alguns momentos que ele me forçou ao limite. Ele comanda bem aquela espada, e olha que ela não tem uma forja tão comum. Os movimentos foram bem inesperados.

Dorian coçou a barba, tragando o cachimbo.

— Foi uma boa decisão manter ele longe daquela arma até ele tomar partido. — Dorian voltou-se pra mim, enquanto Blaine entrava na mata que cercava o rio. — Bartô vai ficar satisfeito em saber sobre essa habilidade, pelo menos o pequeno doce não será um peso morto. Enfim, porque não começamos a organizar as coisas nas carroças? Quero partir logo desse lugar.

Eu concordei, e começamos o trabalho. Algum tempo depois Blaine voltou, como eu já esperava, afinal, agora confiávamos nele, e eu sentia que ele aceitara no ajudar de todo coração. Ele chegou limpo e de roupas trocadas, calado e tranquilo. Então, juntos, nós três começamos o trabalho de apagar os vestígios de nosso pernoite ali, e guardar os poucos objetos que tínhamos tirado dos veículos. Como agora nossas estadias eram apenas por uma noite e não estava chovendo nos últimos tempos, não estávamos armando as tendas e dormíamos apenas com algumas peles, o que ajudava a organizar nossa saída.

Não demoramos muito para organizar tudo e dar um fim nos restos da fogueira que acendemos na noite. Decidi ir até Horo, nosso cavalo preto que estava preso na frente da carroça, e dar uma analisada em seu estado. Na verdade, fui mais para passar o tempo, porque Dorian cuidava muito bem dos animais, mas mesmo assim gastei meu tempo analisando os cascos e o pelo do equino. Afagava o pescoço do animal, que servia tanto para tração quanto para montaria, no momento em que ouvi cascos se aproximando.

Meu coração deu um pequeno salto, e me repreendi por ainda, depois de tanto tempo, sentir essas coisas. Mas não me forcei a esconder minha felicidade, e abandonei Horo, vendo os quatro membros do bando se aproximarem juntos. Deviam ter se encontrado em algum ponto da estrada, ou chegado juntos por acaso. Enfim, o que importava era que Bartô vinha na frente, cavalgando um cavalo que eu não reconheci, e Hawe estava ao seu lado, também num garanhão cinzento que não me era familiar.

Ele estava lindo como sempre, e me senti um idiota pela satisfação que sua imagem me trouxe. Ah, como eu podia ser tão apaixonado por alguém com quem eu não tinha chances lógicas de ficar?

Mesmo assim, ele cavalgando, com suas vestes brancas de sacristão sacudindo ao vento, os olhos azuis brilhando, e a expressão séria de sempre, acenderam aquela pequena chama de Lux no meu peito. Bem diziam que a deusa de Blaine tinha um certo humor negro quando atingia os mortais com seu poder, o amor.

— Pangarés, temos novidades! — Selena gritou animada, enquanto se aproximava com seu cavalo. O animal dela era o mesmo,, um castrado castanho chamado Surto. Corisseu também não trocara de montaria.

Dorian se aproximou, batendo as mãos para se livrar das cinzas da fogueira na qual ele remexeu para espalhá-las. Os quatro montados pararam na nossa frente, e eu vi Hawe abrir um sorriso simpático para nós no meio da sua barba escura, o que me deixou feliz. Enquanto eles desmontavam, visivelmente cansados, percebi Blaine se aproximar lentamente de onde estávamos, mas se mantendo um pouco afastado.

— E ai, tudo limpo? — Dorian perguntou. Bartholomew segurou as rédeas de seu cavalo, e abriu um sorriso para nós. — E que cavalos são esses?

— Vocês não vão acreditar no que está acontecendo em Brilho Voraz. — Falou, e percebi que alguma notícia boa chegara.

=—=

As folhas da grande árvore sob a qual estávamos sentados em círculo fizeram um som agradável quando o vento passou por elas.

— Foi algo estranho. Poucas horas depois se seguirmos em direção à cidade, começamos a escutar uma baderna. — Hawe começou a explicar, mordendo um naco de pão velho que tinha arrumado sabem lá os deuses onde. Percebi que ele estava cansado, com olheiras, mas animado. Ou se esforçando para ficar animado enquanto contava aquilo. Senti-me penalizado por ele. — Foi então que encontramos uma horda de fugitivos que deram tão pouca atenção a nós que sequer entendemos direito o que estava acontecendo. Eles apenas disseram que Brilho Voraz estava o caos. E claro que nós fomos ver o que isso significava.

— Enquanto isso, eu e Corisseu seguíamos em sentido contrário. — Selena continuou, dando tempo para Hawe morder mais um pedaço de pão. Ela também demonstrava sinais de canseira. — E encontramos a mesma situação. Um grupo acampado na beira da estrada, que nos informou que “Brilho Voraz tinha enlouquecido”. Mas ninguém sabia explicar exatamente o que estava acontecendo, apenas disseram que a cidade tinha entrado em conflito interno, metade da cidade estava em chamas, e as ruas estavam tomadas por violência. Eles tinham fugido assim que tudo começou, então ninguém sabia exatamente o porque daquilo. Então decidimos voltar e ver o que estava acontecendo.

Hawe engoliu o pão e tomou um gole de vinho por cima, deixando um filete rubro escorrer pelo seu queixo e passar pela barba curta, descendo por seu pescoço e entrando nas vestes brancas de sacristão. Engoli em seco com a visão, me recriminando por acha-la tão erótica. Porra, eu precisava me concentrar na história.

— Obviamente, chegamos em Brilho Voraz antes de Selena e Corisseu. E realmente, estava um caos. — Ele falou, enfiando o resto do pão na boca.

— Não havia guardas nos portões da cidade, porque sequer havia portões. — Bartô completou, e desviei meus olhos para ele. Apesar da expressão séria, seus olhos brilhavam satisfeitos. Era o único que não parecia nem um pouco afetado pela noite agitada, porém ele era sempre resistente a ficar privado de sono. — Podíamos ouvir a gritaria, mas não víamos ninguém por perto, então entramos na cidade. Realmente, muitas construções estavam em chamas, e muitas estavam demolidas por visível combate recente. Até mesmo no Castelo do Brilho tinham tentado botar fogo, o que foi um pouco de tolice já que o castelo é banhado em bronze, então não incendiou. Encontramos com a guarda extremamente desorganizada, e alguns corpos, mas nada assombrador. Eu já estava me sentindo nervoso, até encontrar um homem num beco, que nos chamou para que nos abrigássemos ali, fora de perigo.

— Foi ele que nos explicou o que acontecia. — Hawe continuou. — E foi surpreendente saber. Mas uma surpresa agradável.

— Tira essa cara de defunto do rosto docinho, não é uma guerra de estado. — Bartô interrompeu, e pude ver Blaine fechar mais a cara, que já estava feia por causa dos rumos da conversa. O que era compreensível, afinal, o governo daquele estado pertencia aos Becklan, e problemas em uma cidade podiam prejudicar a família governante. Blaine abriu os lábios para rebater, mas Hawe gesticulou com a mão em sua direção.

— Primeiro me escute. — Falou, de forma gentil. — Quem tem a senhoria de Brilho Voraz?

Blaine ergueu uma sobrancelha. Enquanto todos nós estávamos sentados no chão, sob a frondosa árvore, ele era o único em pé e mais afastado, apoiado no tronco de uma outra árvore.

— Lady Materic. Os pais morreram no último ano durante uma viagem de barco, e ela como filha única tomou o cargo de liderança da cidade pra si. É uma senhora jovem e querida, ainda não tem nem 30 anos, e ficou muito tempo na posição enquanto seus pais viajavam pro outro lado do mar, acho que a mãe dela era das terras além mar, não estou certo. Ela estava de casamento arranjado pra esse ano, acho que ela mesma tomou a liberdade de organizar o evento. — Blaine respondeu, colaborando. E Hawe sorriu.

— Exatamente. Pois bem, pelo que descobrimos, a intriga na cidade ocorreu porque um homem, enviado pelo Rei Tornrey, chegou hoje à cidade. Segundo o homem que nos contou, um cavaleiro da guarda real. Enfim, ele veio com trinta homens, e uma petição para destronar a senhora Materic. Em nome do rei.

Eu ergui as sobrancelhas. Aquilo era um furo na organização política de Jeera, afinal, apesar da soberania do rei, para este tipo de ação ele devia mandar uma ordem oficial ao governador. Intervenção direta sobre outros estados era terminantemente proibida. Só que isso não era o verdadeiro caso, porque Tornrey fazia isso com frequência, desrespeitando as leis e quebrando acordos. Ele não era um bom rei. O verdadeiro detalhe surpreendente foi isso ter virado uma batalha.

O que queria dizer que o povo não aceitou a ordem infundada do rei. E era a primeira vez que isso acontecia.

— Ele interviu diretamente, sem falar com meu pai? — Blaine perguntou, parecendo chocado. Ele devia conhecer as leis de política. Hawe confirmou com a cabeça.

— Sim. Você precisa entender que Tornrey é o homem que dará fim à vida das pessoas se não for derrubado, ele não é o que todos imaginam, é um soberano ruim, abusivo, e que não respeita as próprias leis. — Meu sacristão virou o resto de seu odre de vinho, sem derramar nenhuma gota, para meu alívio e decepção mútuos. Ele tinha um brilho animado em olhos.— Mas Blaine, o povo se rebelou contra isso. O que nunca aconteceu antes. Rebelou-se e conseguiu impedir que a ação fosse tomada. Isso é muito bom. Claro que alguns tomaram o partido do cavalheiro, e talvez esses tenham vandalizado a cidade, mas a grande maioria foi contra essa ação tirânica.

— Talvez, tenhamos o apoio de mais pessoas do que imaginamos. — Bartô encerrou. — Não ainda, claro. Mas quando tudo estiver preparado pra derrubar o rei. Enfim, hoje é o grande dia para irmos à Brilho Voraz.

— Tem certeza? Depois de tudo isso que está acontecendo ali? — Questionei, desviando meus olhos de Hawe e encarando os outros membros.

— Sim, eu e Selena descobrimos, ao chegarmos depois na cidade, que os moradores farão uma grande comemoração por terem salvo a Senhora Materic, apenas iam terminar de apagar os incêndios na cidade e prender o resto dos homens que foram contra a lady. É a ocasião perfeita para passarmos despercebidos pelo local, eles estão felizes, até mesmo aceitaram trocar os cavalos de Bartô e hawe, que estavam cansados, por animais descansados. E com sorte, podemos colher informações o bastante sobre Castelo do Brilho, já que Blaine afirmou saber pouco sobre ele. É a ocasião perfeita pra inclusive roubarmos o castelo já, e sumirmos na estrada. — Corisseu afirmou, com aquele sorriso selvagem. Todos ficaram em silêncio por um instante, ponderando a ideia. Ouvi Dorian bater as mãos, animado.

— Então o que estamos esperando? Temos uma festa para ir! — Ele anunciou, e todos se levantaram animados, incluindo eu. As coisas pareciam estar caminhando, mesmo que eu soubesse que aquilo era uma vitória muito inconsistente e pequena, e que talvez gerasse mais mal do que bem. Mas por enquanto, ia deixar alimentar minhas esperanças.

Blaine foi o primeiro a se afastar na direção das carroças, e eu entendia os motivos. Preocupação com seu estado, falta de convivência conosco... E muito mais. Enquanto todos começavam a se afastar, Bartô bateu em meu ombro.

— Dorian comentou que você treinou com o garoto hoje, fiquei feliz com o que ele me disse. Ainda está sendo duro pra ele, e provavelmente ele está morrendo de preocupação agora. — Ele murmurou pra mim, enquanto suspirava, finalmente aparentando cansaço. —Você pode conversar com o Hawe, por favor? Ele precisa descansar, mas teima em passar o dia pensando num plano para como vamos agir em Brilho Voraz, então vai pedir que você faça Lágrimas de Coruja pra ele. Não faça, ele precisa dormir.

Eu observei Hawe, que ainda estava em pé, ajeitando a faixa de sacristão nos ombros. Segurei meu sorriso ao observá-lo, e me voltei para o líder do bando.

— Tudo bem Bartô, eu cuido do velho. — Sorri pra ele, afagando seu ombro com carinho. — Tenha paciência com o garoto.

Bartô revirou os olhos.

— Ele está me ensinando a ter mesmo paciência. — Riu baixinho, antes de se afastar.

Então eu me aproximei do meu amado, com o peito torcido de felicidade e aquela sensação que nunca me deixava, a de decepção pelo conhecimento de que eu nunca o teria para mim.

— Ah, eu estou mesmo ficando velho pra essas coisas. — Ele ergueu o rosto pra mim, após avaliar se a faixa azul estava bem colocada no pescoço. — Queria ter o ânimo de vocês, mas pra ser sincero, estou exausto. — Ele sorriu, e começou a caminhar pras carroças.

— Você não devia se forçar. — Eu falei, enquanto caminhávamos juntos na direção das carroças. Vi de longe Bartô gritando algumas ordens antes de entrar na carroça onde Blaine estava. — Descanse um pouco agora, eu sei que acompanhar o Bartô não é fácil nessas viagens noturnas.

Hawe sorriu, daquela forma cansada e encantadora, e bateu a mão em minhas costas de forma gentil, afagando levemente de forma amigável, mas que me encheu de vontade de ataca-lo, jogá-lo na grama, e beijá-lo.

— O Bartô que te mandou dizer isso não é? Vamos lá, uma dose de Lágrimas de Coruja não faz mal pra ninguém, nem mesmo um velho como eu. — Ele abaixou a mão, rindo, e se afastou, acelerando o ritmo.

Deixei-me ficar para trás apenas para observá-lo, e não consegui segurar um sorriso alegre. Ele era teimoso, sempre querendo se doar mais do que qualquer outra pessoa, naquela bondade e gentileza inerentes a ele, que o faziam um sacristão perfeito. Por isso, toda vez que sentia que precisava ficar acordado, pedia que eu arranjasse uma dose de Lágrimas de Coruja para ele, uma poção que tirava totalmente o sono da pessoa, mas tinha efeitos colaterais grandes se consumida demais, como um mal estar no dia seguinte, tremedeira, calafrios, febre, perda de força e fragilidade emocional, podendo chegar até a morte. E claro que eu não devia deixa-lo fazer isso.

Só que para Hawe, eu nunca diria não. Nem em relação às Lágrimas de Coruja, nem em relação a nada.

Notas finais
Vou sentir saudades viu pessoal, mas espero que entendam mesmo a pausa. Eu juro que voltarei.
Beijos! E acompanhem o twitter.com/henacarter e o henacarter.tumblr.com para ficarem atualizados com minhas notícias!
Beijos, vou sentir saudades de vocês, apareçam na minha outra fic T-T
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