As Treze Relíquias.

15 Capítulo 15 - Eriko Fontarr, o Rose.


Notas iniciais
Oi lindos!
Primeiro, obrigada a todos os reviews maravilhosos! Eu quase morro de felicidade lendo eles, vocês são leitores especiais.
Segundo, como sempre, desculpem a demora! As coisas estão meio complicadas pra mim, quem me acompanha no twitter sabe.
AGORA, sobre esse cap, é importante ressaltar:
1 - Apesar de parecer parado, ele serviu para dar mais detalhes nos membros do Grupo de Resgate, que é a outra parte da nossa história. E sim, tem acontecimentos nesse cap que são relevantes pra história!
2 - Eu não sou fã de crossdress, nem de ukes muito femininos, mas sei lá, o Eriko é um caso a parte, espero que gostem! Lembrando que o Luxeno é UNISSEX, então tecnicamente nem é crossdress haha.
3 - Capítulo grandinho! Espero que gostem.
Uma boa leitura a todos!

Eu dei as costas para Ted e olhei por cima de meu ombro, afastando meus cabelos para o lado para que minhas costas ficassem visíveis. A luz do lampião de óleo que havíamos acendido na tenda dançava sobre o tecido da mesma, e eu percebia minha pele brilhando alaranjada.

— E então, ficou bom? Ou achou muito vulgar? Tem de ser chamativo, mas não quero que fique vulgar. — Questionei, esperando que ele falasse algo, mas o ferreiro não se proclamou. Soltei um suspiro sem paciência e torci mais o pescoço, observando o garoto pelo canto dos olhos e vendo que ele tinha um olhar vidrado e a boca aberta para minhas costas.

Virei-me com um sorriso, e bati com as costas da mão de leve no queixo dele, assuntando-o.

— Nem crie esperanças, ou vai ficar passando vontade. — Brinquei, sem maldade. Ted deu um pequeno pulo para trás, assustado, e corou no mesmo momento. Achei um pouco engraçado, mas me concentrei nas minhas obrigações, e senti-me satisfeito por ter recebido aquela reação dele. Teria me ofendido em outra ocasião, mas naquela noite o objetivo era atrair aqueles olhares e expressões boquiabertas mesmo. Além de que, era o Ted, e do jeito que ele era inocente e simplório ficaria boquiaberto até mesmo com seu próprio reflexo na água. Não dava para se ofender com ele, nossa diferença de idade era de apenas um ano, mas ele era muito mais inocente do que eu, talvez era até virgem.

— Ah, desculpe... Você está... Muito bonito. — Falou sem graça, e eu sorri simpático para ele, sentindo meu ego inflar de leve como sempre acontecia quando me elogiavam. Era o mal do povo do Docestado, a aparência era muito valorizada, e isso era ainda mais aplicável a mim.

Mas nessa noite, minha beleza não era só um capricho. Era uma arma das mais poderosas.

Baguncei os cabelos do garoto com delicadeza, e soltei um risinho, dando-lhe as costas novamente e encarando o pequeno espelho de bronze que eu pendurara numa das traves de minha tenda, ajeitando meus cabelos.

— Obrigado Ted, você é bem gentil. — Agradeci. — Por favor, avise os outros que eu estou pronto então. — Sem nenhuma palavra, o garoto saiu, apenas com seus passos anunciando sua retirada. Balancei a cabeça, achando divertido.

Ted Kassan era o tipo de jovem que ninguém daria uma Codorna por ele. Com seus 16 anos, ele não era um grande destaque no Cálice: servia nas cozinhas, na guarda do castelo, e fazia as vezes de um ferreiro de vez em quando, sem se destacar em nenhuma dessas funções. Tudo que Ted fazia era razoável. Razoavelmente bom em combate, razoavelmente bom como ferreiro, razoavelmente inteligente. O único filho dos Kassan não passava em nada do comum. Até mesmo na aparência ele não chamava a atenção: cabelos castanhos, — nem claros, nem escuros— num tom de madeira quase idênticos aos olhos. Um corpo robusto, mas não enorme, apenas um pouco mais forte do que a maioria dos rapazes de sua idade, mas pouco. A única coisa que podia diferenciá-lo era que ele era alto, mas também nem tão alto, com 1,87m de altura. Ou seja, ele era um rapaz comum que nunca atrairia os olhares de alguém para uma missão daquela importância, com apenas alguns homens de confiança do herdeiro do Docestado.

Mas Lortan o chamara para adentrar a equipe. E claramente, não chamara apenas pra dar uma chance ao garoto de presença apagada.

Quando o Jovem Senhor Lortan me convidara para aquela missão, eu já sabia suas razões. Lortan nunca foi nenhum tolo, nem eu o era. Nunca fui nenhum exímio lutador, ou guerreiro de renome, ou mesmo um cavaleiro sem ordem como alguns jovens da minha idade. Nem bom com a maldita espada eu era, o que sempre foi uma decepção pro meu pai, que aos 15 anos entrara para a guarda do Cálice como a maioria dos garotos fazia e hoje era chefe da guarda principal. Sinceramente, meu único reconhecimento em Bela Colheita era por ser bonito, e isso fazia com que se pensasse, assim como pensavam de Ted, por que inferno eu tinha sido chamado para aquela missão tão importante com objetivo de resgatar o Jovem Senhor Blaine.

A verdade era que existem armas tão letais quanto uma espada. Informação, por exemplo.

Especialmente nessa missão, informação era mais preciosa do que ouro, já que Blaine desaparecera sem deixar rastros. E existem várias maneiras de se conseguir informação, todas técnicas que se derivam de apenas duas: manipulação ou espionagem. Nenhuma delas se aplica com uma espada, a não ser que você não se importe em chamar atenção, e nós nos importávamos. Mas bem, Lortan era genial, pois tinha um olhar atento a coisas que ninguém mais via: o ruivo tinha o dom de enxergar as qualidades das pessoas, qualidades que nenhuma outra pessoa conseguiria reparar. Ele não chamara Ted apenas pro garoto ter seus dias de glória, ou porque não tinha mais candidatos à vaga. Não, ele conseguiu perceber no rapaz simplório algo que ninguém havia percebido ainda: Ted conseguia fazer de tudo. Não com maestria, nem com destaque, mas conseguia, e isso era algo que poucos tinham: habilidade manejar uma espada razoavelmente bem, e também costurar, cozinhar, forjar. Ter Ted no grupo era o mesmo de ter um cozinheiro, um ferreiro, um criado, um cavalariço e muitas outras funções que ele desempenhava.

O mesmo valia para mim e Devas Clastor, jovens que não tínhamos grande destaque no Cálice. Lortan percebera que nós tínhamos nossas habilidades, e que necessitava delas. Afinal, como eu disse, precisávamos de informação, e isso eu e Devas conseguíamos com facilidade. Devas era o grande bisbilhoteiro do castelo, e estava sempre por dentro de tudo que acontecia. Eu era mestre na arte da manipulação. Nos meus 17 anos de vida, descobrira que minha beleza peculiar — os traços delicados que eu puxara de minha mãe, e todos consideravam femininos. —garantiam a mim certo controle sobre as pessoas, em excepcional os homens. E isso me concedeu muitas regalias durante meus anos, e acesso a informações preciosas. Pois era fato: um homem tentando impressionar, normalmente não segura muito a língua na boca.

Por essa razão, naquela noite, eu estava vestido da forma mais chamativa o possível. Sinceramente, eu já costumava chamar atenção, mas com aquelas vestes era impossível não atrair o olhar de todos. Eu nunca tinha usado um Luxeno antes, mas já tinha visto várias pessoas usando em festas pelo Docestado. O Luxeno era uma roupa típica nossa, e era utilizada apenas pelas pessoas mais belas, e escolhidas pelos Sacristãos para representarem Lux durante as festas. Eu não tinha sido escolhido por nenhum sacristão, mas também não tinha sido convidado para aquela festa.

Que fosse, o importante era que eu estava com as vestes: uma peça única de tecido com um corte peculiar e utilizada por homens e mulheres, mas visivelmente puxada para o lado feminino, afinal Lux era uma deusa mulher, e todos os escolhidos para representa-la ou eram mulheres, ou homens que como eu, tinham traços mais delicados. Se assemelhava mais à um vestido longo, de tom violeta, e com um bordado cor-de-rosa na frente em padrões de uma trepadeira. O tecido era leve e justo no corpo, afrouxando apenas depois dos quadris e as mangas curtas deixavam os braços desnudos até os ombros, num ar visivelmente sensual. Além disso, um corte lateral no tecido exibia a perna direita até quase a virilha quando eu andava. Porém, o detalhe mais chamativo de todos na veste era a parte de trás: aberta e mantida presa por um cordão de cetim brilhante e rosado, a veste deixava praticamente toda as costas exibida por um corte em forma de “V”. Esse detalhe me valorizava ainda mais, pois exibia toda a minha tatuagem: três rosas roxas grandes, com caules negros e espinhosos entrelaçados.

Assim, eu sabia que as chances de chamar a atenção dos homens naquela festa em Monte Poente eram mais altas, e era com isso que eu ia conseguir informações. Precisávamos, muito, de informações. A última pista que tivemos foi o assalto que ocorreu no Castelo Solar, a morada de Lorde Bradson, em Monte Poente. Segundo os boatos, um criminoso ruivo e um homem de longos cabelos negros eram os responsáveis, descrições que encaixavam com as memórias de Lortan sobre os sequestradores de Blaine. Então estávamos ali, esperando conseguir mais informações sobre aquele assalto que vinha sendo mantido em sigilo pelo Lorde, para não abalar a confiança dos cidadãos de Monte Poente.

Era a primeira ação criminosa desde o roubo à Vila das Tortas, trinta dias atrás. Nesse meio tempo, ficamos sem rumo, pois aquele primeiro roubo não tinha nenhuma evidência, e nem sabíamos para onde ir. Eu mesmo já estava ficando sem esperanças, e Lucian e Lortan pareciam que entrariam em colapso em qualquer momento, brigando todas as noites. Agora, esse novo crime ocorrera, enquanto estávamos na estrada, vagando próximos. Aquilo nos trouxe novamente uma direção para se seguir, e pra ser sincero eu me senti grato por isso. Então, não podíamos perder essa bandeja, porque era a primeira vez que estávamos próximos dos bandidos desde que saímos do Cálice, mais de 30 dias atrás. E o escolhido para colher as informações agora, era eu.

Claro que Lortan, como o herdeiro do Docestado, poderia exigir informações de qualquer cidadão dali. Mas a discrição era a nossa maior arma para evitar que os sequestradores fugissem. E se ele aparecesse, os criminosos logicamente saberiam e dariam no pé.

— Uou. É, isso caiu bem em você. Mesmo. — Ouvi Lucian falar, e me virei, terminando de trançar meus cabelos negros. Era a única coisa que eu herdara do meu pai, os cabelos negros e lisos, tão negros que chegavam quase ao brilho arroxeado. Sorri e soltei a trança presa por um cordão, sentindo a ponta dela bater nas minhas nádegas. Lortan entrou atrás dele na tenda e o empurrou pro lado com um olhar severo. Não gostava de comentários desnecessários.

— Ótimo. — Ele disse seco, tomando a frente e se aproximando de mim. Agradeci com um gesto leve de cabeça.

Lortan não era o mais carismático dos Becklan. Perdia, de muito, para Blaine e o próprio pai, mas a postura séria e severa agradava a alguns. Passei a gostar mais dele depois que me convidou para a missão, mas sempre o admirei como um herdeiro sério e responsável. Blaine podia ser carismático, mas nunca chegaria aos pés do irmão nesse aspecto de seriedade.

Devas também entrou, encolhido e nervoso como sempre. Estava vestido de forma discreta, um manto marrom e velho envolto em seu corpo. Bisbilhotaria, como sempre, e eu tinha certeza que apesar dessa postura nervosa, ele ia se sair bem, porque ninguém nunca prestava muita atenção nele. Por último, Poetro entrou, e a tenda ficou cheia. Dei um passo para trás, e eles se organizaram na minha frente. Ted provavelmente havia ficado de segurança lá fora.

Fechei o rosto para o sorriso que Poetro me lançou. Desgraçado, nojento...

— Bem, você sabe quais são as ordens. — Lortan chamou a minha atenção, e voltei-me para o seu olhar repreensivo. Ele repousou a mão sobre o cabo de sua espada. Sua barba estava voltando a crescer novamente, e seu rosto tinha ares mais severos que o comum. — Confio em você para nos trazer informações. E Devas também.

— Mas tome cuidado. — Lucian aconselhou, tomando a frente e repousando uma mão no meu ombro. — Tenho certeza que vocês não vão falhar.

Eu apenas assenti com a cabeça. Tinha confiança em minhas habilidades de persuasão, já estava acostumado a usá-las. Ainda assim, senti um pequeno frio na base do meu tórax.

— Certo. Termine de se arrumar se precisar, Devas esperará com os cavalos para irem. — Lortan anunciou, e eles saíram, me lançando um último olhar de apoio. Mantive meu olhar em Poetro, mas ele não se moveu, e senti minha irritação crescer.

Nunca mantive uma relação boa com os homens do castelo. Eu era alvo de muitas piadas, e achava muito ofensivo grande parte dos comentários que eles faziam sobre mim. Meu pai mesmo morria de vergonha, e demorei anos para aceitar a minha aparência mais delicada do que a da maioria dos homens por causa disso. Tinha a fama de arisco por várias vezes ter encostado minha adaga — que no momento ia presa na minha coxa, colada em minha pele por baixo do Luxeno. — no pescoço de homens que tinham a língua comprida demais.

Claro que, eu gostava de alguns dos flertes que recebia. Haviam homens interessantes e galantes no castelo, até mesmo na guarda do Cálice. Só que esses eram poucos. Na maioria das vezes, os flertes eram mais assédio verbal do que flertes. Logo, poucos eram os homens do castelo com quem eu me relacionava bem. Não nutria ódio por nenhum deles, mas eu era um pouco esquentado e não gostava das coisas que ouvia.

Só Poetro Hurnnyg era um caso à parte. Sendo um dos chefes da guarda, ele era subordinado direto do meu pai, mas isso nunca o impediu de flertar comigo. Para ser sincero, eu nunca soube se era mesmo flerte ou não, porque o desgraçado nunca se decidia. Poetro fora casado por quatro anos, dos 17 aos 21, quando sua mulher, uma moça bonita com pulmões fracos, faleceu. Desde então, nunca se soube de outro relacionamento do homem jovem, apesar de ele ainda ser novo e um bom partido para a maioria das moças. Seus flertes comigo eram provocativos, e eu assumo, foram atrativos quando iniciaram. Ele era galante, charmoso e bonito, e despertou meu interesse. Só que o flerte acabava nisso. Só no flerte.

Mesmo com todos meus sinais positivos, ele nunca tentou nada a mais. Acabava apenas me dando as costas, um sorriso, e se afastando. Até nas vezes que eu tentei, descaradamente, algo com ele — algumas vezes para descobrir alguma informação. — ele negava, o que nunca aconteceu com nenhum outro homem com quem eu tentei algo. Era isso que me irritava nele, a merda de sua indecisão, esse costume de provocar e se afastar. Isso me deixava puto da vida.

Não que eu fosse apaixonado por ele, ou algo assim. Mas ninguém tem o direito de ficar brincando com os outros daquela maneira. Por esse certo ressentimento com o idiota, eu fui curto e grosso.

— O que você quer? — Questionei, ajeitando o anel de ametista na minha mão direita. Poetro apenas sorriu e se aproximou.

O maldito era bonito. Pele bronzeada, típica dos habitantes da Ilha da Argila, cabelos castanhos e lisos, um corpo treinado pelo serviço de guarda, e olhos castanhos bem escuros, além dos traços másculos. Aproximou-se, e parou em minha frente, de forma que precisei erguer meu rosto levemente para encará-lo. Eu era alto, 1,83m de altura, mas o maldito tinha 1,97m. Estava usando roupas bem simples: uma camisa de tecido claro, calças marrons, um colete verde e botas de couro até as panturrilhas.

Ele encostou a mão calosa no meu queixo, e ficou sério, fechando o sorriso. Comprimi meus lábios, irritado, e afastei a mão dele bruscamente, me virando para dar-lhe as costas, mas sendo impedido pela mesma mão forte no meu pulso, firme, mas gentil.

— Você ficou muito bonito mesmo com esse Luxeno. — Poetro falou, sua voz grave e baixa, e senti um pequeno calor na minha face. — Não se arrisque demais. Nenhuma informação vale mais que a sua segurança.

Ele estava inclinado, nossos rostos nivelados. Por meio segundo, eu me perdi naqueles olhos escuros, mas acordei cedo o bastante para puxar meu pulso do aperto da dele, e dar-lhe as costas.

— Não preciso dos seus conselhos. — Proclamei, ajeitando meu anel no dedo, e a gola do Luxeno. Encarei o espelho e dei de frente com seu reflexo. Observei ele colocar a mão no meu ombro, no mesmo momento que a senti.

— Você devia soltar os cabelos para cobrir suas costas, sua tatuagem vai te identificar muito fácil. — Ele aconselhou, sério. — Além de estar erótico demais. Nem todos os homens com um pouco a mais de álcool nos miolos conseguem controlar seus desejos quando estão perante um jovem tão atraente. Você pode ser violentado ou...

Consegui puxar minha adaga através do corte inferior do Luxeno, que exibia minha coxa. Era um bom local para guardar a lâmina, porque o acesso era simples e discreto, e agora eu tinha prova de que era efetivo. Eu podia ser muito ruim com a espada, mas eu era ágil como o mais habilidoso dos ladrões, e ninguém era páreo para a minha adaga. Nem Poetro, por isso a apontei pro pescoço dele, segurando o tecido de seu colete com a outra mão. Os olhos do moreno se arregalaram em surpresa, e mantive a lâmina um centímetro afastada da sua pele.

— Eu sei me cuidar, Hurnnyg. — Avisei em tom baixo, sentindo minha irritação aumentar com a expressão séria dele. — Nem um homem com pau de ferro vai estar muito animado pra me violentar se eu cortar a garganta dele antes. — Abaixei minha mão repentinamente, e o soltei, voltando a dar-lhe as costas. Ouvi um suspiro alto, e a mão forte no meu ombro me forçou a virar repentinamente novamente.

— Não se sujeite a nada que não quiser. — Ele falou, e seu rosto estava inclinado, a poucos centímetros do meu. Podia sentir seu hálito quente e com cheiro de canela. Ele costumava mascar, para afastar o mau hálito, assim como a maioria dos homens da guarda do Cálice. Sua voz grave não estava divertida ou galante como das outras vezes, mas tinha um tom sério e preocupado. — Por favor.

— Já te falei que sei me cuidar... — Murmurei, mas não terminei a fala.

Novamente ele colocou a mão suavemente no meu queixo. Pelo tom de sua voz, nossa proximidade, e o brilho nos olhos escuros dele, imaginei que íamos nos beijar naquele momento. Minha mente se desligou, e o cheiro de canela pareceu me inebriar. Aquele olhar castanho parecia me sugar para si, e respirei fundo quando ele acariciou meu rosto com o polegar. Estava perdendo o controle. Não queria, mas estava. Dessa vez, íamos nos beijar, e...

— Não sabe. Já está perdendo o controle. — Ele falou, e abriu um sorriso calmo, se afastando com delicadeza. Arregalei os olhos, surpreso, e fiquei boquiaberto enquanto ele me dava as costas e se afastava, parando na entrada da tenda e se virando para mim, com o rosto sério novamente. — É sério Eriko, tome cuidado. Não quero que se machuque.

Minha compreensão cresceu. Apertei minha mão no cabo da adaga que ainda não guardara.

— Vai tomar no cu Hurnnyg! — Eu gritei enquanto ele saia, sentindo meu rosto queimar. Era por isso que eu odiava aquele cara, desgraçado.

Mas sério mesmo... eu precisava me controlar, ou eu ia acabar sofrendo abuso.

=—=

— Acredite, eu sei do que falo. — O rapaz apertou mais os dedos na minha cintura, e seu hálito de vinho bateu na minha bochecha. Tive de me segurar para não fazer uma careta, e soltei um sorriso charmoso. — Foi o bando do Bartholomew Lucci que roubou o Castelo Solar. Eu sou da guarda pessoal do Lorde Bradson, e o chefe já tinha conhecido Lucci. Ele o viu e me falou, eu juro.

— Acredito em suas palavras. — Falei, em tom de flerte, colocando uma mão na curva do pescoço dele. Um grupo de moças passou ao nosso lado, e soltaram risinhos ao nos ver, ele com uma mão na minha cintura e uma taça de vinho na mão livre, e eu com uma mão no ombro dele. Estávamos próximos e conversando assim há alguns minutos já. Aqueles eram risinhos de moças virgens e inocentes, mas minha irritação com o homem porco aumentou.

Bem, pelo menos ele era bonito, ao contrário dos primeiros que me cortejaram. Não recordava bem seu nome, mas era um jovem cavaleiro da guarda, com os cabelos loiros como trigo dourado, e grandes olhos azuis. Tínhamos conversado a conversa com um “Você não é daqui não é? Com um rabo desses, eu te reconheceria” que me faria dar um soco nele em qualquer ocasião, mas naquele dia, serviu para nos apresentar. Já tinha dado conversa a alguns outros homens, mas todos eram feios e ainda mais nojentos, além de que não estavam alcoolizados o bastante para falar alguma coisa de valor. Já o jovem cavalheiro não. Depois desse flerte nada educado, ele já se aproximou e começou a se gabar de seu posto na guarda, e de como ele era bem informado de tudo que acontecia, como era o homem de confiança de seu chefe, e sobre a promoção que ele estava para receber.

Conversa inútil em grande parte, até ele começar a soltar a língua depois de alguns minutos exercitando a minha paciência com aquele bafo azedo de vinho barato. Se bem que não era de se esperar grandes coisas de um festival da cidade, bem diferente dos banquetes no Cálice dados pelo Lorde Malbec. Naquele festival a nível de cidade, as maiores celebridades eram mesmo os homens da guarda, ou um e outro Hirmo do Castelo Solar que decidira sair de casa naquela noite. Ainda assim, informações interessantes estavam saindo da boca daquele jovem depois de eu incluir o assunto do crime na conversa.

— Mas achei que o Peregrino das Trevas tinha sido morto. — Comentei, e ele soltou um risinho, aproximando mais nossos rostos. Pelo canto do olho, pude ver Devas passando, todo enrolado no seu manto velho. Não me lançou nem um olhar, e sumiu de meu alcance de visão. — Tem certeza de que foi ele?

— Sim, meu chefe não mentiria. Os boatos é que o homem morto nem era o Lucci. Dizem que foi uma armadilha para despistar os Becklan da cola deles. Ainda assim, acho um grande feito os nobres terem saído em busca desse bando desgraçado. Poucos governadores enviariam seus próprios filhos em missões como essa. — Ele tomou mais um gole de sua taça, e ao baixa-la deu um sorriso animado, olhando para algum ponto atrás de mim. — Ah, olha ali o meu colega de guarda. Ei, Breen! Aqui!

Franzi minha testa, disfarçando minha irritação. Merda, se aquele fosse um guarda um pouco mais ciente da situação, ia acabar segurando a língua do meu poço de informações. Segui o olhar do loiro, e vi um jovem se aproximar. Era bem magrelo e não muito alto, com um rosto moreno cortado por uma cicatriz enorme e brilhante. Aproximou-se com um caneco de madeira em mãos, e expressão apática.

Afastei-me delicadamente do guarda, me pondo ao seu lado para receber o outro que se aproximava. Ele manteve uma mão bem firme na minha cintura, e eu sorri simpático, mas já enojado do homem. Provavelmente só queria me exibir para todos os outros da festa, e por isso estava com aquela postura possessiva.

— Kon. — Breen cumprimentou o guarda que mantinha a mão na minha cintura, e deu um polido aceno de cabeça na minha direção. Pelo menos, ele parecia educado.

— Ah, Breen, achei que você não viria. Esse é o Breen Grado, e é meu parceiro de guarda. — O loiro sorriu para mim, e em seguida voltou seu olhar pro outro. — Breen esse é o... — Ele voltou o olhar para mim, como se pedisse ajuda.

Eu não tinha me apresentado, e já conversávamos há meia hora sem ele se importar. Bom, acho que ele estava mais interessado em conhecer o meu “rabo” do que minha personalidade.

— Pode me chamar de Rose. — Eu inventei de última hora. Podia parecer um nome de mulher, mas era o nome do homem com quem eu perdera minha virgindade, na época que vivi com a minha mãe em Pontamar. Sabia que, em algum reino do outro lado do mar, de onde ele viera, Rose significava rosa. Foi ele quem me inspirou a fazer minhas tatuagens nas costas, mas isso foi antes de ele desaparecer no mar, sem dizer nem um adeus. — Rose Flewt. — Completei, para dar mais credibilidade a minha mentira.

— Muito prazer, Rose. — Breen cumprimentou, dessa vez com mais firmeza, e reparei seus olhos dançarem por meu corpo. — Vejo que veio aproveitar as festividades do Dia Solar.

Abri minha boca para responder, mas Kon, o guarda loiro e possessivo, foi mais rápido.

— Ah sim, ele ouviu falar sobre a festa. Estava comentando com ele sobre o crime que aconteceu nesses dias. — Ele comentou, e eu tive de disfarçar novamente minha raiva. Breen ergueu uma sobrancelha para mim, e em seguida tomou um gole de sua caneca.

— Sei. — Respondeu com simplicidade, e encarou-me com os olhos seriamente. Senti um pequeno nervosismo. Eu conhecia os homens no geral. Kon era o tipo interesseiro imaturo, que usava cortejos sujos para disfarçar a falta de confiança que tinha em si mesmo. Era fácil manipulá-lo, porque ele nunca esperaria que alguém daria conversa à ele. Sabia que, se em algum momento eu precisasse me afastar dele conseguiria, pois ele não passava de um inseguro. Agora, aquele olhar frio do tal Breen era diferente. Era o olhar de um homem faminto, interessado no que havia debaixo daquele Luxeno que eu vestia, e que não se afastaria com facilidade. Aquele era o tipo de cara que tentaria me forçar a alguma coisa.

— Pois é, eu estava dizendo que os responsáveis são do bando do Peregrino das Trevas. Você deve ter ouvido falar deles antes não é? — Kon se virou para mim com um sorriso. — Breen não é daqui também, veio para o Docestado no último mês. Na verdade ele vivia nas Terras Inundadas. Era lá que o Lucci estava antes, não era? — Ele voltou-se pro outro novamente, com uma sobrancelha erguida, e acompanhei seu olhar.

— Na verdade, não era o Peregrino. Era o bando da Rosa de Fogo. — Breen corrigiu educadamente, e percebi Kon morder o lábio, nervoso por ter cometido um erro. Pobre coitado. — Mas dizem por aí que todos esses bandos que vem cometendo crimes pelo reino estão mancomunados. Imagino o quanto eles são fortes unidos, pois a fama de Bartholomew Lucci já é terrível, e a Rosa de Fogo, Teresa Sanpern também não fica para trás. Falam muito dos outros bandos também, como a Irmandade Ingrata e os Sangreiros.

— Parece que estamos em tempos difíceis. — Comentei em tom de conversa, abrindo um sorriso. Breen sorriu pela primeira vez, e seu sorriso parecia carregar toda uma aura desagradável.

— Ah sim, Rose. Tempos muito difíceis. — Respondeu, enfatizando o meu nome falso. Sua cicatriz pareceu brilhar de forma viva. — Bem, se me dão licença, eu preciso falar com o Hirmo Maol, e acabei de vê-lo passar perto da fogueira. Espero que nos encontremos novamente, Rose. — Terminou, erguendo uma sobrancelha para mim e aumentando o sorriso. Eu engoli em seco, e sorri meio amarelo, enquanto ele se afastava.

— Sempre foi meio estranho, esse aí. Dizem por aí que ele vem vagando de estado em estado, sem parar muito tempo em nenhum lugar. Um cavaleiro sem ordem, na verdade. — Kon sorriu, e com um movimento brusco, se virou, me puxando e colando a frente de nossos corpos. — Mas agora, Rose, porque não vamos pra minha casa?

Por Lux, chegara a hora. Pelo jeito, eu tinha sugado toda a informação que poderia naquela festa, sem levantar suspeitas, e para uma saída perfeita, só faltava me deitar com o pequeno bastardo pra poder me ver em segurança total.

Abri um sorriso. Na verdade, uma noite nos braços daquele idiota não seria um preço muito alto pelo que ele me contara. Agora eu sabia que estávamos lidando com bandidos conhecidos, do bando de Bartholomew Lucci, e aquilo fazia todo sentido, afinal, antes do sequestro de Blaine, os Becklan estavam atrás dele. Não estávamos mais no escuro, o provável motivo para o sequestro do nosso querido segundo herdeiro era algum tipo de vingança maldita, além da razão óbvia de que o bando queria ter segurança. No mínimo, eles ameaçariam Blaine assim que soubessem que estávamos perseguindo eles.

— Você é bem direto, não é? — Respondi, em tom sensual, passando os dedos pelo peito dele, sentindo os músculos treinados pelo trabalho de guarda. Tá, ele era bonito mesmo, e apesar de ser um nojento, tinha seus ares fofos, e no fundo era um imaturo sem autoconfiança. Eu certamente poderia passar uma noite com ele.

Kon riu, e aproximou seu rosto ao lado do meu, posicionando seus lábios ao lado do meu ouvido. Sua respiração me deu um arrepio agradável.

— Só quando tenho interesses desesperados. — Ele falou baixo, no mesmo instante que senti uma mão forte no meu ombro.

O puxão brusco que me afastou de Kon veio basicamente no mesmo instante, e meu coração disparou. Por um momento, tive a certeza de que tinha sido pego por alguém ali.

Mas a realidade era muito mais... Inesperada.

— Chega por hoje. — A voz conhecida falou, segurando meu ombro com firmeza. Ergui os olhos e minha surpresa foi substituída por indignação no mesmo momento que reconheci aquele rosto. Não acreditei no que eu estava vendo. Por que diabos Poetro estava ali, sendo que nem tinha sido escolhido para aquela missão?

— Ei! — Eu exclamei, irritado, tentando me afastar dele. Merda, ele ia estragar tudo! — Me larga!

— Quem é você? — Kon perguntou, irritado, largando a taça de vinho no chão. — Larga o rapaz. Estamos conversando!

Poetro me puxou para frente de seu corpo, e passou um braço forte em volta da minha cintura. Debati-me por um momento, mas percebi que ia acabar chamando muita atenção, então parei em seguida.

— Ah sim, eu vi o tipo de conversa que estão tendo. — Ele rosnou, parecendo furioso. — Ele é o meu irmão, e se eu ver você conversando com ele novamente, nós vamos ter uma conversa bem séria.

O tom era ameaçador. Eu queria puxar minha adaga e enfiar no abdômen de Poetro, mas me segurei, enquanto via Kon dar um passo para trás, assustado, e arregalar os olhos. Provavelmente estava reparando que Poetro tinha quase dois metros de altura e era todo fortão.

— Eu... Ele... — Kon resmungou, dando um passo para trás, e senti o aperto de Poetro aumentar em minha cintura.

— Cai fora antes que eu enfiei uma espada nesse seu rabo. — Ele rosnou novamente, e o guarda loiro saiu andando rápido, assustado.

Poetro me arrastou por vários minutos para fora da cidade, até nossos cavalos parados. Devas já estava em cima do seu. O desgraçado pelo jeito tinha vindo andando, pois o animal dele não estava ali, e quando ele saltou e me puxou para cima da cela, na frente dele, eu percebi que estava gritando ensandecido com ele, indignado pelo que o maldito fizera, desde o momento que saímos da cidade. Realmente, eu tinha sido dominado pelo ódio.

— Por que diabos você fez aquilo?! — Eu gritei, ainda ensandecido, mas finalmente prestando atenção no que falava. Poetro esporeou o cavalo, e enquanto partíamos, eu me torci na cela para ver seus olhos duros e irritados.

— Porque você não precisava se envolver com aquele pirralho. — Respondeu duramente.

— Não acredito que você está com essa de ciúmes agora! — Gritei indignado, e pude ver ele torcer os lábios numa careta.

— Um inferno que estou. Você é filho do meu superior. Não vou deixar que se deite com estranhos em qualquer oportunidade, não sabe o risco que está correndo.

Eu procurei mais palavras, mas meu ódio era tanto que eu me calei. Filho de uma puta.

Simplesmente, eu odiava Poetro Hurnnyg.

E daria qualquer coisa nesse mundo para saber se aquilo que ele estava dizendo era ou não verdade.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Vou tentar não demorar mais séculos...
Muito obrigada por lerem, e lembrem-se de passar no ask.fm/henapeople e fazerem perguntinhas, amo responder e quase sempre tô online!
Beijos!