As Treze Relíquias.

14 Capítulo 14 - Memórias Confusas.


Notas iniciais
Oi lindos!
Desculpem o atraso, como sempre. Muito obrigada a todos que deixaram seus reviews, eu fiquei muito feliz mesmo e emocionada!
Espero que gostem desse capítulo, as informações estão meio "quebradas" mas é para atiçar a mente de vocês. Logo, tudo será organizado (não no próximo capítulo, no outro) e vocês vão finalmente entender a Lenda dos Herdeiros ok? Mas se prestarem bem atenção nesse capítulo, conseguem pegar a ideia.
Espero que gostem!
Beijos e boa leitura!

Eu soltei um suspiro cansado. Hawe tinha de me enfiar no meio daquela história.

— Se você diz. — Eu concordei, sem vontade de discutir com ele. Não estava nem um pouco animada para gastar minha energia tentando convencer Blaine sobre a Lenda dos Herdeiros, mas eu sabia que era a única que podia dar provas para ele, e como o rapaz era arisco como ninguém, não havia nem esperanças de ele acreditar em nós sem alguma prova. Parecia até curioso que eu tivesse sido trazida pro bando antes dele, porque sem as minha habilidades ele certamente não seria convencido, logo, os deuses deviam mesmo saber o caminho que traçam para nós mortais.

Encarei o garoto. Meu sobrinho loiro tinha o olhar desfocado e pensativo, provavelmente com a cabeça cheia de considerações sobre o Conto da Criação que acabara de ouvir. Deuses, como ele parecia com a Dia, mesmo que eu só a tivesse visto nas duas vezes que ela veio nos visitar no Deserto Branco, e isso já tivesse alguns anos, era como olhar novamente para minha irmã ali, ou olhar para qualquer um de meus irmãos homens, porém, com alguns traços inegáveis de Becklan. Imaginava como Blaine devia estar confuso com tudo aquilo, ansioso agora com o que acabara de ouvir e com o que ia ouvir. Era ainda tão jovem, dois anos mais jovem do que eu era quando tive de ouvir o mesmo Hawe contar-me aquilo. Comigo fora tão diferente. Afinal, para mim fora um alívio descobrir toda aquela história, encontrar a razão pela qual eu existia, entender porque meu pai e os criados me encaravam torto nos túneis da Pirâmide dos Milagres. A Lenda dos Herdeiros, para mim, foi o fim de uma angústia, mas eu era uma exceção. Para todos os outros, aquele era o início de uma nova e gigantesca angústia.

Porém, pouco me importava. Eu apenas queria que o garoto finalmente aceitasse a Lenda e entrasse pro bando. Nós precisávamos dele, e a angústia era inevitável para a salvação de Jeera. Todos tinham de abrir mão de alguma coisa por aquela missão, e eu era a única criatura satisfeita com a situação, então a angústia não me atingia assim com tanta intensidade. Apenas sentia algum tipo de remorso estranho pelo futuro de Blaine, mas eu não era exatamente o tipo “coração mole” que me deixaria abalar por aquele fato.

— Blaine. — Hawe chamou sua atenção, e ele focou os olhos dourados no sacristão. Bartô parecia tenso ao lado dele, me encarando de forma repreensiva, como se avisasse que eu não devia fazer nenhuma piada naquele momento. E incrivelmente, eu não estava com nenhuma vontade de brincar com ninguém. — Isso que você acabou de ouvir é o que nós, sacristãos estudados na Fiel Marca, aprendemos. É o conto que pregamos por todos os anos de nossa Jeera, o conhecimento que propagamos entre os fiéis nos templos. — Ele engoliu em seco, e o semblante do homem parecia muito mais velho do que o normal. — É a história que o povo aprendeu e acredita. Mas não é toda a história.

Blaine franziu o cenho de maneira confusa, e anormalmente séria.

— Não estou entendendo... — Ele afirmou, em tom de voz perdido, e percebi Bartô encarando a nuca loira do jovem com uma expressão de arrependimento e peso na consciência. Poucas vezes o Peregrino das Trevas deixava seus sentimentos à mostra, mas eu sabia que o homem não conseguiria segurar suas emoções relacionadas à Lenda dos Herdeiros. Não, ele que tinha perdido tanto por causa daquela lenda, não conseguiria jogar outra pessoa para aquele destino cruel sem sentir algum tipo de remorso.

Hawe comprimiu os lábios antes de falar, visivelmente incomodado.

— Acontece Blaine, que... — Ele desviou os olhos pro tampo da mesa, e passou um lenço tirado não sei de onde na testa, enxugando o suor que a pontilhava. Sempre ficava nervoso nessas horas.— Os sacristãos da Fiel Marca ocultaram parte do Conto da Criação. Ocultaram e modificaram o verdadeiro conto, aquele escrito pelos primeiros entre os primeiros homens, a quem Verne e todos os deuses apresentaram a história da criação e declararam que nós, mortais, seríamos seu povo. As antigas e originais escrituras do conto, são algo que simplesmente desapareceram da Fiel Marca. — Reparei que sua mão se fechou em volta do lenço branco com força, e perdi minha paciência.

— Certo, o que o ele está tentando dizer e não consegue— Comecei, levantando-me da cadeira irritada, atraindo todos os olhares para mim, inclusive um olhar surpreso de Hawe. Ignorei e me inclinei sobre a mesa, apoiando minhas mãos no tampo e encarando Blaine. — é que os lobos da amada Fiel Marca do Hawe mudaram toda a base da nossa religião por puro e perverso capricho, para que os cordeirinhos não se assustassem e parassem de pagar sacos de Hórus para agradar ao maldito deus...

— Selena! — Dorian gritou em aviso, sua voz mais grave que o normal, e me virei para ele, minha irritação aumentando quando vi a raiva nos olhos dele.

— O que, não quer que eu ofenda a porra da Fiel Marca só para ele— Apontei o dedo para Hawe, e os olhos do sacristão se comprimiram na minha direção. Ele realmente não aguentava falar mal da Fiel Marca, porque amava demais o que fazia. — não ficar magoado? Não estamos tentando contar a merda da história verdadeira pro garoto? Já não estamos todos fodidos?

— Selena! — Dessa vez o grito foi mais alto, e minha voz morreu no mesmo instante que um arrepio de medo subia por minha coluna. Só então percebi que eu estava gritando e com o rosto ardendo em chamas. Bartô, dono do grito, me encarava com os olhos duros como aço, com um brilho sério. A atmosfera da sala parecia pesada, venenosa, e o arrependimento me invadiu como uma lâmina no peito quando vi Hawe com a expressão repreensiva em minha direção, assim como Dorian. Blaine me encarava boquiaberto, e só então eu percebi o que estava acontecendo.

Os Abdula eram conhecidos como os mais preocupados com os familiares entre todos os grandes lordes do reino. Nós tínhamos espírito de família, afinal, sempre fomos muitos membros, a maior família de todo o reino, sempre com vários irmãos, primos, tios. Até mesmo a deusa do nosso estado, Orfélia, era a deusa da família. Não era nenhum segredo que os Abdula viviam juntos, e ali residia a nossa força, a força de um grande número, e o amor que todos tinham um pelos outros. Afinal, na Cidade dos Milagres, o sangue vinha sempre em primeiro lugar.

Fazia dois anos que eu não via minha família. E na minha raiva, meu sentimento de ser a filha caçula indesejada do Lorde Abdula, eu isolei todos os sentimentos fraternais no fundo da minha alma. Não senti falta de meus irmãos, não fiquei com saudade de meus pais, não me apegava em lembranças do Deserto Branco. Por dois anos, eu estava feliz por estar no mundo, com uma missão, e a sensação saborosa de que eu não era uma estranha inútil. Mas o sangue é mais grosso do que a água, as lembranças nunca desapareceram, e eu estava percebendo naquele momento, encarando Blaine, que eu nunca deixei de pensar da minha família. Tinha apenas englobado os sentimentos por meus parentes com a sensação agradável de entender quem eu verdadeiramente era, ignorado toda a preocupação com meus pais e irmãos.

Reencontrar Blaine foi o que trouxe esses sentimentos de volta, eu percebi. Algum tipo de saudades, uma preocupação com meus parente. No fim das contas, eu era uma Abdula também, e não conseguia esquecer minha família, ainda mais com um membro dela tão próximo de mim. Mais que isso, eu era a herdeira de Orfélia, a deusa da família. Percebi que havia lágrimas nos meus olhos, e uma delas escorria pela minha bochecha, enquanto todos me encaravam.

Eu estava chorando porque Blaine era minha família, e o tormento que íamos impor a ele era muito maior do que o tormento que ele passara conosco até o momento. Agora, as coisas ficariam realmente sérias, e eu estava maculada com a responsabilidade por aquilo, eu estava colocando sobre ele um fardo, e aquilo estava me lembrando de como eu abandonei minha família. E pela primeira vez em anos, algo estava me machucando, rompendo o meu casulo protetor de alegria e auto-aceitação, e atingindo meu peito com uma lâmina dolorida. Era a porra de um peso na consciência por ter abandonado minha família.

Não pedi desculpas a Hawe pelo que havia dito, nem me senti envergonhada. Por mais surreal que me parecesse, percebi um sorriso se abrindo em meus lábios, e uma tranquilidade tomar meu peito. Percebi que estava feliz por não ter me tornado uma insensível que abandonou a família sem olhar para trás. Esqueci de toda minha irritação, e bati o olhar em todos ali na mesa, que me encaravam com espanto justificado pelas minhas reações adversas. Sem nenhuma palavra a mais, eu dei a volta na mesa e agarrei o pulso de Blaine, levantando-o da cadeira.

— O que... — Ele começou, confuso, me encarando com a expressão assustada, e percebi os outros se moverem em suas cadeiras surpresos. Bartô se levantou de um salto.

— Selena, o que você vai fazer? — O ruivo questionou, avançando para se aproximar de Blaine, mas eu lhe lancei um olhar tranquilizador.

— Vou mostrar pra ele, Bartô. Eu vou contar sobre a lenda e sobre as relíquias. — Eu sorri mais. Entendia agora meus sentimentos, meu caminho. Blaine trouxera de volta o lado que eu tinha esquecido por dois anos: a Orfélia deusa da família que habitava no meu interior.

E isso me deixara mais poderosa.

Sem nenhuma palavra, eu coloquei minha mão livre no rosto de Blaine, que arregalou os olhos dourados, assustado. Abri um sorriso para ele, e aproximei meus lábios dos dele até sentir seu hálito ofegante em minha boca.

— Obrigado, docinho. — Agradeci entre os dentes, e colei meus lábios nos dele num selo comprido, enquanto ele exclamava, surpreso.

Foi então que senti o poder pulsar em mim. Era automático, uma sensação com a qual eu me habituara desde quando era uma garotinha que não tinha ideia do que estava fazendo ao beijar algum garoto das cozinhas num corredor deserto da Pirâmide dos Milagres. Senti os fios da minha mente se estenderem, e os guiei para a mente de Blaine com cuidado, sentindo a ligação formada pelos nossos lábios no mesmo momento que sentia o tempo parando no mundo tangível. A sensação de estar no mundo do intelecto me inundou, e senti com meus fios o primeiro sinal da mente de Blaine: uma pequena esfera de brilho arroxeado e pulsante, atraente e protegida. Envolvi a forma luminosa com meus fios, delicadamente, sentindo a esfera se comprimir ao mínimo toque. Uma mente arisca, não tão diferente da de Hawe, Ronper ou Bartô. Apertei um pouco os fios em volta da mente de meu sobrinho, até encontrar uma fraqueza nela que me desse acesso aos seus pensamentos. Moldei aquela pequena esfera para que pudesse invadi-la sem causar nenhum choque.

E finalmente, eu ultrapassei aquele brilho arroxeado, e encontrei Blaine por trás dele.

O que, como sempre, foi uma grande surpresa.


=—=


Eu abri os olhos, e meu coração pulou com força no meu peito.

Minha última lembrança era Selena me dando um beijo enquanto chorava e ria, e minha mente girava confusa com toda aquela cena que ela proporcionou. Então eu arregalei os olhos, pisquei, senti um solavanco incômodo na nuca, e agora estava numa clareira. Sim, uma clareira, no meio de uma mata de árvores enormes, inundada pelo sol. Isso mesmo, de dia.

E isso não fazia sentido algum. Um instante antes eu estava numa estalagem mofada, no meio da noite, numa sala abafada e cheia de gente estranha, mas conhecida. E ainda mais estranho: eu não estava em qualquer clareira. Olhando em volta, eu percebi que conhecia aquele lugar muito bem, aquela laranjeira que liberava um cheiro cítrico no ar, aquela pequena lagoa de águas tranquilas, a grama verde, as grandes árvores infestadas de pássaros que cantavam alegres ao sol da manhã. Eu estava no Jardim Principal, no Cálice, na clareira onde costumava brincar com Lortan e Lucian, um amigo de infância, muitos anos atrás.

Prendi a respiração, surpreso por um instante. Por um pequeno momento, pensei se tudo aquilo que eu vivenciara, desde a invasão de Lucci ao meu quarto, não foi apenas um delírio. Porém a ideia não ficou por muito tempo em minha cabeça, porque percebi algo de estranho naquele local. Coisas que só poderiam fazer parte de um sonho, então acabei concluindo que na verdade, agora eu estava sonhando.

Afinal, eu nunca tinha visto uma laranja de cor violeta como aquelas presas nos galhos, e aliás, porque as águas da lagoa eram cor de vinho? E mais, tinham cheiro de vinho... E eram vinho. Mas que caralho estava acontecendo? A grama também balançava, sem nenhuma brisa, e reluzia de alguma forma, num contraste assustador com o céu que era roxo com nuvens pretas.

— Mas que porra é esse lugar? — Eu perguntei, minha mente rodopiando em confusão. O que Selena havia feito comigo? Beijado. Aquela merda de poderes dos beijos que eles viviam repetindo, mas não era verdade que os beijos não funcionavam em mim? Eu já não entendia mais nada, o Conto da Criação ainda estava fresco em minha mente, junto com todas as dúvidas que eu ainda tinha em relação aquele bando de ladrões. — Merda... — Eu resmunguei, assustado, olhando em volta e tentando encontrar mais algo entre as árvores.

— Essa é a sua visão, Blaine. — Ouvi a voz feminina e conhecida atrás de mim, e quando me virei na direção dela, Selena estava lá, do outro lado da lagoa.

Minha surpresa não foi apenas pela aparição repentina dela. Selena estava... diferente. Senti meu queixo cair quando a observei, ali, segurando um dos braços de forma despreocupada, e com um sorriso nos lábios. Pela primeira vez na minha vida, eu via minha tia vestida como uma verdadeira senhora nobre. Seus cabelos ondulados caíam como uma cascata prateada em torno de seu rosto, com uma presilha de prata incrustada com opalas que brilhavam nas sete cores do arco-íris enfeitando-os. Ela usava um vestido branco muito bonito, apesar de simples, de tecido leve que lhe delineava o corpo, um decote que valorizava bem seus seios e mostrava a bela tatuagem em forma de flor, e com o típico corte dos vestidos do Deserto, que exibia um pedaço indecente— indecente para nós dos outros estados, mas considerado comum no Deserto. — da perna direita de Selena

Ela estava maravilhosa, linda, senhorial. Porém, seus olhos ainda tinham o brilho divertido de criminosa e algo que eu vira poucas vezes antes, um brilho que emanava certo... Poder.

— Selena... — Verbalizei em tom embasbacado, e ela riu, olhando pro próprio vestido.

— É, eu sei, estranho não é? Também nunca te vi com essas roupas. — Ela gesticulou para mim com a cabeça, e começou a dar a volta na pequena lagoa de vinho, na minha direção. Só então reparei que eu estava com as minhas melhores roupas: um gibão púrpuro com um cálice verde bordado no peito, botões de madeira esmaltada em verde, calças leves e confortáveis de um tom verde quase preto, e minhas botas mais elegantes. Percebi também que meu cabelo estava preso num rabo de cavalo.

— O que você fez? — Eu perguntei enquanto ela se aproximava, passando a mão pelo tecido do meu gibão. Selena parou na minha frente com as mãos juntas de forma delicada, e deu um sorriso desanimado, suspirando.

— Eu usei o meu poder Blaine. — Ela afirmou com tranquilidade, e jogou uma mecha de cabelo prateado para trás da orelha. — Esse lugar é a sua visão.

Senti minhas sobrancelhas franzirem, em concordância com a minha confusão.

— Minha visão? — Perguntei, apenas imaginando que ela não devia estar falando sobre o sentido da visão.

— Não a visão que você está pensando. A visão de Orfélia. — Ela sorriu divertida, e continuou a explicação. — Visão Blaine, nesse sentido, é a mente. Orfélia é a deusa da mente.

Ela se aproximou ainda mais, e ficamos frente a frente. Trinta perguntas surgiram na minha mente, mas eu decidi resolver a mais urgente.

— E o que isso quer dizer? — Questionei, e ela abriu mais o sorriso, colocando as mãos delicadas na cintura.

— Que estamos na sua mente. Você aprendeu já o conceito de mente com seu Hirmo da Educação não é? — A mulher provocou, erguendo uma sobrancelha. Franzi meu cenho, duvidoso.

— Não acredito em você. — Falei irritado. Mais irritado por não ter uma explicação lógica para aquilo do que com minha tia. — Isso só pode ser um sonho.

Selena pareceu achar aquilo bem divertido.

— De certa forma, é. — Esticou a mão, e puxou uma pequena folha da grande laranjeira que estava sobre nós. — Aqui Blaine, é onde seus sonhos, pensamentos e sentimentos surgem. É a sua essência. — Ela esticou a folha para mim, e percebi que ela vibrava levemente, com um brilho amarelado. — Usei o meu poder para trazer a sua parte racional, que neste momento, é você bem aqui na minha frente, para este local. Estamos dentro de você, na sua origem, seu inconsciente.

— Isso não faz sentido... — Comecei, tentando assimilar tudo aquilo. Mas ao mesmo tempo, eu entendia que ela não mentia.

— Não importa se faz ou não sentido. Você precisa entender algumas coisas. — Selena soltou a folha, que ao invés de cair, subiu de forma suave até voltar ao seu local na árvore, me deixando ainda mais surpreso e confuso.

— Como você fez... — Tentei falar novamente, mas ela balançou a cabeça, me calando, e agarrou minha mão direita.

— Cala a boca, e veja. — A mulher me puxou para frente, e então toda aquela clareira iluminada rodopiou repentinamente. O mundo se tornou um borrão de cores por um instante, roxo, vinho, verde e negro, e apenas a imagem de Selena se mantinha inalterada. Ela segurava minha mão, olhando para o alto, e eu segui o seu olhar, vendo uma série de imagens se formarem na minha frente.

A primeira, eu não entendi muito.

Era uma grande sala de mármore, oval, com pilares dourados gigantescos, iluminada por uma fogueira no centro onde uma mulher de cabelos vermelhos e vivos como as próprias chamas se sentava, em cima das chamas, juntamente com vários tronos que eu não fui capaz de contar, cada um mais belo e estranho que o outro, e ocupado por figuras que eu não conseguia enxergar a feição, mas apenas de observar, sentia um poder opressor. Uma única figura estava em pé, e gritava alto palavras que eu não conseguia entender. A cada grito grave, a imagem embaçava e tremia, e a única coisa que eu compreendi foi “Pelo bem dos homens uma ova!” e então a imagem rodopiou naquele borrão novamente de cores e flashes confusos. e foi substituída.

Dessa vez, era uma pequena sala escura, onde um sacristão se inclinava sobre um grande livro, lendo num ritmo frenético e murmurando as palavras para si. O homem era velho e careca, com uma barba longa e branca, e a luz da única vela acesa dava um brilho amarelado à sua pele enrugada e manchada pela idade. As paredes do pequeno cômodo também estavam parcialmente iluminadas, e tinham um tom de sujeira e mofo que juntamente com a cama bagunçada no canto, exibia o fato do lugar ser abandonado.

— Verne se revoltou contra os deuses... — O sacristão murmurou, passando os dedos tortos e magros de forma apressada sobre o papel do livro, como se tentasse puxar fisicamente mais informações. — Herdeiros... Mortais destinados a salvarem Jeera da fúria do deus supremo. Um usurpador no trono... Tornrey, com certeza... O beijo é a solução de Lux, as relíquias são a solução de Orfélia... Herdeiro de Radás banhado nas chamas de Neréia... Sim, mas onde? Quando? Os deuses revoltos contra Verne...

Selena apertou minha mão, chamando minha atenção.

— Agora, fique atento. — A mulher comunicou, e me voltei para o sacristão sentado.

Um som estranho, como madeira se partindo, invadiu o cômodo, e o sacristão repentinamente jogou a cabeça para trás, os olhos e boca tomados de um brilho branco. Meu coração acelerou uma batida quando o homem começou a estremecer e a luz de seu corpo iluminava o teto do quarto, e de sua boca aberta e imóvel uma voz indefinida, começou reverberar, num tom sobrenatural, uma mistura de vozes graves e masculinas com vozes femininas e delicadas. Por alguns segundos, não entendi o que ele falava, até achar um padrão nas vozes.

“...Verne não era bom! O deus Supremo deu o trono de Jeera à um homem terrível, de sangue ganancioso e destinado a causar o sofrimento da humanidade... Mas os deuses foram todos contra aquilo, e ao tentarem convencer Verne, despertaram a ira do Supremo... Reunidos, tomaram então a decisão de criar mortais que tivessem a capacidade de enfrentar o governo daquele homem, e também se uniram contra o deus Supremo, à fim de dar cabo em sua loucura e maldade...”

O homem velho estremeceu, e eu arregalei os olhos quando ele se debateu repentinamente, agarrando a borda da mesa de madeira e quebrando-a com facilidade sobre-humana, voltando a falar, aos berros, e num ritmo veloz, apertando as lascas de madeira até o sangue brotar entre seus dedos, a vela caindo inútil no chão de pedra e se apagando, ofuscada pelo brilho liberado das cavidades do velho.

“ Verne criou Jeera, mas não queria o bem dos humanos, apenas sua subordinação... E cedeu ao rei escolhido seus poderes, para que assim causasse mal à humanidade... Então Orfélia surgiu com o plano de cada deus ceder seu poder a um mortal, e assim surgiram os primeiros herdeiros, humanos escolhidos pelos deuses, que receberam deles um objeto carregado com poder, um mortal de cada estado comprometido a batalhar pelo deus de suas terras... E esses primeiros herdeiros derrubaram do trono aquele homem mal, e coroaram um novo rei, para a fúria de Verne... Mas o destronado jurou vingança, e Verne o ajudou, espalhando as relíquias pelo reino, e entregando ao seu escolhido uma própria relíquia com seu poder supremo... Para que um dia um descendente de sua linhagem retornasse ao trono, e Verne pudesse destruir toda a vida do reino... Destino que só seria impedido quando os herdeiros retornassem a posse das suas relíquias, e juntos lutassem contra o usurpador...”

O aperto de Selena em minha mão se intensificou, enquanto o homem se debatia mais intensamente, e então cuspia novamente as palavras num tom vacilante, hora berros, hora sussurros descontrolados. Minha cabeça começava a doer com tanta informação.

E Lux deu aos Herdeiros a capacidade de usarem poderes divinos com seus beijos, para que assim não estivessem desprotegidos, mesmo sem suas relíquias, e pudessem se identificar, pois seus beijos não funcionariam entre eles... E juntos, os deuses lançaram uma profecia: no dia que um usurpador escolhido por Verne retornasse ao trono, os herdeiros deveriam partir em busca das relíquias para reuni-las, e assim, salvarem a vida em Jeera. E disseram, por fim, que aqueles que salvariam o reino seriam a geração de herdeiros que contassem com: o primeiro herdeiro homem de uma deusa mulher, e o herdeiro de Radás banhado pelas chamas de Neréia... Seria essa geração de herdeiros que reuniriam as Treze Relíquias, a relíquia de cada herdeiro e a do usurpador, e assim os dois herdeiros escolhidos derrubariam o homem do trono...”

Senti meus olhos arregalarem com a compreensão repentina. Céus, aquele homem estava dizendo que...

“SALVEM JEERA!”

O grito repentino fez com que eu me encolhesse, assustado, e então o homem caiu sobre a mesa, com a testa apoiada, e a cena girou novamente. Selena chamou a minha atenção com um puxão delicado.

— Estamos quase acabando, preste atenção por favor. — Ele murmurou, sem me encarar, enquanto o borrão repentino começava a se estabilizar, e eu sentia minha cabeça doer com tudo aquilo que ouvira.

Dessa vez, estávamos numa superfície rochosa e negra, sob a luz de uma lua cheia. Não reconheci o lugar, mas quando olhei para a cena, vi três pessoas sentadas em volta de uma fogueira: um homem jovem, de seus 30 anos, uma bela mulher de cabelos vermelhos que devia ter seus 20 anos, e mais um homem, mais velho e barbado. Reparei que a mulher segurava um pequeno embrulho de tecido negro nos braços.

— É estranho que a nova geração de herdeiros esteja vindo. — Comentou o homem barbado, coçando a maçã do rosto iluminada pela luz alaranjada da fogueira. — Eu não sei o que os deuses têm na mente. Colocaram o nome de “herdeiros”, mas os “herdeiros” — Ele enfatizou a palavra com sarcasmo. — que sucedem uns as outros não necessariamente tem ligação sanguínea, sendo que o sentido de herdeiro para nós mortais é a ligação sanguínea. Além de que, quando nasce um novo herdeiro, não necessariamente quer dizer que o antigo morreu. E aí, porra, precisamos começar tudo de novo, e procurar todos os malditos, e treiná-los...

— Ah, você reclama demais Peter. Sabe que os herdeiros mantém seus poderes por pelo menos 30 anos. — O outro homem comentou, e de alguma forma ele me parecia muito familiar. Era um homem grande, de cabelos negros, pele clara, e grande olhos verdes que brilhavam vivos à luz do fogo. Ele envolveu a mulher pelos ombros com um grande braço, e percebi que eles eram um casal. — E sabe que agora estamos mais próximos do fim disso. — Ele encarou com um sorriso alegre o embrulhinho nos braços da ruiva.

— Sei, é claro, finalmente cumpriu-se a profecia. Mas agora, perdemos nosso homem mais forte que era você — o homem barbudo, Peter, indicou o outro homem com a cabeça. — e temos de esperar o seu rebento crescer, treiná-lo... — Ele continuou a reclamar, mas a mulher lançou lhe um olhar feroz do outro lado da fogueira. Um olhar muito, muito familiar...

— Não o chame de rebento! — Ela reclamou, apertando o embrulho em seu peito, e o homem ao seu lado soltou uma gargalhada alta. — O nome dele é Bartholomew.

O que me tomou naquele instante não foi apenas uma surpresa. Foi um choque. Aqueles eram os pais do Lucci, era inegável: o rosto do homem, o corpo, a pele clara, os cabelos vermelhos e olhos vivos daquela mulher. Deuses, o que eu estava presenciando? Um Bartholomew Lucci recém-nascido ali!

Minha reação irracional foi tentar avançar na direção daquela mulher de olhar voraz, que embalava o bebe silencioso em seus braços. Porém Selena previu meu movimento, e colocou o braço na minha frente, sem soltar minha mão.

— Se soltar minha mão, não verá o final. — Ela avisou séria, e eu voltei meu olhar para a cena, encarando aquelas pessoas novamente, enquanto eles ainda discutiam por causa do bebê, mas uma discussão em tom de brincadeira.

— ... um nome feio desse, não sei como deixou a Ellida escolher o nome. Sabe que mulheres não conseguem pensar direito quando estão prenhas Rowdy. — O homem barbudo riu, e a mulher fechou a cara, baixando o rosto para o bebê.

— Quando ele crescer enfiar a Viúva Negra no seu rabo, você vai ver só. — A mulher rosnou, acariciando o bebê, e eu segurei meu impulso de ir até ele e olhar dentro daquele embrulhinho. Contentei-me com a visão da pequena cabeça de cabelos rubros que surgiu dos panos negros.

— Ellida! — Disse o homem ao lado dela, o pai de Bartholomew, com um sorriso. — Cadê seus modos?

A mulher ergueu o rosto. Era muito bonita.

— No altar em que nos casamos. — Ela provocou, e deu um beijo nos lábios dele. — Acho que caiu e o sacristão roubou.

Eles se encararam com sorrisos provocadores, visivelmente apaixonados. Alguma coisa no meu peito pareceu arder de forma incômoda.

— Pombinhos, agora, se posso interrompê-los, temos de resolver ainda como vamos pegar o pivete da Terra Céu, o tal Hawe. — Peter chamou a atenção deles, e eu levei minha mão livre à boca, surpreso. Hawe também estava naquela história já?

— Tem certeza de que ele é o Herdeiro de Cornélio? — Indagou a mulher, e o homem confirmou vigorosamente com a cabeça.

— Sim. Mas é complicado, afinal ele é filho primogênito de Lorde...

Um craque invadiu meus ouvidos, e repentinamente, tudo rodopiava novamente.

E dessa vez, quando abri os olhos, estava novamente naquela sala abafada na estalagem, com a luz de um lampião tremeluzindo, e com meus lábios a um fio de cabelo de distância dos lábios da minha tia, e percebi que acabávamos de romper o beijo. Encarei os olhos dourados dela, e senti o olhar de todos em mim naquele momento.

— Acabei de usar meu poder de herdeira em você. — Selena murmurou, num tom que só eu pudesse ouvir. Ela se afastou levemente, bem pouco, e a mão dela se manteve em meu rosto. — Meu beijo apenas funciona em você porque Orfélia foi a deusa que surgiu com os planos de criar os herdeiros, e Orfélia é a minha deusa, assim meu beijo funciona em qualquer outro herdeiro. Todas essas cenas que você viu foram memórias que eu adquiri ao passar dos anos, pois meu beijo me permite tomar as memórias das pessoas, e exibi-las posteriormente. Vamos explicar tudo isso que você viu, prometo. Mas antes, tem mais algo que eu gostaria de te mostrar, mas essa não é uma visão que eu tenho uma memória.

— Eu... — Eu estava confuso. Sequer consegui verbalizar minha confusão, tamanha era ela.

Então aquela era a história dos herdeiros. Ainda não tinha entendido muito bem, mas tinha algumas certezas: os herdeiros existiam, e tinham mesmo poderes, isso eu já sabia. Eram poderes relacionados a beijos, e para se tornarem mais poderosos, eles precisariam das tão faladas relíquias. Certo, e eles precisavam derrubar o rei maligno quando ele retomasse o trono, e aquele sacristão havia falado sobre Tornrey. Quantos anos fazia que Tornrey estava no trono? Não saberia dizer, um bom tempo já. Se ele não fosse derrubado, o reino seria destruído. E só quem poderia impedir isso era o herdeiro de Radás banhado pelo fogo... Bartô? E um herdeiro homem de uma deusa mulher...

Eu? Por que se eu era herdeiro, só podia ser de Lux. Minha cabeça estava doendo.

— Blaine. — A voz grossa de Bartholomew sobressaltou-me, no meu ouvido, e senti uma mão forte tocar meu ombro de leve. Não me movi, enquanto Selena ainda me encarava, próxima. — O que falta você ver, é como seria Jeera destruída. Você quer ver?

Virei-me em sua direção, e encarei diretamente seus olhos. Ele realmente parecia com os pais.

— Expliquem o que eu acabei de ver primeiro. Eu não sei o que vi.— Pedi, e vi que ele continuou sério.

— Sim. Mas vamos explicar no caminho. — Ele gesticulou com a cabeça, e me virei, vendo que Ronper e Corisseu estavam na porta, com sacas de pano tilintando com som de objetos de valor. Naquela confusão de histórias, até me esquecera que eles haviam invadido o Castelo das Tortas. — Vamos. — Bartholomew deu um tapa delicado no meu ombro, e passou por mim, seguindo pela porta.

Meu peito ainda formigava quando nos distanciávamos.

Notas finais
Queridos, espero que tenha conseguido sacar as ideias da lenda. Mas para qualquer dúvida, daqui dois capítulos vai estar bem esclarecida a situação.
Próximo capítulo, vamos voltar pro outro lado da história, Lortan e os outros do Cálice ok? Espero que gostem!
Um beijo a todos!