As Treze Relíquias.

12 Capítulo 12 - Sonata das Trevas.


Notas iniciais
Gatos! Muitos avisos!
Muito obrigado a todos os leitores e todos aqueles que deixam seus reviews! Amo vocês!
Gente, postei uma nova fic! Leiam lá:http://fanfiction.com.br/historia/372980/Yankee_Record
E atendendo a pedidos, criei um Ask! Responderei perguntas para mim, e os personagens as perguntas para eles! (indiquem para quem perguntam):http://ask.fm/HenaPeople
E esse capítulo eu dedico ao Lucaslloyd que deixou uma recomendação LINDA na fic! Três já! Muito obrigada lindo, me emocionei!
Capítulo com o retorno do Blaine e as explicações, espero que gostem! Não narrei muito do sequestro, porque não é tão importante.
Obrigada!
Beijos e boa leitura!

Eu nunca tive medo do escuro até presenciar aquela cena.

Segundos antes, antes de aquele homem ruivo surgir do nada ao meu lado, eu estava me questionando como as pessoas podiam ser tão azaradas. Na verdade, questionando como eu podia ser tão azarado.

É fato que pessoas desesperadas acabam por muitas vezes tomando atitudes tolas. No meu desespero, eu não enxergara o quão idiota fora a minha decisão de confiar naquele dono de estalagem gordo e maldito, o tal Tommy. Só fui perceber quando já era tarde demais, e aqueles homens já haviam se identificado como inimigos. Mas aí eu não podia fazer mais nada.

Quando Lucci deixou a estalagem, depois de sair do meu quarto, eu tive um baque de realidade. Não sei se pela falta da presença dele, ou se por causa da sensação estranha no meu peito de que algo em mim estava faltando, ou ainda pelo fato de Lux ter deixado minha cabeça em paz. Talvez fosse uma junção de tudo aquilo, mas a minha conclusão chegou de uma forma forte, como um tapa de realidade, ou um banho de Gotsha que lava sua mente e te permite ver com clareza após tanto tempo.

Eu havia ajudado aquele bando. Eu estava me envolvendo. E o pior de tudo aquilo, era que estava me sentindo satisfeito ao me envolver.

Tive a certeza imediata que fora coisa de Lux, assim como o descontrole que eu sentia perto de Bartholomew Lucci, e aquela merda de ligação que ela formara entre nós, me fazendo sentir algo ruim por estar longe dele. Mas ao mesmo tempo, eu sentia algo a mais. Uma necessidade de saber porque aquelas pessoas formaram um bando, e porque eles guardavam tantos segredos. Queria saber a razão de minha tia ter abandonado sua vida na Pirâmide dos Milagres, e Hawe ter largado o posto de sacristão. Também, tinha necessidade de saber o que aquela história de salvar o reino, relíquias e deuses envolvia. Precisava entender aquilo, e o porque de Lux ter se tornado presença constante em minha mente, mas havia um temor maior que isso no meu peito, junto com aquela falta maldita de Lucci. Eu tinha medo de que, ao saber as razões, eu me juntasse a eles.

Porque se uma coisa eu havia aprendido naqueles poucos dias de cárcere, era que não estava no controle da minha vida. E aquilo me enfurecia. Lux brincava comigo como se eu fosse um boneco, e Lucci conseguia me deixar fora de controle apenas pela aproximação. Eu estava com medo daquilo, de me tornar um criminoso pelas vontades loucas da deusa da loucura. E tinha mais uma coisa que eu percebera, com aquela ligação sinistra que eu sabia existir agora entre mim e Bartholomew.

Se eu ficasse mais tempo entre eles e entrasse pro bando, eu ia me envolver com ele.

Não era algo sobre o qual eu pudesse ter o controle, muito menos era algo que eu gostaria. Eu tinha ódio de Lucci, e a minha vontade era enfiar uma adaga no seu peito e acabar com seus planos. Queria me vingar de todos do bando. Mas eu sabia que não conseguiria, não mais. Não depois de rir com Dorian e Ronper, ou de rezar com Hawe. Sempre fui um jovem que se apegava com facilidade nas pessoas, e acabava enxergando apenas o lado bom delas. Naqueles dias, eu percebera que eles não eram pessoas ruins, e que realmente tinham alguma missão para realizar, senão Lux não ficaria entrando em contato comigo e insistindo que eu os ajudasse. E isso acabava com o meu ódio. Só havia uma coisa que eu ainda poderia fazer para evitar meu envolvimento naquele bando. Ia fugir daquela merda toda, fugir de Bartholomew, e esquecê-lo.

Porque no momento, eu ainda estava em controle o bastante para odiar aquele bastardo com todas as minhas forças por tudo que ele me fizera.

E fugir foi o que eu fiz. Não foi difícil convencer o Tommy a me ajudar, era um porco em forma de homem e tudo que ele poderia querer era dinheiro, eu conhecia o tipo. Ofereci dinheiro, podia oferecer aquilo sem problemas, e ele aceitou, dizendo que desde o início já pretendia me ajudar e várias outras mentiras que eu dispensei. Armamos o plano. Eu ia ficar no quarto, e de madrugada, antes que Lucci voltasse, seis cavaleiros viriam me buscar para me escoltar ao Cálice em segurança. Senti-me satisfeito com aquilo, e minha fuga foi um sucesso, até chegarmos naquela mata, onde eles acenderam as tochas.

Eu havia tomado uma atitude tola. Não eram cavaleiros. Eram outros sequestradores, e agora me ameaçavam. Tommy me vendera a outro grupo de criminosos, que provavelmente haviam pago uma quantia em dinheiro para que ele me entregasse. Talvez ele tivesse aquilo planejado desde o momento que me reconhecera no fundo da carroça.

Um medo me tomou, e meu peito ardeu com a falta de Bartholomew ali. Era idiota pensar naquilo, mas por alguma razão que eu não compreendia, eu sentia que se estivesse com ele, estaria seguro.

Tentei fugir, mas eles eram mais e estavam armados. Logo eu estava acuado entre as árvores, amedrontado, com o peito ardendo e os pensamentos de como a vida era injusta, e a certeza de que eu me tornara a nova piada dos deuses, só podia. Odiei Tommy por me trair daquele jeito, aquele porco. E desejei que alguém viesse me ajudar quando um dos homens, que pareceu o líder, entregou sua tocha para outro e puxou a espada.

— Podemos cobrar o resgate com o nobre sem uma orelha, talvez ele fique mais calmo assim. — Ameaçou com um sorriso sombrio. Nada tão assustador quanto Bartholomew nos seus momentos de seriedade, mas ainda assim assustador.

Foi quando eu pensei nisso, que Bartholomew surgiu do meu lado.

Eu senti sua presença antes que ele aparecesse. Meu peito pareceu completo novamente, mas não da mesma forma que antes, parecia completo com algo frio e tenebroso, que me fez arregalar os olhos em um medo irracional. E quando eu olhei para o lado, envolto nas sombras de uma árvore onde a luz das tochas dos sequestradores não chegava, eu vi a cena mais incompreensível da minha vida, e também assustadora.

Lucci surgia do chão. Não do chão, mas das sombras que cobriam o chão onde a luz das tochas nem da Lua de Loucura chegavam. Surgia como se levantasse de um poço negros, e as sombras rodopiavam em volta dele, como vento negro que o envolvia, lambia sua pele de forma indecente, e se soltava dele. Sua expressão era a coisa mais selvagem que eu já vira, e o medo me tomou, junto com uma sensação de alívio — maldita fosse a minha mente amedrontada— por ele estar ali. Inconscientemente, agarrei seu braço com força, assustado demais. Sua pele estava quente como uma pedra exposta ao sol, e tinha marcas negras como tatuagens em todo ponto visível, inclusive em seu rosto, em um padrão que eu não conseguia compreender. Era assustador.

— Lucci! — Falei, enquanto me agarrava nele, e senti sua mão enlaçar minha cintura e me puxar pra perto dele. Meu medo aumentou ainda mais, e eu estremeci, enlouquecendo pela sensação de medo e prazer que dançava em meu peito. Estava com medo dele, e ao mesmo tempo, satisfeito por tê-lo de volta. Sentia que se minha mente não estava enlouquecendo, meu coração estava com aquela confusão de sentidos.

— Não se mova pra longe de mim. — Ele avisou, colando meu corpo no dele. Ergui meus olhos pro seu rosto, e vi a fúria em seu semblante, toda direcionada aos homens em nossa frente. Tive a certeza de que, se o desobedecesse desta vez, eu ia morrer.

O outro homem do grupo inimigo disse alguma coisa que eu não compreendi. Estava fascinado com a visão de Bartholomew ali, tenebroso como um emissário de Radás. Apenas vi seu rosto se enegrecer quando ele estendeu a espada em sua frente, e a apontou para baixo. As linhas negras em sua pele pareceram dançar por um instante.

— Eu sou o Peregrino das Trevas. E vim trazer a morte. — Respondeu aos homens, seco, e seu tom de voz fez com que eu colasse mais meu corpo contra ele. Quando ele soltou a espada no chão e ela desapareceu, tragada pelas trevas, eu olhei para os homens aterrorizados em nossa frente, tão confusos quanto eu ao ver aquela cena surreal. Meu corpo se tencionou ao ver o terror estampado neles, em cada fibra de seus seres. Eles podiam morrer de medo em qualquer instante.

Mas não foi disso que eles morreram. Foi quando Lucci abriu a boca novamente.

— Sonata das Trevas. — Proclamou, e eu senti todo o ar rodopiar em seguida.

Foi aí que eu comecei a ter medo do escuro.

As sombras pareceram se levantar do chão. Uma centena delas, se levantando como chicotes disformes e assustadores, que pareciam mais negros que as próprias sombras. Não entendi como aquilo acontecia, mas sabia que era Lucci que fazia. “Magia” foi meu único pensamento quando o ruivo apertou mais o braço em minha cintura, e então todos aqueles chicotes que pairavam no ar, movendo-se de leve como trapos negros de seda empurrados por uma brisa, começaram a rodopiar de forma descontrolada junto com um estalo. Não há como descrever exatamente a cena confusa de morte e medo, apenas vi toda aquela escuridão se movendo, apagando as luzes das tochas conforme elas caíam das mãos dos homens que gritavam. Os movimentos eram mais velozes do que eu poderia acompanhar, e os gritos dos homens fizeram meu ouvido doer.

O furacão negro envolveu toda a clareira, com exceção de nós. Ouvi os galhos quebrando, e um som de carne rasgando que eu tentei ignorar, mas não enxerguei nada naquela confusão de escuridão dançante. Meu corpo estremeceu com o temor, e acabei fechando os olhos e encostando minha cabeça no peito de Bartholomew, me agarrando na única pessoa que poderia dominar aquele poder das trevas. O Peregrino das Trevas.

— Não tenha medo. — Ele murmurou baixo, e eu senti as trevas próximas de nós, frias, muito mais frias do que o gelo ou o aço. — Eu estou aqui.

— Eu te odeio. — Foi a única coisa que eu consegui responder, baixo, sentindo meu peito queimar. E então, num estalo repentino acompanhado por um grito estridente, os sons pararam, e eu senti todo aquele temor se afastar lentamente, deixando em meu peito apenas aquela sensação gostosa de estar completo.

Abri os olhos, e não havia mais ninguém em nossa frente. Toda a relva que crescia na clareira estava morta e enegrecida, e nada repousava sobre elas com exceção de uma única tocha que permanecia fracamente acesa no chão. Vi as árvores de galhos quebrados, mas não encontrei os galho caídos em local algum. O silêncio parecia algo vivo ali, e me arrancou um arrepio nada prazeroso das costas.

Bartholomew me largou e soltou um suspiro que exalava o seu cansaço, e eu o encarei, me afastando um pouco, ainda assustado pela cena presenciada, pelo segundo sequestro sofrido, e pelo meu medo selvagem da morte, que ainda deixava facas gélidas em meu coração. As manchas negras na pele dele começaram a desaparecer lentamente, e ele estava todo recoberto por uma película de suor, que colava sua camisa de qualidade em seu corpo, evidenciados todos aqueles músculos enormes dele.

— Você está bem? — Ele questionou, ofegante, fechando os olhos com cansaço. Surpreendi-me ao ver sua espada de volta à bainha quando ele levou as mãos ao rosto e o pressionou.

Um toque leve de preocupação atingiu meu peito ao perceber o quanto ele parecia exausto. Eu estava confuso com toda aquela cena inexplicável que acontecera, e o medo ainda não me deixara completamente. E ainda pior, eu estava novamente nas mãos de Bartholomew Lucci, e para minha indignação estava preocupado com ele. Sequer passou em minha cabeça que se não fosse por ele, eu poderia estar na mão de novos sequestradores, e ainda por cima sem estar inteiro.

Torno a dizer que pessoas desesperadas tomam atitudes ridiculamente tolas. Se eu estivesse calmo e analisasse aquela situação cuidadosamente, perceberia que aquele era o momento de correr e fugir, porque Lucci não estava em condições de me perseguir devido sua exaustão. Ainda que eu estivesse um pouco mais sob controle, perguntaria como ele fizera aquilo, o que fora aquela cena assustadora, até mesmo como ele chegara até ali, ou mais, podia perguntar sobre como foi no castelo das Tortas. Mas claro que não foi o que eu fiz.

O que eu fiz foi deixar minha confusão me dominar, e transformar todos meus sentimentos em ódio.

Então eu avancei contra ele, fechei minha mão em punho, e desferi um soco em sua face com toda minha força no exato momento que ele abaixou as mãos.

— Bastardo! — Eu gritei, em fúria, minha voz quebrando aquele silêncio infernal de morte deixado pela escuridão assassina. — Seu desgraçado! — Desferi outro soco nele, em seu peito, enquanto ele se recuperava do choque do primeiro golpe, e me encarava com confusão nos olhos. — Isso é tudo sua culpa!

E era. Se eu estava confuso e com medo, descontrolado e perdido, tinha Lux em minha mente e acabara de sofrer outra tentativa de sequestro, era tudo por culpa dele, por aquele beijo e aquela adaga de luz dias atrás. Seria tudo diferente se ele não me sequestrasse. E o que mais me dava ódio era o fato de eu ter me envolvido tanto com aquelas pessoas em questão de dias, como se fossem velhos amigos que eu reencontrava, e tudo porque Lux mexia seus pauzinhos em volta de minha mente.

— Eu não vou deixar vocês mudarem o rumo da minha vida! — Berrei e tentei acertar mais um golpe nele, mas Bartholomew estava recuperado da surpresa e agarrou meus pulsos no ar, cansado e com uma expressão séria. Mas não me rendi e comecei a me debater em busca de liberdade. — Eu te odeio! — Gritei pro céu, sem ter mais como atingi-lo fisicamente.

— Não me culpe pelo que os deuses fizeram à você! — Ele berrou de volta, e foi tão poderoso que eu paralisei, assustado, e encarei sua face. Ainda estava coberta de suor, e ele tinha uma pressão furiosa. — Se acha que eu te sequestrei por um maldito capricho, ou por essa sua cara de doce abandonado, está errado, eu te sequestrei para salvar esse seu rabo açucarado e todos os malditos habitantes desse reino infernal, incluindo aqueles que você ama, sua família e amigos e todo maldito ser que anda nessas terras. — Completou a fala em um tom mais baixo e visivelmente irritado, que me fez arregalar os olhos em temor devido à aura de poder que ele emitia e que me paralisava. Ele puxou meus braços com brusquidão e aproximou nossos rostos, seus olhos castanho-esverdeados queimando. Sua respiração ofegante atingia meus lábios. — Foi um erro não te contar o que acontece desde o início, eu admito, e um erro tolo. Mas agora vamos te contar o que se passa, e se mesmo assim não quiser nos acompanhar, viva a sua vida e se afogue na culpa quando ver a vida se extrair de Jeera.

Eu estremeci com aquele tom de voz, e tentei me afastar, mas ele me manteve próximo. Queria gritar que aquilo era idiotice, e que não acreditava naquilo, mas eu já vivera demais naquele mundo para aprender a diferenciar verdade de mentira nos olhos de alguém. Mesmo que aquilo fosse uma mentira sem cabimento, Bartholomew acreditava naquilo com todas suas forças, e eu não consegui reagir perante aquele olhar furioso.

— Que tolice foi essa de fugir com um bando de criminosos... — Ele rosnou para mim, irritado. Perguntei-me como ele tinha certeza de que eu havia fugido, e não que eu tinha sido sequestrado por aqueles homens. — Se for fazer merda, pelo menos a faça sozinho ou com pessoas em que confie.

— Se você acha que pode falar algo... — Comecei, mas ele me afastou com um gesto indelicado e me deu as costas, caminhando para fora daquela clareira negra com cheiro de morte.

— Deixe suas palavras tolas para depois. Vamos voltar para aquela maldita estalagem e vamos te contar o que se passa. — Ele grunhiu, se virando para mim com a expressão ainda irritada. — Vamos. Se tentar fugir agora, eu vou te perseguir. — Ordenou novamente, e começou a seguir seu caminho, ofegante e cansado.

E eu não tive a coragem para tentar fugir naquele momento, com meu ódio sucumbindo à minha curiosidade.

Porque agora eu tinha a certeza definitiva que Bartholomew Lucci não era um homem comum com truques baratos disfarçados de beijo. Ele era literalmente o Peregrino das Trevas.

=—=

A chegada na estalagem foi estranha. Assim que chegamos, encontramos os três membros restantes do bando interrogando Tommy, que estava amarrado em uma cadeira no meio do salão de entrada da construção. Ele tinha a face redonda vermelha, e chorava, implorando piedade. Nem tive muito tempo de entender a situação, porque Selena me puxou para uma sala ao lado, onde mais cedo eu havia descrito o Castelo das Tortas para eles. Lucci sussurrou algo para ela antes da mulher me levar, e em seguida ela lhe respondeu algo e me levou para o cômodo.

— Mas que merda Blaine! — Ela gritou pra mim assim que me empurrou para dentro com uma força maior do que eu imaginava que a mulher teria. — Por todos os deuses, você precisava fugir antes de nós contarmos a razão de tudo? Bartô te disse que íamos contar! — A mulher loira acusou, e eu senti minha face fechar com raiva. Eu tinha socado toda a minha confusão e medo nos confins da minha alma durante o caminho até a estalagem, e agora só deixava a raiva me preencher, pelo menos até eles me explicarem o que acontecia.

— Se quisessem que eu não fugisse, que contassem antes essa merda toda! — Eu gritei, e ela ficou com o rosto vermelho em fúria. Sua semelhança com Dia Abdula, minha mãe, pareceu aumentar.

Ela ficou em silêncio, me encarando com seriedade.

— Senta aí. — Gesticulou para a mesa com um movimento de cabeça. Eu permaneci em pé, teimoso. — Senta aí que eu quero conversar, porra! — Ela gritou irritada, e eu soltei um grunhido irritado, puxando uma cadeira de forma violenta para me sentar. Selena pegou um jarro de vinho sobre uma mesa e encheu uma taça, me entregando quando sentou na mesa.

— Não quero beber. — Proclamei, cruzando os braços, lembrando-me que mais cedo estava agindo estranho quando me senti bêbado. Eu não ficava alcoolizado com facilidade, mas não ia arriscar.

Selena soltou um suspiro impaciente e virou a taça de uma vez, deixando um fio rubro escorrer pelo seu pescoço até dentro de sua camisa larga e cinzenta. Ela bateu o recipiente na mesa e encheu novamente, deixando a taça de prata na mesa e limpando o queixo com o punho.

— Que seja. — Proclamou em seguida, e colocou as mãos sobre a mesa, cruzando seus dedos longos e delicados. — Céus, você é tão ou mais teimoso do que um espinheiro, bem dizem que todo o Becklan...

— Você poderia parar de falar ditados? Parece até um Hirmo dos Conhecimentos Populares! — Interrompi, irritado. A mulher franziu as sobrancelhas, inconformada.

— Porque eu achei que seria uma Hirma até conhecer Bartô e os outros. — Proclamou irritada. — Dos conhecimentos populares ou historiadora. —Ergui uma sobrancelha, surpreso. Ela continuou. — Blaine, não há muito a se esperar para uma garota quando ela é a mais jovem de treze filhos. — Disse de forma amargurada, e tomou mais um gole de vinho. — Não há terras para se herdar, pois seus irmãos mais velhos virão sempre primeiro. Não há posições de valor para se assumir no governo de seu irmão porque você é mulher. Nem mesmo casamentos arranjados com grandes Lordes, pois as irmãs mais velhas já casaram com metade do reino. Eu não podia esperar nenhuma outra posição de valor em Jeera que não o caminho do conhecimento que a Entidade oferece, ou da Sacristia que a Fiel Marca oferece. E nunca fui tão fiel assim, então minha maior esperança era me tornar uma Hirma, e estudei anos para isso.

Aquele raciocínio me pegou desprevenido, pois nunca havia observado as coisas por aquele ponto. Quando visitei a Cidade dos Milagres, tanto tempo atrás, eu sentia que meus tios tinham seus lugares definidos ali.

— Mas tudo mudou quando Bartholomew apareceu. — Ela completou, brincando com a taça antes de tomar mais um gole e erguer os olhos dourados para mim. — Blaine, ele me ofereceu a única forma de ter glória e viver uma aventura por mim mesma, apesar de todas as dificuldades. No início foi confuso e assustador como está sendo pra você, mas eu logo percebi que era algo que eu tinha o dever de participar.

Estreitei meus olhos para ela.

— Então é isso que vocês querem? Glória? — Questionei, e ela negou com a cabeça.

— Não, não julgue o rebanho pela ovelha negra. — A loira me encarou novamente, com um brilho nos olhos. — Nenhum de nós queria esta missão. Eu sou uma exceção, porque nunca fui uma garota de grandes ambições, e pouco tinha a perder, por mais ilógico que isso pareça vindo de uma nobre das famílias que governa um estado. Mas todos abriram mão de algo para estar aqui. Ronper era Cavaleiro da Dignidade Blaine. E Hawe era um sacristão! Eu aceitei a missão porque sempre sonhei com aventuras cantadas e escritas em livros, mas toda a aventura só é boa quando tem enormes dificuldades, e isso me custou muito também.

— Não compreendo aonde quer chegar...— Soltei confuso, querendo chegar logo aos motivos de ela ter abandonado nossa família, e o porque daquela missão. Tentei deixar o fato de Ronper ser um cavaleiro para discutir mais tarde.

— Estou te contando isso pra você entender a grandeza da situação, Blaine Becklan. — Falou séria, se inclinando na minha direção. Seu olhar estava férreo. — O que vamos te contar aqui, foi o que me fez desistir de um futuro incerto como Hirma. Ao mesmo tempo, foi o que me fez entender o porque de todos murmurarem sobre mim nos corredores da Pirâmide Sagrada quando eu me afastava, e o motivo de meu pai sempre me olhar como se eu fosse um incômodo amaldiçoado. — Ela levou a mão até a camisa larga, e mostrou sua tatuagem de flor perfeitamente desenhada. — E o motivo da minha marca de nascença.

Como se aquela fosse a deixa, Hawe entrou pela porta com Bartholomew e Dorian. Eu ainda não estava entendendo nada, e minha mente girava, confusa com o relato de minha tia. Todos me encararam de forma firme e se aproximaram da mesa.

— Tommy continua amarrado. — Hawe informou, se aproximando da mesa, e encarando Selena, depois eu. — Blaine. — Cumprimentou em tom educado e formal, inclinando a cabeça na minha direção. Lucci puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado. Meu peito, que formigava até então, se amenizou com a proximidade.

— Não enrole o garoto Hawe. — Disse, sério, e eu me voltei para ele. Visivelmente, o homem estava tenso, e se voltou para mim com os olhos em chamas vivas. — E você, se quiser fugir novamente, peça ajuda à um homem mais confiável do que um estalajeiro ganancioso.

Senti meu rosto corar e fechei a cara para ele, enquanto Dorian se encostava, em pé, na entrada do cômodo.

— Tem certeza que vão falar isso? — O gigante proclamou do lado da porta, seu cachimbo em lábios, sacudindo junto com as palavras. — Blaine está pronto para ouvir isso?

Abri a boca para reclamar, mas Hawe ergueu uma mão para mim, e me calei.

— Ele sempre esteve pronto. Nós que estivemos cegos a isso desde o início. — O sacristão disse, em tom sério. Sua expressão parecia dez anos mais velha, cansada. — Nós sentimos muito por isso Blaine. Mas é um conhecimento que não podemos falar a qualquer um, nem podíamos ariscar com você. E é algo que exige muito de todos, todos aqui podem falar, e Corisseu e Ronper também concordarão assim que voltarem da invasão ao Castelo das Tortas.

Seu tom era mais sério que nunca, e quando ele me encarou seus olhos azuis eram duros como o aço azulado de seu anel de aço-perpétuo. Tive a percepção de que aquilo não era algo que muitas pessoas tinham conhecimento.

— Blaine. — Bartholomew chamou, e eu me virei para ele. Seus olhos também estavam queimando como sempre, mas com seriedade. — Estamos te confiando um dos maiores segredos de todo o reino. Um segredo que guia as nossas vidas.

Comprimi minha testa em confusão. Eu ainda não entendia nada, porque eles nem haviam falado nada!

— Eu já entendi isso. — Falei com determinação, e me voltei para Hawe, pois tinha a impressão que era ele quem presidiria a conversa. — Contem-me o porque de tudo isso. — Exigi, no meu melhor tom de nobre mimado e mandão.

Hawe soltou um suspiro, e percebi que todos tomaram ares mais sérios, incluindo Selena.

— É um fardo a se carregar, Blaine. — Ela disse, pela primeira vez soando maternal e gentil, com um sorriso cansado. Hawe coçou a barba ao seu lado, e levou o anel de sacristão a boca, murmurando uma prece inaudível antes de abaixar as mãos sobre o tampo da mesa lascada.

— É um segredo que poucos sacristãos descobrem na Fiel Marca, e que pode mudar toda a história do reino. É uma missão dos deuses que envolve os mortais desde um passado muito distante, e nos envolve também. — Ele engoliu em seco, e se inclinou na minha direção. Seus olhos tinham mistério e dor atrás deles. — Blaine, é a Lenda dos Herdeiros, que poucos habitantes de Jeera conhecem.

Estreitei meus olhos em confusão, sem sentir nenhuma intensidade naquilo.

— E o que diz a lenda? — Questionei, curioso, e Hawe se aprumou na cadeira.

— Vou conta-la. Mas antes disso, espero que já tenha ouvido o Conto da Criação.

Eu anui que sim.

— Sim, mas não me recordo tão bem. — Respondi, sincero. O Conto da Criação era a base da nossa religião, a Esfera dos Treze, e contava como os deuses de Jeera criaram o reino. Mas eu pouco sabia além disso.

— Pois bem. — Ele proclamou, e cruzou as mãos sobre a mesa. — Então vamos começar pelo Conto da Criação. E sua versão verdadeira, que é a Lenda dos Herdeiros.

Notas finais
Muito obrigada a todos! E não se esqueçam de fazer perguntas aos personagens no Ask!
Beijos!