As Treze Relíquias.

11 Capítulo 11 - O Peregrino das Trevas.


Notas iniciais
OIE GATOS!
Obrigada pelas reviews, como sempre me animei muito! Vocês são uns queridos.
Esse capítulo do Bartô ficou bem... Diferente. Ele tem uma narração um pouco mais sincera, e vão perceber que os efeitos que o Blaine causam nele são bem intensos. Acho que vai dar pra pegar algumas informações aí. O final ficou meio corrido, mas o próximo capítulo vai explicar bem a cena, caso não tenham compreendido bem o que aconteceu!
Espero que gostem! Capítulo bem agitado!
Tô dedicando ele pra todo mundo, porque todo mundo estava ansioso pelo cap do Bartô XD
Um beijo!
Boa leitura!

Você já beijou o próprio fogo encarnado em forma mortal? Um beijo que traga toda a sua sanidade, queima cada fibra do seu corpo com um desejo intenso e te carrega para longe da realidade, fora de qualquer padrão mundano ou mortal, algo contra você não consegue nem tem vontade de lutar? Algo que suga seu controle e suas ações, e que te consome de uma forma que chega a amedrontar?

Esse era o beijo de Blaine Becklan.

Quando nossas línguas se entrelaçaram, ali, sentados no meio daquela rua, eu senti tudo aquilo que acabo de descrever. Mas não era só o beijo, era toda a criatura em si. Maldito fosse, ele tinha alguma coisa que me atraía, algo que me tirava o controle, nos momentos em que me xingava ou quando eu o via fazendo qualquer atividade comum. Pegava-me pensando nele em quase todo o momento, hora pensando na Lenda dos Treze Herdeiros, hora pensando em como ele era teimoso, mas sempre com uma ponta de interesse naquela figura loira e atraente. Blaine era mais do que herdeiro de Lux, aos meus olhos ele era Lux, em todos os aspectos e ares, e isso me deixava fora de mim.

Maldito fosse Radás por se casar com aquela deusa, e maldita fosse Lux por dar tanta beleza a aquele garoto. Agora, o mortal que sofria era eu, nessa bagunça provocada pelo meu deus da morte, e a deusa da vida de Blaine.

E agora, tinha mais o fator de Blaine ter sido possuído, e estar ali, no meu colo, me beijando. A imagem dele com os olhos cor-de-rosa, os cabelos prateados chicoteando para todos os lados como se ele estivesse caindo do céu em pé, e o brilho que pareceu emanar de sua pele, ainda estava bem vívida na minha mente. Não me lembro de já ter ouvido falar de nada assim, e aquela intervenção divina só me fazia imaginar que realmente, ele era importante para tudo aquilo que estávamos fazendo.

Apertei os fios prateados de sua nuca com uma mão, enquanto minha mente ficava completamente turva. Ele arranhou minhas costas com os dedos, puxando o tecido de minha camisa, e me causando um desejo ainda maior. Minha ereção já surgia sob a calça, e eu apertei seu glúteo redondo e firme com a mão livre, ao que ele gemeu em meus lábios e apertou mais as pernas em torno da minha cintura. Perdi todo o controle que poderia ter ali. Tinha algo diferente naquele beijo, algo que fazia meu peito formigar de forma leve e estranha, mas prazerosa, como se algo estivesse lentamente me deixando, e sendo substituído por outra coisa, mais leve e mais agradável.

“Está selado, meu Peregrino.” Soou a voz fria e grave que eu tanto conhecia em minha mente, como um suspiro podre da morte. A sensação de temor com a qual eu já me acostumara me atingiu por um instante, mas foi encoberta pelo fogo que eu sentia naquele beijo. “Esse contato muda tudo em nossos objetivos”.

Fui surpreendido por aquilo. Radás decidira se comunicar depois de tanto tempo.

Tentei ignorar novamente a sua fala. Era incrível como o deus da morte escolhia ótimos momentos para se comunicar com a minha pessoa. Mas a minha curiosidade falou mais alto, e enquanto deslizava minhas mãos pelas curvas de Blaine e fixava minhas mãos em sua cintura, movendo-o contra a minha ereção de forma leve e lhe arrancando um gemido, questionei mentalmente o que o deus queria dizer enquanto ainda sentia sua presença fria e tenebrosa oculta num canto distante da minha mente, com pelo menos a educação de tentar não atrapalhar o meu momento.

“O presente de minha esposa, e meu. A ligação entre vocês, o dois Herdeiros da lenda que mudarão todos os ares de Jeera, e trarão a paz ao governo louco de Tornrey Ortyrien.”

Blaine agarrou meu pescoço com as duas mãos e se afastou um pequeno segundo antes de voltar a me beijar de forma intensa. Aquilo me deixou tonto por um momento, e percebi que Radás esperava por uma resposta. “E que presente é este?” questionei, após me recuperar.

“A ligação que os manterá unidos até que o Ganancioso desça do trono.” A voz grave me informou, e eu senti sua presença finalmente se afastar, de forma mais delicada do que chegou.

Os deuses, em sua sabedoria celestial, eram tão subjetivos quanto podiam quando queriam, achando que nós, mortais, entenderíamos suas falas rasas e incompletas. Obviamente eu não compreendera nada da mensagem.

Mas não queria compreender agora. Já tinha aprendido que não adianta tentar entender as vontades divinas. Cabia a nós aceita-las e esperar suas conclusões. E eu tinha a criatura mais quente de Jeera nos meus quadris naquele momento, se esfregando em mim e gemendo baixo contra meus lábios. Não era como se eu quisesse sair dali naquele momento.

Todavia, nem sempre o que queremos é o que conseguimos.

— Ei vocês! O quarto já está pago sabe, saiam do meio da rua! — Ouvi Corisseu gritar, e rompi o beijo que tinha com Blaine, ficando levemente tonto pelo retorno de consciência. Ergui meu rosto e segui a rua que subia, vendo a figura magra que gritava com as mãos em volta da boca. — Se alguém pegar vocês aí, juro que chuto seus traseiros! — Soltei um suspiro, e encarei Blaine.

Ele tinha o rosto corado e os olhos ainda ardiam de forma misteriosa, dourados como o próprio sol. Os cabelos estavam bagunçados pela nossa queda, e seus lábios úmidos estavam rosados e entreabertos. Pensei em beijá-lo novamente com aquela visão tão sedutora, mas ele colocou a mão no meu peito e se afastou levemente, descolando nossas ereções. Senti algo estranho no meu peito, uma sensação muito leve de que alguma parte de mim estava me deixando.

— É melhor subirmos. — Ele disse de forma séria, mas com aquela seriedade visível de um bêbado que tentava disfarçar. Pelo jeito, Lux o deixara embriagado. — Eu tenho de te falar sobre o Castelo das Tortas.

=—=

A atmosfera séria da sala parecia palpável naquele instante. Fiquei admirado com até o fato de Selena estar calada, e Ronper com a cara fechada. Todos pareciam aceitar o fato de que, Blaine colaborando conosco era algo que merecia certa seriedade. Quando encostei a porta, e deixei Dorian vigiando para que ninguém entrasse sem aviso naquela sala pequena nos fundos da estalagem, me sentei de frente pra Blaine na mesa redonda de madeira lascada e velha, e o encarei. Até ele parecia anormalmente sério, sem aquele ar de teimosia ao seu redor, com a expressão determinada em seu rosto corado pela bebida que ele não tomara. Eu ainda não acreditava que ele estava nos ajudando.

Selena brincou de forma distraída com o caneco de cerveja que tinha em mãos, inclinando-o de um lado pro outro e encarando enquanto o líquido amarelado dançava em seu interior. Sem erguer os olhos, ela deu início.

— Certo, então você decidiu colaborar conosco? — Ela perguntou, erguendo os olhos sérios para Blaine. Hawe soltou um pigarro ao meu lado, e o garoto loiro respirou fundo.

— Sim. Eu lhes darei os detalhes de Castelo das Tortas, que conheço pelas várias vezes que o visitei. — Falou em tom sério, e encarou a tia. Tinham uma semelhança admirável. — E antes que questionem, não estou mentindo, nem tentando comprometer a missão de vocês lá. — Falou, e me encarou nos olhos, fazendo com que eu sentisse uma estranha fisgada em meu peito. De alguma forma, eu sabia que ele não estava mentindo.

As falas de Blaine foram diretas e detalhadas, sem abrir espaço para nenhuma dúvida. Para nós, que pouco sabíamos sobre a morada de Otelo Gartan, as informações foram relevantes. Castelo das Tortas era uma construção pequena, suas muralhas eram de madeira velha e apodrecendo, e não havia nenhuma torre de vigia. Os portões eram guardados por dois vassalos mal preparados, que normalmente viviam bêbados, já que seu trabalho nunca era necessitado. Era um castelo fácil de invadir, pois nunca havia sido invadido e nem temia por isso, sendo que não tinha nada de valor a oferecer, senão um pouco de ouro e pouquíssimas joias de família. Ele descreveu inclusive onde ficavam os cômodos habitados do castelo, e onde era a sala do tesouro. Também comentou a rotina de Lorte Gartan, e sua esposa Phyllia Jarcs, e a ligação de amizade que a família Gartan mantinha com o Governador Becklan.

— Se o invadirem, é bom sumirem em poucos dias. Castelo das Tortas nunca sofreu invasão porque não tem nada à oferecer que valha o risco, mas também porque é tão próximo da capital que os ladrões pensam duas vezes antes de tentar um assalto. Bela Colheita protege Vila das Tortas, e em troca Vila das Tortas mantem-se vendendo tortas de qualidade para o nosso desjejum. — Comentou por fim, cruzando as mãos sobre a mesa. — Isso é tudo que posso dizer para ajuda-los.

— Quer dizer que esse castelo será simples. — Corisseu comentou, se inclinando na cadeira de madeira, que rangeu de forma alarmante. O encarei, e ele ergueu uma sobrancelha. — Levando em consideração que tudo que nosso nobre disse seja verdade, sairemos com as sacolas cheias antes que os guardas acordem.

— Não parece realmente difícil. Podemos planejar com facilidade a invasão pra esta noite, e partir durante a manhã. — Hawe falou, batucando os dedos na mesa. — Não gosto deste Tommy, mesmo ele sendo um crendista...

Selena também começou a dizer algo, mas eu me voltei para Blaine, sem perceber, notando que ele parecia repentinamente cansado. Franzi as sobrancelhas quando o vi fechar os olhos e respirar fundo.

— Está passando bem, docinho? — Soltei, e ele anuiu com a cabeça, apoiando as mãos na mesa de madeira.

— Minha cabeça está girando. — Ele disse, e eu ergui uma sobrancelha. — Acho que preciso deitar um pouco agora.

Selena se levantou no mesmo instante, parecendo levemente preocupada, e segurou o braço dele com delicadeza.

— Vamos, eu vou te levar pro quarto. — Disse, lançando um olhar para nós que ainda permanecíamos deitados. — Provavelmente ele está sem comer, ou algo que comeu o fez mal. Volto em breve.

Ela o ajudou a levantar da cadeira, e ele lançou um último olhar cansado para nós.

— Obrigado pela ajuda. — Hawe agradeceu, e ele acabou soltando um pequeno sorriso. Seus olhos dourados se fixaram nos meus.

— Espero que não ajude muito... — Disse de forma cansada, mas acabou me arrancando um sorriso. Em seguida, ele saiu, levemente apoiado na tia. Ia ficar bem com Selena, ela podia curar todo e qualquer mal possível de cura devido sua habilidade de herdeira.

Assim que a porta fechou novamente, todos voltaram seus olhos para mim.

— Mas o que diabos você fez com o demônio loiro? — Corisseu questionou, se inclinando sobre a mesa na minha direção. — Por acaso agora o seu beijo faz dos outros seus escravos?

Ronper não me deu tempo de explicar.

— Ele realmente parecia estranho, cooperando assim. Não era mentira não é? Não consegui sentir nenhuma mentira nele... — Comentou enquanto movia a mão em direção a sua insígnia, que prendia a sua capa de cavaleiro.

— Não, ele não estava mentindo... — Hawe completou. — De alguma forma, ele decidiu nos ajudar.

— É, realmente é suspeito como os infernos de Radás, mas não farejei nenhum falso testemunho. — Corisseu disse, e se moveu daquela forma animal que costumava fazer, com uma careta desconfiada. — O que você fez Bartô?

Todos me encararam novamente, esperando a minha resposta. Respirei fundo uma vez, antes de suspirar e responder.

— Lux o possuiu. — Expliquei, e antes que mais perguntas viessem daquelas línguas ágeis, continuei. — Não sei bem as razões, mas ele ficou com os olhos rosa, e agindo estranho, os cabelos sacudindo como chamas. Em seguida me agarrou e disse que Lux o possuiu. Estava agindo como se estivesse muito bêbado. Falou que ela pediu que nos contasse sobre o Castelo das Tortas e perguntasse sobre as Relíquias. E disse que ela nos deixou um presente, pra ele e para mim.

Os três pareceram surpresos. Hawe me encarou com uma sobrancelha erguida.

— Então Lux tomou o corpo dele? Nunca tinha ouvido falar de algo assim. — Coçou a barba grisalha de forma distraída. Ele não parecia duvidar de mim, apesar disso. — Céus, e o que é esse presente?

— Não sei. — Respondi com sinceridade, puxando um copo de cerveja para mim e tomando um gole. — Radás também falou comigo. — Comentei. Aquilo era mais comum para os herdeiros, ainda que mais raro. Ronper, Selena e Hawe já haviam vivenciado aquele tipo de coisa. — Disse que é uma ligação entre nós.

— E você sentiu algo diferente? Está sentindo? — Hawe questionou, me encarando. Percebi que a única coisa que estava diferente era aquela sensação de estar incompleto desde que rompemos nosso beijo, e que, agora que Blaine saíra da sala, estava ainda mais incômoda.

— Algo como... — Busquei palavras para explicar a sensação. — Um incômodo por estar longe dele. — Falei com simplicidade. Não havia porque guardar segredos de meus companheiros.

Hawe pareceu pensativo, assim como os outros dois.

— Talvez uma ligação de sentimentos... Ou algo como uma ligação presencial. — Ele supôs, sem muita convicção. — É algo que nunca ouvi sobre. É realmente misterioso o que acontece com vocês dois. O fato de serem herdeiros desses deuses casados é algo que vem mudando bastante o rumo das coisas...

— Nunca aconteceu de antigos herdeiros de deuses casados se conhecerem? — Corisseu perguntou, se referindo às pessoas que carregavam nosso fardo antes de nós. Hawe negou a cabeça, parecendo levemente admirado.

— É realmente a lenda se tornando realidade. — Respondeu o sacristão com um pequeno sorriso, se voltando para mim. — Talvez dessa vez realmente poderemos restituir ao trono o Velho Rei.

Deixei algum tempo para que eles pudessem pensar, esperando alguma suposição nova. Mas sem nenhuma resposta, acabei por dar continuidade ao assunto.

— Bom, que seja. Mistérios dos deuses são coisas que só o tempo e eles mesmos podem explicar. — Falei, batendo meu copo na mesa lascada, e me inclinei. Eu era o líder ali, e tínhamos muito que pensar. — Agora, precisamos pensar. Temos um castelo para invadir, e uma fuga para planejar. Vamos tomar todas as medidas para que tudo dê certo.

— Tem certeza de que vale a pena invadir o Castelo das Tortas? Os Gartan não são uma família tão antiga a ponto de terem alguma relíquia. — Ronper disse, em seu tom sincero. Eu também não tinha grandes esperanças de encontrar uma relíquia ali. E logo, precisaríamos pedir para Blaine começar a testar alguns de nossos itens e ver se encontrávamos a sua própria relíquia.

— É melhor tentarmos agora do que nos arrependermos de não ter feito. Ainda mais vendo a facilidade que é invadir este castelo. — Hawe respondeu, e eu anui, reforçando. As relíquias podiam estar em qualquer lugar e ser qualquer coisa. Não podíamos deixar oportunidades como esta passar. A única informação que tínhamos sobre qualquer relíquia, era de que elas eram itens de valor que pertenciam normalmente à famílias mais abastadas.

— Será uma invasão simples, e rápida. — Ordenei, mais do que supus. — Invadiremos e pegaremos o que quisermos, e o que chamar a atenção. Com sorte, nem acordaremos ninguém, entraremos e partiremos como as sombras.

Era assim que eu queria que fosse, pelo menos. Um assalto aos ares de Peregrino das Trevas.

Não tivemos muito o que discutir a partir daí. Nunca fomos um bando que pensou muito ao atacar, visto que isso várias vezes nos causou imprevistos desconfortáveis. O único ali que raciocinava mais era Hawe, mas ele nunca ia aos assaltos, e eu entendia que o sacristão não queria sujar suas mãos. Acabamos por decidir que desta vez iríamos apenas eu, Ronper e Corisseu, que éramos sempre os mais adequados para essas missões.

Depois, o resto do dia foi esperar pelo anoitecer, que era a hora que mais nos servia para as invasões. Durante a noite, a cidade dormia. Os castelos se calavam, e os guardas eram mais sonolentos. Roubávamos à noite, porque a escuridão trazia a insegurança e o medo aos mortais. Os nobres dificilmente conseguiam pensar com clareza quando eram roubados durante a noite, dificilmente encontravam soldados para perseguirem os bandidos. Roubávamos durante a noite porque as trevas eram o domínio de Radás, e meu. E durante a noite, não havia mortal, herdeiro ou não, que pudesse me vencer.

A estalagem ficou vazia pelo dia todo, e não achei nada de interessante para fazer além de beber com os outros e conversar. Selena apareceu também na hora do almoço, enquanto o gordo Tommy nos servia um pato assado, e disse que Blaine estava dormindo, exausto. A sensação estranha no meu peito não me abandonava, e eu percebi durante o dia que ela amenizava quando eu pensava no herdeiro de Lux.

Os deuses haviam de explicar um dia, o que tinham em mente com esses planos tão mirabolantes.

Quando a noite chegou, aquela conhecida sensação de ansiedade nos tomou. Todos bebiam no salão principal da estalagem, e conversavam sobre coisas levianas. Eu estava jogando dados com Dorian e Corisseu. Blaine ainda permanecia em seu quarto. Foi quando já se passavam várias horas após o pôr-do-sol, e várias Codornas apostadas no jogo de dados, que nos preparamos para partir.

Ronper vestira suas vestes negras de assalto, se livrando da pesada e ruidosa armadura de aço-muralha. Corisseu afiava sua adaga numa pedra de amolar. E eu mantinha minha mão no punho da “Viúva Negra”, minha espada, e minha relíquia, que me concedia a maior parte de minhas vitórias e poderes.

Não cheguei a perceber quando meu peito pareceu se aquecer, e eu senti uma vontade imensa de ver Blaine antes de sair para o assalto. Somente percebi que me encaminhava pro seu quarto, sentindo aquela atração misteriosa que ele tinha sobre mim, desde que eu o beijara em seu quarto no Cálice, e descobrira como aquelas lábios, que não eram influenciados pelos meus, me influenciavam.

Eu não perguntara em qual quarto ele fora colocado. Mas sabia qual era. Sentia que ali, na quarta porta do corredor iluminado pela lua cheia, eu o encontraria.

E quando abri a porta, eu o vi, exatamente atrás desta, paralisado pela surpresa de me encontrar ali, como se ele mesmo estivesse dando um passo para sair do quarto quando eu abri a porta. Eu percebi em seus olhos que ele estava sentindo a mesma coisa que eu, conseguia sentir a minha presença ali, atrás de sua porta um segundo antes.

Ficamos em silêncio por um momento, nos encarando. Percebi que ele não estava mais alterado. Conseguia ver novamente aquela chama selvagem dele, que o tornava rebelde e de língua rápida, respondão e teimoso. De alguma forma, aquilo era algo nele que me excitava também, toda aquela determinação em não se submeter à ninguém. Mas dessa vez, ele apenas fechou a cara, e não chegou a abrir a boca doce pra me ofender.

— Vamos partir para invadir o Castelo da Tortas. — Falei, sem pestanejar muito mais. Ele se aprumou e cruzou os braços, sem resposta. — Obrigado pelas informações.

Ele fez uma careta.

— Aquela deusa mexeu com alguma coisa na minha cabeça. — Falou, dando as costas para mim e seguindo pelo quarto até a janela. Era um cômodo simples, com apenas um lampião aceso, uma cama, e um baú de roupas. Ele apoiou as costas na janela, e eu caminhei pra dentro do quarto, percebendo que até naquelas ações simples, seu caminhar e seus movimentos graciosos, ele me atraía.

— Já descobriu sobre o presente? — Perguntei, e ele estremeceu, arregalando os olhos e corando tão veloz quanto o vento. — Bem, de qualquer forma, você nos ajudou. Espero que a mensagem divina tenha enfiado algo na sua cabeça, e decida continuar a cooperar conosco. — Falei com simplicidade, e com um gesto de cabeça, me despedi. Cada fibra do meu corpo pedia pra que eu tomasse aquela boca, agarrasse aquela cintura, e mergulhasse naquele fogo, mas eu não o fiz. Não queria que Blaine se irritasse, e mudasse sua postura favorável.

Porém, quando dei as costas para ele e a caminhei até a porta, fui parado por uma mão em meu braço. Virei-me surpreso, e o loiro me encarava com seriedade.

— Quero que me conte o que está acontecendo. Sobre essas tais relíquias que Lux falou. — Ordenou, num tom de nobre, e eu percebi que ele tinha certa força de líder em si.

Estávamos próximos demais. A sensação no meu peito finalmente sumira por completo, e eu começava a perder o controle novamente de minhas ações. Levei uma mão ao seu rosto, e ele não se afastou, continuou ali, sério, corado, e lindo. Uma chama se acendeu em meu interior.

— Se voltarmos vivos, eu contarei. — Disse com simplicidade. — Concluirei que foi honesto e nos ajudou. E então, confiarei em você. — Ele abriu os lábios para ofegar de leve, e eu me inclinei em sua direção. Seus olhos se fixaram nos meus. Eu realmente começava a confiar nele. Sentia que algo naquela ligação que se formara entre nós durante o beijo na rua mudara sua mente.

— Então volte vivo. — Ordenou novamente naquele tom forte, e aproximou os lábios dos meus lentamente, parando a milésimos. Meu controle estava no limite, e agora, meu peito antes incômodo, parecia em chamas. — E me contará no que me enfiou.

Blaine levou uma mão à minha nuca, e me puxou, colando nossos lábios. Foi apenas um selo, mas fora diferente de nossos outros beijos, eu me senti completo com apenas aquele toque, e quando eu apertei sua nuca para intensificarmos, ele se afastou com firmeza, me encarando sério, mas muito mais vermelho que antes. Deu vários passos para trás, em zona segura, e levou uma mão ao peito. Aquela sensação de incompleto me atingiu novamente.

— E eu sei o que é o presente. — Disse, afagando o peito, como se também estivesse sentindo o mesmo. — Os deuses são uma piada às vezes.

Acabei por sorrir para ele, enquanto caminhava de costas para a porta.

— A maioria das vezes. — Falei, antes de deixar o quarto, e o sorriso que ele me lançou encheu meu peito de satisfação.

=—=

Invadir o Castelo das Tortas foi tão ou ainda mais fácil do que esperávamos.

Entrei pela janela aberta da torre leste junto com Ronper assim que Corisseu uivou para a lua. Era o sinal de que os guardas estavam distraídos. As paredes mal feitas foram fáceis de se escalar, e em poucos minutos, chegamos até o salão do tesouro e roubamos todo item que parecia uma possível relíquia. A noite já estava avançada demais, e mesmo que eu estivesse o tempo todo preparado para batalhar, Blaine havia sido sincero ao dizer que o castelo não tinha segurança, pois não encontramos nenhuma alma acordada naquela hora.

A missão foi um dos nossos maiores sucessos, e se nossos planos dessem certo, ao amanhecer estaríamos a caminho da próxima cidade. Quando pulei a muralha e encontrei Corisseu com uma posição arisca e animalesca em nossa frente, pude perceber que ele havia acabado de alterar sua forma. Afastamos-nos até uma pequena mata ao lado do castelo, saindo do campo de visão dos guardas. Ele nos encarou com uma selvageria fora do comum até para ele, e soltou um rosnado baixo, seus dentes afiados reluzindo ao luar.

— Conseguiram? — Questionou com tom alarmado, com o nervosismo que sempre acompanhava uma invasão, e eu anui, mostrando o saco cheio de anéis, colares, e outros objetos que poderiam vir a ser relíquias. — Ótimo, vamos embora logo...

Eu perdi o resto de sua fala quando senti a sensação no meu peito incomodar de forma alarmante. Desde o momento que deixei a estalagem, ela havia sido minha companheira, e eu estava me acostumando a ela. Mas agora ela me incomodava novamente, com uma chama de preocupação que eu não sabia de onde vinha. Franzi meu cenho, confuso com aquilo, e senti como se lentamente, a parte de meu ser que estava faltando e eu sabia estar com Blaine, se afastava mais a cada segundo. Arregalei meus olhos quando em minha mente, surgiu uma súbita e avassaladora certeza.

Blaine estava fugindo. De alguma forma, conseguira fugir.

Não sabia como eu sabia aquilo. Mas um desespero tomou conta de meu peito. Ele não podia nos deixar, precisávamos dele para completar nossa missão e salvar o reino. Ainda mais do que isso, meu peito ardia em desespero pela ideia de perder aquela parte que me faltava, e eu sabia estar com ele.

— Blaine está fugindo. — Anunciei para meus companheiros que me encararam com olhos arregalados. Ronper abriu a boca de forma surpresa.

— Como você sabe? Bartô, Hawe e os outros estão com ele...

— Vão para a estalagem. — Eu anunciei, entregando a sacola com os frutos de nosso furto para Corisseu sem muita delicadeza. Precisava ir atrás de Blaine, porque mais uma certeza surgia em minha mente, uma certeza que não fazia nenhum sentido, mas eu sabia que era verdade. Sentia. — Estou indo atrás dele.

O doce herdeiro de Lux estava em perigo também.

— Bartô! — Ronper anunciou num sussurro desesperado. — Calma, não estamos entendendo o que é isso tão de repente...

— A ligação Ronper. — Falei de forma ríspida, desembainhando a Viúva Negra. Senti a energia estranha que me percorria quando eu tinha a relíquia em minha mão, como se um pouco de sombras corresse junto com meu sangue e esfriasse todo meu corpo, como se arrancasse um pouco da minha vitalidade. Era o poder das trevas que os herdeiros de Radás ganhavam ao encontrar a relíquia. — A ligação entre nós, eu sei que ele está fugindo, e está em apuros. E vou até ele.

Estendi a espada em minha frente antes que eles pudessem falar mais algo, e deixei o poder fluir de meu corpo para a espada. Senti meu controle sobre as sombras da noite iluminada pela Lua de Loucura me encontrar, e o agarrei com força. Mesmo depois de tanto tempo controlando aquilo, a sensação ainda era amedrontadora e incômoda. As sombras subiram do chão, e senti quando elas me envolveram, num turbilhão gélido que me envolvia. Concentrei minha mente em Blaine, enquanto sentia meu corpo se fundir com as trevas e nos tornarmos uma única coisa. Nunca havia usado minhas habilidades para viajar para tão longe, mas sentia que podia fazer aquilo.

E quando senti minha existência ser totalmente tomada pelas sombras, sabia que estava peregrinando pelas trevas, como minha alcunha informava.

Nunca soube descrever a sensação de viajar pelas sombras. Era algo como respirar ou falar, você podia tentar explicar como sabia aquilo, mas não conseguiria. A sensação era gélida e confusa, e eu nunca tinha a certeza de que encontraria o meu destino, nem de quando eu retornaria para a luz. Dava medo, na verdade. Mas sabia que para retornar, só precisava de uma sombra, já que todas as sombras do mundo eram interligadas.

E quando senti meu corpo surgir do meio das trevas, tinha certeza que estava no local certo. Meu peito reconheceu a presença de Blaine antes que eu o encontrasse com os olhos.

Estávamos no meio de uma mata, que eu reconheci como a pequena mata próxima da estalagem. Havia ressurgido das trevas exatamente do lado do loiro, que tinha um olhar assustado no rosto enquanto encarava os seis homens grandes e armados que se postavam em nossa frente, com as feições surpresas provavelmente devidas minha aparição. Um deles deu vários passos para trás assustado, e senti uma fúria digna do Deus dos Dragões me invadir.

Não sabia o que fizeram, mas sabia que Blaine estava com medo, pois agarrou meu braço livre com os braços.

— Lucci! — Anunciou surpreso, em tom baixo, e eu não desviei meus olhos daqueles homens. Com Blaine encostado em mim, me senti completo novamente, e envolvi sua cintura com meu braço, colando seu corpo no meu. Fechei minha expressão pros homens, e apertei mais Blaine contra mim.

— Não se mova pra longe de mim. — Avisei, estendendo o braço da espada em minha frente, e apontando Viúva Negra para o chão.

— O que é você?! — Gritou o homem mais à frente, provavelmente o líder do grupo. Ergueu sua espada em sua frente, visivelmente assustado, e trêmulo. Todos os homens pareciam com medo. Era o efeito que minha habilidade causava. — Solte a espada e se afaste!

— Eu sou o Peregrino das Trevas. — Anunciei em tom sombrio, e os homens se encolheram assustados. Senti Blaine agarrar o tecido que cobria meu peito com uma mão, enquanto observava os homens assustado também. — E vim trazer a morte.

Com suavidade, soltei a minha espada, e ela deslizou através do chão, como se entrasse nas sombras que o cobriam. O silêncio imperou entre as árvores, e abaixei meu rosto, enquanto sentia a tensão se formar no ar.

— Sonata das Trevas. — Proclamei o nome do ataque que aprendera há tanto tempo.

E então, os gritos desesperados de seis homens morrendo invadiram a noite.

Notas finais
Percebam que o Bartô é bem mais... Confiante do que o Blaine, não acharam? Assume com mais facilidade os sentimentos, eu penso.
Espero que tenham gostado do capítulo!
Explicações estão chegando...
Beijos e bom feriado pra vocês!