As Sete Majestosas

9 O Instrumento


Notas iniciais
Oi! So queria informar que as vezes eu reescrevo pequenas partes dos capitulos ja postado, entao seria bom ler o atual e o anterior para ver se nao modifiquei nada kkk por exemplo, no anterior eu adicionei algo bem importante sobre o decimo quarto pais de Calipo. Se nao viu sobre isso, va la!

— Danação, jovem capitão! Estamos vivendo a danação!

O idoso homem chamado Mazutti reclamava em plenos pulmões enquanto carregava tábuas de madeira sobre o ombro. Alak o seguia com um punhado de feno embaixo de cada braço, escutando e assentindo pouco crente nas palavras do companheiro de cavanhaque branco e pano enrolado na cabeça para proteger a careca.

— Grite mais alto, velho malandro, se quer tanto ser açoitado — avisou com um meio sorriso.

Mazutti cuspiu na direção dos guardas inlicianos em sinal de desprezo. Alak meio que aprovava as provocações. O que eles fariam de pior com aquele pobre coitado? Ele já mancava e se urinava sem perceber, se fosse duramente castigado, seria capaz de morrer, e assim teriam menos mãos para fazer o duro serviço de assentamento para as tropas do rei Vald.

Ambos caminhavam pelo acampamento improvisado, sob um sol voraz e impiedoso no qual trabalhavam escravizados para receber nada além de ensopado de batatas e água ao fim do dia. Foi assim durante aqueles dois meses desde que o jovem mercenário acordara acorrentado com o maldito Porco lhe dando socos ao bel-prazer. Perdera peso, mas ganhara uma barba felpuda e um cabelo grosso armado para cima. Transformou-se quase em um animal frente aos tratamentos de seus superiores, vestindo roupas gastas que não o serviam direito, e dormindo em alojamentos precários e fétidos. O rei lhe disse que o faria uma peça útil em seu tabuleiro, mas pelo menos até aquela manhã, tudo que ele fizera foi o mesmo que os outros escravos nos serviços braçais, não que sentisse que devia ser especial. Pelo visto, Vald estava preparando uma futura declaração de guerra, agora às Areias Baixas, como era conhecida a região que ficava um pouco ao sul de Finareia.

Alak não parou um segundo de pensar em fugir dali. Mas além da alta vigilância dos guardas, se não fosse para o território já ocupado pela Inlícia, estariam cercados por dunas de areia, com poucos caminhos que serpenteavam por entre elas. Seria impossível fugir a pé, morreria no deserto em questão de dias. E também não poderia abandonar seu grupo. Fora Mazutti, outros dezoito Cicatrizes haviam sobrevivido a resposta dos inlicianos naquela noite desastrosa, que ainda não se lembrava por completo, embora os outros tivessem lhe contado que um tipo de nuvem escura se apoderou do ambiente para fazê-los dormir. Pouco crível, para ele. E ainda havia Lydia. Não podia fugir sem ela, que mal saía da cozinha das mulheres, sempre preparando as refeições dos esquadrões. Pelo menos o rei honrou sua palavra e não permitia que nenhum de seus homens a tocassem. A moça também estava numa situação melhor de limpeza do que aqueles primeiros dias. Ainda assim, não era uma vida digna para nenhum ser humano.

— Oh, oh, conheço esses olhos, jovem capitão. Está pensando em uma forma de fugir de novo, não? — dessa vez o velho tomou cuidado para sussurrar.

— Somos em dezoito, eu preciso de ao menos nove cavalos. Se fugirmos em duplas pela estrada norte, chegaremos em qualquer Vila das Areias Baixas rapidamente.

— E como pretende passar pelos guardas dos portões? Estaríamos em maior número, mas os malditos nos veriam a galope e tocariam a corneta.

— Sim... eu poderia tentar suborná-los de alguma forma. Prometer rios de ouro.

Mazutti o encarou com olhos cerrados.

— É, eu sei. Seria perca de tempo.

— Danação, jovem capitão.

Eles chegaram ao final da trilha e entregaram os materiais para os outros escravos, também Cicatrizes. Ao virem Alak, desviaram o olhar com repulsa. Para eles, seu líder fraquejara diante do inimigo, mas o que poderia fazer? Nada além de jogar aquele jogo. Em algum momento, teria que aproveitar qualquer chance para sair da situação. O problema que não lhe davam jogadas. Não até agora.

Um sujeito vestindo um sobretudo esverdeado sobre um colete de linho nobre acabara de vir em sua direção. Ele tinha medianos cabelos castanho-claros, e uma barba rente ao queixo quadrado e jovial. Na cintura, tinha uma bolsa de pele de cordeiro pendurada, e ainda duas bainhas contendo o que parecia ser machadinhas de cabos de madeira bem esculpidas e envernizadas.

— Você deve ser o Cicatriz — disse ele averiguando cada centímetro da estatura de Alak.

— Sim?

— Está bem alimentado?

Alak precisou segurar o riso.

— Só ganhamos comida ao anoitecer.

— Meu nome é Ren — o rapaz abriu a bolsa e tirou um belo pedaço de pão recheado com carne, jogando-o para Alak. — Coma enquanto me acompanhe.

— Para onde?

— Você precisa de um banho e roupas melhores. E prefere adagas como arma, não?

O Cicatriz olhou para Mazutti e os outros, mas eles fingiram não se importar com a conversa. Ren notou que talvez não fosse um lugar apropriado para tal e retirou uma carta da mesma bolsa.

— Sabe ler?

— Sim, eu sei.

— Então coma, leia e me acompanhe. Estou com pressa.

Alak pegou a carta e apressou o passo ao notar que Ren já estava ficando longe. Realizou a leitura com um pouco de dificuldade. Embora soubesse de fato ler, aquelas palavras eram rebuscadas demais, e não era para menos, era uma mensagem do rei Vald Hales. Uma convocação para uma missão. Um assassinato.

— Conseguiu entender? — perguntou Ren. — Vossa Graça disse que você seria útil. E que deve ser para salvar vidas.

— Um pequeno senhor de mulas não quer fornecer seus animais para o acampamento e o rei quer matá-lo por insubordinação? — indagou Alak, citando o que havia lido na carta. — Por que ele não manda um de seus soldados?

Ren pareceu sorrir pela primeira vez.

— Esse é um serviço sujo. Mancharia a reputação deles. É serviço de mercenário. E o tal senhor das mulas se esconde em um casebre num vilarejo há uma hora ao sul, não vale a pena mandar as tropas para lá. Mas tudo isso é para Vossa Graça saber se você pode mesmo ter serventia. Vamos somente eu e você.

— O que?

— Não pensou que ficaria livre para fazer o trabalho, pensou?

Alak franziu o cenho, calado. Não poderia ir sozinho, mas com certeza daria conta daquele magricela em sua frente, não? Obviamente ele não estava em sua plena forma física, o que não significava que perdera suas habilidades com as adagas. Matar o homem e fugir seria fácil.

— Então você é o mercenário do rei?

— Não, eu sou o Instrumento do rei.

— Um rhufanore?! Você é um rhufanore?!

Isso mudava um pouco as coisas. Ren viera de Rhufanor, um país onde os melhores guerreiros de Calipo nasciam. Mesmo que não o tivesse visto em ação, Alak sabia que tinha de ser cauteloso contra homens daquela nação. Sem falar que ele era um Instrumento. Isso queria dizer que, seguindo as tradições de Rhufanor, após ter a vida salva por uma pessoa, aquele guerreiro de maior estirpe teria que servir seu salvador sem qualquer recusa. Vald deve ter o salvado em algum momento, e agora Ren o obedece. O contrato verbal e extremamente honrado apenas não funcionava contra o próprio reino de Rhufanor, apesar de existir algumas brechas para isso. De qualquer modo, um Instrumento certamente seria perigoso de se enfrentar em seu atual estado.

Porém, Alak notou que Ren tinha salvo conduto em cada portão que passava. Normalmente, um Instrumento seguia às riscas as ordens de seu Senhor, mas podia discordar de seus ideais sem problema. Talvez conseguisse suborná-lo de alguma forma? Teria que realizar aquela missão e descobrir o quanto o homem acreditava na causa da Inlícia e intenções do rei.


~~


Após comer o sanduíche de carne e tomar um banho que não tomava há sabe-se lá quanto tempo, Alak recebeu vestimentas apropriadas para combate, um sobretudo, duas adagas e um cinto tomado de punhais. Com a própria lâmina das armas aparou a barba e cabelo, e quase se sentiu invencível de novo ao reparar a aparência no espelho.

Ren o esperava nos estábulos. Ele já estava montado em um belo animal de pelugem branca. Para Alak fora designado um cavalo de raça inferior, mas ainda bonito e bem cuidado. Entretanto, seu pelo negro o lembrou dos pesadelos que vinha tendo com o Cavaleiro Caído. Desde que o vira pela primeira vez naquela floresta escura, a figura do Cavaleiro de elmo de espinhos o assombrava em noites intervaladas. Montou e seguiu o rapaz para fora do acompanhamento.

— Está bem melhor, Cicatriz — elogiou Ren com um sorriso cínico. — Acho que nem preciso lhe avisar, mas por favor, não tente nada audacioso. Não quero ter que recorrer a violência desnecessária. Matar um fazendeiro miserável já vai estragar meu dia.

Aquilo era bom para Alak. Talvez o homem tivesse compaixão?

— Não se preocupe — garantiu Alak. — O rei já me deixou avisado que se eu cometer algum erro, meus companheiros pagarão com a vida.

— Importa-se tanto assim com eles?

— Eu os meti nessa. Não posso deixar pior do que já está.

— Compreendo. Bem, siga-me a meio galope, não precisamos cansar nossos amigos aqui. Chegaremos na vila antes do pôr do sol.

— Combinado.

Então, a dupla partiu pela estrada sul, deixando as dunas para trás, pois naquele caminho ficava o litoral de praias e montes áridos de Valennas. A costa do país era bem extensa, com o porto principal ficando na baía ao norte-oeste, porém este não fora um dos lugares do qual a Inlícia ganhou na guerra, e sim os vilarejos à beira-mar do sul. Como era um lugar mais remoto, possuía apenas um Lorde que comandava afastado de seu castelo, a rede de vilas e vilarejos, e que não demorou a serem tomadas por forças inlicianas. O lorde foi expulso e fugiu com a família para Finareia, mas a população das vilas permaneceu. Em sua maioria eram simples pescadores ou fazendeiros. Claro que agora respondiam diretamente aos senhores e guardas cada vez mais exploradores da Inlícia, mas não se importavam em deixar suas terras por causa disso. E sobreviviam desde que não fizessem qualquer insulto ao rei como aquele criador de mulas estava fazendo. Alak não queria ter de matá-lo, mas era um mercenário, seria apenas mais um trabalho. Não em prol do rei Vald, e sim do seu grupo.

Passara-se já mais da metade da viagem quando os dois avistaram uma pequena ponte de pedras que se arqueava sob um rio de forte correnteza. Ali o ambiente ainda era seco, com pouca vegetação e sombra. Ao passarem sobre a estrutura, ouviram o tilintar de aço em suas retaguardas.

Cerca de dez homens vestindo precárias placas e capacete de metal saíram da ribanceira que margeava o rio debaixo da ponte. Um desses sujeitos lançou sua lança que se cravou com violência na montaria de Ren. O bicho relinchou alto e caiu de lado, quase esmagando seu condutor que saltou com agilidade no último segundo. Rapidamente, a dupla se viu cercada por inimigos com armas inconsistentes e gastas, mas que matavam do mesmo jeito, principalmente em maior número.

Alak desmontou e ajudou o companheiro a se levantar. Contou sete espadachins, um brutamontes com um enorme machado de lenhador, e outros dois jovens com lanças.

— Uma emboscada para proteger o fazendeiro — presumiu Ren olhando tristemente para o cavalo que agonizava.

— Eu pensei que não íamos encontrar problema num pequeno vilarejo! — exclamou o Cicatriz, atento aos movimentos dos adversários. Eles não tinham uma postura adequada, nem mesmo físico de guerreiros, mas claramente dariam tudo de si para vencer. — E agora?

— O maldito senhor de mulas parece ser querido. Um grande erro! Vamos, somos muito mais do que esses camponeses. Pego metade e você a outra!

— Mas...

Alak ia propor que se rendessem, afinal não houve ataque até então. Ren não lhe dera tempo, sacou suas machadinhas e partiu para cima do primeiro alvo. Seus movimentos se tornaram graciosos, fintando com os joelhos para quebrar a defesa do primeiro espadachim que fora atingido no estômago e depois no pescoço, sem ter qualquer chance. Quase sem respirar, o rhufanore seguiu para o próximo inimigo, que rebateu sua ofensiva quase no susto, mas depois recebeu um pisão no pé que o fez abrir a guarda. Outro que morria pelo fio das machadinhas gêmeas.

Não havia mesmo outra alternativa? Alak levou as mãos às empunhaduras de suas adagas, mas antes de puxá-las, percebeu que a sua metade de oponentes não fazia menção de investir em sua direção. E depois de constatarem que o jovem não mostraria suas lâminas, acabaram por dar atenção total ao que de fato os enfrentava. Eles não possuem estratégia alguma. Pensou Alak, ainda observando. Se eu não fizer nada, vão atacar Ren todos de uma vez. Ele é bom, mas... sozinho? Era um pensamento perigoso. Estava disposto a deixá-lo morrer ali? Seu cavalo ainda estava próximo, conseguiria fugir nele. Ou então poderia se entregar àqueles homens, se contasse sua história, talvez o deixassem livre.

Ren continuava a matar, sendo o terceiro e quarto adversário que agora derramava rubro sangue em suas armas, mas seus movimentos estavam mais lentos, e um dos lanceiros havia perfurado de raspão sua coxa destra. Mais um pouco e a força numerosa de inimigos o derrotaria sem dúvida. O Cicatriz finalmente afastara suas mãos da cintura e deu alguns passos para trás. Agora, ninguém lhe dava mesmo a mínima atenção. Estavam focados somente naquele que lutava.

Uma espada cortou o vento numa descida vertical, levando parte do cabelo e ombro de Ren, que gritou de dor. Essa brecha foi o bastante para o brutamontes dar um chute em sua perna ferida, o fazendo se ajoelhar. O Instrumento, por fim, percebeu que estava sendo abandonado por Alak, e lhe direcionou um olhar de misericórdia.

Maldição, o que eu faço, o que eu faço?! O jovem mercenário sentia suas mãos suarem e formigarem. Estava a ponto de abandonar seu grupo naquele acampamento para fugir solitário. Mas voltaria para buscá-los, não voltaria? Por Lydia, com certeza voltaria.

Porém, ele se lembrou das palavras do rei sobre as consequências de não fazer o que mandava. Fechou os olhos e sentiu o mesmo medo que sentira na presença do Cavaleiro Caído, quando não conseguia alcançar suas adagas para encará-lo. Ele precisava reabrir os olhos. Precisava voltar!

O homem com o grande machado ergueu a arma no ar para descer contra a cabeça de Ren. Antes disso, seu pescoço fora atingido por dois punhais lançados com maestria por Alak. Velozmente e sem pensar muito, ele se agachou para se esquivar da lança que fora jogada em sua direção e matou o dono dela com outros três punhais que transpassaram as áreas livres de seu peitoral.

Um dos quatro inimigos restantes gritou com ódio mortal, levantando a espada e partindo para cima. Alak sacou as adagas, e as cruzou a frente do rosto para rebater o aço que vinha em sua direção. Aproveitou do breve desequilíbrio que sua defesa causou e cortou a jugular do espadachim num movimento limpo.

Recuperado, Ren aproveitou a desatenção de dois oponentes para os atingir na nuca com suas machadinhas. Sobrara apenas um pobre coitado, que horrorizado, soltou suas armas e se colocou a correr. Do cinto, Alak puxou outro punhal e pôs fim a vida do último, o acertando mesmo numa grande distância.

— Bela pontaria, Cicatriz — disse Ren ofegante, checando o corte no ombro, mas sorrindo em seguida. — Esses desgraçados... quase que eu... tenho que admitir, por um momento pensei que fosse me deixar morrer.

O semblante de Alak se tornou tão rígido quanto o solo que pisava. Ele encarou Ren nos olhos.

— Eu conheço os costumes de Rhufanor. Há poucos jeitos de quebrar seu contrato com um senhor atual. Ir contra o próprio reino é um deles. O outro é quando outra pessoa salva sua vida.

Ren parou de sorrir.

— Eu acabei de salvar sua vida. Pela tradição de sua nação, agora você serve a mim. É o meu Instrumento.

O homem nada disse, apenas curvou o tronco para frente em sinal de aceitação. Não havia modo de contestar aquilo, seria ir contra sua honra máxima.

— E o que faremos, meu Senhor?

— Nada de “senhor” — comentou impassível. — Vai continuar me tratando como me tratou no acampamento, pois voltaremos para lá. Informaremos o rei que fomos atacados numa emboscada valennense e que por não sabermos se mais inimigos nos esperam no destino da missão, recuamos.

— Quer voltar?! Não pode ser verdade que se importe com aqueles patifes! Eu vi como se sentem em relação ao seu fracasso com eles.

— E eu entendo seu medo e indignação, não será fácil realizar a tarefa que vou lhe pedir. Mas assim fará.

Ren praguejou em silêncio e assentiu.

— Vamos voltar, e você seguirá enganando o rei como se ainda fosse seu Instrumento. Então, essa noite, convencerá os guardas a deixarem os portões liberados pelo menos até os estábulos por alguns minutos — o rapaz estava a ponto de argumentar com pânico, mas Alak não deu chances e seguiu falando. – Depois você passará pelos portões ao norte com alguém. Seu salvo conduto não trará problemas.

— Planeja uma fuga?! Eles perceberão.

— Por isso será uma só pessoa. Você deve preparar um dos cavalos e nos esperar no estábulo.

— E quem é essa pessoa?!


~


A viagem de volta ao acampamento se mostrou mais lenta por conta do esforço em dobro da montaria, mas chegaram na caída da noite. Ren fora para enfermaria e depois se tratar ao comandante do lugar, uma vez que o rei permanecia em suas tendas num vilarejo próximo.

Obviamente, Alak fora desarmado e suas roupas de escravos voltaram ao seu corpo. Aguardou até o jantar ser servido sem conversar com ninguém com desculpa de estar cansado da viagem. Julgou que Ren havia se saído bem em seu fingimento sobre tudo o que ocorrera durante a tarde, uma vez que nenhum soldado inliciano veio ao seu encontro. Ele jantou longe de todos, e esperou ao lado da cozinha no final, como se estivesse ali para pedir mais comida. Às vezes sobrava algo, e não ligavam para esse tipo de infortúnio. Ao avistar Lydia de relance, assoviou em seu chamado.

A mulher se aproximou desconfiada. Fazia semanas que não conversavam.

— Na hora mais escura venha aos estábulos.

— Está maluco?! Os guardas...

— Ora, você é capaz de chegar pelo menos até lá. Você já invadiu o cofre de um rei.

— Mas...

— Confie em mim.

E saiu. Se pelo menos Lydia pudesse escapar, ele saberia para onde a mesma iria, e lá teriam pelo menos alguma ajuda. Quem sabe não organizassem uma invasão? Seria possível que o rei de Valennas seria tão ingênuo de não contra-atacar um inimigo que estivesse construindo acampamentos para as próximas disputas na região?

E ainda tinha uma nova carta na manga. Um guerreiro habilidoso em segredo. Quem sabe não daria um jeito de botar as mãos naquelas Majestosas com sua ajuda?! Ele poderia libertar todas as pessoas que um dia lhe confiaram. Sim, faria isso e muito mais.

Quando a lua realizou seu arco mais alto no céu, Alak fugiu de seu alojamento e seguiu em direção aos estábulos. Pelo jeito, Ren havia conseguido afastar os guardas dos portões que levavam até o local. Encontrou Lydia, ainda com as vestes simples de uma cozinheira, do lado de fora com olhos assustados.

— O que significa tudo isso?

— Não temos tempo a perder — disse pegando na mão dela e a puxando para dentro do recinto.

Os cavalos relincharam baixo em suas baias com a entrada dos dois. Entre os fenos estava Ren, oculto pelo capuz de seu sobretudo, ele segurava uma lamparina com uma das mãos.

— Quem é este?

— Um amigo. Preparou o cavalo que pedi?

O homem levou o lamparina próximo ao rosto para que a luz iluminasse seu sorriso malicioso. Em seguida, quatro sentinelas entraram pelas costas do casal, que foram prontamente agarrados por dedos de metal. Então, de uma das baias livres, uma sombra se moveu.

— Que decepção, meu jovem — balbuciou o rei Vald se revelando na fraca luz do fogo. — Tive que vir sujar minhas botas reais em bosta de cavalo por causa desse seu plano de fuga. Eu lhe disse para não fazer nada desse tipo, não disse?

O Cicatriz fechou a expressão em ódio e tentou escapar, mas um forte soco na boca do estômago o sossegou rapidamente. Babando sangue, olhou direto para Ren.

— Eu não entendo… sua tradição e honra…

— Ele ainda acha que sou rhufanore, Mi Rei.

— De fato — concordou o rei parecendo se divertir. — Não, meu rapaz, ele apenas lhe contou o que eu disse para contar. Eu queria testar sua obediência. Por dois meses nós o tratamos como um cão e precisava agir como um, então antes de lhe dar a missão que preparei, precisava saber se não tentaria fugir. Mas você me surpreendeu. Como eu já disse uma vez, você é perigoso quando começa a pensar demais. Deu um jeito de voltar para cá pensando ter vantagem sobre mim. Tentando dar fuga a essa mulher. Muito gentil de sua parte, aliás.

— Deixe-a fora disso. Ela nem sabia o que ia encontrar aqui.

— Mesmo assim ela veio. Não vê como você é influente, rapaz? De qualquer modo, o que estava arquitetando se mostrou pior do que eu esperava. Mas, para sua sorte, Ren me contou que se livrou daqueles valennenses com uma habilidade invejável. Manterei você em meus planos. Claro, com um castigo apropriado. Uma morte do jeito que prometi caso me desobedecesse.

Ren sacou uma de suas machadinhas, entregando o lamparina para o rei. Lydia grunhiu nas mãos dos sentinelas, apavorada.

— Por favor, Vossa Graça! Eu faço qualquer coisa! — implorou Alak, impotente nas mãos dos guardas.

— Ah, eu sei que fará. Agora eu tenho certeza que não arriscará mais nenhuma vida por seus ambiciosos caprichos.

Para surpresa do casal, Ren não avançou mais, e sim recuou até uma murada de madeira, puxando um homem amarrado e amordaçado detrás. Mazutti não tinha nenhum sinal de medo em seu rosto.

— NÃOOO! — exclamou Alak, entendendo a situação.

Ren não lhe dera ouvidos. Retirou a amordaça da boca do velho, mas depois o fez cair de joelhos com um chute nos quadris. Levantou a machadinha preparando o golpe, repetindo quase a mesma cena de momento antes, quando ele era alvo.

Mazutti cuspiu aos pés do rei e sorriu para Alak.

— Danação, jovem capitão, danação — disse antes de morrer.