Arv girava um berloque de prata entre os dedos. O pequeno objeto em formato de concha do mar tinha em seu interior uma mecha de cabelos ruivos. Diziam que possuir tal presente trazia sorte, mas para ele estava mais para conforto com uma pincelada de saudade.

Ao seu lado, o jovem assistente Dshef, observava encantado cada parte da saleta particular da rainha Mirillian. Ambos jaziam sentados em um sofá de três lugares de estofado púrpuro com adornos em metal de ouro para o descanso dos braços. Aliás, a cor arroxeada era predominante ali, consumindo os tapetes, cortinas e as tapeçarias sobre a mesa da escrivaninha. Estantes tomadas de livros se apertavam contra a parede, e um imenso lustre de velas roxas se pendurava no teto, iluminando o ambiente, pois a noite fria havia substituído o dia caloroso.

A única porta se abriu e a rainha adentrou seguida de duas criadas. Os guardas, Arv notou, ficaram lá fora. Havia uma patrulha que especialmente tomava conta de cada corredor e cômodo do palácio. Ele ainda não havia conhecido o lugar por inteiro, na verdade fora apenas do hall de entrada para seus aposentos, depois para a sala de jantar, e assim de volta ao quarto. Estava digerindo a gostosa torta de galinha na cama quando vieram lhe informar que a rainha pediu que a esperasse em seu gabinete no objetivo de lhe passar os detalhes da investigação.

A mulher, ainda vestida com elegância, se colocou atrás de sua mesa, aguardou pacientemente suas criadas lhe servirem chá, e depois as dispensou. Antes disso, ignorou as mesuras dos convidados, mas permitiu que eles voltassem a se sentar com um gesto seco.

— Espero que tenham aproveitado o jantar — disse ela indicando as xícaras fumegantes que também foram servidas para os dois.

— Estava divino — respondeu Arv com sinceridade. Se tinha algo que realeza fazia bem era comer do melhor. — Apenas sinto não ter tido oportunidade de agradecer ao rei pessoalmente sobre minha futura estadia. Vossa Graça acabou se retirando cedo.

— Aquele velhaco, após comer sente dores nas articulações e precisa se deitar. Não deve se preocupar com qualquer coisa além de seu trabalho, sr. Armstrong. Já deixei a corte ciente de sua presença, e também de seu assistente, que devo dizer, apesar de ter apreciado seu gesto gentil mais cedo, ele se faz necessário aqui? Sinto-me inútil não saber utilizar a linguagem de sinais para o deixar a par da situação.

— Farei isso mais tarde, alteza. No momento, Dshef me acompanha por conta de seus aguçados olhos. É importante que ele veja tudo que eu veja ou que deixei de ver.

— Compreendo — concordou a rainha, seus olhos caindo no berloque nas mãos de Arv. — Faz tempo que não vejo um desses. Posso?

— Err... claro, Vossa Alteza — aprovou um pouco inseguro, passando o objeto para a mulher.

Mirillian não era muito de sorrir, mas quando o fazia, era de uma beleza assustadora. A idade não maculou em nada sua bela pele de pêssego. Ela abriu o berloque com um clic, sem ousar tocar os fios vermelhos amarrados numa faixa amarela que lá descansava.

— Amada ou amado?

— Amada. Seu nome é Rosemary. Ela é herbalista numa pequena vila ao sul de Avin.

— Uma herbalista! Pena não saber disso antes. Suas mãos são divinas para plantas e ervas, poderia ter encomendado algum chá exótico ou um remédio natural para meu marido. É um gesto bonito levá-la consigo em suas viagens, uma vez que o senhor é requisitado em muitos lugares diferentes e distantes em Calipo — indicou a rainha, fechando e devolvendo o berloque.

— Obrigado, Vossa Alteza — disse com um meio sorriso, guardando o objeto em um dos bolsos do gibão, e de outro sacou seu caderno e lápis. — Podemos começar?

— Sim, claro.

A rainha deu um longo gole em seu chá, depois repousou os cotovelos sobre a mesa, tentando relaxar, embora seu semblante tivesse mudado para algo mais sério. Arv se colocou a postos para anotar tudo, enquanto Dshef não tirou os olhos da mulher, observando cada detalhe de sua fisionomia.

— O motivo pelo qual o chamei aqui se deve ao desaparecimento de Sor Godrik, um experiente cavaleiro juramentado a minha família. Ou seja, ele me protegeu desde minha adolescência em Balcan, servindo-me com excelência. Eu confio minha segurança àquele homem mais do que qualquer guarda desse castelo.

— Entendo — disse Arv, anotando as informações no papel. — Há quanto tempo Sor Godrik sumiu?

— Fez três semana hoje. Ele nunca faltou em seu posto, por isso achei estranho desde o primeiro dia, mas me desesperei mesmo ao ir averiguar sua casa no bairro dos cavaleiros. Parecia intocada. Sua armadura e espada ao lado da cama perfeitamente arrumada.

— Família?

— Não. Sempre fora reservado e seu juramento a mim não o permitia ter esposa ou namorada.

— Havia algum motivo do qual Sor Godrik poderia ter para abandonar seu posto? Alguma desavença ou ameaça?

— Não que eu saiba. Aqui ele sempre fora feliz e respeitado. Praticamente parte da família. Ligtar e as crianças o adoravam. Embora depois da morte de Oriel...

Mirillian se pegou desviando o olhar, sentindo-se triste.

— Isso o abalou? — questionou Arv, a ponta do grafite incerta no ar.

— Abalou a todos nós.

— Sim, claro. Mas acredita que Sor Godrik pode ter ido atrás de vingança?

— Sinceramente, nada o faria abandonar seus juramentos. Nem mesmo vingança. Acredito que ele tenha sido morto.

— Mas disse que ele não tinha inimigos.

— Disse que nunca me pareceu ter. Mas nas últimas semanas antes de seu desaparecimento ele andava estranho, mais alarmado e obcecado pela segurança do que o normal, como se visse uma sombra ameaçadora sempre a espreita.

De repente, a mulher pegou no pulso que Arv usava para escrever, forçando-o a parar. A expressão em seu rosto se transformou completamente, ganhando um ódio inexplicável. Havia um turbilhão de emoções dentro dela, sem dúvida.

— Eu o chamei aqui por conta de sua reputação como investigador, mas também por seus... recursos especiais.

Arv se permitiu sorrir, mas a mão da mulher lhe apertou em resposta.

— N-Não é tão simples — ele tentou se desvencilhar, sem sucesso. Não esperava que ela fosse tão forte.

— Quero que encontre o cadáver de Sor Godrik, sei que é capaz disso com suas habilidades. E quero saber quem o matou. Esta é sua tarefa aqui, e que lhe renderá vinte quilhas de ouro da coroa.

— Farei o meu melhor — garantiu Arv, assustado com a certeza que Mirillian tinha da morte do cavaleiro.

Ela o soltou finalmente, seu olhar se tornando brando novamente, como se a razão caísse em si.

— Perdoe-me por isto. Este assunto é um tanto delicado. Além de Sor Godrik ser uma pessoa importante para mim, receio que seu desaparecimento possa ter a ver como uma trama perigosa dentro da Coroa, algo inadmissível frente ao que estamos vivendo ao sul com a invasão da Inlícia.

Aceitando as desculpas, o investigador guardou seu caderno e ficou massageando o pulso.

— Quanto a isso... há novidades?

— Não tenha dúvida que o rei Vald Hales irá declarar guerra a nós novamente. Mas primeiro ele terá que passar por cinco grandes lordes das Areias Baixas para chegar aqui. Você e seu assistente terão o tempo necessário para resolver esse enigma particular para mim. Em meio a tudo isso, ainda teremos que receber a comitiva real de Enderghar, do qual findamos uma aliança a partir do casamento de minha filha com o príncipe enderghano.

— Isso me parece ótimo para o reino.

— Um tédio necessário.

Concordou com uma careta falsa.

— Bem, creio que terminamos por aqui. Vou precisar de salvo conduto para transitar pelo palácio e fortaleza, total cooperação do círculo real e guardas quando possível, e seria pedir demais uma descrição física de Sor Godrik?

— O salvo conduto já está ativo, assim como a cooperação daqueles abutres. Em relação a Sor Godrik dar-lhe-ei algo melhor. Como presente por todos esses anos de juramento a minha pessoa, ano passado pousei ao seu lado com honra para a confecção de um quadro. Esse quadro fica pendurado no hall de entrada, vou indicar uma criada para que lhe mostre.

— Obrigado.

— Agradeço também, e novamente peço escusas pelas minhas ações mais fervorosas de antes. Estão dispensados.

Arv assentiu e bateu no ombro de Dshef ao se levantar. Ambos saíram para um longo corredor iluminado por tochas. Deviam seguir e virar a esquerda para uma escadaria que levava aos seus aposentos, mas em vez disso o investigador realizou ligeiros sinais com as mãos para o assistente, e o jovem seguiu o caminho sozinho. A intenção de Arv era sair para a cidade e começar seu trabalho o quanto antes, mas precisaria fazer isso em locais impróprios, locais que maculavam segredos que nem mesmo a coroa seria capaz de descobrir. Como suspeitava, algo ali não cheirava bem, e precisava estar longe quando a guerra alcançasse aqueles muros de conspirações e mistérios.

Porém, antes de se dirigir a porta principal, escutou um assovio ao passar por uma das sacadas abertas para o jardim. A princesa Maya estava em pé, debruçada sobre as floreiras daquela tímida varanda.

— Pelo visto sobreviveu ao segundo encontro com a Rainha de Púrpura — disse com gracejo na voz.

Arv não teve outra escolha a não ser se juntar a ela. A noite estava serena, um clima gostoso, com a lua bem grande entre as nuvens escuras no céu. O perfume das flores dos vasos invadira seu nariz, e o frescor do jardim com a piscina natural lhe agradou o rosto.

— Sua mãe é encantadora. Me pediu perdão pelo menos duas vezes devido ao seu ímpeto em explicar minhas tarefas aqui.

— Minha mãe pedindo desculpas? Isso é inédito. As tarefas são referentes a Sor Godrik, não? Aposto que ela não se atentou em falar que ele não fora o único a desaparecer.

Arv engoliu em seco. Devia mesmo ter aquela conversa? Bem, a jovem era a princesa, sem dúvida faria parte de suas investigações em algum momento. Decidiu embarcar no desafio, mesmo que cedo. A garota o fitava com um olhar interessado como tivesse ganhado um brinquedo novo, e seu sorriso era doce como a brisa que fazia sua franja dançar pela testa diminuta.

— E quem mais sumiu? — indagou Arv.

— Crianças...

— Que crianças?

— Qualquer uma que ande a noite por Finareia. O Lorde da Cidade vem ignorando as súplicas do povo quanto a isso, sem trazer o assunto para meu pai. Já minha mãe reconhece esse mal que nos assola, mas seus esforços estão todos em tentar encontrar seu aman... desculpe-me, seu juramentado cavaleiro.

Arv sentiu um arrepio de agouro por ter entendido a informação que a jovem deixara escapar sem querer... ou não? Seria possível que a rainha estivesse traindo o rei com seu cavaleiro juramentado? Se a própria filha desconfiava disso, quem dirá a corte? Isso seria de fato uma trama perigosa para ocorrer nos tempos atuais do reino. Por ora, teria que engavetar tal suposição.

— Milady, acha que o desaparecimento dessas crianças tem ligação com o desaparecimento de Sor Godrik?

— Não sei dizer. Apenas acho que existe questões mais importantes em Finareia do que o estimado Sor Godrik.

— Infelizmente ele é o único que condiz com o trabalho do qual fui contratado.

Maya suspirou.

— Como funciona?

— Perdão?

— Sua sensibilidade particular. Ouvi dizer que é capaz de encontrar qualquer corpo sem vida devido a um tipo de bússola mágica dentro da sua cabeça. Achei a coisa mais idiota do mundo quando escutei, mas pensando bem sua cabeça é bem grande mesmo, não é possível esteja apenas seu cérebro aí dentro.

Ela o encarou com um sorriso de troça, fingindo averiguar seu couro cabeludo atrás de alguma fissura que tivesse servido de abertura para a introdução da tal bússola. Arv fez esforço para não rir, depois suspirou com um olhar derrotado.

— Não há nada de mágico. Pelo menos não que eu saiba. É verdade que minha condição extraordinária pode ser considerado uma anormalidade, mas está comigo desde minha infância, quando a senti pela primeira vez — contou pacientemente. Como a princesa permaneceu em silêncio, ele continuou. — E não é uma bússola, embora funcione como tal. Eu escuto um tipo de zumbido quando estou próximo de cadáveres. Como o canto de cigarras. Imagino que não as conheça por aqui, mas são insetos que entoam um cântico alto na natureza de países de clima tropical. Não importe há quanto tempo o infeliz tenha morrido, quanto mais perto estiver de mim, maior esse zumbido soara dentro de meus ouvidos. Às vezes é tão forte que sou capaz de ouvir mais nada além disso.

— Magnifico! — exclamou Maya num misto de choque e excitação. — Consegue ouvir esse zumbido neste momento?

— Está fraco, mas isso se deve provavelmente aos seus antepassados que foram enterrados nas criptas desta propriedade. Os mortos estão por quase todos os lugares. É por esse dom que sou capaz de encontrar pessoas desaparecidas. Uma vez que elas estejam mortas, é claro.

— Uma dom fúnebre, devo dizer. Mas certamente você é a pessoa certa para o serviço.

— Sua mãe também acredita que Sor Godrik foi assassinado, se é isto que está insinuando. Qual o verdadeiro motivo dessa certeza?

— Não é uma certeza. Mas não acho que ele tenha deixado seu posto. Era um cavaleiro a moda antiga, devoto aos juramentos.

— Compreendo — disse com um pouco de incerteza, pois pareceu que a garota havia se esquivado da pergunta.

— Como foi a primeira vez que ouviu o tal zumbido?

Aquela pergunta o pegara de surpresa. Pensou que o assunto havia se concluído, não era muito de dar detalhes sobre sua habilidade sobrenatural, mas agora a lembrança de seu primeiro contato com o zumbido de cigarras surgira de repente em sua mente. Um corredor de pedras rústicas e tochas de fogo bruxuleante. Um quarto escuro com a porta aberta. Seu coração como um tambor apressado. Sangue pingando viscoso da maçaneta do guarda-roupa. E, por último, o perfume de sua mãe.

— Sr. Armstrong?

— Desculpe, Milady, mas receio que essa é uma história para outra ocasião. Está tarde, deve ir se deitar. Enquanto eu vou me perder em algumas das vielas da cidade para dar início a minha investigação.

— Mas...

— Sabe me dizer se a taverna Bafo de Bode ainda está aberta no bairro das Couves?

A princesa cerrou os olhos e sorriu de lado.

— Essa taverna tem a reputação pior do que um rato de esgoto. Está insinuando que uma dama de minha estirpe saberia dizer se aquele lugar está aberto?

Arv a encarou seriamente, sem ceder ou pedir desculpas. Por fim, Maya gargalhou e bateu as mãos na cintura.

— Tudo bem, me pegou. Até um tempo atrás eu e Oriel íamos escondidos lá beber a famosa cerveja escura deles. Então, sim, ainda estão abertos.

— Muito bem, começarei por lá — disse se despedindo.

— Apenas tome cuidado com os bardos. Eles são carismáticos e talentosos, mas também podem te embebedar, e quando se der conta estará casado como de suas muitas irmãs, fadado a compartilhar todo seu dinheiro e terras.

— Isso foi bem específico. Obrigado pelo conselho, Milady. Aliás, felicitações pelo vindouro casamento.

A princesa que sorria fechou a cara, mas assentiu brevemente em seguida.

— Até mais ver, bom homem.

— Tenha uma boa noite!