As Sete Majestosas
3 Duelo Escarlate
Uma enorme trombeta de chifre de Primoralce soou por exatos dez segundos.
Podia parecer pouco tempo, mas o som saiu tão gutural e potente, que o Príncipe Oriel chegou a pensar que o Soprador havia explodido os pulmões ao cessar, mas não, ele só estava muito vermelho e suado. O som ainda ecoou pelos cânions durante um minuto antes de desaparecer de forma quase mágica. Aquele era o costume cultural dos Códigos Absolutos para o Duelo Escarlate, e não parava por aí, agora os soldados de ambos os exércitos batiam com porretes em seus escudos arredondados de forma ritmada, sendo estritamente proibido que levassem algum tipo de lâmina para aquele evento, afinal não era permitido nenhum confronto que não fosse dos duelistas. O baque surdo desse tinido em uníssono fazia o chão de terra tremer.
Fora feito um círculo de cavaleiros no campo mais aberto do Grande Maltês, longe dos defuntos das batalhas de outrora. Cada cavaleiro estava de armadura completa, com escudos longos cravados no solo para delimitar a área interna da clareira onde ocorreria a peleja. As bandeiras vermelhas estavam ensopadas, mas esvoaçavam ao vento.
Sor Gilles era um dos que compunha o círculo, assistindo a tudo atrás de seu imenso escudo de madeira e ferro. Sentia os ouvidos vibrarem a cada estrondo dos mais de trinta mil guerreiros, dentre eles aliados e inimigos, que acompanhariam o derradeiro duelo em suas vestimentas mais leves, ainda que carregando as cores de seus reinos, sendo preto com laranja para Valennas e verde-água com branco para a Inlícia. Podia ver, também, os Lordes em seus casacos enfeitados se posicionando sobre alguns rochedos mais altos, com tendas sendo erguidas às pressas para que não se molhassem com a chuva. Os cabelos grisalhos de Sor Gilles já presenciaram muita coisa, mas aquilo era inédito para si, e até mesmo emocionante. Era a história sendo feita diante de seus olhos, e a tormenta incessante de raios e trovões deixava o momento ainda mais épico. Que Jar o abençoe, Mi Príncipe.
Oriel vestira finalmente seu traje de batalha. Diferente de um cavaleiro, não se equipava com armadura, e sim com couro endurecido da mais alta qualidade. Isso se devia ao fato de que ele empunhava a Lâmina dos Ventos. Com aquela Majestosa o espadachim não precisava se importar tanto com a defesa, mas sim em se mover sem impedimentos, então o quanto mais leve fosse sua vestimenta, melhor. Nem mesmo um elmo o rapaz usava, certo de sua vitória. Uma espada que podia cortar o alvo num instante? Apenas um senil desafiaria tal vantagem. Porém, ele estava curioso com a estratégia do inimigo.
Cerca de dez metros o separavam do Rei da Inlícia, que ao contrário de Ligtar Avalennas, herdou o trono jovem e ainda tinha energia o suficiente para participar de guerras como aquela, embora suas grossas costeletas já estivessem esbranquiçadas, sendo que logo dominaria toda sua cabeça. Oriel se recordava do homem de olhar duro e rosto mais duro ainda nos antigos jantares que o mesmo fora convidado na corte de seu pai. Na época, achou que Vald Hales era apenas um Rei antipático e que estava sofrendo com gases aprisionados depois da torta de galinha, mas na verdade aquela sempre fora sua terrível feição. Entretanto, Vald vestia roupas pomposas demais para alguém que fosse duelar, e praticamente não contava com nenhuma proteção.
Os soldados cessaram as batidas de seus porretes quando ambos os homens realizaram uma mesura formal.
— Onde está o Campeão que devo matar, Rei da Inlícia? — perguntou Oriel com um sorriso, concluindo que o adversário fosse outra pessoa.
— Vejo que cresceu apenas em tamanho, Príncipe de Valennas — respondeu o homem, escudeiros seguravam um tipo de tenda móvel sobre sua cabeça para não pegar chuva. — Serei eu a enfrentá-lo.
— Bobagem. Você não passou seis meses desperdiçando seus homens para colocar tudo a perder agora. O que é isso afinal? Uma saída honrosa? Deixe-me ser misericordioso, como meu bom pai me ensinou a ser, e desista dessa guerra. Assine o tratado e arque com as consequências dele, sem precisar pagar com a vida.
Um silêncio congelante tomou o lugar, até que o clamor infernal dos trovões surgiu de repente, e o vento se tornou mais enfurecido. Vald, o Rei da Inlícia, deu dois passos à frente. De acordo com os Códigos Absolutos, três passos significavam que o duelista estava pronto.
— Sabe... é por isso que vocês valennenses estão mais fracos a cada dia. Seu pai, aquele velho idiota, foi muito benevolente com todos os outros reinos, e se esqueceu de fazer o que realmente importa. Oriel, Príncipe de Valennas, você devia ser mais como sua mãe, aquela sim é uma mulher de fibra!
Sor Gilles se atentou para os punhos fechados em intensa raiva de Oriel. Não podia culpá-lo, aquelas palavras eram venenosas. Seria essa a estratégia de Vald? Fazer o Príncipe atacar antes dos três passos? Isso seria contra todas as regras, e Valennas perderia na mesma hora. Mesmo que não houvesse nenhum tipo de juiz ali, estavam sobre os juramentos dos códigos absolutos e dos olhos de Jar. Mas o cavaleiro respirou aliviado ao ver Oriel sorrir e dar dois passos à frente.
— Tem razão. Devo ser mais como minha mãe. Às vezes me esqueço disso, obrigado por me lembrar — disse com mais um passo, a mão no cabo da espada, esperando pelo último e decisivo passo do rival para convocá-la. — Nenhuma vítima da Lâmina dos Ventos sequer viu o aço da espada ser sacada. Os poucos que sobreviveram, apenas dizem vê-la depois, quando já está pingando o sangue que lhe fora tirado tão subitamente que nem...
Vald Hales não esperou o jovem Príncipe terminar suas palavras, deu seu terceiro passo e puxou a espada da bainha da cintura, sabia que só teria aquela chance. Mesmo se perdesse um mísero segundo, sua derrota seria certa se deixasse que o oponente de fato sacasse primeiro. Um pouco menos de dez metros ainda teria que ser quebrado, por isso mesmo na breve surpresa que Oriel teve ao repentino movimento do Rei, ele não demonstrou preocupação. Eis o seu erro.
Uma nuvem negra emanou da espada do Rei da Inlícia, e rapidamente tomou por completo o interior e também boa parte de fora do círculo em que estavam, como uma espessa e grossa cortina que sugava toda a luz presente naquele dia. Sor Gilles perdera a visão instantaneamente, tateando o ar em sua frente. Oriel simplesmente não enxergava mais nada a um palmo do rosto, engolido por aquela escuridão incomum, sobrenatural e fantástica. Foi então que entendeu. Uma Majestosa! O desgraçado está empunhando uma nova Majestosa! Este também fora o pensamento lógico do velho cavaleiro, que acabou sendo derrubado pelo pânico dos outros soldados desorientados e igualmente cego às suas costas.
O Príncipe ouviu o desespero de seus homens se alastrar ao redor sem poder vê-los, permanecendo pregado na mesma posição, o que se tornou outro erro. Aquela coisa não tinha cheiro e nem lhe irritava a garganta ou o nariz, mas afetava drasticamente seu senso de direção. E era gélida como a morte.
— O que foi, Príncipe de Valennas? — Uma voz dura veio de algum lugar que não podia localizar. — Não consegue cortar aquilo que não pode ver?
Maldição de Jar pensou Oriel. Ele ainda sentia as gotas da chuva caindo delicadamente em seu rosto, molhando seus cabelos sedosos, lavando sua mente obscurecida para outro lugar em seu passado, mesmo que brevemente… um verão chuvoso no colo do pai. Pai, salve-me, divagou por último, quando por fim o aço frio cortou seu pescoço, separando sua cabeça do corpo.
Mansamente a fumaça tenebrosa se dissipou, como se voltasse para dentro da lâmina que o Rei empunhava diante do decapitado Príncipe, derrotado de joelhos no solo de terra e sangue.
— Eu venci o Duelo Escarlate — ele proclamou diante dos soldados que voltaram a enxergar, perplexos com o que presenciavam. — Eu venci a guerra!
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