As Sete Majestosas
4 Benevolência
Um cavaleiro demoníaco vinha ao encontro de Alak. O Cavaleiro Caído galopava em meio às brumas negras, a ponta da espada apontada! E o pior, Alak não conseguia se mover para fugir de seu algoz. Por mais que tentasse, os pés pareciam estar presos no relvado. Morte para todos os lados. Morte para você. Morte para mim!
Pensamentos desconexos. Dor latejante na cabeça. Braços dormentes.
Foi desse modo que Alak acordou do pesadelo febril. Ele estava acorrentado e pendurado pelos punhos, completamente nu e empapado de suor no que parecia ser um minúsculo alojamento de prisioneiros. Não havia sofrido ferimentos graves, mas ainda sentia o lábio inferior cortado e um dos olhos nem conseguia abrir de tão inchado por conta de um golpe. Arquejou, exausto, aspirando o odor de sangue e excrementos. Pessoas morreram ali, mas não conseguia enxergar nada além da pouca luz que invadia as frestas das paredes de madeira. Devagar, forçava-se a lembrar da noite passada, mas os eventos finais teimosamente não vinham. O assalto aos acampamentos dos inlicianos dera completamente errado, disso sabia. Mas como? Seu grupo de mercenários pegou os soldados inimigos dormindo de acordo com o plano! Lembrava-se do sorriso malicioso de Lydia ao se dar conta que a missão funcionava. Lydia! Onde ela está? Onde estão todos?! Ele tentou gritar, apenas para se descobrir sem voz. Estava sedento por água, por comida. O que haviam feito com ele? Sentia-se mais fraco do que o normal. Passara-se mesmo somente uma noite?
Uma porta se abriu às suas costas, e um homenzinho corcunda de feição grotesca o girou sem se importar se isso lhe causava dor. Estava claro que para aquele homem machucar era seu maior prazer. Ele sorriu um sorriso sem dentes, revelando dois buracos pungentes no lugar que um dia fora seu nariz, e voltou pela porta de onde surgira. Alak notou o passo ritmado de um esquadrão do lado de fora, mas não quis encará-los. Em seguida, o homenzinho retornara, agora com um sujeito bem mais aprumado, seguido por uma dupla de guardas sentinelas em suas imponentes armaduras.
— Traga a mulher — pediu o pomposo sujeito de olhar duro, costeletas brancas e sobrancelhas grossas. Uma grossa coroa de ouro e cravejada de diamantes brilhava sobre a cabeça. — Sabe quem sou, rapaz?
Alak assentiu. O brasão verde-água com branco do reino inliciano se destacava no peito do casaco de couro do homem. Estava simplesmente na presença do Rei da Inlícia, Vald Hales. Como chegara em tal situação? Aquilo talvez fosse pior do que encarar o próprio Cavaleiro Caído. Notou que o Rei portava duas espadas, cada uma em uma bainha nos lados opostos da cintura. Reconheceu o pomo em formato de cabeça de primoráguia da esquerda. E isso fez seus batimentos acelerarem. Seria possível?
— Vejo que já entendeu minha atual posição — disse o Rei ao perceber o olhar do prisioneiro.
O homenzinho de antes retornou com Lydia sendo chutada para dentro do recinto. Ela não parecia enferma, mas estava suja, os cabelos enlameados, e as roupas rasgadas em lugares impróprios. Pela primeira vez Alak sentiu algo além de dor. Raiva.
— Ora, não se preocupe, rapaz, ela está sendo bem cuidada. Dou minha palavra real que ninguém se aproveitou de seu belo corpo. E seus homens, também estão vivos. Ou melhor, a maioria deles. Nem todos foram fortes como seu líder. Mas, assim é a vida, não?
— Á-águ...
— Dê água a ele, Porco.
Relutante, o abominável homenzinho tirou um odre de dentro da calça exageradamente folgada e derramou o conteúdo sobre a boca de Alak. O líquido pareceu arder nas feridas internas de sua garganta, mas depois aliviou em muito seu abatimento. Lydia permaneceu quieta, os olhos marejados apontados para o chão.
— O que... o que deseja de mim?
Porco grunhiu e deu um soco no estômago de Alak. O jovem quase vomitou a água que acabara de tomar.
— Dirija-se ao Rei pelo título que seu honrado sangue merece, patife!
Alak suspirou, amaldiçoando silenciosamente aquele homem.
— O que deseja de mim, Vossa Alteza?
Vald sorriu.
— Obrigado, Porco, mas não será necessário violência. Creio que o rapaz nos fornecerá tudo de bom grado — falou o Rei. Sua voz era dura, com certo cinismo, mas paciente. Aproximou-se do prisioneiro. — Ele parece esperto. Cicatrizes, não é? Este é o nome de seu grupo. Hematomas que para sempre estão em nossa pele. Eu mesmo tenho muitas. Mas pelo fato de que estou vivo, posso vê-las e recordá-las. Não posso dizer o mesmo de meus homens que foram friamente assassinados enquanto dormiam há três noites.
Três noites?! Estive desacordado todo esse tempo?!
— Mas não posso esperar algo diferente de meros mercenários. Vocês são... escória. Porém, muito me surpreende que o reino de Valennas agiu contra os Códigos Absolutos para tomar vantagem em nossa disputa.
— Foda-se o Rei ou o Príncipe — esbravejou Alak.
— Não é deles que estou falando — Vald deu de ombros. — Um Avalennas não faria algo tão baixo. Além do mais, quando encarei o Príncipe, um pouco antes de cortar sua cabeça no Duelo Escarlate, notei que ele não tinha noção alguma do seu plano mesquinho.
Aquelas informações confirmavam o fato do Rei da Inlícia agora possuir A Lâmina dos Ventos, a Majestosa do Príncipe Oriel. Ainda assim, eram palavras alarmantes para se ouvir.
— Eu quero o nome do Lorde que pagou a vocês para isso — disse friamente o Rei.
Os olhos de Lydia saíram do chão para encontrar os de Alak, como se estivesse em pânico pela primeira vez ao estar ali.
— Eu... não posso... não me disseram, eu não...
— Por favor! Até mesmo um rato mercenário segue determinados códigos. Vou ignorar que mentiu diante de um Rei e lhe dar mais uma chance de resposta, rapaz. Tudo o que quero é um nome.
Lydia agora tremia, balançando a cabeça em negativo. Os olhos poços de água.
— Não posso — relutou Alak.
O Rei suspirou com profunda decepção, franzindo o queixo muito bem aparado. Ele andou de um lado para o outro bem lentamente, as mãos juntas nas costas, os olhos postos no chão. Até que parou subitamente e olhou para Lydia.
— Acho que mudei de ideia, Porco. Será necessário violência. Guardas, segurem-na.
Porco quase deu pulinhos com aquela ideia, esfregando as mãos enquanto os homens de armadura pousaram suas pesadas manoplas de ferro nos ombros da mulher.
— Não, isso não! — clamou Alak.
— Desculpe, filho. Se não tem nada a falar, vocês são inúteis para mim. Seja rápido, Porco, depois traga o próximo infeliz do bando deles.
— Lorde Emery Soule! Maldição... foi Lorde Soule.
Porco abaixou os ombros em descontentamento, e o Rei fez um gesto para que os sentinelas liberassem Lydia, que agora chorava copiosamente de joelhos, os cabelos embromados escondendo a face.
— Muito bem, rapaz — o sorriso de Vald era duro. — Provou-se ainda útil.
— Seja benevolente, Rei da Inlícia — implorou Alak com dificuldades — Deixe pelo menos a mulher ir. Recompensa-me pela minha contribuição.
O Rei arqueou as grossas sobrancelhas, parecendo surpreso.
— Noto um sentimento no ar? Quem diria? Os párias também amam! — exclamou para seus homens, um riso áspero lhe escapando.
— P-Por favor...
Vald voltou a fechar a expressão em seguida, fulminando o prisioneiro com o olhar.
— Sua recompensa é estar vivo, miserável! Quanto a mulher, voltará para nosso acampamento. Eu fui sincero quando disse que ninguém a tocou com maldade, aqui tratamos nossos prisioneiros como escravos formidáveis, pelo menos aqueles que sobrevivem e sabem seu lugar. Mas você... você é perigoso demais.
— Posso ser útil de novo...
— Sim... eu sei que pode. Pediu-me benevolência, não é mesmo? Pois bem, mercenário. Tenho um serviço para você — o Rei chegou mais próximo, a voz quase num sussurro. — E é melhor que cumpra se não quiser ver a mulher que ama e seus companheiros mortos. Pode fazer isso?
Com demora, Alak assentiu.
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