As Sete Majestosas
1 Cicatrizes
Cavalos de pelugem carvão se confundiam com as densas sombras de robustos galhos.
Era a hora mais escura da madrugada, e a floresta estava imersa em trevas, engolfando trinta visitantes que viajavam silenciosos como fantasmas em suas montarias. Eram mulheres, homens, jovens e velhos. Muitos ali já serviram ou foram servidos, mas agora eram inaptos para a alta sociedade, excluídos dos reinos, pobres coitados que foram castigados pelo destino e que não tinham mais nada a perder. Importavam-se apenas com o brilho do ouro, quiçá com seus companheiros de igual situação.
Eram mercenários.
Conhecidos como Cicatrizes, aquele grupo era liderado por um homem esguio, de aparência jovial e um tanto que delicada, mas em seus olhos ardia o fogo da imponência, sagacidade e ousadia que inspirava aqueles que o seguiam. Sua pele preta era ocultada pelo longo manto que vestia, o capuz sobre os cabelos crespos aparados lhe dava um ar de mistério e perigo. Mesmo que a maioria dos mercenários não tivesse honra ou respondesse a qualquer tipo de dogma, Alak havia conseguido um bom grupo que era respeitado em toda Calipo. Eram cicatrizes porque seriam resultados de acidentes daquele mundo desigual em que viviam, feridas que o santificado povo tentava ocultar de forma tão desesperada, mas que ainda lhe eram úteis para realizar seus pecados. Uma cicatriz sempre carrega uma história, e todos se lembram dela. Todos ali se lembravam...
E agora galopavam para uma missão muito importante. Invadir o território dos inlicianos e matar boa parte dos soldados que dormiam. Se bem sucedido, Alak teria a maior recompensa em ouro que já vira na vida, e estaria a apenas alguns passos para sua maior ambição, ainda em segredo em sua turbulenta mente.
Não havia espaço para erros naquela noite. Ele quase podia sentir o peso mortal de sua adaga presa na cintura. Se deixou dar um sorriso para a mulher que o acompanhava ao lado. Seu nome era Lydia, e foi a primeira que acreditou em seu sonho sem nem ao menos saber qual era, seguindo seus passos às cegas, fosse por amor, desejo carnal ou a excitação a aventura.
Foi então que tudo desapareceu.
Primeiro, o som dos cascos dos cavalos que deviam estar em sua retaguarda deixou de existir, depois nem mesmo podia ouvir o vento soprar por entre as folhas das árvores. Alak puxou as rédeas num susto controlado, deu uma volta completa no próprio eixo e observou o puro breu com atenção.
Para onde foram todos? Aquilo não estava certo de maneira alguma. Inimigos o cercaram? Improvável. A floresta seria amaldiçoada? Ele sempre fora cético e pragmático, logo ignorou essa hipótese. Mas então o abandonaram todos de uma vez? Impossível.
Antes que puxasse a lâmina, um cavalo relinchou a sua esquerda, e mesmo que fosse pouco crente no sobrenatural, o mercenário não pôde conter um arrepio na espinha ao reconhecer a figura de um cavaleiro que acabara de se revelar por detrás de uma vegetação alta. Com armadura completa, escudo, espada, e uma capa de tecido rubro, aquela coisa parecia ter saído dos mais infernais pesadelos, sendo seu elmo de espinhos sangrentos o que chamava mais atenção. Sua montaria tinha olhos vermelhos, placas de metal protegiam o corpo quase esquelético, e uma fumaça densa saía de suas narinas a cada respirar. Ainda assim, não era tão assustador quando seu dono. A presença daquele ser era macabra e ameaçadora. E Alak sabia quem era.

O primeiro Campeão dos Céus que fora expulso da ordem dos Sete Majestosos: o Traidor, o Cavaleiro Caído.
Agora Alak compreendeu. Mesmo que não acreditasse, mesmo que não aceitasse, ele sabia sobre as histórias do início do mundo. E aquilo apareceu diante si. Justo naquela noite… Diziam as Antigas Escrituras e até mesmo as mais diversas lendas dos Filhos dos Mortos, de que caso alguém tivesse o infortúnio de vislumbrar o Cavaleiro Caído, seu destino seria despencar em tamanha desgraça que nem mesmo sua mente seria capaz de conceber o que era loucura ou não, se tornando prisioneiro na própria cabeça. Poucos se reergueram e venceram aquela sina, e menos ainda a enfrentaram. Alak era diferente. Tinha de ser. Aquela noite não permitia erros. Ele sacou sua adaga.
O Cavaleiro Caído lhe apontou a espada, o aço brilhou fantasmagoricamente na luz do luar, e seu cavalo monstruoso empinou e bateu os cascos dianteiros no ar. Alak sentiu-se congelar. Para onde fora sua coragem? Fechou os olhos, e se permitiu abri-los apenas quando recuperasse o ímpeto de atacar.
Porém, ao reabrir os olhos, tudo voltara ao normal, com seus companheiros o encarando com curiosidade. Lydia se aproximou com calma, sem entender aquele semblante assustado de seu líder.
— Capitão? Por que paramos?
— Eu… — aquela figura o devolvera para a realidade. Não havia motivos para pensar nele no momento. — Não é nada. Vamos acelerar o passo, o sol logo nascerá e temos uma guerra para terminar antes disso.
A mulher assentiu com um pouco de relutância. Alak colocou o cavalo no rumo em que estava antes, e bateu os pés na barriga dele para que partissem com mais rapidez em direção a missão, forçando-se a esquecer o que vira. Ele era um homem que não se deixaria quebrar por lendas ou maldições.
Era um pária. Era um líder. Era um mercenário. E uma Cicatriz.
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